Larry Ellison, dono da Oracle, doou 370 milhões de dólares para pesquisas sobre envelhecimento. “A morte não faz sentido”, disse. “Como pode alguém estar aqui e, de repente, desaparecer?”
Ver dados da foto Larry Ellison, dono da Oracle, doou 370 milhões de dólares para pesquisas sobre envelhecimento. “A morte não faz sentido”, disse. “Como pode alguém estar aqui e, de repente, desaparecer?” IMAGEM: ESCULTURA DA SÉRIE PSYCHOGEOGRAPHIES_DUSTIN YELLIN_FOTO DE KELLY TAUB_BFA.COM

A pílula de Deus

Os magnatas do Vale do Silício agora querem ser eternos
Tad Friend
Tamanho da letra
A- A+ A
Larry Ellison, dono da Oracle, doou 370 milhões de dólares para pesquisas sobre envelhecimento. “A morte não faz sentido”, disse. “Como pode alguém estar aqui e, de repente, desaparecer?” IMAGEM: ESCULTURA DA SÉRIE PSYCHOGEOGRAPHIES_DUSTIN YELLIN_FOTO DE KELLY TAUB_BFA.COM

Num suave anoitecer de março, no alto de Mandeville Canyon, em Los Angeles, a sala de Norman Lear estava lotada de gente poderosa, ávida pelos segredos da longevidade. O dono da casa, que é roteirista e produtor de tevê, promovia um simpósio sobre o assunto. Quando o primeiro orador perguntou quem gostaria de viver 200 anos com saúde, quase todas as mãos se levantaram. Compreensivelmente, portanto, era escassa a demanda pela torta de frango ao estilo marroquino, feita com massa folhada. A turma do capital de risco, desejosa de manter sua imponente vitalidade, estava de olho na balança; os cientistas também, porque tinham lido – ou mesmo realizado – pesquisas sobre restrição calórica; e as estrelas de Hollywood, porque, ora, elas sempre estão de regime.

Liz Blackburn, ganhadora de um Nobel por seu trabalho no campo da genética, abriu para perguntas. Com pose de rainha, a atriz Goldie Hawn, instalada num sofá, ronronou: “Eu tenho uma questão sobre as mitocôndrias. Me disseram que uma molécula chamada glutationa ajuda a manter a saúde das células.” A glutationa é um poderoso antioxidante que protege as células e suas mitocôndrias, produtoras de energia; em Hollywood, há quem a chame “a molécula de Deus”. Em excesso, contudo, ela pode amortecer alguns mecanismos reparadores e causar problemas no fígado e nos rins, ou mesmo uma rápida e potencialmente fatal troca de pele. Blackburn aconselhou seguir uma dieta variada e saudável, já que nenhuma molécula isolada contém a resposta para o enigma do envelhecimento.

E, no entanto, a premissa daquela reunião era que as respostas, e mesmo uma solução abrangente para o problema, estariam ao alcance da mão. Aquele encontro acabou por deflagrar o Grande Desafio Médico da Longevidade com Saúde da Academia Nacional de Medicina, que premiará avanços na área com pelo menos 25 milhões de dólares. Victor Dzau, o presidente da entidade, levantou-se para agradecer a vários dos cientistas presentes. Elogiou o trabalho com enzimas que ajudam a regular o envelhecimento e com genes que controlam a longevidade de várias raças de cães, além de saudar a técnica que, ao conectar cirurgicamente um rato velho a um jovem, permite ao primeiro compartilhar do sangue do último e, assim, rejuvenescer em poucas semanas.

Joon Yun, um médico que gere os fundos de uma empresa de assistência médica, anunciou que ele e a mulher haviam doado os primeiros 2 milhões de dólares para financiar as pesquisas do desafio. “Eu penso que o envelhecimento é modificável, que ele está codificado no programa”, disse Yun. “Quando alguma coisa está codificada, a gente pode descobrir o código.” E, sob aplausos crescentes, concluiu: “Se a gente pode descobrir o código, então também pode hackear o programa!” É pedir um bocado: mais de 150 mil pessoas morrem a cada dia, a maioria de doenças relacionadas ao envelhecimento. Ainda assim, Yun acredita que, se hackearmos o programa corretamente, “não haverá motivo, do ponto de vista termodinâmico, para que não se possa adiar a entropia por tempo indeterminado. Pode-se dar um basta ao envelhecimento”.

Nicole Shanahan, fundadora de uma empresa de gerenciamento de patentes, anunciou que sua companhia supervisionaria as patentes relativas à longevidade, afiançadas por Yun. “Vim com meu amor, Sergey”, ela disse, referindo-se ao namorado, Sergey Brin, cofundador do Google. “Ele me ligou ontem e disse: ‘Estou lendo um livro, Homo Deus, que diz que eu vou morrer.’ Perguntei se o autor fazia menção ao nome dele, e ele me disse que sim.” (No livro, o historiador israelense Yuval Noah Harari discute a pesquisa do Google no campo do envelhecimento e afirma que a companhia “provavelmente […] não [vai] ‘resolver a morte’ a tempo de tornar imortais seus cofundadores, Sergey Brin e Larry Page”.) Brin, sentado a poucos passos dali, assentiu animado, mas seu aceno era ambivalente: Sim, fui escolhido para morrer, mas não, não estou planejando morrer de fato.

Então, depois de o músico Moby discorrer em prol do veganismo, Dzau chamou Martine Rothblatt, fundadora de uma firma de biotecnologia – a United Therapeutics – que pretende desenvolver órgãos novos a partir do DNA das pessoas. “Parece evidente que, por meio da tecnologia, é possível tornar a morte opcional”, afirmou ela, que inclusive encomendou uma cópia de segurança de sua cônjuge, Bina – um robô que “clona a mente” da mulher e atende pelo nome de Bina48. O envelhecimento carecia do apoio de uma plataforma como a que aumentou a consciência das pessoas para o HIV e o câncer de mama, por exemplo; como espécie, somos péssimos quando se trata de mobilizar o mundo contra uma calamidade coletiva postergada (basta ver o aquecimento global). Os velhos encaram o envelhecimento como uma fatalidade, ao passo que os jovens nem chegam a acreditar que um dia vão envelhecer. Rothblatt, no entanto, saudou aquela noite como uma guinada histórica, declarando a Dzau: “É extraordinariamente gratificante ouvir o protótipo do establishment, o presidente da Academia Nacional de Medicina, dizer: ‘Nós também escolhemos tornar a morte opcional!’” O encontro resplandecia, todos os participantes imbuídos da convicção que eventos como aquele proporcionam: a crença de que aquelas pessoas na sala de estar de Norman Lear poderiam determinar o destino de todas as outras, do lado de fora.

Foi quando, lá no fundo, Andy Conrad pegou o microfone para contestar a ênfase no prolongamento da vida – hoje, a longevidade máxima está em torno de 115 anos. Conrad é o executivo-chefe da Verily, uma empresa dedicada às ciências da vida, de propriedade da Alphabet, a holding do Google. Como a maioria dos cientistas presentes, seu objetivo é ajudar as pessoas a desfrutar de “mais alguns anos de vida com qualidade”. Ele perguntou: “Longevidade não é um termo equivocado? Não se trata de ‘viver mais e bem’? Ou da ‘longevidade com saúde?’” Os biólogos concordaram, aliviados.

Norman Lear, ainda vigoroso aos 94 anos, encerrou a noite: “Sete anos atrás, escrevi o piloto para um seriado de tevê chamado Adivinha Quem Morreu, sobre uma comunidade de aposentados. Hoje, fiquei sabendo que ele está prestes a estrear.” A faixa etária do público telespectador está alcançando os protagonistas da série: em 2020, em termos planetários, pela primeira vez o número de habitantes com mais de 65 anos será maior do que aqueles com menos de 5. Lear continuou: “Portanto, a série vai dar visibilidade a algumas coisas que vocês disseram aqui.” Mais aplausos: a mensagem se espalharia!

