Eurico Miranda se diz um homem seguro (Não tenho essas #@$%%¨@ de conflito existencial) e cortês ("Se uma mulher está comigo no elevador, pode ser uma faxineira, eu deixo que saia na minha frente")
Ver dados da foto Eurico Miranda se diz um homem seguro (Não tenho essas #@$%%¨@ de conflito existencial) e cortês ("Se uma mulher está comigo no elevador, pode ser uma faxineira, eu deixo que saia na minha frente") FOTO: CARLOS MESQUITA_AGÊNCIA O DIA

Eurico, #@*!

Conhecedor de Dostoievski e Victor Hugo, mas influenciado pelo O Pequeno Príncipe, o cartola deixou de ler para se dedicar totalmente ao Vasco
Roberto Kaz
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Eurico Miranda se diz um homem seguro (Não tenho essas #@$%%¨@ de conflito existencial) e cortês ("Se uma mulher está comigo no elevador, pode ser uma faxineira, eu deixo que saia na minha frente") FOTO: CARLOS MESQUITA_AGÊNCIA O DIA

Eurico Miranda acendia um charuto quando o celular tocou. “Pelo portão dezoito, entra pelo portão dezoito”, repetiu ele pelo telefone. Em seguida, ligou para o chefe da segurança do Estádio de São Januário, sede do Vasco da Gama, o clube do qual ele é presidente há sete anos, e ordenou: “Tubarão, quando o secretário chegar traz ele aqui na minha sala, entendeu?” Taciturno, murmurou: “Com um horário desses, não vai ter ninguém nessa #*@! de jogo.” Eram nove da noite de uma quarta-feira e a partida entre Vasco e Resende estava prestes a começar. Acomodado em seu gabinete, que tem vista para o campo, Eurico Miranda conversava com torcedores. Um deles era padre Carlinhos, que viajara desde Formiga, no interior de Minas Gerais, trazendo-lhe um queijo de presente. Ao saber da condição eclesiástica do visitante, Miranda se entusiasmou. “Então absolve tudo, absolve aí, ô meu filho!”, bradou, mexendo largamente os braços. Mas logo avisou ao padre: “Tu pode ficar mais um pouco aqui, mas assistir ao jogo, nem pensar.”

Miranda soube pela televisão que o Botafogo ganhava por 5 a 2 do Mesquita. Mudou de canal e descobriu que o Flamengo também ganhava, por 1 a 0, do Macaé. “Já vi demais”, disse com irritação, e sintonizou numa partida do campeonato paulista. Foi interrompido pela chegada de Eduardo Paes, secretário estadual de Esportes, que pretende se candidatar à prefeitura do Rio. Da entrada do gabinete, Paes saudou: “Euricão!” O dirigente respondeu, enquanto se levantava para abraçá-lo: “Boa noite, secretário e futuro prefeito!” Paes apertou a mão do assessor e faz-tudo de Miranda, Ricardo Vasconcellos, e o elogiou: “Santo homem.”

Os três se sentaram diante da janela, tendo à vista, do outro lado do campo, uma faixa com a frase “Sempre Eurico”. O dirigente bebia um suco de pêssego em lata. Paes pediu um café sem açúcar e comentou com alguém que estava por perto: “Você tinha que ter ido à festa do Romário, para ver aquela fauna, que vai do Eurico Miranda à Suzana Vieira. E o mais popular, claro, é o Eurico.” Quis saber por que a empresa de engenharia MRV acabara de se vincular ao Vasco, depois de sete anos sem patrocinar o clube. “É para vender apartamento para a portuguesada, Eurico?”, indagou. Miranda lhe deu uma resposta incompreensível, de tão evasiva. Intrigado com a presença de um repórter na sala, perguntou ao presidente do Vasco se tudo o que estava sendo dito seria publicado.

– Claro, não tenho nada a esconder – respondeu-lhe Miranda. – Em caso de encontro sigiloso, o repórter não participa. É simples assim.

– Então, Eurico, ao menos deixa o cara sentar – pediu Eduardo Paes. Você fica tratando mal os jornalistas e depois eles falam mal de você.

– Estou pouco me lixando – disse o dirigente.

– Já estão te xingando? – perguntou Paes, notando os gritos da torcida.

– Ainda não, mas daqui a pouco começa.

– Os insultos começaram desde que Eurico deixou de dar ingressos para a torcida organizada – disse Paes, para ninguém em particular.

No meio do minuto de silêncio em respeito à morte de uma torcedora benemérita, começou o brado de guerra vascaíno: “Ô, ô ô, ô ô ô. Fora, Euri-cô!”

