depoimento

“Viramos párias do mundo”

Retida na fronteira com a Argentina, jornalista relata como descontrole da pandemia no Brasil transformou brasileiro em alguém a ser evitado

Gisele Teixeira
02abr2021_08h00
Gisele Teixeira e seu pai –
Gisele Teixeira e seu pai – Foto: arquivo pessoal

A tradutora e jornalista gaúcha Gisele Teixeira, radicada na Argentina desde 2008, veio ao Brasil durante a pandemia para ajudar o pai num projeto cultural e literário. Depois de quatro meses no Rio Grande do Sul, quando ela tentou regressar a Buenos Aires, onde mora com o marido, viu um cenário que nunca vivera: as fronteiras estavam fechadas para brasileiros. Com o agravamento da situação sanitária, a Argentina voltou a aplicar medidas restritivas a brasileiros ou residentes no Brasil. No último dia 29, foi oficializado o fechamento das fronteiras terrestres para os nacionais argentinos e estrangeiros residentes lá que deixaram o país antes de 25 de dezembro. Teixeira tentou voltar para Buenos Aires no dia 27, mas não conseguiu. Retornou à casa dos pais, em Caçapava do Sul, e segue esperando que a situação melhore. Chile e Bolívia anunciaram nesta quinta (01/04) restrições ao acesso se brasileiros. Neste depoimento, a jornalista fala do medo de adoecer, da tristeza pelos amigos mortos e do sentimento de se ver presa em seu próprio país.

Em depoimento a Lianne Ceará

 

Sou jornalista e moro em Buenos Aires, na Argentina, desde 2008. Em novembro do ano passado, precisei voltar ao Brasil para ajudar meu pai a realizar dois sonhos: publicar um livro sobre a vida no campo em meados do século XX e armar uma Casa de Cultura em Caçapava do Sul, Rio Grande do Sul, nossa cidade natal. A pandemia já tinha começado, mas me pareceu que o risco valia a pena. Investir em cultura em plena crise sanitária foi uma ousadia dele, e não pude resistir. Meu companheiro não veio comigo. Edu é argentino e preferiu não viajar, tendo em vista que a situação no Brasil já estava bem complicada. Minha ideia era emendar com Natal e Ano-Novo e voltar em janeiro, mas os trabalhos se prolongaram e só me liberei no final de fevereiro. Foi justamente quando a situação no Brasil passou de complicada para dramática. Antes de voltar para casa, preferi esperar que meus pais se vacinassem, o que aconteceu em março – mês em que também vi, de perto, amigos serem internados e acabarem em CTIs, intubados. Alguns não voltaram. 

No último sábado, dia 27, tentei regressar para a Argentina por terra. O governo de lá tinha publicado um decreto determinando que quem tivesse saído do país antes do dia 25 de dezembro, fosse argentino ou residente, poderia voltar apresentando um PCR negativo. Quem saiu depois dessa data foi avisado de que poderia ter problemas no retorno. O governo da Argentina tinha fechado totalmente o país para turistas brasileiros em dezembro. Argentinos e brasileiros residentes na Argentina que tivessem viajado ao nosso país depois do dia 25 de dezembro só poderiam retornar pelos aeroportos, mas as fronteiras terrestres seguiam abertas para os que haviam viajado antes, como eu. Desde que com o exame negativo em mãos! Por isso, realizei o exame com antecedência e estava com meu teste negativado em mãos quando cheguei à fronteira.

Atualmente, não há voos diretos de Porto Alegre para Buenos Aires, ou seja, eu teria que enfrentar três aeroportos para retornar: Porto Alegre, São Paulo ou Rio e, depois, Buenos Aires. Além de horas no ar. Era arriscado. Optei por viajar cinco horas de carro desde a casa dos meus pais, em Caçapava, até Uruguaiana, que faz fronteira com a Argentina em Paso de los Libres. Cruzando para o outro lado do Rio Uruguai, eu pegaria um “remis”, uma espécie de táxi, até Buenos Aires, onde eu faria novo PCR e quarentena na minha casa, onde estava tudo preparado para o isolamento. Esses “remis” estão equipados com um acrílico que separa os bancos da frente do de trás, garantindo uma mínima segurança sanitária. Não é permitido entrar na Argentina com um carro brasileiro agora na pandemia.