Mas qual mensagem? Que a morte é opcional? Ou que ela terá de esperar?

 

Durante muito tempo, a solução para o envelhecimento parecia questão de mais umas poucas décadas. No começo dos anos 90, a pesquisa em torno do Caenorhabditis elegans, ou C. elegans, um minúsculo verme nematódeo semelhante a um fiapo de algodão, mostrou que uma única mutação genética era capaz de prolongar sua vida, e que outra mutação bloqueava esse prolongamento. A ideia de que a idade podia ser manipulada a partir de uns poucos botões de comando provocou uma explosão na academia, e logo várias atrocidades clínicas aumentaram em dez vezes a longevidade do verme, e em duas a de ratos de laboratório. O consenso científico se modificou. O envelhecimento passou de estágio final (como mostrava a capa da revista Time em 1958: “Envelhecer e ser útil”) e de questão social (Time, 1970: “Envelhecer nos Estados Unidos: A geração indesejada”) a algo que pode ser evitado (1996: “Jovem para sempre”) ou ao menos postergado por um longo período (2015: “Este bebê talvez viva até os 142 anos”). Antes um problema metafísico, a morte se tornou um problema técnico.

A comemoração foi prematura. Gordon Lithgow, importante pesquisador do C. elegans, disse: “No começo, pensamos que seria simples – praticamente um relógio –, mas descobrimos cerca de 550 genes capazes de modular a longevidade do verme. E suspeito que metade dos 20 mil genes do genoma do nematódeo esteja de alguma forma envolvida nesse processo.” E isso numa criatura de apenas 959 células. A programação é bem mais complexa nos animais que nos despertam inveja: a larva de abelha que se alimentou fartamente de geleia real e se transformou numa rainha sem idade; o tubarão da Groenlândia, que vive 500 anos e jamais tem câncer; ou mesmo a humilde amêijoa, a da sopa de mariscos, detentora do recorde, com 507 anos.

Para nós, envelhecer é uma disfunção crescente e por fim catastrófica que afeta tudo de uma vez. Nossas mitocôndrias estalam, o sistema endócrino fraqueja, nosso DNA arrebenta. Visão, audição e vigor diminuem, as artérias entopem, o cérebro se obscurece, e nós titubeamos, travamos e pifamos. Aos avanços científicos, aos anúncios de uma chave mestra capaz de reverter isso tudo, seguiram-se retrocessos e confusão. Poucos anos atrás, houve grande agitação em torno da especialidade de Liz Blackburn, os telômeros – as extremidades de DNA que protegem os cromossomos da mesma forma que as ponteiras selam as extremidades dos cadarços de sapatos. Conforme envelhecemos, nossos telômeros vão se tornando mais curtos e, quando esses escudos desaparecem, as células param de se dividir. (Nas palavras de Blackburn, “as células entram num estado de alarme terrível!”) Se pudéssemos encompridar esses telômeros, talvez fosse possível reverter o envelhecimento. Descobriu-se, no entanto, que animais dotados de longos telômeros, como os ratos de laboratório, não são necessariamente agraciados por uma vida longa – e que a telomerase, a enzima que promove o crescimento dos telômeros, é ativada também na maioria das células cancerosas. Quanto mais aprendemos sobre o corpo, mais percebemos quão pouco sabemos.

Ainda assim, os pesquisadores avançam. A compreensão não é pré-requisito para uma intervenção bem-sucedida, eles dizem; não tínhamos um entendimento real da virologia ou da imunologia quando começamos a vacinar as pessoas contra a varíola.

No breu da investigação científica, cada estudioso busca uma metáfora que possa guiá-lo. O inglês Aubrey de Grey gosta de comparar o corpo humano a um automóvel: um mecânico sabe consertar um motor sem precisar entender a física da combustão, e carros antigos submetidos à manutenção contínua seguem em perfeito funcionamento. De Grey encabeça uma fundação de pesquisa do Vale do Silício chamada SENS, Strategies for Engineered Negligible Senescence [Estratégias de Engenharia para um Envelhecimento Insignificante] – um nome pomposo para uma revisão geral. Começou a carreira trabalhando com inteligência artificial; sua fala é rápida e fluente, com frequência acompanhada de um afago na longa barba à la Rasputin. O que ele postula é que, se formos capazes de reparar sete tipos de danos físicos, estaremos a caminho de viver mais de mil anos (contanto que desviemos de ônibus e asteroides).

Quando nos encontramos na sede da SENS, em Mountain View, De Grey me explicou: “Os gerontologistas tomaram o caminho errado ao sair em busca de uma causa fundamental para o envelhecimento, pois na verdade tudo desmorona ao mesmo tempo, já que todos os sistemas estão interligados. É preciso dividir para conquistar.” Basta, assim, restaurar a maleabilidade dos tecidos; substituir as células que pararam de se dividir e remover as que se tornaram tóxicas; evitar as consequências das mutações do DNA e eliminar os efeitos colaterais danosos de todos esses procedimentos. Se formos capazes de desarmar essas bombas letais, ganharemos trinta anos de vida saudável, período durante o qual faremos outros progressos, suficientes para começar a rejuvenescer biologicamente. Alcançaremos, então, a “velocidade de escape da longevidade”.

O cientista irrita muitos membros da comunidade que trabalha pelo prolongamento da vida, e talvez uma das razões esteja em seu estilo imoderado: “Posso beber quanto quiser, e o efeito é nenhum. Não preciso nem fazer exercícios. Estou perfeitamente otimizado.” Até pouco tempo, era casado e tinha duas namoradas. Agora, disse estar com alguém: “Meus dias de poliamor são coisa do passado.”

Mas a principal fonte de irritação é seu ar de certeza profética. Seu livro Ending Aging [O Fim do Envelhecimento], publicado em 2007, está repleto tanto da pesquisa rigorosa dos obstáculos a uma vida mais longa como de propostas tão ambiciosas que parecem ficção científica. Sua solução para a mutação mitocondrial, por exemplo, é contrabandear cópias de segurança do DNA da mitocôndria para o núcleo, o que a evolução lamentavelmente não cuidou de fazer – talvez porque as proteínas necessárias na mitocôndria se embolariam durante a jornada pelo corpo aquoso da célula. O que ele propõe – levar o DNA para um lado e as proteínas que ele produz para o outro – é uma espécie de trambique subcelular. Alguns cientistas, embora o louvem pela anatomização das ameaças primárias, veem como fadados ao fracasso a identificação e o reparo das sete ameaças por meio de esquemas dessa natureza (e para que o plano de De Grey funcione, é necessário identificar e corrigir as sete). Matt Kaeberlein, biogerontologista da Universidade de Washington, disse: “É como anunciar que tudo que a gente precisa fazer para atingir outro sistema solar são sete coisas. Primeiro, acelerar nosso foguete até ele chegar a três quartos da velocidade da luz…”

Os cientistas que pesquisam a longevidade não são imortalistas na maioria. Em vez disso, querem nos proporcionar uma vida mais saudável seguida de uma “morbidade comprimida”, ou seja, uma morte rápida e indolor. Eles se concentram na cronologia dos fatos: desde 1900, a longevidade humana cresceu trinta anos – consequentemente, cresceu também a incidência de câncer, doença cardíaca, derrame, diabetes e demência. O envelhecimento é precondição para tantas enfermidades que “envelhecimento” e “adoecimento” possuem, em essência, uma relação metonímica. Os acidentes e a violência são as principais causas de morte até os 44 anos; depois, o câncer assume a dianteira e, mais tarde, aos 65, a doença cardíaca. Os propositores da longevidade com saúde querem compreender as etiologias do câncer e da doença cardíaca, a fim de poder bloquear seu aparecimento. Por que é tão raro desenvolver essas moléstias aos 2 anos de idade? Como prolongar essa proteção inicial até os 102 anos? Contudo, se pudéssemos curar o câncer, estaríamos acrescentando apenas 3,3 anos à vida média das pessoas; a cura para as doenças cardíacas renderia outros 4. Se acabássemos com todas as doenças, a longevidade média do ser humano poderia ser esticada até a faixa dos 90 anos. Para viver mais que isso, teríamos de desacelerar o próprio processo de envelhecimento.