O jogo começou assim que terminou a novela Duas Caras, da Rede Globo. Numa enfiada de bola, Miranda se entusiasmou: “Bem metida, bem metida. Esse garoto, Alex Teixeira, é craque.” Diante de uma lateral mal cobrada, disse: “O que não perdôo no jogador profissional é o seguinte, você vai jogar a bola com a mão, não pode jogar para o adversário.” Depois de um cruzamento errado, afirmou: “Eu tenho uma teoria: a bola só entra se chutada para o gol.”

O primeiro gol vascaíno saiu aos trinta minutos, de pênalti. Em comemoração, ele deu uma baforada no charuto e jogou a ponta pela janela, sobre a passagem que leva às cadeiras especiais. Três minutos depois, vibrou com o segundo gol. “Viu o drible do garoto, o Alex?” A torcida entoou um novo grito: “Ei, Eurico, um-sete-um!” [Referência ao artigo 171 do Código Penal, que versa sobre o crime de estelionato.]

Terminado o primeiro tempo, Miranda se levantou, faminto. “O que está faltando aqui é o meu serviço Habib’s”, disse, falando do lanche que lhe é oferecido pela cadeia de lanchonetes que patrocina o Vasco desde dezembro. Informado de que a comida já chegara, ele retrucou com euforia: “#*@!, ninguém avisou.” Com uma esfiha na mão, exaltou a qualidade do produto: “Está vendo como está quentinho? Coisa de Primeiro Mundo.”

No segundo tempo, com o placar em 3 a 1, Eduardo Paes se levantou. “Euricão, vou nessa, que amanhã meu dia é longo”, disse. “Alguém tem que trabalhar nesta cidade.” Sem tirar o olho do campo, Miranda se despediu: “Eduardo, aqui você é sempre bem-vindo.” E voltou a reclamar, quando o time errou, mesmo com um jogador a mais em campo: “Tem coisas absolutamente elementares no futebol. Quando você joga onze contra dez, tem que tocar a bola. Toca a bola, #*@! ”

Findo o jogo, com uma goleada do Vasco por 5 a 2, ele sentou-se à mesa e passou a apalpar charutos. Colocou três na cartela que leva para casa. Viu uma notícia no computador e, surpreso, comentou: “Ih, o Giuliani saiu”, em referência ao republicano Rudolph Giuliani, que acabara de desistir da candidatura às prévias da presidência americana. Diante do silêncio, pensou, em voz alta: “São os jovens que vão decidir essa eleição.”

 

A presença de Eurico Ângelo de Oliveira Miranda se faz sentir pelo odor. Aos 63 anos, ele é um homem corpulento, que chega a acender dez charutos por dia, embora jogue fora metade deles. “A maioria, já descarto só de encostar”, contou. “Toda vez que dizem que eu estou #*@!, acendo um charuto. E às vezes acendo só para sacanear quem está do lado.” Durante trinta anos, ele fumou cinco maços diários de cigarro, e parou há pouco mais de uma década. “Foi fácil”, disse. “Se o homem não é dominado pela mulher, como vai ser dominado por um vício? Meu único vício é o Vasco.” Agora, só fuma o cubano Cohiba, especialmente Siglo II, que custa mais de 50 reais cada.

Diferente da maioria dos fumantes de cubanos, Eurico Miranda não faz questão de acender seus charutos com fósforo. Usa um isqueiro Bic, que ostenta o escudo do Vasco. Ele criou duas regras sobre charutos. A primeira: ninguém está autorizado a fumar charutos no gabinete, além dele. “Tenho minhas particularidades”, explica. “Nunca fumei em conjunto, nunca bebi em conjunto e nunca #*@! em conjunto.” A segunda ordem diz respeito às guimbas: só ele tem o direito de jogá-las fora. Por isso, seu cinzeiro está sempre transbordando.

Miranda costuma chegar a São Januário por volta de onze da manhã, num Chrysler com motorista e um segurança armado. O carro não é blindado. “Quem é que quer meu mal?”, pergunta. “O cara que dá emprego e alimenta bocas não faz mal a ninguém, eu sou um alimentador de bocas.” No estádio inteiro há apenas um gabinete: o da presidência. As decisões de quaisquer departamentos são tomadas lá. “Tirando a minha mesa, isso é um gabinete democrático. Vem todo mundo aqui dentro”, explica. O assessor Ricardo Vasconcellos complementa: “A democracia aqui é o seguinte: o Eurico dá autonomia, desde que cada um saiba seus limites.” Miranda exemplifica: “É uma democracia com regras. Começa pelo banheiro. Eu deixo que usem meu banheiro privativo. Desde que peçam licença. Isso aqui não é banheiro público.”

Ele se diz um homem seguro (“Não tenho essas #@$%%¨@ de conflito existencial”), cortês (“Se uma mulher está comigo no elevador, pode ser uma faxineira, eu deixo que saia na frente”) e justo (“Não piso em ninguém abaixo de mim, mas posso chutar uma pessoa à minha altura ou acima”). Na sua profissão, tem como modelo o nonagenário João Havelange, o ex-presidente da Federação Internacional de Futebol Association, a Fifa: “Inegavelmente, é o maior dirigente esportivo de todos os tempos. Mas Havelange era imparcial. Eu não. Eu vejo o que é melhor para o Vasco.”