Quando cheguei à fronteira, no entanto, por volta das 11 horas do sábado, o circo já estava armado. Policiais avisavam que, por “ordens superiores”, não passava mais ninguém, independente da nacionalidade e data de saída (disposição 763/2021), pegando de surpresa umas cinquenta pessoas. Foi uma gritaria! Todos estavam com o teste em mãos e tinham motivos para cruzar para o outro lado: um homem que necessitava resolver papeladas do pai, morto em Rosario; uma família com um bebê de meses, vinda de Florianópolis; estudantes de medicina que chegaram de Foz e ainda 25 passageiros que vinham num ônibus desde Santa Catarina. Até um cachorro pastor alemão, transportado desde São Paulo, queria encontrar seu dono, do outro lado da fronteira.

A medida do governo da Argentina, apoiada massivamente pela população, tem como objetivo evitar que a chamada cepa brasileira, descoberta em Manaus, se espalhe pelo país. Sinceramente, acho que eles estão cobertos de razão, mesmo que eu tenha ficado do lado do descontrole e do genocídio. Ao barrar a nossa entrada, a Argentina mostra que tem governo, que tem um plano, que está tentando um caminho. Eu me sentiria muito mais segura e bem cuidada em solo vizinho. 

As pessoas do ônibus ficaram indignadas e fecharam a estrada, bloqueando a circulação de caminhões com mercadorias – para os quais a fronteira nunca fechou. Um congestionamento foi se armando dos dois lados, e o ambiente ficou tenso. A ideia era pressionar o cônsul da Argentina no Brasil a ir conversar com a gente. Ele apareceu, negociou a liberação dos caminhões, armou uma lista, prometeu negociar com Buenos Aires e liberar a passagem de todos, o que não aconteceu naquele momento. Para piorar, naquela tarde choveu muito, encharcando as pessoas que tinham chegado a pé. Ficamos também sem banheiro e sem comida. Às 16 horas, os funcionários da fronteira avisaram que o posto ia fechar e reabriria somente às 6 horas do dia seguinte. Dormi em Uruguaiana e voltei no domingo, mas não tinha novidades. Ao meio-dia, decidi voltar para a casa dos meus pais e administrar a frustração. Só na quarta-feira, 31, seria negociada a entrada das pessoas que resistiram, a maioria por não ter mesmo para onde ir. Elas foram obrigadas a fazer novo PCR e terão que cumprir uma quarentena de dez dias na província de Corrientes – o custo será arcado pelo governo da província (estado) de Corrientes.

Queria muito ter voltado para a Argentina, não somente pela saudade do Edu, da casa, dos gatos, da cidade. Queria ter voltado pela Inês, uma amiga brasileira que vivia lá e que veio visitar o filho no Réveillon. Como estava viajando fora do prazo e sem dinheiro para a passagem de avião, ela ficou trancada aqui. Estava num momento ótimo, lançando um livro de poemas esgotado na pré-venda, mas que nunca chegou a ver impresso. Pegou Covid no Brasil e morreu agora em março, dois dias depois do irmão. Uma tragédia. Na viagem de volta para a casa dos meus pais, eu só pensava nela e nas chances de ter tido o mesmo destino. Impactada pela perda tão próxima, tive uma taquicardia no carro e não conseguia respirar. Era medo. Medo de voltar à contagem de corpos (3.950 registros no dia 31 de março!), medo de adoecer e não ter leito, medo da palavra mais temida: intubada. Abri as janelas, tomei um ar, chorei. Passou.

Nunca tinha me acontecido de estar presa dentro do meu país. Quando uma nação fecha as portas à outra, todas as fichas caem. Não que 300 mil mortes não fossem suficientes. Mas agora é diferente, viramos um país pária, e tudo indica que devemos atravessar o abril mais triste de nossas vidas. Assim, cada vez mais o brasileiro, não só na Argentina, mas em outros países, vai se tornando uma persona non grata. Viramos os leprosos do mundo, os párias do mundo. Enquanto isso, internamente, o que se vê é pressão para abrir escolas, comércio e academias. É como se estivéssemos no meio de uma guerra e as pessoas achassem que o importante é malhar. Ando bem pessimista. Meu tempo é hoje. Aproveito para curtir este privilégio que é estar com o pai e a mãe, montar um espaço que vai contar o passado da cidade e trabalhar para deixá-lo lindão para que seja habitado pelas futuras gerações. Isso se a gente tiver futuro, o que parece cada vez mais uma fantasia improvável e distante.



Gisele Teixeira

Jornalista, tradutora e editora de livros independentes. Especialista em Gestão e Salvaguarda de Patrimônio Cultural Imaterial pela Universidade de Córdoba, Argentina.

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