questões cinematográficas

Cinema brasileiro em questão

Na esperança de que seus projetos sejam os próximos contemplados, produtores aceitam a fragilidade dos recursos destinados ao cinema

Eduardo Escorel
13set2017_17h23
Quem acredita na importância do cinema ser produzido no Brasil teria a obrigação de enfrentar as condições reais nas quais se produz
Quem acredita na importância do cinema ser produzido no Brasil teria a obrigação de enfrentar as condições reais nas quais se produz FOTO: PIXABAY

A atividade cinematográfica jamais demonstrou ter capacidade de se tornar autossustentável no Brasil. Ela depende, desde sempre, de diferentes formas de protecionismo estatal, inclusive nos últimos vinte anos, durante os quais recursos vultosos foram investidos no setor por meio de diferentes mecanismos de fomento administrados pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e pela Agência Nacional do Cinema.

Como essas formas de financiamento são, por definição, provisórias, uma vez que a justificativa do suporte que propiciam é compensar desvantagens comparativas e fomentar a existência de um setor produtivo nacional dotado de autonomia, a produção cinematográfica no país está sob ameaça de crise permanente.

O recente veto da renovação da Lei do Audiovisual não deveria, portanto, causar qualquer celeuma – é uma possibilidade que precisa estar sempre nas previsões de todos que atuam na área. Em especial, profissionais veteranos, com mais de cinquenta anos dedicados ao cinema, entre os quais eu me incluo.

Não é, porém, o que ocorre. Gestores e produtores silenciam, em períodos de recursos abundantes, a respeito da fragilidade dos suportes dos quais a atividade depende. Celebram os milhões disponíveis e a quantidade de filmes produzidos, mesmo sabendo que gastos acima da expansão da economia e da capacidade fiscal do Estado levam o país ao colapso. Silenciam sobre a má aplicação de recursos, a hipertrofia burocrática a que o setor é submetido e a qualidade duvidosa de parte considerável dos filmes realizados. Convivem com a lentidão da tomada de decisões e da formalização de compromissos, morosidade incompatível com a agilidade que a atividade requer. Aceitam passivamente o contingenciamento de recursos que limitam a capacidade dos fundos – tudo, na esperança de que seus próprios projetos sejam os próximos a serem contemplados.

Repete-se, dessa maneira, o que já ocorreu em outra época – recursos disponíveis para produção viciam e os adictos preferem aproveitar o prazer do momento, mesmo submetidos a longos períodos de abstinência. Deixam-se levar pelo autoengano até sofrerem um choque de realidade ao serem confrontados com a fragilidade institucional, legal e financeira do setor produtivo.

Quem acredita na importância do cinema ser produzido no Brasil, independentemente de seus interesses privados na condição de produtores e realizadores, teria a obrigação de enfrentar as condições reais nas quais se produz, e procurar, de uma vez por todas, alternativas que tenham perspectiva fundamentada de implantar atividade que caminhe com as próprias pernas; ou então assumir de vez que as condições da competição no mercado são desiguais, não sendo razoável supor que o cinema brasileiro possa vir um dia a ser autossustentável.

A primeira alternativa dependeria da efetiva capacidade política e empresarial de produtores e gestores, que não dá sinais de existir, para tornar o cinema brasileiro competitivo no mercado interno e capaz de conquistar algum espaço, por menor que seja, no mercado externo.

Para que a segunda alternativa fosse viável seria necessário um diálogo transparente entre a sociedade e o Estado, em busca de acordo público, com base na inexistência da possibilidade de haver um dia cinema brasileiro financeiramente sustentável. Assumindo, portanto, que a atividade só pode se manter por meio de subsídios direcionados a projetos de reconhecido mérito cultural e artístico. Hipótese que não parece desejável, nem factível, dada sua conotação beletrista, contraditória com atividade que, em tese, possui forte potencial de mercado em escala nacional e mundial.

O quadro descrito indica o impasse no qual o cinema brasileiro sobrevive fazendo exercícios contínuos de contorcionismo. Será desejável que essa situação permaneça para sempre? Não creio.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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