Além de Vasconcellos, Eurico está sempre acompanhado de mais quatro assessores, que se espalham pelos sofás da sala. São eles os vice-presidentes Amadeu Pinto da Rocha, Pedro Valente e José Luis da Silva Moreira. O outro é Eurico Ângelo Brandão de Oliveira Miranda, o Euriquinho, seu filho de 30 anos, que, embora não ocupe um cargo, serve de intermediário na contratação de jogadores.

O gabinete é divido em duas partes. A ante-sala, para reuniões, é composta de uma mesa com dez cadeiras de couro e um pufe branco e preto, com desenhos da cruz de Malta. Nas paredes, há treze fotos ampliadas de times campeões do Vasco – todos em períodos em que Miranda, como vice ou presidente de futebol, estava à frente do clube. Ele aparece em dez das fotos, de terno ou suspensório, com a taça a seus pés.

A sala principal, protegida do sol por um vidro fumê que deixa o ambiente rosado, tem cerca de 50 metros quadrados. Na mesa do dirigente há cinco caixas de Cohiba, quatro folhas de plástico, papéis, fotos da família e uma infinidade de escudos, troféus, mascotes e imagens de santos, todos voltados para o presidente. Na direção oposta, a do interlocutor, existe apenas uma foto, do seu neto Pedro, ainda bebê, com a frase “Não perturbem o vovô”.

Atrás da mesa, há uma estante com cerca de trinta livros, entre os quais o Almanaque Guinness de 2006, Seleção Brasileira: 90 anos (1914-2006) e A Regra do Jogo: Uma História Institucional da CBF. Eurico Miranda conta ter sido um grande leitor. “Foi um pouco depois da adolescência. Li Os Miseráveis, do Victor Hugo, Crime e Castigo, do Dostoievski, além de Machado de Assis, Aloísio de Azevedo e Jorge Amado. Mas abri mão desse hábito por causa do Vasco.” Perguntei quais eram os seus livros preferidos. “Um que me marcou, e que para muita gente não tem nada de importante, foi O Pequeno Príncipe. O outro foi Dom Quixote, que influenciou certas atitudes minhas. Ele me ensinou a não me importar com o que os outros dizem.”

Perto da entrada do banheiro, ficam um retrato a óleo do navegador Vasco da Gama e uma foto em preto-e-branco de Miranda com o apresentador Chacrinha, vascaíno fanático. Outra parede abriga uma imagem do Cristo Redentor, incrementada com uma cruz de Malta no peito, e uma fotografia do dirigente, cercado pelo time, durante a comemoração do milésimo gol de Romário (um tratamento na imagem fez com que todos na foto, à exceção do colorido dirigente, apareçam em preto-e-branco). A sala inteira conta com um único computador, sobre a mesa do cartola. Quem precisa checar os e-mails é obrigado a fazê-lo sob a sua observação.

 

Eurico Miranda ganhou seu nome em homenagem ao general Eurico Gaspar Dutra, presidente do Brasil de 1946 a 1951. Seus pais, Álvaro e Alexandra, deixaram Arouca, ao norte de Portugal, na década de 30, fugindo da ditadura salazarista. No Rio, moraram primeiro no subúrbio de Brás de Pina e, depois, na Urca, onde abriram a Padaria Miranda. Aos 13 anos, o menino Eurico ajudava o pai no balcão e, na eventual ausência de um funcionário, entregava os pães, de bicicleta, ao amanhecer. O dirigente ainda lembra com precisão a receita para uma fornada de pão francês: 1 quilo de farinha, 400 gramas de açúcar e 250 gramas de sal.

Assim como a maioria da colônia lusitana no Rio, a família era vascaína. Nas horas vagas, Miranda freqüentava o Estádio de São Januário na companhia da mãe. Diz não se lembrar do primeiro jogo que assistiu: “Isso é coisa de quem se torna torcedor no meio da vida. Eu sou Vasco desde que nasci.”

Como seus irmãos Álvaro e José Alberto, ele estudou no Santo Inácio, colégio jesuíta tradicional. Embora tirasse boas notas e fosse coroinha na capela, acabou expulso por insistir em vestir a camisa do Vasco sobre o uniforme, além de ser um brigão contumaz. Cursou os últimos anos no Andrews, outra escola de renome.

