Só restava a estrutura das casas. Em vez de telhados, violentas labaredas desgrenhadas. Havia gente a ser resgatada, havia as estruturas de dúzias de automóveis. Enfiamos as mãos nos bolsos e nos perguntamos por que diabos o mundo era tão insano e a guerra se tornara tão fácil
Ver dados da foto Só restava a estrutura das casas. Em vez de telhados, violentas labaredas desgrenhadas. Havia gente a ser resgatada, havia as estruturas de dúzias de automóveis. Enfiamos as mãos nos bolsos e nos perguntamos por que diabos o mundo era tão insano e a guerra se tornara tão fácil FOTO: ULLSTEIN BILD_GETTY IMAGES_1937

A destruição de Guernica

O bombardeio aéreo que arrasou o vilarejo durante a Guerra Civil Espanhola
George Lowther Steer
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Só restava a estrutura das casas. Em vez de telhados, violentas labaredas desgrenhadas. Havia gente a ser resgatada, havia as estruturas de dúzias de automóveis. Enfiamos as mãos nos bolsos e nos perguntamos por que diabos o mundo era tão insano e a guerra se tornara tão fácil FOTO: ULLSTEIN BILD_GETTY IMAGES_1937

George Lowther Steer teve uma vida intensa, em cuja década final se concentraram quatro guerras e oito livros. Morreu aos 35 anos, num acidente no dia de Natal de 1944, em Bengala, durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, era tenente-coronel do Corpo de Inteligência do Exército britânico e comandava as unidades indianas de radiodifusão, que atuavam na linha de frente, na Birmânia, munidas de megafones que transmitiam música e mensagens aos soldados japoneses, tentando convencê-los a se render; além disso, circulavam pelos vilarejos, buscando a conquista dos “corações e mentes” da população civil. O impacto da colisão foi tão violento que o relógio de pulso de Steer voou. Quando o acharam, os soldados indianos puderam ler a inscrição: PARA STEER DE EUZKADI – ou seja, para Steer, do País Basco.

A fim de entender por que os bascos presentearam Steer com um relógio de ouro, e por que sete décadas depois erigiram um busto em sua homenagem, vale lembrar o conselho que a correspondente de guerra americana Martha Gellhorn deu à sua mentora Eleanor Roosevelt, em 1938:

A senhora precisa ler o livro A Árvore de Gernika,[1] de um sujeito chamado Steer. Trata da luta dos bascos, e não há livro melhor sobre a guerra. É muito bem escrito e verdadeiro, e raros livros são assim, ainda mais entre os que falam sobre a guerra.

“A guerra” era a Guerra Civil Espanhola, que eclodiu em julho de 1936 quando o general Francisco Franco desencadeou uma insurreição de direita contra o governo esquerdista da República espanhola, um conflito que só terminaria em abril de 1939. Enquanto o país ruía e sofria com a radicalização, a República ofereceu maior autonomia às regiões da Espanha em troca de apoio militar contra os rebeldes franquistas. As duas regiões industriais mais ricas no noroeste e no nordeste, o País Basco e a Catalunha, aceitaram. Em ambas, a população falava língua própria, desfrutava de tradições culturais distintas e acalentava o sonho de se tornar uma nação autônoma. Os rebeldes franquistas, porém, abominavam qualquer cessão de poderes por parte do governo central e, convocando a ajuda militar de potências estrangeiras, como a Alemanha nazista e a Itália fascista, estavam decididos a destruir os “separatistas vermelhos”.

G.L. Steer, que retornara pouco antes da Segunda Guerra Ítalo-Etíope, relatou parte desse enfrentamento inicial no noroeste da Espanha para o Times londrino, e foi ficando fascinado pela vida daquele povo apreciador de boinas. Em A Árvore de Gernika, ele conta como Euzkadi, a república democrática estabelecida pelos bascos em sua verdejante região natal junto à baía de Biscaia, lutou por sua liberdade e dignidade em uma guerra civil atroz. Após um ano de combates, bloquea-dos pelo mar, bombardeados pelo ar, enfrentando desvantagens extraordinárias em suas próprias colinas, os bascos acabaram derrotados pelas forças franquistas – mas perderam com honra, sem recorrer a assassinatos, torturas ou traições.