Mas, mesmo que conseguíssemos essas proezas, os defensores da longevidade com saúde não acreditam que vamos viver para sempre – nem deveríamos. A preocupação aqui é com o rápido esgotamento dos recursos naturais, com a previdência social, com a potencial permanência centenária no poder de um Stálin ou de um Mugabe, com a perda das novas ideias provenientes dos jovens e com o tédio profundo a se estender por toda a vida. Amy Wagers, pesquisadora em Harvard, me disse: “Parte do sentido da existência está no fato de que vamos morrer.” Os gregos nos advertiram dos perigos associados ao desejo de possuir poderes divinos. Ele não produziu bons resultados para Esculápio ou Aquiles, e foi ainda pior para Titono, cuja amante, Eos, implorou a Zeus que concedesse vida eterna a seu amado, mas não lembrou de também pedir a juventude eterna. Decrépito, senil e infeliz, Titono acabou por se transformar numa cigarra que estridulava sem cessar, clamando por libertação.

 

Quando conheci Ned David, pensei que ele tivesse uns 30 anos. Rosto sem rugas, cabelos castanhos e fartos. Calçava um tênis vermelho de cano longo e caminhava ligeiro, com as mãos enfiadas nos bolsos do jeans.

David tem 49 anos. É bioquímico e cofundador da Unity Biotechnology, uma startup do Vale do Silício que investiga células senescentes – aquelas que, conforme envelhecem, começam a produzir SASP, uma secreção incolor, inodora e nociva. Os pesquisadores da Unity chamam a SASP de “toxina zumbi”, porque provoca o envelhecimento de outras células e espalha inflamação crônica pelo corpo. Em camundongos, os tratamentos que eles desenvolveram retardam o câncer, previnem a hipertrofia cardíaca e aumentam a longevidade média em 35%. “Acho que nossos medicamentos dão conta de um terço das doenças que acometem os seres humanos no mundo desenvolvido.”

David não está tomando nenhum desses fármacos, que só chegarão ao mercado dentro de pelo menos sete anos. Sua jovialidade decorre das terapias já existentes: metformina – um remédio para diabetes que tem feito idosos diabéticos viver mais que os integrantes saudáveis de um grupo de controle – e Retin-A, para a pele. Além disso, pratica muita natação, desde que parou de correr devido a uma osteoartrite espinhal. “Muitas vezes sou acusado de escolher o que vamos pesquisar com base nos problemas de envelhecimento que enfrento”, ele diz. “Mas, graças a nossos remédios, prevejo que vou retomar a corrida!”

Uma abordagem sistemática do envelhecimento – que, se ideal, resultaria em poder pedir ao médico uma receita do “comprimido de Deus” – é atraente do ponto de vista filosófico, mas impraticável do ponto de vista econômico. As empresas farmacêuticas e de biotecnologia só ganham dinheiro quando tratam enfermidades, e como o envelhecimento afeta tudo, a Food and Drug Administration (FDA) norte-americana não o reconhece como “sintoma” suscetível de tratamento (ou de reembolso pelas companhias de seguro). Assim, a Unity está se concentrando em doenças como glaucoma, degeneração macular e artrite. Em seu laboratório, os refrigeradores estão cheios de globos oculares humanos e cartilagens de joelhos. Essa é a abordagem habitual do envelhecimento, que enfrenta um problema de cada vez: vamos tratar de curar os olhos primeiro; depois, a gente atravessa a rua e vai buscar um rim impresso em 3D.

No final do ano passado, a Unity captou 116 milhões de dólares junto a investidores como Jeff Bezos e Peter Thiel, bilionários sequiosos por prolongar nossas vidas, ou pelo menos a deles, até que atinjam uma longevidade que Thiel definiu como “eterna”. Num campo repleto de charlatães, a aparência de Dorian Gray de Ned David o ajudou a levantar fundos. “Certo tipo de investidor, mais conservador, acha alarmante esta minha aparência jovial”, ele disse, “ao passo que outro tipo – o do Vale do Silício, como é o caso de Peter Thiel – acha alarmante qualquer um que aparente mais de 40 anos.”

Tradicionalmente, os magnatas da tecnologia, com seus cabelos cada vez mais brancos, é que têm financiado a pesquisa sobre o envelhecimento, na esperança de bloquear o acesso ao último ato da jornada dos milionários do Vale do Silício: obter sucesso, escalar rochas e morrer. Agora, o envelhecimento ganhou prestígio no mundo das startups. Arram Sabeti, 30 anos, fundador da empresa de tecnologia ZeroCater, me disse: “A ideia de que podemos viver para sempre é uma coisa óbvia. Ela não viola as leis da física e, portanto, vamos chegar lá.” Sabeti passa seu tempo livre lendo metaestudos sobre mortalidade por todas as causas e é um dos investidores do Longevity Fund, um fundo de capitais de risco recém-lançado por Laura Deming. Com apenas 22 anos, Deming caracteriza esse mercado como uma oportunidade de “200 bilhões de dólares ou mais”. Disse, porém, que “é na verdade impossível predizer o tamanho do mercado da longevidade, porque, se curarmos o envelhecimento, isso significa mudar completamente a medicina”.

Não é surpresa que tenha sido o Google a transformar a visão que o Vale do Silício tem do envelhecimento. Surpresa, talvez, é que a empresa de Bill Maris esteja na vanguarda. Como fundador e CEO da Google Ventures, Maris fez investimentos bem-sucedidos em companhias como a Nest e o Uber; afável e admirado, desfrutava de segurança financeira – não era exatamente um tipo óbvio de alquimista moderno. Mas, segundo me disse, ao ficar sozinho seus pensamentos “podem se voltar para coisas sombrias”. Seu pai morreu de um tumor no cérebro em 2001, quando Maris tinha 26 anos. “Eu me formei em neurociências, trabalhei em hospitais, mas, até a morte de meu pai, não entendia a finitude da pessoa que parte para nunca mais voltar”, disse. Aos 42 anos, Maris é vegetariano há bastante tempo e todo dia malha por uma hora num elíptico. Consola-o o fato de o cientista que fez uma tomografia tridimensional de seu cérebro ter elogiado a robustez de seu corpo caloso, o feixe de fibras nervosas que conecta os dois hemisférios cerebrais. (Em seu escritório, Maris exibe modelos cintilantes do próprio cérebro e do de sua mulher, protegidos por campânulas de vidro.) Contudo, essas precauções e vantagens são temporárias, tapa-buracos individuais. Como ele poderia resolver o problema para sempre, e para todos?

Maris decidiu abrir uma empresa para solucionar o problema da morte. Discutiu a ideia com Ray Kurzweil, o futurista que popularizou o conceito de “singularidade” – a noção de que os seres humanos vão se fundir com a inteligência artificial e transcender suas limitações biológicas. E discutiu-a também com Andy Conrad, o geneticista da Verily, aquele que reagiu com cuidadoso desânimo à euforia da reunião na casa de Lear.

O primeiro problema é o tempo de estudo que demandam os seres humanos: é difícil conduzir um experimento clínico em sujeitos que levam oitenta anos para morrer. (Uma questão correlata é o fato de não dispormos de um modelo aceito para a medição da idade biológica, que muitas vezes difere significativamente da cronológica. No caso de Ozzy Osbourne, por exemplo, é improvável que os 70 tenham se transformado nos novos 50.) O segundo problema é a imensa dificuldade para determinar se uma causa aparente do envelhecimento é, de fato, um elemento causal, e não mero correlato de algum outro processo, mais recôndito.