O escritor José Louzeiro, autor de quarenta livros, entre eles biografias de Elza Soares e Gregório Fortunato, prepara há cinco anos um livro sobre o cartola vascaíno. Conta que o pai do dirigente, vendo o filho como seu possível sucessor nos negócios, carregava-o sempre a tiracolo, em visitas a bancos, para que o garoto aprendesse a lidar com dinheiro. “Ele tinha uma origem humilde, veio de um vilarejo pequeno de Portugal, e queria se inserir na sociedade por meio do Eurico”, conta Louzeiro. “Por isso o colocava nas melhores escolas e fazia com que viajasse.” Aos 14 anos, enquanto os irmãos continuavam no Rio, Miranda visitou Portugal, Espanha e França. Aos 17, passou no vestibular de medicina da Faculdade Nacional (ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ), mas preferiu mudar para o curso de fisioterapia, profissão que exerceu durante dois anos. Descontente com a profissão, voltou à mesma universidade, dessa vez para cursar direito. Aos 21 anos, conseguiu o primeiro emprego no Vasco, como supervisor do departamento de cadastros.

Desde que foi para o Vasco da Gama, Miranda não usa a camisa do clube. Costuma vestir-se com sapato de couro, calça de linho e camisa de botão com a gola aberta e as mangas dobradas. A roupa é escolhida e colocada em cima da cama por Sylvia, com quem é casado há 35 anos. Em dias de jogo no Maracanã, o traje é mais jovial: sapato mocassim, calça de elástico, camisa pólo e óculos escuros Ray Ban, de grau. Se lhe perguntam se tem miopia, ele responde: “Vou lá saber se tenho miopia? Tenho grau, #*@! ” Era assim que ele estava no sábado de Carnaval, dia da disputa entre Vasco e Botafogo pela quinta rodada da Taça Guanabara. Às duas da tarde, no Almirante, o restaurante do clube, Miranda comeu pão com lingüiça e tomou um refrigerante dietético. “Tradicionalmente, esse jogo em dia de Carnaval tem dado um bom público, vem muito turista”, comentou. O garçom lhe trouxe uma travessa de arroz com batata portuguesa e peixe à dorê. Ele cortou o peixe em pedacinhos, misturou ao arroz e curvou-se sobre a mesa para comer. Ao terminar, largou os talheres no prato, jogou o guardanapo para o lado, e disse, a respeito de uma notícia que passava na televisão: “Bunda de fora é uma evolução da indumentária. Antigamente, Carnaval era em traje de luxo. Agora, é com pouca roupa. O Paulo Barros [carnavalesco da Viradouro] foi de uma infelicidade #*@! ao reclamar disso.”

O garçom lhe trouxe pudim de leite e café. Eurico apoiou os braços nas cadeiras do lado e acendeu um charuto para falar de futebol. Refutou a tese de decadência dos times cariocas, que não ganham o Campeonato Brasileiro há sete anos, ao passo que os paulistas ganharam nos últimos cinco anos. “Tudo isso é absolutamente sazonal. Se você for contar, os times do Rio têm dez títulos brasileiros; os de São Paulo, treze [na verdade, são dez contra dezesseis]. A diferença é pequena.” Foi interrompido por um torcedor em busca de ingressos para ele e a filha. Sem falar nada, Miranda tirou dois do bolso e os entregou.

No gabinete, despachou Vasconcellos para o Maracanã, “para ver se minha cabine está direita”, e pediu uma nova caixa de Cohiba. “Esses aqui não estão me agradando”, justificou, apontando para os charutos que tinha sobre a mesa. Levantou-se, colocou 33 ingressos no bolso, apagou a luz, desligou o computador e o ar-condicionado, amarrou o elástico da calça, trancou a porta do gabinete e desceu em direção ao carro, carregando uma mala preta na mão direita e a caixa de charutos na esquerda. “Está começando a chover. Isso tira público”, falou, preocupado.

 

Em 1980, com 36 anos, Eurico Miranda conseguiu seu primeiro cargo de importância no Vasco, como assessor do presidente Alberto Pires Ribeiro, que havia sido eleito um ano antes, apoiado por uma chapa que incluía o futuro presidente do clube, Antônio Soares Calçada, o atual vice Pedro Valente e o empresário Olavo Monteiro de Carvalho. Na reportagem de 1997, “Tudo sobre Eurico Miranda – o que você sempre quis saber mas não tinha coragem de perguntar a ele com medo de tomar uma porrada”, da revista Placar, Pedro Valente afirma que o dirigente, quando era assessor, ainda não tinha posses. “Ele era uma espécie de secretário. Humilde, servia café e tirava xérox.” Como o trabalho no Vasco não era remunerado, Miranda conseguiu um emprego de gerente na Besouro Veículos, de Monteiro de Carvalho. Seria demitido dez anos mais tarde, depois de uma auditoria ter mostrado que, sob sua gerência, 286 pessoas não haviam recebido seus carros, mesmo tendo pago todas as prestações.