Então com 27 anos, Steer escreveu a reportagem mais importante de sua vida, alertando o mundo para o bombardeio aéreo que arrasou o vilarejo conhecido como Gernika pelos bascos e Guernica pelos espanhóis. O relato, publicado tanto pelo Times londrino como pelo New York Times no dia 28 de abril de 1937, uma quarta-feira, descrevia de que maneira uma esquadrilha alemã tinha despejado bombas de alto teor explosivo e milhares de bombas incendiárias de termita sobre um vilarejo indefeso, ao mesmo tempo que, em voos rasantes, caças alemães metralhavam os civis que tentavam fugir.

Em seguida, o maior pintor do século XX entra na história. Ao ler sobre a atrocidade e vendo as fotos do incêndio do vilarejo, Pablo Picasso decide pintar a enorme tela em branco e preto intitulada Guernica. A incisiva reação pública ao bombardeio de civis forçou uma mudança na política de não ingerência do governo britânico, que logo depois permitiu que 4 mil crianças bascas encontrassem refúgio, e vida nova, no Reino Unido.

NICHOLAS RANKIN

Naquela tarde, fomos informados no Estado-Maior do bombardeio de Markina, Bolíbar e Arbácegui-Guerricaiz. Todos os vilarejos no caminho até Gernika haviam sido arrasados.

A destruição em Arbácegui bloqueava nosso caminho. Havia quatro mortos perto da igreja. Dois chalés jaziam estatelados e fumegantes através da estrada, e tivemos de passar por eles e descer até os campos para examinar as maiores crateras de bombas que já havíamos visto, ainda quentes e fedendo a metal. Tinham mais de 6 metros de profundidade e o dobro de largura. Eram crateras lunares, que nos deixaram assombrados. De repente, na encosta atrás de nós, o sino da igrejinha começou a badalar. Vimos os dois padres velhos e alguns moradores tropeçarem pelos escombros e pela terra revirada até a porta da torre. Em seguida fez-se silêncio no vilarejo; não se via nada além das casas fumegantes e dos muros chamuscados pelo fogo.

Sobre a serra a noroeste, na direção de Gernika, surgiram seis caças em formação. Vinham bem rápido, nivelados e em linha reta, e seus motores faziam um ruído que significava guerra imediata. Em poucos segundos estavam sobre o vilarejo. Voavam tão baixo que dava para ver a olho nu os pilotos e os detalhes dos aviões, até as rodas divididas e o nariz característico do Heinkel 51, o caça do Exército alemão. Eram os mesmos aviões que Kienzle e Schulze-Blanck[2] disseram que haviam pilotado desde Vitoria:[3] seis Heinkel 51 em formação de combate.

Christopher Corman e eu achamos que o melhor refúgio seria o buraco da bomba. Chegamos ao fundo dele em dois saltos. Lá embaixo, porém, ele parecia bem menos seguro e dava para ver um bom pedaço do céu. Mas era um buraco, e ali ficamos no lado sombreado com a cara metida entre a argila revirada e fragmentos de bomba.

Não havia nenhum movimento perceptível no vilarejo, tampouco veículos se movendo ou parados na estrada, além do nosso carro. Mesmo assim eles lançaram algumas bombas pequenas e metralharam o local até atingir todos os grãos de poeira que se levantaram dos telhados ainda remanescentes.

Em seguida voaram em círculo e nos avistaram. Aí, durante quinze ou vinte minutos mergulharam a toda velocidade sobre nosso buraco, disparando as armas duplas desde o alto até 60 metros. Só nos restou fingir que estávamos mortos, e por momentos ficamos na dúvida quanto a isso. O velho Corman estava contando uma longa história sobre a ineficácia das metralhadoras dos aviões contra posições entrincheiradas, mas de algum modo naquele dia ele soava bem menos convincente, e pedi que ficasse calado e esperasse para ver. Também me pareceu bem pouco digno para um inglês ficar comendo terra diante da aviação alemã; mas o fato é que não me ocorria nenhuma alternativa segura. Mal conseguia pensar. Quando estava quase concluindo o processo muito concreto de recuperar a presença de espírito, outro maldito caça vinha rugindo em nossa direção, deixando-nos de novo estatelados e passivos.