“Andy jogou um balde de água fria na ideia”, conta Maris. “Mas não apontou nenhum empecilho de fato. Não disse ‘O envelhecimento não é uma doença genética’, nem ‘O Google jamais vai financiar’.” Em 2011, Maris expôs seu projeto a John Doerr, um investidor de risco que integra a diretoria da Alphabet, dizendo-lhe: “Imagine que você encontrou uma lâmpada na praia e que dela saiu um gênio. O gênio lhe concede um único desejo.” E continuou: “Se você for inteligente, vai desejar que ele lhe conceda um número ilimitado de desejos.” Doerr assentiu, e Maris foi adiante: “Digamos que você vai viver, no máximo, mais trinta anos.” Doerr acabara de completar 60. “Se cada dia a mais for um desejo, isso dá cerca de 10 mil desejos. Não sei você, mas eu quero mais – quero acrescentar desejos mais depressa do que sou capaz de gastá-los.” Confrontado com os limites de sua longevidade, Doerr se entusiasmou. E quando Maris expôs seu projeto aos fundadores do Google, Sergey Brin – possuidor de uma variante genética que o predispõe ao mal de Parkinson – adorou a ideia, e Larry Page exclamou: “Vamos fazer isso aqui mesmo!”

 

Em 2013, o Google lançou a California Life Company, a Calico, na qual investiu 1 bilhão de dólares. “A empresa deu um belo impulso à pesquisa sobre o envelhecimento”, disse George Vlasuk, presidente da Navitor, uma startup de biotecnologia. “A Calico tem dinheiro, inteligência e tempo.” Mas ela se revelou extremamente reservada: tudo o que se sabe é que vem rastreando a vida de mil camundongos, do nascimento à morte, a fim de identificar “marcadores biológicos” do envelhecimento – ou seja, substâncias bioquímicas cujos níveis permitem predizer a morbidade. Sabemos também que ela possui uma colônia dos incrivelmente feios ratos-toupeira-pelados, que vivem 30 anos, e que investiu em medicamentos que podem ser úteis para tratar diabetes e Alzheimer. (Procurada, a empresa não quis se pronunciar.)

Certo número de cientistas se confessa decepcionado com os rumos tomados pela Calico. Nir Barzilai, geneticista líder no campo do envelhecimento, me disse: “Na verdade, não sabemos o que eles estão fazendo, mas, seja lá o que for, não parece estar ajudando a enfrentar o problema.” Outro cientista, que conhece bem a empresa, contou que ela está sendo criteriosa na busca de seus objetivos, mas que teve um começo fatal, porque decorrente da vaidade: “É tão voltada para seus próprios interesses quanto uma capela dos Medici durante o Renascimento italiano, só que com uma pitada adicional do narcisismo do Vale do Silício”, acrescentou. A Calico se assenta na frustração com a brevidade da vida, experimentada por muitos ricos bem-sucedidos: “Temos todo esse dinheiro, mas só vamos viver uma vida de duração normal.”

Maris, que se aposentou na Google Ventures, discorda radicalmente desse ponto de vista: “Não tem nada a ver com bilionários do Vale do Silício querendo viver uma vida eterna extraída do sangue dos mais jovens”, declarou. “Tem a ver com um futuro à la Star Trek – onde ninguém morre de doenças que podem ser evitadas e a vida é justa.”

 

Se os bilionários do Vale do Silício conseguirem viver do sangue dos mais jovens, eles estarão satisfazendo um desejo muito antigo. Em 1615, um médico alemão sugeriu que “o sangue quente e vívido de um jovem será transferido para um velho como uma fonte da juventude”. Em 1924, o médico e bolchevique Aleksander Bogdanov começou a se submeter a transfusões de sangue jovem, e um companheiro de revolução escreveu que ele “parece ter rejuvenescido sete, não, dez anos”. Então, Bogdanov se infectou com o sangue de um estudante que tinha malária e tuberculose e morreu. A parabiose, ou a conexão cirúrgica de dois sistemas circulatórios, não tem se saído muito bem tanto em humanos como em roedores. Em 1951, foi tentada como último recurso em pacientes de câncer terminal e um menino de 2 anos perdeu parte do pé por gangrena. Roedores, por sua vez, rechaçaram a união, como se pode ler na advertência de um estudo de 1956: “Um desajuste entre os dois ratos pode fazer com que um mastigue a cabeça do outro até destruí-la.”

As tentativas prosseguiram. Em 2005, um laboratório de Stanford sob o comando de Tom Rando, biólogo e neurologista especializado em células-tronco, anunciou que a parabiose heterocrônica – ou a troca de sangue entre camundongos velhos e jovens – rejuvenescia o fígado e os músculos dos mais velhos. Por toda parte, vampiros sentiram-se vingados.

“Tive muitas reuniões com jovens bilionários do Vale do Silício, e todos eles, em graus variados, querem saber quando os segredos serão revelados, tanto para poder apostar na próxima onda como para tirar proveito pessoal dela”, contou Rondo. “Disse a eles: ‘Não estamos falando de um aplicativo. Se encarada do ponto de vista de uma empresa de tecnologia, a biologia vai decepcionar, porque seu avanço é bem mais lento.’”

Nos últimos anos, o campo da parabiose se tornou mais controverso. A chave para o rejuvenescimento seria a presença das proteínas do sangue novo ou a ausência de algo como o SASP, a “toxina zumbi”? Ele não seria um subproduto celular de um camundongo, ou o resultado de se tomar emprestado um fígado mais jovem? Em 2014, a cientista de Harvard Amy Wagers concluiu que fatores do sangue novo, em especial a proteína GDF11, fortaleciam camundongos mais velhos e renovavam seu cérebro. Boa parte dos colegas de Wagers contestou esses resultados, e a empresa farmacêutica Novartis realizou imediatamente um estudo que acabou por concluir o contrário: era melhor bloquear a GDF11. Wagers me disse: “Diferentes grupos concluíram que os níveis GDFB11 aumentam, diminuem ou permanecem os mesmos com a idade.” Com um sorriso desalentado, ela acrescentou: “Bem, um desses grupos está com a razão.”

Depois que um colega de Rando, Tony Wyss-Coray, mostrou que sangue jovem pode fomentar o surgimento de novos neurônios na região do hipocampo do cérebro de camundongos velhos, uma companhia chamada Alkahest deu continuidade a seu trabalho. A Alkahest começou a peneirar as mais de 10 mil proteínas presentes no plasma, na esperança de que o coquetel certo de proteínas possa curar o mal de Alzheimer – um processo que ainda deve levar mais de 25 anos.