O dirigente ficou na oposição quando perdeu duas eleições à presidência para Antônio Soares Calçada. Para neutralizá-lo, Calçada convidou-o em 1986 para ser um dos vice-presidentes. A ascensão coincidiu com um período de transformação no futebol. Poucos anos antes, o Conselho Nacional de Desportos permitira a propaganda nos uniformes dos clubes, que até então sobreviviam à base de bilheteria e mensalidade. Em 1987, o Clube dos Treze, união dos times mais conhecidos, intermediou um contrato de patrocínio entre dezesseis equipes e a Coca-Cola, e vendeu, pela primeira vez, os direitos de transmissão dos jogos para a Rede Globo. A venda de jogadores para times europeus aumentou exponencialmente. O futebol brasileiro começou a gerar muito dinheiro.

Antes, os cartolas eram pequenos empresários que se aproximavam dos clubes pelo prestígio. Pedro Valente confirma: “Os dirigentes anteriores, ligados à comunidade portuguesa, tinham negócios de secos e molhados, pagavam poucos impostos e não queriam exposição. Com a chegada do Eurico, isso mudou. O Vasco deixou de ser um time calado e passou a ter o mesmo poderio dos outros grandes clubes do Rio. O que ele trouxe de novo foi esse perfil brigador.” Com a atenção dos holofotes, Miranda fez uma jogada de marketing eficaz: passou a provocar o Flamengo, time com maior torcida. O grande clássico carioca, antes, era Flamengo e Fluminense. Hoje, é Flamengo e Vasco.

 

No Maracanã, Eurico Miranda foi primeiro ao vestiário. De lá, quis subir ao gramado para ver qual era o placar do jogo preliminar, entre o time juvenil do Vasco e o do Botafogo. Escorou-se no portão que antecede a escadaria do campo, e berrou: “Isso aqui tá trancado. Com quem está a chave?” Do outro lado, um funcionário respondeu: “Com o quarto árbitro, mas ele falou que ninguém entra.” O dirigente se irritou: “Que #*@! de quarto árbitro? Manda ele entregar a chave que eu quero entrar.” Temeroso, o funcionário foi até o juiz, voltou com a chave e avisou: “Eu vou abrir, mas o quarto árbitro pediu para o senhor não subir muito a escada, para ficar escondido.” O vascaíno se enfureceu: “Que ficar escondido o quê?”, contestou. “Eu lá sou homem de ficar escondido? Vai #*@! Entrega a GBNfa da chave que eu quero entrar.” Subiu, viu que estava zero a zero e retornou.

Ladeado por dois seguranças, ele saiu do vestiário em direção à tribuna de imprensa sem apresentar ingresso ou crachá. Na saída do elevador, foi abordado por um repórter da Televisão Educativa, a TVE, que tentou convencê-lo a participar da programação. Recusou. “Enquanto o Márcio Guedes estiver lá, eu não entro.” Nos anos 90, Miranda e Guedes, comentarista da Record, tiveram um embate numa transmissão ao vivo. “Eu não vim aqui pra ser chamado de canalha por esse moço”, disse o cartola. “Esse é um que tem a mania de atingir a família dos outros, que não deve ter uma família como a minha.” Hoje, além de Guedes, estão proibidos de entrar em São Januário o jornalista Juca Kfouri, da ESPN, e os colunistas de O Globo Fernando Calazans e Renato Maurício Prado (que ganhou um processo por difamação contra o dirigente no valor de 350 mil reais, pagos em espécie).

A entrada também é vetada a qualquer repórter do Lance!, o principal diário esportivo brasileiro. Em 2006, o jornal mostrou que um sócio inadimplente tivera permissão para votar na eleição para presidente do Vasco na qual Miranda derrotou o ex-jogador Roberto Dinamite. Um laudo judicial posterior acabou por comprovar o voto de 1 256 sócios em situação irregular. Em março de 2008, a 8ª Câmara do Tribunal de Justiça do Rio anulou o pleito. Por lei, uma nova eleição com os mesmos candidatos deve ocorrer em meados de abril.

Miranda entrou numa cabine da Globo, onde era aguardado por Milton Neves, principal apresentador esportivo da Record. Neves brincou: “Ô, Eurico, vim assistir ao jogo com você.” O dirigente falou de bate-pronto: “Que assistir jogo comigo? Eu não assisto jogo com ninguém, Milton.” O apresentador se dirigiu a uma cabine vizinha.

O primeiro tempo terminou com o Vasco perdendo por 2 a 0. Miranda fez um elogio à equipe adversária: “Inegavelmente é um time bem treinado.” Foi interrompido por um alvoroço que surgiu na cabine ao lado: Milton Neves discutia com torcedores do Botafogo. Em tom de provocação, o apresentador repetia: “O estado de São Paulo carrega o país nas costas” e “Noventa e cinco foi roubado”, em referência ao Campeonato Brasileiro vencido, em 1995, pelo Botafogo contra o seu time, o Santos. Eurico riu: “Imagina eu ao lado desse cara. Ele é o maior outdoor ambulante que eu conheço.” O jogo do Vasco terminou em 3 a 2 para o Botafogo.