Evidentemente, o ruído é o mais assustador. A despeito do estrondo do tiroteio, após um quarto de hora não vimos nem uma bala dentro do buraco. E assim que partiram nos lembramos da frequência com que os pilotos continuavam com o dedo no gatilho mesmo com os aviões já ascendentes, visando as estrelas. O terror e o ruído eram seus instrumentos, não a morte.

Eu já fora metralhado algumas vezes antes e fui metralhado muitas vezes depois, mas nunca fui um alvo tão fácil. Aquilo me impressionou. Devo ter experimentado o mesmo que um jovem recruta. Disparos contínuos vindos do céu não assustam, mas paralisam. Nos arrastamos para fora do buraco lentamente. Não olhamos muito ao redor. Estávamos o tempo todo pensando na experiência pela qual havíamos passado, e não nos restava nem um pensamento sobre o futuro ou o presente. Éramos material bruto para qualquer surpresa.

Nenhum dos moradores locais ficou ferido, mas eles preferiram permanecer juntos na escuridão da torre da igreja, suponho que até o cair da noite. O terror deles era real, não semiexorcizado como o nosso. Voltamos para o carro perto da barricada incendiada. Tampouco fora atingido. Pedimos ao motorista que seguisse direto para Bilbao.

No caminho de volta, tivemos de parar duas vezes e esperar que passassem os aeroplanos inimigos. Eram bombardeiros ligeiros Heinkel 111, e avistamos vários voando à nossa direita rumo ao esteiro de Gernika. O mesmo alarme prendia os lavradores a buracos e muros; os campos estavam tragicamente desertos e desnudos. Quando atravessamos a passagem de nível, ouvimos o bombardeio ao norte, onde o esteiro se acomoda no vale verdejante. Não dava para ver nada, devido às colinas. As bombas devem ter sido jogadas pelos aviões que nos sobrevoaram. Havíamos passado por sustos suficientes naquele dia e continuamos em frente, sem parar, até chegar a Bilbao, onde escrevemos nossos relatos.

Pelo relógio do nosso carro eram cerca de quatro e meia da tarde, segunda-feira, 26 de abril.

 

Segunda era o dia da feira semanal em Gernika, quando o vilarejo ainda existia. Por volta das quatro e meia, no verão, o mercado a céu aberto ficava lotado. A Guerra Civil não havia alterado muito a rotina dos camponeses locais, que traziam animais e produtos do vale em grande quantidade para vender na feira. Pelo contrário, os negócios até que iam melhor. Em Gernika, onde normalmente viviam 6 mil pessoas, havia agora uma população adicional de 3 mil refugiados e dois batalhões bascos, com muitas pesetas para gastar. Alguns ricos sediciosos haviam sido presos ou tinham fugido, mas foram poucos. Suas belas casas de pedra com imensos brasões floreados e gravados sobre as portas largas estavam fechadas, mas eles nunca haviam frequentado muito a feira, e a maioria pouco visitava Gernika em épocas de paz.

Gernika permaneceu uma modesta cidadezinha do interior biscaíno.[4] A população era bem-comportada, os padres circulavam de batina, havia missa nas igrejas todos os dias e o dia todo. Os dois batalhões do Partido Nacionalista Basco aquartelados ao norte da cidade, onde uma avenida verde-aquosa de plátanos ondulava na direção de Bermeo, eram populares entre os moradores, e na própria cidade havia o costumeiro posto da polícia motorizada basca. Ali não era local de passagem dos soldados em retirada. As tropas estavam mais além de Markina, quilômetros a leste, e em Oitz, quilômetros ao sul. Gernika estava bem atrás da frente de combate, sendo parte de suas linhas de comunicação com Bilbao; a destruição da cidade isolaria as tropas em retirada do Estado-Maior e sua base.

Depois das quatro, ainda chegavam a Gernika as carroças dos camponeses, movendo-se sobre sólidas rodas de madeira e puxadas por bois cuja cabeça era protegida do sol por pele de carneiro. Com longas e franzidas batas de feira, os camponeses bascos caminhavam de costas diante dos bois, hipnotizando-os até Gernika com varas esguias, que serviam para tocar suavemente os chifres e a canga. Eles conversavam com os bois. Outros levavam ovelhas à feira. Havia um agrupamento de animais perto da igreja paroquial, uma imponente e cavernosa edificação, de interior alto e escuro, que se erguia sobre um lance de degraus baixos como folhas empilhadas.