Visitei recentemente a empresa, onde Joe McCracken, vice-presidente de Novos Negócios, posicionou lado a lado vídeos de camundongos de mesma idade e geneticamente idênticos. Eles estavam prestes a se submeter a um teste no labirinto de Barnes: um disco salpicado de círculos negros, um dos quais é um buraco – versão para laboratório de uma toca pela qual escapar do ataque de um falcão. Os animais haviam sido treinados para se lembrar da localização do buraco. McCracken, acompanhado de dois colegas, explicou que o primeiro camundongo havia recebido tão somente um placebo, uma solução salina inerte. Ele enfiou o focinho aqui e ali, inseguro, até topar com o buraco. Levou um minuto e vinte segundos. Os homens aplaudiram, dando vazão à ansiedade. “É como eu no estacionamento, procurando meu carro”, disse Sam Jackson, o médico-chefe da empresa. Então, McCracken mostrou o outro vídeo, de um camundongo que havia recebido plasma de jovens humanos de 18 anos. O bicho disparou certeiro rumo a um setor específico do labirinto, encontrou o buraco e se enfiou nele em dezoito segundos. Os executivos abriram um sorrisinho e balançaram a cabeça: Ah, a juventude…

Todo cientista que realiza experimentos com camundongos guarda como talismã fotos ou vídeos de dois deles: um, tímido, se move com dificuldade e tem o pelo já irregular; o outro, lustroso e esperto, vibra com o elixir miraculoso. Mas camundongos podem nos representar? A empatia nos seduz a acreditar que sim. Quando lemos que camundongos postos para correr numa esteira tiveram “um período de aquecimento de cinco minutos e, depois, cinco minutos de descanso”, pensamos: muito sensato. Camundongos, no entanto, não têm ataque cardíaco e, ao contrário dos nossos músculos, os deles se desgastam de repente, e não pouco a pouco. Além disso, eles não têm Alzheimer, doença que os cientistas imitam criando camundongos com genes extraídos de seres humanos. Como, porém, só temos Alzheimer quando velhos, tratamentos experimentais realizados em camundongos jovens muitas vezes apresentam resultados ilusórios. O uso de radiação por parte dos laboratórios para produzir envelhecimento artificial tampouco ajuda, assim como não ajuda que camundongos de laboratório vivam muito mais que roedores comuns. Tony Wyss-Coray me disse: “As pessoas observam: ‘O.k., o camundongo jovem encontrou o buraco, perfeito, quero fazer esse tratamento!’ E eu lhes digo: ‘Não sabemos se é seguro, nem se camundongos são como seres humanos – você vai ter de esperar.’” Já curamos câncer em camundongos de laboratório dezenas de vezes, e já os fizemos viver duas vezes mais, mas nenhum desses resultados se mostrou transferível. “Camundongos já nos deixaram na mão tantas vezes…”, lamenta o geneticista Nir Barzilai.

 

Entre cientistas que estudam a longevidade, predomina a opinião de que o envelhecimento não resulta de um propósito, mas de uma negligência da evolução: fomos projetados para viver por tempo suficiente para passar adiante nossos genes, mas o que acontece depois disso não importa muito. Como escreveu o gerontologista Richard A. Miller, “camundongos que dedicam suas energias a comer e se reproduzir vão se sair melhor que aqueles que dispendem valioso capital cuidando do aspecto dos olhos e se precavendo contra o câncer”. Nós amadurecemos mais devagar que os camundongos e vivemos muito mais tempo porque, como as baleias e os ratos-toupeira-pelados, corremos muito menos risco de sermos devorados no primeiro ano de vida. Contudo, a partir dos 30 ou 40 anos, já tendo nos reproduzido, vivemos um tempo que a evolução considera inútil. Eric Verdin, CEO do Buck Institute for Research on Aging, a principal organização sem fins lucrativos dessa área de estudos, observa que, “se seguíssemos envelhecendo no mesmo ritmo que envelhecemos dos 20 aos 30, viveríamos mil anos. Aos 30, tudo começa a mudar.” Desse ponto em diante, nosso risco de morrer dobra a cada oito anos.

A batalha entre os defensores da longevidade com saúde e os imortalistas é, em essência, uma briga entre o poder da evolução determinada pela natureza e o poder potencial da evolução comandada pelo homem. Os adeptos da longevidade com saúde nos veem sujeitos a um progresso linear: estudos em animais devem levar o tempo que for necessário, as ciências da vida devem se mover à velocidade da própria vida. Verdin observa que a expectativa média de vida tem crescido 2,5 anos por década nos países desenvolvidos e afirma: “Se conseguirmos manter esse ritmo pelos próximos 200 anos, aumentaremos nossa expectativa de vida em incríveis quarenta anos.”

Mas os imortalistas leem nossa história e nosso potencial de outra maneira. Segundo Bill Maris, “a tecnologia da saúde, que tem enfocado os sintomas e sido episódica ao longo de 500 anos – ‘Tome aqui estas sanguessugas!’ –, está se transformando em tecnologia da informação, o que nos permite ler e editar nossos próprios genomas”.

Muitos imortalistas consideram o envelhecimento um processo físico, não biológico: a entropia demolindo a máquina. E, se se trata de uma máquina, não poderia ser como um computador? O progresso dos computadores, ou pelo menos dos semicondutores, tem obedecido à Lei de Moore, dobrando a capacidade de processamento a cada dois anos. No progresso linear, avançamos um passo de cada vez: trinta avanços são trinta passos; no exponencial, esse avanço seria de 1,07 bilhão de passos. Nosso progresso no mapeamento do genoma humano parecia linear, mas, à medida que os dados duplicados aumentaram de forma significativa, ele se revelou exponencial.

Certo número de startups está tentando dominar as curvas exponenciais. A BioAge tem feito uso da capacidade de aprendizado das máquinas e vasculhado dados genômicos à procura de biomarcadores capazes de predizer a mortalidade. A CEO da empresa, Kristen Fortney, 34 anos, contou ter começado a testar drogas projetadas por computador com o intuito de descobrir uma substância que poderia realmente afetar esses marcadores. Ela está prestes a sair em busca de mais capital de risco e é otimista: “Muitos investidores não entendem o que é biotecnologia, mas reconhecem a capacidade de aprendizado da máquina e os conjuntos grandes e complexos de dados.”

O envelhecimento parece menos um programa que um conjunto de regras sobre como deixamos de funcionar. Mas é difícil convencer as mentes algorítmicas do Vale do Silício a abandonar a convicção de que ele há de ser um programa. Se fosse, reverter o envelhecimento seria apenas questão de localizar e corrigir um loop recorrente. Afinal, pesquisadores da Universidade Columbia anunciaram em março ter armazenado um sistema operacional completo (e um vale-presente da Amazon no valor de 50 dólares) numa fita de DNA. E se o DNA for apenas um grande Dropbox para toda a papelada que dá sustentação à vida, quão difícil será consertar o bug do envelhecimento?

 

Em julho do ano passado, Brian Hanley, um microbiólogo de 60 anos morador de Davis, na Califórnia, pôs em marcha a tentativa de atualizar seu sistema operacional: injetou em sua coxa esquerda genes análogos ao do hormônio liberador de hormônio do crescimento (GHRH). Embora o GHRH seja produzido no cérebro, Hanley estava basicamente transformando um pedacinho de sua coxa – do tamanho da borracha na ponta de um lápis – numa glândula produtora da molécula que estimula o coração, os rins e o timo. E ficou feliz com o resultado. Seus níveis de testosterona e de colesterol bom haviam aumentado, o ritmo dos batimentos cardíacos e o colesterol ruim diminuíram, e sua visão ficou mais aguçada. No mais, apenas um efeito colateral peculiar: euforia. A ponto de ele gargalhar ao cair da bicicleta.

Quando o encontrei, porém, ele se movia com cuidado ao redor da mesa de jantar, pois não conseguia ficar sentado por muito tempo. Poucos dias antes, o esforço de tentar erguer uma geladeira lhe rendera uma hérnia de disco. Era a quarta contusão significativa desde o início de sua terapia genética. Ele me garantiu que as lesões eram corriqueiras entre as pessoas em tratamento regenerativo: elas se sentem tão bem que se atrevem a fazer mais do que podem. Ao se inteirar das agruras do colega, George Church, geneticista de Harvard cujo laboratório colabora com o de Hanley, comentou: “Ao que parece, a terapia afetou mais sua mente que seus músculos.”

Hanley é um pesquisador dedicado. Como a FDA norte-americana exige autorização para testes em seres humanos, ele começou a experimentar terapias em si próprio. Leu tudo acerca da autoexperimentação e tabulou os resultados: oito mortes (incluindo a de Aleksander Bogdanov, com suas transfusões de sangue) e dez prêmios Nobel. Era cara ou coroa.