 

Em 1990, depois de ocupar durante um ano o cargo de diretor de futebol da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, Eurico Miranda candidatou-se a deputado federal pelo Partido Liberal, o PL. Perdeu. Em nova tentativa, quatro anos depois, elegeu-se com 37 mil votos, pelo Partido Progressista Reformador, o PPR. Reelegeu-se em 1998, dessa vez pelo Partido Progressista Brasileiro, o PPB, com 106 mil votos.

Nos sete anos em que freqüentou a Câmara dos Deputados, Eurico Miranda apresentou treze proposições, a maioria ligada ao futebol. “Eu estava lá para representar o Vasco”, costuma dizer. Em março de 1995, recém-chegado a Brasília, requereu ao ministro de Minas e Energia que explicasse o contrato de patrocínio entre a Petrobrás e o Flamengo. No documento, perguntou: “Qual o custo total da operação e que benefícios para a Petrobrás podem ser enunciados como efetivamente decorrentes do negócio? Quais os critérios que nortearam a escolha do Clube de Regatas do Flamengo? Houve algum estudo que considerou a contratação de agremiações esportivas congêneres?”

Depois, o deputado Miranda apresentou um projeto de lei fixando a idade mínima do passe livre dos jogadores em 28 anos. Ele justificou: “A abolição do passe estimula o aliciamento de atletas e a concorrência desleal, criando uma ‘nova escravidão’, onde os empresários substituem os clubes, configurando uma mera permuta de ‘senhorios’.” Com certo orgulho, ele relembra: “Consegui mudar algumas coisas na lei do passe, mas não tudo.”

Em 2002, às vésperas da Copa do Mundo, sugeriu ao ministro das Comunicações que a Globo fosse obrigada a retransmitir o sinal às redes educativas. Valeu-se de argumentos democráticos: “Segundo a própria Gerência de Operações da emissora, cerca de 22 milhões de pessoas dessas cidades [que só recebem sinal de antena parabólica analógica] somente poderiam assistir aos jogos através da realização de assinaturas com a SKY, empresa pertencente às Organizações Globo.” A proposição não foi acatada. Dos projetos apresentados, apenas um não versava sobre futebol, o que dispunha sobre a isenção de impostos para cooperativas de táxi, e foi arquivado. O atual vice-presidente de futebol do Vasco, José Luiz Moreira, é dono da Táxi Verde Ltda.

 

Quando Miranda era deputado, foi criada uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as suspeitas de sonegação de imposto por parte de clubes, dirigentes, empresários e jogadores de futebol. Com os sigilos bancário e fiscal quebrados, o dirigente foi amplamente citado no relatório final. Num capítulo de sessenta páginas sobre o Vasco da Gama, demonstrou-se que um coordenador administrativo do clube, Aremithas José de Lima, havia movimentado 13,5 milhões de reais, entre 1995 e 2000, sendo que sua renda média mensal, na mesma época, era de 2 970 reais. Nos depoimentos à comissão, os dirigentes do Vasco alegaram que o dinheiro custeava a alimentação dos atletas amadores, e havia sido repassado à conta do funcionário em razão de um bloqueio judicial das finanças do clube.

Em resposta, o senador Geraldo Althoff, relator da CPI, escreveu: “Há de se convir que foge às raias do bom senso imaginar milhões e milhões de reais sendo gastos na alimentação de 400 jovens atletas.” O relator, que ouviu o depoimento de Aremithas José de Lima, escreveu também que o funcionário “confirmou ter sido procurado pelo então vice-presidente do Vasco, sr. Eurico Miranda, que orientou para que este cedesse a sua conta bancária para utilização pelo Clube de Regatas Vasco da Gama. A partir daquele momento, o esquema passou a funcionar da seguinte forma: o sr. Aremithas recebia ordens diretas, escritas ou verbais, do sr. Eurico Miranda, para que preenchesse cheques para pagamentos diversos. Após preenchidos, os cheques eram devolvidos ao sr. Eurico”.

O dinheiro teve distintas finalidades. Parte foi usada para saldar dívidas com jogadores, como o goleiro Carlos Germano, que recebeu 59 mil reais, e o zagueiro Mauro Galvão, capitão do time na conquista da Taça Libertadores da América de 1998, que ganhou 100 mil reais. Outros 14 mil reais foram depositados na conta de José de Souza Barbosa (Zeca), líder da torcida organizada Pequenos Vascaínos. Um cheque no valor de 1 500 reais pagou as mensalidades da NET, do provedor UOL e do Clube Ginástico Português, todas em nome de Eurico Miranda. Outro cheque, de 90 mil reais, foi emitido em nome da Same Empreendimentos Imobiliários, que tem como proprietários o dirigente, sua esposa e os filhos. O relatório da Comissão sustenta ainda que, em 1999, o dirigente recebeu um empréstimo de 320 mil reais do empresário Reinaldo Menezes da Rocha Pitta, responsável por negociar os passes de alguns jogadores do Vasco. O relator reconheceu que a operação não caracterizava uma ilegalidade, mas escreveu: “É como se a raposa pagasse um jantar ao vigia do galinheiro.”