É pouco provável que alguém estivesse pensando na guerra quando, às quatro e meia, soou alto o sino da igreja. Em toda a Espanha, os badalos de um único sino servem de aviso para os ataques aéreos. A população buscou abrigo, e as ovelhas na praça foram deixadas à própria sorte.

Existiam vários abrigos antiaéreos em Gernika, construídos depois do terrível raide contra Durango no dia 31 de março.[5] Os porões foram tomados por sacos de areia, e a entrada foi protegida do mesmo modo: um cartaz na porta, com a palavra refugio pintada de modo ornamental, indicava onde as pessoas tinham de se enfurnar. Embora tivessem sido raros os alertas de ataques aéreos em Gernika desde o início do conflito, nessa altura toda a população basca levava muito a sério os sinos das igrejas.

Em poucos minutos, um Heinkel 111 surgiu e despejou seis bombas médias, provavelmente de 22,5 quilos, perto da estação, além de uma chuva de granadas. Um diretor da companhia ferroviária que estava na estação ligou para Bilbao a fim de informá-los que um aeroplano estava bombardeando Gernika.

Minutos depois apareceu outro Heinkel 111, que bombardeou a mesma área, porém mais perto do Centro. Agora a linha de telefone para Bilbao fora cortada. Inclinando-se e acelerando, o avião metralhou a cidade de modo aleatório antes de tomar o rumo de casa.

O padre da paróquia, Aronategui, deixou a igreja com os sacramentos, pois recebera a notícia de gente agonizando perto da estação de trem. Andou calmamente pelas ruas desertas levando os santos óleos. Ainda não havia nenhuma notícia de incêndio.

 

Quinze minutos se passaram, e as pessoas começaram a deixar os abrigos. Um forte troar de motores foi ouvido a leste. Era o que, em momentos mais descontraídos, chamávamos de tranvías, ou bondes – os Junkers 52, tão desajeitados que mais pareciam sacolejar e retinir do que voar. Eram os bombardeiros mais pesados que a Alemanha enviara à Espanha.

Sobre a pequena cidade, cujas ruas voltaram a se tornar trincheiras vazias, dispersaram sua carga, no ritmo de 1 tonelada por vez. Faziam com exatidão a curva sobre Gernika, enquanto caía mecanicamente a fileira de bombas. Em seguida veio o estampido das explosões, e a fumaça recobriu Gernika como a carapinha na cabeça de um negro. Brotava por todos os lados, à medida que vinham mais bombardeiros pesados.

Além de muitas bombas de 22,5 quilos e 45 quilos, também lançaram grandes torpedos que pesavam 450 quilos. Gernika é uma cidadezinha compacta, e a maioria dessas bombas atingiu edifícios, rasgando-os verticalmente, de cima a baixo, e ainda mais embaixo. Chegaram até os abrigos. Até então as pessoas haviam se mantido firmes, mas agora entraram em pânico.

A escolta dos Heinkel 51, a mesma talvez que havia nos importunado naquela tarde, estava à espera desse momento. Até agora haviam metralhado as estradas ao redor de Gernika, dispersando, matando ou ferindo ovelhas e pastores. Enquanto a população fugia aterrorizada, mergulharam dispostos a massacrar tudo o que se movesse. Ali foram mortas as mulheres cujos corpos vi mais tarde. Com a mesma técnica usada em Durango em 31 de março, quase um mês antes.

Os pequenos caças desciam alinhados, como ondas dançarinas e faiscantes. E as ondas se quebravam sobre os campos enquanto eles mergulhavam contentes. Vinte metralhadoras disparando ao mesmo tempo e, atrás delas, o rugido das ondas produzidas pelos dez motores. Sempre voavam com o nariz voltado para Gernika. Para os pilotos, deve ter sido como deslizar em ondas. As pessoas apavoradas se estendiam de bruços em valas, colavam as costas no tronco das árvores, dobravam-se para entrar em buracos, fechavam os olhos e saíam correndo pelos verdes e amenos campos abertos. Insensatamente, muitos correram de volta ao vilarejo antes da chegada da maré aérea. Aí começou de fato o bombardeio pesado de Gernika.

Foi então que a cidade viu-se obliterada daquela opulenta paisagem, a província de Biscaia, por um punho esmagador.

