questões diplomáticas

Zero Três vira o Zero Um entre Bolsonaros 

Eduardo é nome preferido do pai para embaixada em Washington, no lugar de diplomata mais ligado ao grupo de Flavio e a olavistas

Thais Bilenky
16jul2019_18h22
FOTO DE MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

O senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ) chegou meia hora antes de a cerimônia de posse do novo presidente do BNDES começar no Palácio do Planalto. Cumprimentou um, depois outro, e afinal se sentou na primeira fileira, mas isolado na ponta direita. Minutos depois, alguém percebeu o descuido e o reacomodou, ainda na primeira fileira, mas ao centro da plateia. Seu pai, o presidente Jair Bolsonaro, ao discursar, mencionou-o, olhando-o nos olhos: “Um senador da República, que, por ser meu filho, tem seus problemas potencializados”, solidarizou-se. Sua principal aposta política da família em 2018, o Zero Um até agora não teve destaque na cena política nacional, mantendo-se na discrição, envolvido em investigações judiciais. Foi do Zero Três, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), de quem o pai mais falou nesta terça-feira, 16 de julho. 

“Todos vocês lutaram muito para chegar à posição em que chegaram. Muitos fritaram hambúrguer, até porque o pai, apesar de ser deputado federal, não tinha como bancar um aperfeiçoamento dele no intercâmbio, a não ser que ele trabalhasse nos Estados Unidos”, afirmou Bolsonaro. Na semana passada, quando o pai declarou intenção em nomeá-lo embaixador do Brasil em Washington, Eduardo comentou que até “fritou hambúrguer no frio do Maine”, estado norte-americano. 

Assim, entre os problemas de Flavio com seus assessores, e os de Carlos, o Zero Dois, com seus tweets, Eduardo se firma como o filho em quem Bolsonaro faz sua aposta política mais alta até agora. “Nessa juventude, nós acreditamos”, afiançou o presidente da República.  

Observando que o novo presidente do BNDES, Gustavo Montezano, é amigo de infância dos filhos, Bolsonaro disse que a turma “da rua Dona Maria, 71”, endereço do condomínio onde moravam, teve sucesso na fase adulta. Entre os amigos, “temos também, se Deus quiser, prezado Bezerra, um embaixador na potência mais importante do mundo”, disse o presidente, citando, não à toa, o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE) – é nesta Casa que a nomeação de Eduardo para o posto será ou não avalizada.

O esforço de Bolsonaro para emplacar o filho na embaixada frustrou Olavo de Carvalho e aliados, sobretudo aqueles com boa interlocução com Flavio – o primeiro dos filhos a se relacionar com o ideólogo radicado na Virgínia (Estados Unidos). Eles viam no diplomata Nestor Forster, que já serve na capital americana, um interlocutor ideal na embaixada. Forster é amigo de Carvalho há pelo menos quinze anos e foi quem o apresentou a Ernesto Araújo. A indicação de Araújo ao Ministério de Relações Exteriores passou por Olavo de Carvalho.

A intenção do presidente de nomear o filho embaixador representa uma derrota para o grupo de Olavo de Carvalho. Até a semana passada, o cronograma para a indicação de Forster estava montado – naquele momento, quem estava em baixa (e ainda está) eram os militares e a equipe econômica liderada pelo ministro Paulo Guedes. Essas duas alas preferiam o cientista político Murillo de Aragão, da consultoria Arko Advice, na embaixada em Washington. Na campanha para derrotá-lo, Olavo de Carvalho chamou Aragão de “homem do Lula” por ter feito parte do Conselhão criado pelo ex-presidente petista, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Antes de Aragão, os militares trabalhavam com o nome do general Sérgio Etchegoyen para a embaixada, mas a iniciativa não prosperou.

Quando soube da pretensão de Bolsonaro em fazer do filho o embaixador, Olavo de Carvalho expressou sua contrariedade. Em um vídeo publicado na sexta-feira, 12, construiu um argumento também usado por seus aliados no governo federal: o de que Eduardo, com seu desempenho recorde de um milhão e oitocentos mil votos, é insubstituível no Brasil. Em Washington, não. “A CPI do Foro de São Paulo é a missão histórica dele. Não pode lançar um movimento dessa envergadura e depois ir ser um funcionário diplomático em Washington, não faz sentido. Não vai poder nem ficar falando do Foro de São Paulo”, lamentou o guru. “Seria o retrocesso, a destruição da carreira do Eduardo Bolsonaro”, asseverou. 

Seu entorno achava, até então, que a declaração de Bolsonaro era um balão de ensaio para dar mídia ao filho, medir a temperatura e depois recuar. Ao perceber que o presidente falava sério, Carvalho deu um passo atrás: “Se a ideia de entregar ao Eduardo a embaixada em Washington veio mesmo do [Donald] Trump (segundo um zunzum que circula por aí), é obviamente uma boa notícia. O presidente americano jamais pensaria nisso se não tivesse projetos realmente grandes para a relação Brasil-EUA”. Trump elogiou Eduardo publicamente quando o deputado e o pai visitaram a Casa Branca, em março. Na ocasião, em um gesto inusitado, Eduardo acompanhou Bolsonaro na reunião privada com o presidente americano.

Não passou despercebido no grupo olavista que Eduardo tem de vida o que Forster tem de carreira. Bolsonaro esperou o filho completar 35 anos, idade mínima de um embaixador, para confirmar sua intenção em nomeá-lo.

De mãos atadas, no momento, militares com assento no Planalto observam com cautela a situação. Veem, em primeiro lugar, um desgaste político do presidente, cuja disposição de indicar o filho configura nepotismo para alguns, como o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal. A decisão do presidente dividiu a opinião até de sua base, segundo um assessor palaciano. Depois, há risco de derrota no Senado. Para evitá-la, Bolsonaro deverá se envolver pessoalmente na negociação com os senadores que sabatinarão Eduardo e o aprovarão ou não. Não se espera que o custo dessa fatura seja baixo. Também pesa o descontentamento dos diplomatas do Itamaraty, cuja carreira tem em Washington um dos mais prestigiados postos. Todos os embaixadores na capital americana, desde a redemocratização, foram quadros do ministério.

As adversidades aumentam a pressão sobre Bolsonaro e Eduardo para que eles, primeiro, consigam aprovação política e, segundo, mostrem que foi uma decisão acertada: o deputado precisará mostrar serviço logo para deslegitimar virtuais críticas. E, claro, contar com a reeleição de Trump em 2020. 

Bolsonaro parece não ter dúvidas disso. E encerrou o seu discurso nesta terça, no Planalto, com uma declaração peculiar. “O futuro vai ser antes de 22, com toda a certeza. Muito obrigado”.

Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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