A CPI requereu cópias do balanço contábil de quinze clubes. Devido à relutância da diretoria do Vasco em ceder os documentos, o juiz da 7ª Vara Federal Criminal determinou a expedição de um mandado de busca. No dia 4 de julho de 2001, um delegado federal e seis agentes dirigiram-se a São Januário. A visita foi contada no relatório da Comissão.

“O deputado Eurico Miranda demonstrou-se visivelmente contrariado e surpreso ao receber a equipe de busca no estádio. O mesmo procurou de todas as formas dificultar a ação dos assessores e da polícia, várias vezes pronunciando-se aos gritos, fazendo ameaças (veladas e diretas) aos assessores da CPI, sempre se valendo de sua prerrogativa de parlamentar para exigir obediência e respeito.” Diante do inevitável cumprimento da ordem judicial, Eurico ameaçou desligar a luz do estádio ao escurecer. “De fato, por volta das 18h30 a equipe foi surpreendida com o desligamento de todas as luzes”, afirma o relatório do senador Geraldo Althoff.

Os agentes se propuseram a voltar no dia seguinte, desde que as salas que pudessem conter material de interesse fossem lacradas. Funcionários do Vasco disseram que o material de eventual interesse deveria estar nas salas da tesouraria e da presidência. O relatório continua: “Ao ouvir tal informação, o deputado Eurico Miranda ficou completamente irado. Dirigiu-se aos berros aos assessores, ameaçando-os e utilizando expressões insultuosas como ‘monstros’, ‘estou de olho em você há muito tempo’, ‘estou cansado da sua conversinha’ e ‘vou mandar te buscar’, entre outras.”

O grupo da Polícia Federal voltou no dia seguinte, segundo o relatório, “acompanhado de efetivo maior de policiais, dado que a integridade física dos assessores havia sido ameaçada”. No ano seguinte, abriu-se um processo de cassação de Eurico Miranda. Com auxílio do deputado federal Severino Cavalcanti, seu companheiro de bancada, a ação foi arquivada por falta de provas.

O relatório final da CPI foi encaminhado ao Ministério Público Federal, que denunciou Miranda por crime tributário. Em 2007, julgado na 4ª Vara Federal Criminal do Rio, ele foi condenado a dez anos de reclusão. Na sentença, o juiz escreveu que, em pleno interrogatório, o réu lamentou “ter que gastar seu tempo com fatos dessa natureza”. E concluiu: “Essa sua característica faz com que a sua conduta social seja desconforme ao contrato social, eis que solenemente ignora as regras de convivência em sociedade.” O dirigente recorre da condenação em liberdade.

 

Eurico Miranda passou o Carnaval com a família na sua casa de veraneio, em Angra dos Reis. Lá, seu principal lazer é montar quebra-cabeças. “Para eu me esquecer de tudo, só quebra-cabeça”, explicou. “Gosto dos fáceis, de três mil peças, aqueles da Grow. Monto quadros, paisagens. Já montei a Mona Lisa, sem dúvida.” Depois de prontas, as imagens são guardadas num quarto.

Depois do feriado, em São Januário, Miranda encontrou o presidente da Escola de Samba Unidos da Tijuca, Fernando Horta, quando se dirigia ao restaurante do clube. Comentou que a vitória da Beija-Flor, campeã pelo segundo ano consecutivo, havia sido justa. Um amigo de Horta respondeu: “Sempre achei que o senhor tinha uma tendência carnavalesca forte.” Eurico berrou, com o dedo em riste, mas em tom amistoso: “Carnavalesco é o #*@! Carnavalesco é você, que gosta de aparecer. Eu não entendo de samba. Entendo de administração.”

Na mesa, era aguardado por três vice-presidentes, um assessor e o filho Euriquinho. Antes de se sentar, perguntou:

– Pediram peixe?

– Estávamos esperando você – respondeu o vice-presidente de finanças.

– Como não pediu, CofAa?

– O peixe já está saindo, presidente – interveio o garçom.

Um convidado perguntou se ele sempre comia peixe.

– Claro que não – respondeu, com raiva.

– Só quatro vezes por semana – interrompeu-o o filho, Euriquinho.

– Nas outras três é picanha – completou o vice de futebol.