Era por volta das cinco e quinze. Durante duas horas e meia, esquadrilhas de três a doze aeroplanos, dos tipos Heinkel 111 e Junkers 52, bombardearam Gernika sem piedade e de maneira sistemática. Escolheram os alvos na cidade metodicamente, começando pelo setor a leste da Casa de Juntas e ao norte da fábrica de armas. As primeiras bombas caíram como um círculo de estrelas em volta do hospital na estrada para Bermeo; todas as janelas foram arrebentadas pelo sopro divino, os milicianos feridos foram arremessados dos leitos, a estrutura interna do edifício foi sacudida e rompida.

Nas casas evisceradas, cujos tapetes, cortinas, vigas, pisos e móveis destroçados foram lançados nos mais diversos ângulos e preparados para o incêndio, os aviões lançaram flocos de prata. Tubos com 1 quilo, do tamanho de um antebraço, com um reluzente tom prateado no revestimento de alumínio e magnésio; dentro deles dormia o fogo, como no princípio do mundo de Prometeu. Sob a forma de 65 gramas de pó prateado, pronto para escapar por seis furos na base do tubo brilhante. Assim, enquanto as casas eram destroçadas, o fogo embainhado descia do céu para consumi-las.

A cada vinte minutos chegava nova onda de atacantes. E entre as explosões e os jorros de labaredas provocados pelo metal incandescente em contato com cortinas, vigas, portas e tapetes, enquanto uma grande mortalha cinzenta pairava sobre Gernika, suportada pelas colunas brancas ali onde começavam os incêndios, durante as pausas da guerra moderna, a população corria pelas ruas para arrebentar as portas dos abrigos sufocantes, e para retirar as crianças e pertences pequenos e sem valor das casas tomadas pelo fogo.

Houve muitos gemidos em Gernika, muita labuta ofegante para desencavar os feridos antes da chegada dos aviões seguintes. Vinte minutos durava o intervalo entre cada onda de fogo, e os padres aconselhavam as pessoas para que se mantivessem calmas. Nesse momento, algo como um espírito de resistência passiva havia brotado nelas. A face de Gernika transformava-se em cinzas, a face de todos estava cinzenta, mas o terror alcançara um ponto de obstinação submissa jamais visto em Biscaia.

Nos intervalos, as pessoas saíam do vilarejo, mas o temor dos caças e de se separar de suas famílias fez com que muitos permanecessem. E então os aviões retornaram com os tubos de lata, despejando-os sobre Gernika; outra parte foi destruída, e mais gente acabou soterrada nos refugios.

 

Não sei se já lhe ocorreu alguma vez ficar sentado em uma estação ferroviária, logo após perder um trem, a esperar por outro que só vai chegar dali a duas horas e meia. Uma estação ferroviária do interior, onde não se pode comprar nada para ler ou fumar ou comer. E, se não é possível pegar no sono, cada hora leva dias para passar. Agora em Gernika era quase impossível adormecer, exceto aquele sono do qual não se acorda, nem em Gernika, nem em Biscaia, tampouco em qualquer outro lugar deste mundo. E como não havia nada para comer ou fumar, e a fumaça impedia a leitura, não restava outra distração além de permitir que o terror expandisse essas horas não mais em dias, e sim em meses ou anos. Anos semipassados em abrigos subterrâneos que poderiam desabar a qualquer momento, e semipassados nas ruas de um vilarejo irreconhecível, buscando por gente que agora também estaria irreconhecível.

E assim se nota que estar em Gernika quando ela foi destruída era, em sentido restrito, como esperar pelo trem em uma estação do interior. Em ambos os casos, o tempo passava lentamente.

Logo pouco restava da cidadezinha. A igreja de San Juan ardia ferozmente, com um enorme buraco de bomba atravessando o telhado, o altar e o púlpito, que se encresparam em meio às labaredas. Mesmo edifícios isolados foram atingidos; na velha igreja paroquial de Andra Mari, no canto da praça para onde haviam sido levadas as ovelhas, a capela atrás do altar estava em chamas.