O microbiólogo reconheceu que, como modelo para reformular a longevidade, sua pesquisa apresentava certos problemas básicos. Em primeiro lugar, uma amostragem igual a 1; em segundo, um método terapêutico cujos resultados podem não ser duradouros; em terceiro, um gene cujos efeitos parecem ser regenerativos, em vez de transformativos. A fim de nos reprogramar de forma abrangente, precisaríamos inserir genes corretivos num vírus que, então, se dispersaria pelo corpo. Mas isso poderia alarmar nosso sistema imunológico.

O advento do CRISPR, uma ferramenta de edição dos genes, deu a pesquisadores a confiança de que estamos às vésperas de uma era da terapia genética. George Church e seus pós-doutorandos de Harvard selecionaram 45 variantes promissoras de genes, provenientes não apenas de “supercentenários” – pessoas que viveram 110 anos –, mas também de levedura, vermes, mosquitos e animais de vida longa. Church, contudo, ressalta que identificar os genes da longevidade é tarefa imensamente difícil: “O problema é que, do ponto de vista genético, a baleia-da-groenlândia, o macaco-prego ou o rato-toupeira-pelado – espécies que vivem muito mais que seus parentes próximos – não se revelam tão próximos assim de seus parentes, e sim a uma distância de dezenas de milhões de pares de bases.” O geneticista molecular Jan Vijg afirma: “Não podemos copiar apenas um mecanismo da tartaruga” – um animal que vive até 200 anos. “Teríamos de transferir nosso genoma para a tartaruga – e aí seríamos tartarugas.”

Transformar-se em parte em tartaruga não alarmaria Brian Hanley. Se formos capazes de ao menos encontrar os genes certos e fazer sua transmissão viral em segurança, “poderemos produzir transformações humanas que rivalizariam com as criações da Marvel Comics. Supermúsculos, ultradurabilidade, super-resistência à radiação. Pessoas assim modificadas poderiam viver nas luas de Júpiter e, fisicamente, obter energia dos raios gama a que se expuserem”.

 

Embora Ned David tenha mantido o aspecto jovial combatendo seu próprio envelhecimento em várias frentes, inclusive na escolha dos tênis, ele não tem como se livrar da ideia de que o inimigo é, fundamentalmente, um só. David compara a pesquisa sobre o envelhecimento a uma árvore gigantesca e acredita que a maioria dos esforços atuais-, incluindo as terapias nas quais sua empresa se empenha, são apenas galhos dessa árvore. “Ninguém está investigando o tronco”, ele disse num tom pesaroso. Em dezembro, no entanto, ele começou a ter esperanças de que a abordagem desse “tronco” já estivesse à vista.

Há tempos David suspeita que o epigenoma seja central para a longevidade. Se o genoma é nosso hardware celular, o epigenoma é seu software: é o programa que ativa o DNA, que diz às células que se diferenciem – tornando-se um macrófago ou um neurônio – e lhes diz também como lembrar a própria identidade. Os agentes controladores do epigenoma acrescentam grupos químicos a suas proteínas ou delas os subtraem; são os chamados marcadores. Os biólogos suspeitam que quando o epigenoma, com o tempo, acumula um número excessivo de marcadores, modificam-se radicalmente os sinais que ele envia às células, e que esses novos sinais é que produzem os efeitos do envelhecimento. Esse processo explicaria, por exemplo, como é que a pele de uma pessoa idosa pode se revigorar a cada mês com novas células, e ainda assim manter seu aspecto envelhecido.

Em 2012, Tom Rando e seu colega de Stanford Howard Chang publicaram um artigo que destacava que um óvulo humano fertilizado possui as propriedades da eterna juventude: o espermatozoide e o óvulo podem envelhecer, mas cada embrião zera o relógio. Chang, que é dermatologista e estudioso do genoma, havia descoberto que, uma vez acumulado um número suficiente de marcadores, o epigenoma a envelhecer ativa o genoma de modo a inflamar e envelhecer a pele, e que ele o faz por intermédio da proteína NF-kB. Chang inibiu a NF-kB em camundongos modificados geneticamente, e a pele deles rejuvenesceu. O trabalho de Rando com a parabiose parecia girar em torno de um processo semelhante: fazer com que células-tronco revertessem a um estágio mais jovem. Os dois cientistas sugeriram que “o ideal seria zerar o relógio do envelhecimento, mas deixar intacto o programa que produz a diferenciação das células” – ou seja, ativar as células-tronco para que elas revigorem tecidos e órgãos, mas sem fazê-las reverter ao estágio pré-diferenciado, o que produziria teratomas, uns tumores peludos e cheios de dentes. A meta era nada menos que obter um Benjamin Button em estágio Brad Pitt jovem.

Depois de publicado o artigo, Rando retornou à parabiose, e Chang começou a trabalhar num creme capaz de fazer a pele parecer décadas mais jovem. Segundo explicou: “É isso que as pessoas querem.” Mas disse também que a comunidade científica dedicada ao estudo da longevidade se mostrou demasiado bélica: “É o campo mais difícil em que já trabalhei, e eu não queria que minha carreira científica ficasse caracterizada por todas aquelas brigas.”

Em dezembro, Juan Carlos Izpisua Belmonte, do Instituto Salk, de San Diego, anunciou ter realizado o trabalho proposto por Rando e Chang. Depois de quatro anos de tentativas e erros em experimentos com camundongos, descobrira como ativar os fatores Yamanaka, isto é, os quatro genes que zeram o relógio em óvulos fertilizados. Camundongos de laboratório que beberam água com doxiciclina, mas apenas duas vezes por semana, passaram a viver pelo menos 30% mais. Camundongos comuns submetidos à mesma terapia apresentaram rejuvenescimento dos músculos e do pâncreas.

Como acontece na maioria dos esforços modernos para driblar o envelhecimento, Belmonte estava enganando o corpo – ou seja, tomava emprestado dos embriões um poderoso mecanismo e, com muito cuidado, aplicava-o em adultos. “O que se quer”, ele me explicou, “é que uma célula cardíaca se transforme numa célula cardíaca nova, mas sem reverter ao estágio de célula-tronco, o que faria o coração parar de bater. Fizemos isso. Nosso experimento foi muito precário e incontrolável, e outros efeitos danosos vão aparecer, assim como muitos fatores desconhecidos. Mas é bastante promissor.” Modificar o software das células era menos perigoso que mexer com seu hardware, ele disse, e, como acontece com todo software, “teremos uma versão melhor do programa no ano que vem”. Belmonte toma o cuidado de não subestimar a questão óbvia suscitada por sua pesquisa: se pudéssemos seguir zerando o relógio, não poderíamos viver indefinidamente? “A ideia não é aumentar a longevidade, e sim fazer com que a gente funcione melhor”, ele disse. Depois, acrescentou com uma risadinha: “Claro, se você aperfeiçoa todas as células do corpo, a consequência indireta é que vai viver mais.”

Estimulado pelo trabalho de Belmonte, neste inverno Ned David voou duas vezes para San Diego para se encontrar com ele e tentar descobrir se havia como “provar que aí está o relógio” e, depois, de “atrasá-lo para a marca dos 25 anos”. Em meados de março, os dois discutiram como proceder. Poderiam desenvolver marcadores que fizessem as células mudar de cor no laboratório, caso uma droga as rejuvenescesse? Ou caso a interferência se revelasse demasiada? Era possível ativar a telomerase para rejuvenescer o epigenoma? Conseguiriam encontrar genes que pudessem agir como freios de emergência do processo de reversão? Havia muito que considerar em termos da lógica dos sistemas.

