questões cinematográficas

12 anos em 165 minutos

É difícil imaginar título mais infeliz do que o da versão brasileira do filme escrito e dirigido por Richard Linklater – Boyhood – Da infância à juventude. Ao original, mantido em inglês, foi acrescentada a coda em português tão óbvia quanto banal. A empresa distribuidora Universal Pictures não poderia ter feito desserviço maior a um filme que ainda por cima desperdiça a boa ideia inicial a partir da qual foi realizado.

10nov2014_19h23
Boyhood – Da infância à juventude
Boyhood – Da infância à juventude

É difícil imaginar título mais infeliz do que o da versão brasileira do filme escrito e dirigido por Richard Linklater – . Ao original, mantido em inglês, foi acrescentada a coda em português tão óbvia quanto banal. A empresa distribuidora Universal Pictures não poderia ter feito desserviço maior a um filme que ainda por cima desperdiça a boa ideia inicial a partir da qual foi realizado.

Não há dúvida de que filmar durante 12 anos, acompanhando o crescimento de um menino, é uma proposta atraente, além de pouco usual. O que faltou a Linklater foi conseguir fazer um personagem do jovem Mason (Ellar Coltrane), figura apática a quem nada parece afetar. Quem domina a cena é Olivia (Patricia Arquette), mãe dele, deixando inclusive Mason pai (Ethan Hawke) em segundo plano.

À medida que o filme progride, o interesse da proposta original se esvai e acaba sem cumprir seu potencial. Para agravar o equívoco, Linklater não contém sua conhecida vocação para longos diálogos pseudo reflexivos (vide a trilogia Antes da…) que ocupam grande parte do terço final dos 165 minutos de duração de . Cineastas americanos em crise de identidade, quando adotam uma das mais incômodas características do cinema francês – diálogos transbordantes – costumam causar os piores desastres.

Nos Estados Unidos, a imprensa menciona o filme de Richard Linklater como possível candidato a ser premiado pela Academia no final de fevereiro. Grande sucesso de crítica, chegou a ser chamado de “delicado e profundo”, e também de “um dos mais extraordinários filmes de 2014 ou, aliás, do século 21 até o momento”. Tamanhos encômios são difíceis de entender, a não ser que se refirem apenas à curiosa ideia que originou o filme, e não ao que resultou projetado na tela.

Linklater e Ethan Hawke demonstraram ter noção precisa dos riscos envolvidos no projeto. Quando lhes perguntavam “o que acontece” no filme, Linklater respondia: “Pouca coisa.” E Ethan Hawke chegou a dizer que, neste filme, “o evento é o não evento” – bons propósitos, em tese, mas que resultam além do alcance de ambos.

Em última análise, porém, a equação comercial é a decisiva. E nesse quesito Boyhood arrasa. Produzido por apenas 4 milhões de dólares, já rendeu 43 milhões nos Estados Unidos e no restante do mercado mundial de salas de cinema, desde seu lançamento no início de julho. A Academia costuma ser sensível e sucessos nessa escala, ainda mais quando dotados de certo verniz intelectual. Oscars parecem mesmo estar no horizonte.

outras questões cinematográficas

Últimas Mais Lidas

O Processo – observação em crise

Como todo observador intransigente, diretora Maria Augusta mais constata do que revela no documentário sobre o impeachment de Rousseff

A Melhor Escolha – jornada para redimir o passado

Filme de Richard Linklater tenta repetir fórmula de outros longas do cineasta, mas falha do ponto de vista comercial e artístico

Zama – espera e identidade

A adaptação para o cinema do livro homônimo pela diretora Lucrecia Martel

Um dia há cinquenta anos – cortejo e enterro de Edson Luís

Eduardo Escorel relembra a morte do estudante durante a ditadura militar; cineasta documentou o funeral

Icarus – fraude americana e conspiração russa

Vencedor do Oscar surgiu disfarçado de novidade, mas com ares de documentário requentado

Mais textos
1

Como o PCC superou a polícia para matar um dos seus

Reportagem da piauí reconstitui os últimos dias de “Gegê do Mangue”

2

Dois empresários paulistas contam por que estimulam Bolsonaro

Fundador da Tecnisa e dono de empresa de monitoramento de mídia marcam encontros entre pré-candidato e comunidade judaica de São Paulo. “Apoio quem seja contra a esquerda”, resume incorporador

3

General Mourão anuncia frente de candidatos militares nas eleições

Ao passar para a reserva, comandante que defendeu golpe militar diz à piauí que vai articular candidaturas fardadas ao Congresso, assembleias e Executivo

4

Uma arma, dois assassinatos e uma só tragédia no Rio

Como uma mesma pistola 9 mm de uso restrito está diretamente ligada às mortes de um sniper e de um PM em menos de 24 horas na capital carioca

5

No Twitter, vampiro cola mais em Temer do que intervenção

Até agora, desfile da Tuiuti teve 26% mais repercussão do que ação militar no Rio; intervenção faz diminuir polarização Lula-Bolsonaro nas redes

6

Empresários rebatem defensores de Bolsonaro

Publicada pela piauí, entrevista com fundador da Tecnisa provocou reação da comunidade judaica. “Ele não tem legitimidade para falar em nosso nome”, disse ex-presidente da Confederação Israelita do Brasil

7

Conflito com Rede Globo é chave para candidatura de Huck

Apresentador tem até sexta para responder ultimato da emissora; disputa contratual pode ser usada contra pecha de “candidato da Globo”

8

Delegado da Polícia Federal quer mandados de busca coletivos em favelas cariocas

Para chefe antinarcóticos da PF no Rio, armas escondidas justificariam autorização judicial para busca indiscriminada em casas nos morros; defensoria diz que isso é “ilegal” e reforça “seletividade do sistema penal”

9

A guerra

Como o PCC deflagrou uma crise nas prisões brasileiras ao tentar ganhar poder fora de São Paulo

10

Temer vence 1ª batalha da longa guerra que começou no Rio

Dizendo-se contrário a como intervenção foi feita, Bolsonaro se posiciona para lucrar com sucesso ou fracasso da operação