Enquanto as pessoas que não estavam presas nos abrigos corriam para o norte empurradas pela conflagração generalizada, os aviões que haviam atacado Gernika passaram a fazer voos rasantes. Deve ter sido difícil para eles divisar os alvos em meio à fumaça e à poeira que se erguia dos campos incendiados. Voavam a quase 200 metros de altura, desfazendo-se pouco a pouco e sem parar dos tubos de prata, que caíam sobre as casas que continuavam de pé, formando poços de calor insuportável; e em seguida os tubos escorregavam e tombavam de um piso a outro. Gernika era tão densa quanto turfa, boa para servir de combustível aos aviões alemães. Agora ninguém mais cuidava de resgatar parentes ou possessões; entre os bombardeios, saíam de Gernika adiante da fumaça sufocante e sentavam-se às centenas nas estradas para Bermeo e Mugika. Afortunadamente, os caças haviam ido embora. Já não mergulhavam a fim de mutilar a população em fuga ou de persegui-la pelos campos abertos. As pessoas estavam esgotadas pelo ruído, o calor e o terror; jaziam como trouxas de roupas sujas, imóveis e incapazes de pensar. Nada havia para salvar em Gernika além de colchões, travesseiros velhos, mesas e cadeiras de cozinha que haviam sido arrastados para longe do fogo. Às sete e meia da noite, o fogo consumia toda a movimentada e pequena cidade, com exceção apenas da Casa de Juntas e das casas das famílias fascistas. Mais ricas que as outras, essas pessoas viviam em casarões de pedra distantes do resto da população; suas propriedades não foram infectadas pelo incêndio que se alastrava, mesmo quando, pressionado pelo vento, o fogo estendeu o braço violento para acariciá-las.

Às quinze para as oito o último avião desapareceu no horizonte. Agora dava para ouvir, com os ouvidos semientorpecidos pelos motores dos grandes bombardeiros e pelas explosões das bombas pesadas, o crepitar nervoso da conflagração criminosa em toda a cidade, assim como o cambaleio e o vacilante colapso de tetos e paredes. Gernika havia acabado e, enquanto caía a noite e a polícia motorizada avançava hesitante pela estrada a fim de avisar Bilbao por telefone de que tudo havia acabado, a imensa fornalha em que se tornou começou a produzir efeitos de cor carmim nas nuvens noturnas. Com muita delicadeza e suavidade, latejavam e refletiam o movimento de morte da cidade. Elas a cobriram como um teto almofadado e carmesim, como as tapeçarias de um monarca agonizante, onduladas e opulentas, movendo-se à luz de Gernika.

Ao redor do cadáver do mais antigo povoado basco, os caseríos conflagrados nas encostas eram como velas acesas. Os aviões haviam despejado sobre eles o restante de seu fogo e atingiram muitos.

Recuperando a fala e tentando entender o que ocorrera, os bascos perguntaram uns aos outros quantos aviões haviam atacado a cidade. Alguns disseram oitenta, outros uma centena, outros ainda duas centenas, outros mais ainda. Não dava para dizer com certeza; mas aqueles que estiveram fora de Gernika a tarde toda disseram que de quarenta a cinquenta aviões alemães haviam participado do ataque, incluindo dez caças. Os bombardeiros retornaram várias vezes após serem recarregados.

Para quem estava em Gernika, não era questão de número, mas de um terror inquantificável e imensurável. Tudo o que conseguiam ouvir era o troar dos motores e o estralar das explosões que não paravam mais até soarem bastante monótonos. Não podiam ver nada além das portas dos abrigos e seus próprios rostos desamparados, e às vezes, se estavam na rua, os pontos de fogo onde caíam os tubos prateados; caíam muitos de cada vez, pois eram jogados em grupos de 24, presos a um eixo giratório. Outras vezes, antes de pular nos abrigos, avistavam em meio à fumaça as asas rígidas e insistentes dos aviões que os perseguiam, e ouviam a queda do metal sem asas que jorrava cegamente por toda a cidade, arrebentando paredes e telhados e despojando as árvores de folhas e ramos.

Quando voltaram ao vilarejo e caminharam entre a brisa suave das chamas que agora se alastravam por todas as casas, viram o mesmo que eu vi mais tarde naquela noite.

 

Em Bilbao, enviamos as matérias da jornada; elas falavam dos bombardeios ao longo das linhas de comunicação durante o dia, desde Markina até Arbácegui-Guerricaiz. Em algum momento depois das sete, Arbex[6] me avisou que Gernika estava sendo bombardeada; disse que havia recebido notícias mais cedo, mas não sabia dos detalhes. Não pareceu dar muita importância ao ocorrido. E eu não o mencionei na matéria que enviei naquela noite.