David estava ansioso, mas ainda inseguro, com a possibilidade de abordagem do “tronco”. “Podemos reverter alguns tecidos”, ele disse, “mas ainda não encontramos o experimento capaz de virar o jogo.” E, rindo, acrescentou: “Se soubesse que experimento é esse, estaria trabalhando nele agora mesmo.” Ainda que Belmonte e David encontrem uma substância capaz de rejuvenescer as células-tronco na medida exata, é provável que efeitos colaterais indesejados se manifestem. Para consertar um tecido é necessário rejuvenescer células-tronco. Mas as células-tronco precisam se dividir para fazer esse trabalho, e o processo de divisão está sujeito a mutações aleatórias – só que mutações aleatórias levam ao câncer.

São inúmeros os artigos sobre longevidade que terminam com um aceno obscuro na direção de “fatores sistêmicos” desconhecidos. Solucionar o problema do envelhecimento não é como um romance policial. Não basta descobrir “quem é o assassino”: é preciso descobrir “como ele matou”, “onde” e “por quê”. Nas palavras de Tom Rando: “Não é que A causa B, que causa C, que causa D, que causa o envelhecimento. É mais parecido com o diagrama de uma rede de nós e conexões em que tudo está sujeito a retroalimentação, em que as consequências se transformam em causas e que, pouco a pouco, vai se desestabilizando cada vez mais.” Suponha que o corpo é o sistema de luzes de uma árvore de Natal (e ele não é); cada vez que você liga o sistema em série num circuito separado, algumas luzes se acendem e outras se apagam. Estabilizar parte dessa rede implica desestabilizar ainda mais a outra. Aquilo que nos faz nos desfaz também, e o processo da vida parece ligado inextricavelmente ao da morte.

 

Até este momento, as medidas mais significativas que você pode tomar para prolongar sua vida são aquelas de baixa tecnologia, as mesmas que seu médico, com aquela voz monótona, já o aconselhou a fazer: parar de fumar (dez anos a mais) e usar o cinto de segurança (dois anos a mais). Se já tiver tomado essas providências, acrescente exercícios regulares e fique de olho na dieta.

Tanto a restrição calórica como o exercício físico parecem refrear a enzima mTOR, uma via de sinalização que regula o metabolismo celular. Quando submetido a esforço, o corpo percebe que o momento é ruim para reproduzir, mas bom para reparar células e aumentar a resistência ao estresse. Os cientistas acreditam que esse é o modo pelo qual a natureza reage à fome: melhor sentar e esperar por um momento melhor para procriar. Parece haver um vínculo entre a abstinência sexual e o prolongamento da vida, uma vez que aquilo que os franceses designam la petite mort (o orgasmo) aparentemente acelera a chegada da morte definitiva. A rapamicina imunossupressora aumenta o tempo de vida dos camundongos, mas também faz murchar seus testículos. Analogamente – e eis aí a boa e a má notícia –, a maneira mais garantida de fazer um homem viver catorze anos mais que a média é torná-lo um eunuco.

Que passar fome tem suas desvantagens não é afirmação que surpreenda. Se você quer que a restrição calórica funcione, precisa diminuir o consumo de calorias em pelo menos 30%, e a melhor maneira de fazê-lo – o jejum intermitente – é a um só tempo desagradável para seus praticantes e impossível de ser patenteada por pesquisadores. O objetivo, portanto, é desenvolver drogas poderosas que reprimam a mTOR sem fazer com que o sujeito se sinta faminto. Ao mesmo tempo, porém, o site da Calorie Restriction Society aconselha cautela na limitação do consumo de calorias: “A restrição calórica iniciada subitamente na idade adulta diminui o tempo de vida dos camundongos.” E diz mais: “Há vários outros riscos dos quais é importante tomar conhecimento” – e nesse ponto, a página do site é interrompida.

Leonard Guarente, professor de biologia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) que realizou importantes pesquisas acerca das enzimas reguladoras da mTOR, as sirtuínas (uma década atrás, elas pareciam constituir uma possível chave mestra), é cofundador e cientista-chefe da Elysium Health. O primeiro produto nutracêutico da empresa, Basis, promete “regularização e otimização metabólica”. Por 50 dólares mensais, dois comprimidos diários provêm os elementos químicos que nutrem as sirtuínas. Ainda não existem dados clínicos que demonstrem que o produto beneficie seres humanos, razão pela qual, ao visitar Guarente em sua sala no MIT, perguntei se ele notara algum efeito produzido pela ingestão do comprimido. “Notei, sim”, ele respondeu. Depois, dirigiu um breve olhar para a assessora de imprensa da Elysium. “Posso dizer? Tudo bem se eu contar?” Ela assentiu discretamente, e ele revelou: “Minhas unhas estão crescendo mais depressa.” E o que isso significa? “Não sei, mas significa alguma coisa.”

 

Todos os principais imortalistas começaram no ramo da tecnologia e todos tiveram um pai que morreu jovem (como o de Kurzweil, que morreu quando Ray tinha 22 anos) ou desapareceu muito cedo (como o de De Grey, ainda antes de ele nascer). Compartilham uma perda precoce da inocência e uma fé profunda de que a mente humana é capaz de aperfeiçoar até mesmo o corpo. Quando estava na faculdade, Larry Ellison, cofundador da Oracle, perdeu a mãe adotiva para o câncer; mais tarde, doou 370 milhões de dólares para pesquisas acerca do envelhecimento. “A morte nunca fez sentido para mim”, contou a um biógrafo. “Como pode uma pessoa estar aqui e, de repente, desaparecer?” Bill Maris, que concebeu a Calico, disse que, ao refletir sobre a inevitabilidade da morte, sentiu “que talvez nossa missão aqui seja transcender isso e preservar a consciência indefinidamente”.

Os imortalistas dividem-se em dois campos. Os chamados Bonecos de Carne, liderados por De Grey, acreditam que podemos reequipar nossa biologia e permanecer em nossos corpos. Os RoboCops, comandados por Kurzweil, creem que acabaremos nos fundindo a corpos mecânicos e/ou à nuvem. Kurzweil tem se dedicado aos reparos e à otimização. Ainda no começo da carreira, inventou o escâner horizontal e uma máquina que lia livros em voz alta para cegos. São invenções que se desenvolveram enormemente com o passar do tempo, e agora ele tem certeza de que o que chama de “lei do retorno acelerado” está prestes a regular a longevidade humana.

Marcamos um encontro no Google, onde Kurzweil é diretor de engenharia. Ele fez questão de frisar que falava como futurista, não como empregado da empresa. Embora estivesse a poucos dias de completar 69 anos, parecia bem mais jovem. Depois de descobrir, com cerca de 30 e poucos anos, que tinha diabetes tipo 2, Kurzweil mudou radicalmente seu estilo de vida e começou a tomar suplementos. Engole cerca de noventa comprimidos por dia, entre os quais metformina, Basis, a coenzima Q10 (para força muscular) e fosfatidilcolina (para a elasticidade da pele). “Que tal?”, ele me perguntou, beliscando o antebraço. “Elástica!”, respondi.

Kurzweil acredita que os esforços para retardar o envelhecimento por meio da tecnologia atual são a primeira ponte rumo a uma longevidade indefinida. Mas é igualmente adepto da crença de que o corpo é, em essência, um computador feito de dados que podem ser sobrescritos e de aplicativos que podem ser atualizados. Portanto, logo nos veremos no centro de uma revolução biotecnológica que oferecerá terapias de imunização personalizada para o câncer e órgãos desenvolvidos a partir de nosso próprio DNA. Eis aí a segunda ponte, que, ele acredita, nos porá em velocidade de escape da longevidade dentro de quinze anos, aproximadamente. “Na verdade, sou um pouco mais otimista que Aubrey”, disse. A terceira ponte, que ele prevê que atravessemos lá pela década de 2030, é a da nanorrobótica, que irá nos prover de aparelhos do tamanho de células sanguíneas que, vagando pelo corpo e pelo cérebro, vão limpar os estragos que De Grey quer reparar por meio de intervenções médicas. “Eu costumava chamar isso de solução matadora da tecnologia da saúde”, disse Kurzweil, “mas ‘matador’ não é um bom nome.”