Às oito e meia, estávamos jantando no Torrontegui e havia bastante gente ali. O capitão Roberts, do Seven Seas Spray, e sua filha Fifi,[7] Arbex, Christopher Holme[8] e alguns outros jornalistas partilhavam comigo a ampla e sombria sala de jantar, povoada pelos quase fantasmas de mulheres e velhos direitistas, que conversavam em sussurros e deslizavam em vez de andar. O jantar estava indo razoavelmente bem quando, às 22 horas, Antonio Irala ligou. “Gernika está em chamas”, disse.

Conseguimos carros, jogamos os guardanapos no chão e saímos correndo na escuridão rumo a Gernika. Lembro-me do clima no qual segui para aquele incêndio; o mesmo no qual muita gente na Inglaterra recebeu a notícia. Irala devia estar exagerando, senti. Era impossível que todo o vilarejo estivesse queimando.

Seguimos o carro de Arbex através do campo pela mesma estrada que havíamos percorrido naquela manhã. Ele dirigia como um lunático, com a piteira projetando-se para fora da janela aberta. Brilhava à nossa frente, até que o perdemos diante de um céu mais luminoso.

 

Vinte e cinco quilômetros ao sul de Gernika, o céu começou a nos impressionar. Não era mais o céu chapado e mortiço da noite; parecia se mover e carregar veias latejantes de sangue; um florescimento vital o encorpava, corava sua pele redonda e macia.

Mais adiante adquiriu um tom rosado esplendoroso. O tipo de rosa com que as parisienses vêm sonhando há séculos. E parecia imensamente gordo; estava começando a nos desagradar.

Ainda não tinha uma origem. Gernika permanecia oculta além dos morros pelos quais corríamos. Mas agora dava para ver que a gordura se devia às grandes nuvens bojudas de fumaça, e o rosado, ao reflexo sobre elas de alentado incêndio. À sua maneira vaga e abrangente, o céu estava espelhando Gernika, e pulsava mais lentamente, no ritmo da destruição que bailou sua dança de guerra sobre o lar de 6 mil seres humanos.

Deixando para trás os morros, por fim avistamos Gernika. Só restava a estrutura das casas. Em todas as janelas, olhos aguçados de fogo; em vez de telhados, violentas labaredas desgrenhadas. A estrutura tremia, e a violenta desordem rubra tomava o lugar da geometria estrita. Cautelosamente, avançamos de carro pelo caminho do sul que desembocava lá, e que não era mais uma rua. Vigas enegrecidas ou incandescentes e fios de telégrafo esfarrapados rolavam bêbada e alegremente pela via, e das casas em ambos os lados brotavam as chamas como o vapor se ergue naturalmente do Niágara. Quatro ovelhas mortas jaziam à direita em uma poça de sangue, e quando nos aproximamos da praça central, evitando enormes buracos de bombas e a terra recém-vulcanizada diante da Casa de Juntas, topamos com uma vintena de milicianos atordoados, do batalhão Saseta, imóveis à beira do caminho, meio que esperando suas ordens, meio que incapazes de entendê-las. As chamas das casas iluminavam os semblantes exauridos e vulneráveis.

Na praça, à sombra escura da Casa de Juntas, que naquela noite proporcionou a única sombra em Gernika, as pessoas sentavam-se em cadeiras quebradas, estendiam-se em mesas grosseiras ou colchões embebidos em água. Em sua maioria, mulheres: centenas delas estavam dispersas ao redor do espaço aberto e, enquanto passávamos, tateavam em torno, remexiam em travesseiros sujos, tentavam dormir, tentavam debilmente caminhar. Conversamos, e elas me contaram tudo o que havia acontecido. Essas pessoas vitimadas foram a fonte de tudo o que escrevi. Dois padres estavam por ali, mas ninguém sabia de Aronategui, a quem supunham morto. Conversavam com gestos cansados e frases inesperadamente curtas para a Espanha, e imitaram os ruídos curiosos dos bombardeiros se posicionando, os caças metralhando, as bombas explodindo, as casas desmoronando, os tubos de fogo jorrando e se derramando por toda a cidade. Esse foi o testemunho dos moradores de Gernika, extenuados e de olhos inflamados. Só mais tarde pessoas que nunca estiveram lá começaram a conceber e a contar outras histórias.

Algumas das testemunhas estavam completamente mudas. Ou eram desencavadas de casas demolidas – famílias inteiras, mortas, corpos manchados de azul e preto. Outras foram trazidas dos arredores de Gernika com o corpo crivado de balas de metralhadora – uma delas, uma jovem encantadora. Os milicianos choraram ao colocá-la no chão do hospital destroçado; não conseguiam explicar as lágrimas – apenas choravam.

Uma brigada de bombeiros lançava um débil jato d’água sobre a capela de Andra Mari. Fui até as sombras da Casa de Juntas. O jardim fora revolvido, as janelas estavam quebradas; mas atrás da Casa erguia-se o carvalho das liberdades civis bascas. Intocado! O velho tronco escuro, sob o qual, quando florescia, os reis católicos prometiam respeitar a democracia basca, ali estava em sua morte mumificada, intocado entre as grossas colunas brancas. Os assentos, gravados com as armas de Biscaia – a árvore e os lobos à espreita –, onde o señor de Biscaia recebia o juramento de submissão e respeito, intocados e verdes. Pétalas de rosa haviam tombado sobre as pedras ao redor – confete rosado soprado no crepúsculo pelo bombardeio de Gernika.

No Centro da cidade, as labaredas de fogo menores agora emitiam um rugido único. A polícia motorizada, juntamente com Monzón, o ministro do Interior, permanecia impotente além da praça, onde as ruas se adensavam e se emaranhavam para formar o centro da conflagração. Tentamos entrar ali, mas as ruas eram um verdadeiro tapete de brasas vivas; blocos de escombros deslizavam e caíam das casas, e, desde as paredes que ainda se mantinham eretas, o calor reluzente fustigava as bochechas e os olhos. Havia gente, diziam, a ser resgatada ali; havia as estruturas de dúzias de automóveis. Mas nada se podia fazer, e enfiamos as mãos nos bolsos e nos perguntamos por que diabos o mundo era tão insano e a guerra se tornara tão fácil.

Durante duas horas conversamos com as pessoas em volta da grande fornalha. Fumei um tanto de cigarros para acalmar o espírito, voltei de carro a Bilbao e deixei para escrever a história ao acordar.

Caminhões do governo e carros de bois levaram embora os refugiados. Nossos faróis iluminavam os ombros caídos e os cobertores soltos de centenas de pessoas que lentamente seguiam a pé para Bilbao e Munguía.

Entre cigarros, examinei três tubos prateados recolhidos nessa noite em Gernika. A termita de prata destilava-se pouco a pouco de suas bases; os tubos vinham da fábrica alemã RhS e haviam sido produzidos em 1936, dizia a etiqueta. Sobre o texto havia um símbolo em miniatura, a águia imperial com as asas de espantalho abertas.

Trecho do livro A Árvore de Gernika, que será lançado este mês pela Companhia das Letras.

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[1] O livro The Tree of Gernika: A Field Study Of Moderm War [A Árvore de Gernika: Um Estudo de Campo da Guerra Moderna] foi publicado em janeiro de 1938, poucos meses depois que as forças de Franco derrotaram os bascos, prendendo inúmeras pessoas e forçando outras tantas ao exílio.

[2] Referência a dois oficiais alemães que foram presos em 5 de abril e levados à penitenciária de Larrinaga, em Bilbao, onde o autor se encontrou com eles. (“Kienzle era uma das pessoas mais encantadoras que conheci, e os bascos se afeiçoaram muito a ele; já Schulze-Blanck só queria esmagar o que via pela frente.”)

[3] Município da província de Álava que, junto com Biscaia e Guipúscoa, compõe o território do País Basco.

[4] Relativo à província de Biscaia (capital Bilbao).

[5] De 31 de março a 4 de abril de 1937, aviadores italianos bombardearam o vilarejo de Durango, matando crianças, mulheres e homens predominantemente civis.

[6] José Maria Arbex Gussi, jovem comandante do Estado-Maior que, três dias depois da queda de Bilbao (19 de junho de 1937), passou para o lado franquista.

[7] W. H. Roberts comandava o Seven Seas Spray que, “adornado com sua filha de 20 anos, Fifi”, atracou no porto de Bilbao na manhã de 20 de abril.

[8] Correspondente da agência Reuters.

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