Quando cruzarmos a quarta ponte, esses mesmos nanorrobôs conectarão nossos cérebros a um anexo neocortical na nuvem, o que rapidamente expandirá nossa inteligência bilhões de vezes. Concluída essa transformação, em 2045 ocorrerá a singularidade e seremos como deuses. “Por um tempo, vamos ser um híbrido de pensamento biológico e não biológico, mas, à medida que a nuvem for dobrando de capacidade, a inteligência não biológica prevalecerá”, afirma Kurzweil. Ele ergueu ligeiramente os braços e pôs-se a fitá-los com os olhos apertados, como um carpinteiro incomodado com um nó na madeira.

Kurzweil reconhece que foi profundamente afetado pela morte precoce do pai, Fredric, um pianista e regente brilhante, que trabalhava sem cessar para sustentar a família. A viúva certa vez observou: “Foi duro para o Raymond. Ele precisava de um pai, e o pai nunca estava por perto.” Kurzweil armazenou cinquenta caixas de pertences de Fredric – cartas, fotografias, contas de luz – num depósito de Newton, no estado de Massachusetts. Espera algum dia criar um avatar virtual do pai, cuja mente pretende povoar de toda essa informação, assim como de suas próprias memórias do pai e de sonhos que teve com ele, dando origem a um Fredric Kurzweil 2.0.

“Passamos milênios racionalizando a tragédia da morte – ‘Ah, é natural, para morrer basta estar vivo’”, ele disse. “Mas não é isso que sentimos ao ouvir que uma pessoa querida morreu.”

 

Os Bonecos de Carne, em seu combate à idade, precisam lutar contra as contingências da evolução. Jan Vijg, coautor de um artigo recente que argumenta que nossa longevidade tem seu limite máximo nos 115 anos, disse: “Sim, nossos corpos são sistemas processadores de informações. Mas consertar o corpo-computador requer um entendimento profundo do que ocorre em nossas células em nível molecular. E não sabemos nem sequer quantos tipos de célula existem! Criar um ser humano não é tão fácil quanto criar uma inteligência artificial, porque somos muito confusos, desenhados que fomos de um modo ininteligível por mudanças arbitrárias produzidas pela seleção natural.”

Os RoboCops têm de lutar contra as fronteiras do humano. Osman Kibar, CEO da empresa de biotecnologia Samumed, disse: “Nós, humanos, somos muito criativos. Quando um limite biológico nos detém, trapaceamos, como Kurzweil, que diz: ‘Vamos mudar a definição de humano.’ À medida que nossas funções são enviadas para a nuvem ou substituídas, em algum ponto a gente vai parar de falar em ser humano e começar a falar em inteligência artificial.” Já dispomos de tecnologia que funciona no interior do corpo, como os marca-passos e os implantes cocleares. Um homem que sofre de paralisia recentemente conseguiu digitar oito palavras por minuto valendo-se de uma interface cérebro-computador instalada em seu córtex motor. Quanto tempo será preciso para que as vantagens dessa tecnologia possam ser aplicadas ao corpo todo?

O ponto nevrálgico parece ser o que fazer com nossa cabeça, ou, mais especificamente, com o cérebro. Benjamin Rapoport, neurocirurgião residente do Weill Cornell Brain and Spine Center, trabalha num projeto que pretende estabelecer uma conexão direta entre o cérebro e a inteligência artificial. Para ele, a questão é: “O que faz você ser você? A maioria das pessoas acha que é a mente. Mas será que ela só pode existir num substrato biológico muito úmido que pesa 1,5 quilo e no qual ela flutua feito uma água-viva? Ou será que essa mente poderia existir em outro lugar?” Num computador, por exemplo. Uma interface de mão dupla e alta largura de banda com o cérebro é coisa de que poderemos dispor dentro de uma década, talvez, e os cientistas já estão tentando mapear as dezenas de bilhões de neurônios e as, no mínimo, centenas de trilhões de conexões entre eles – é o chamado “conectoma”, um nome infeliz. Atualmente, só é possível criar um modelo do cérebro de alguém no nível das sinapses após a morte, mediante o fatiamento desse cérebro. Mas é possível que acabemos conseguindo produzir “cópias completas” do cérebro de pessoas vivas, o que equivaleria a dispor de cópias permanentes de nosso cérebro dotadas – assim esperamos – de consciência.

Mas essas cópias ainda seríamos nós? Mesmo que deixemos de lado a questão de que parte do ser humano é somática – de quanto de nossa identidade deriva das consequências táteis, sensoriais e emocionais de estar envolta em carne, em vez de na fileira D de uma torre de servidores –, não podemos descartar o problema da memória. Ao contrário da memória RAM de um computador, nossas memórias brotam de estímulos eletroquímicos que fazem o cérebro buscar um padrão semelhante e produzir um resultado. Não existe uma localização física da lembrança de um primeiro beijo. A recordação muda de acordo com o estímulo que a desencadeia. Se o beijo é rememorado no dia seguinte, se lemos sobre ele numa carta ou se topamos com a antiga namorada vinte anos mais tarde, a lembrança vai variar. Assim, se o Projeto Conectoma funcionar e formos transferidos para o silício, é possível que nos tornemos invulneráveis à decadência física e capazes dos feitos mais espantosos nos campos do aprendizado e do raciocínio, mas perderemos aquela lembrança das flores de açafrão em meio à chuva de primavera. E pode ser também que nem tenhamos lembrança de que um dia nos importamos com isso.

 

Ray Kurzweil e Aubrey de Grey têm o mesmo plano B, caso as coisas não avancem com a rapidez que eles esperam: quando morrerem, serão congelados em nitrogênio líquido. As instruções são para que sejam despertados somente quando a ciência tiver terminado de pavimentar o caminho até a imortalidade. O otimismo de ambos é admirável, e talvez a inquietação que seus projetos suscitam seja apenas o ressentimento normal dos que chegaram tarde ou foram deixados para trás. “As pessoas se amedrontam quando ouvem essas coisas”, disse Kurzweil. “Aí, falam: ‘Não sei se quero viver tanto assim.’” Para Kurzweil, pai de dois filhos, a aceitação da morte como inevitável é tão insana como a da morte precoce. “É uma postura filosófica comum dizer que a morte dá sentido à vida, mas o que ela faz é privar as coisas de sentido”, afirma. “Ela nos priva do amor. Significa a perda completa de nós próprios. É uma tragédia.”

E, no entanto, no ano passado, o geneticista Nir Barzilai promoveu a exibição de um documentário sobre a longevidade e, terminada a sessão, propôs uma pergunta a um auditório de 300 pessoas. “Na natureza”, disse à plateia, “longevidade e reprodução são permutáveis. A escolha número 1 é: você se torna imortal, mas não haverá mais reprodução neste mundo, não haverá mais gravidez, primeiro aniversário, primeiro amor e assim por diante.” Ele ria ao me contar, divertido com aquele jogo de cartas marcadas. “‘A escolha número 2’, eu disse, ‘é viver até os 85 anos sem jamais ficar doente, sempre saudável e bem, até que um dia você não acorda mais.’” A votação obtida pela escolha vitoriosa foi expressiva: “O número 1 teve dez ou quinze votos. Todas as outras pessoas votaram no número 2.”

O desejo de preservar a vida tal como a conhecemos é profundamente humano, ainda que o preço seja a morte. Em nossa programação está embutida a ideia de que a morte é a mãe de toda beleza. E está embutida também nossa determinação contraditória de permanecer exatamente como somos, para sempre – ou, pelo menos, por um tempinho a mais, antes que tenhamos de nos retirar.

ASSINANTE PIAUÍ

Use o mesmo e-mail e senha cadastrados no site da Ed. Abril no ato da assinatura. Esqueceu a senha ou o e-mail ?