Depois da sobremesa – melancia -, Miranda acendeu um charuto. Os companheiros ainda estavam no prato principal.

No gabinete, encontrou Mário Ângelo, seu filho primogênito. Durante um ano, Mário foi superintendente de esporte amador do Vasco, mas abandonou o futebol para se dedicar à carreira acadêmica – faz mestrado na Pontifícia Universidade Católica, PUC. Ele conta que o cartola não se opôs: “Ele é cem por cento como pai. Nunca me bateu, nunca me negou nada e nunca reclamou do fato de eu ter ido estudar história.”

O terceiro filho, Álvaro Ângelo, também é diretor do Vasco, embora raramente apareça no gabinete. A caçula, Sylvia Alexandra, de 28 anos, é atriz. Em junho, atuou na peça Scabrunska, inspirada na história de Cinderela, com diálogos em “grammelot”, um idioma inventado e incompreensível. Na antevéspera do jogo contra o Cruzeiro, pelo Campeonato Brasileiro, jogadores e comissão técnica foram no ônibus do Vasco assistir Scabrunska.

Quem entra em São Januário pelo portão principal, e desce para o gramado, se depara com uma obra da gestão Eurico Miranda, intitulada Calçada da Fama. São centenas de placas de mármore cravadas no chão, alinhadas em filas de sete, cada qual com o nome de um torcedor benemérito. Na primeira fileira, estão os nomes dele, da esposa Sylvia e do neto, Pedro. Na segunda, o filho Mário. Na terceira fila, Euriquinho e sua esposa, Luisa. Na quarta, Álvaro e Sylvia Alexandra. Não há o nome de um único jogador – nem de Romário ou Roberto Dinamite, ídolos maiores do Vasco.

A lua-de-mel entre Miranda e Sylvia foi passada na cidade de Teresópolis. Nos primeiros anos de casamento, moraram num apartamento modesto no Edifício Serra da Amazônia, no Flamengo. O dirigente foi síndico do prédio de fevereiro de 1974 a janeiro de 1975. Um laudo pericial, exigido pelo síndico que o sucedeu, concluiu que a administração do dirigente deixara o condomínio deficitário em 43 365 cruzeiros, o equivalente, hoje, a cerca de 60 mil reais. Dois anos depois, diante do juiz da 11ª Vara Cível, Eurico concordou em saldar o débito.

Sylvia e Miranda vivem hoje numa cobertura em Laranjeiras. Seu biógrafo, José Louzeiro, diz que o dirigente “mora no Vasco. E eventualmente aparece em casa”. O cartola confirma: “Minha mulher nunca vai me pedir para ficar menos em São Januário. Casamento que é negociação de um ceder aqui, o outro ali, não é casamento. Me juntei a ela porque estava tudo ajustado. Ela me entende.”

Ele costuma dizer que só pretende sair do Vasco quando encontrar alguém à altura para substituí-lo. Está difícil. “O Euriquinho não quer ser presidente. Pelo menos, é o que eu acho. Aqui, você está sujeito a chuvas e trovoadas, injustiças, ofensas morais. Eu agüento, porque sou um cara carcomido, mas acho que meus filhos não aturariam. Eu nunca recebi um centavo do Vasco [pelo estatuto do clube, os cargos de presidente e vice são voluntários e não remunerados]. Mas os jovens de hoje não aceitam isso; eles não trabalham de graça.” Por ora, Miranda aposta no neto Pedro. Ele tem 4 anos.

Os quinze anos em que Eurico Miranda exerceu a vice-presidência de futebol foram ricos em títulos para o Vasco. O time conquistou a Copa Mercosul
e a Libertadores da América, três vezes o Campeonato Brasileiro e seis vezes o Campeonato Estadual. Na virada do século, o Vasco era exaltado pela imprensa esportiva como o melhor time brasileiro. O sucesso foi alavancado, em parte, pela parceria com o Nations Bank (posteriormente adquirido pelo Bank of America), que, em 1998, assinou um contrato de dez anos com o clube. O banco depositou 34 milhões de reais à vista. De acordo com o relatório da CPI do futebol, desse montante, mais de 12 milhões foram aplicados, a mando de Miranda, numa conta nas Bahamas, um paraíso fiscal. Três anos após o fechamento do acordo, o contrato foi desfeito.

 

Em 2000, o Vasco chegou às finais do Campeonato Brasileiro, contra o São Caetano. A primeira partida, disputada em São Paulo, terminou empatada em 1 a 1. A segunda foi jogada em São Januário. Aos 23 minutos do primeiro tempo, parte do alambrado rompeu, ferindo 168 torcedores. Por ordem do então governador, Anthony Garotinho, a partida foi interrompida. Irritado, Miranda chamou-o de “incompetente e frouxo”. Uma perícia feita pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli apontou um excedente de 5 220 pessoas, além das 32 537 contabilizadas oficialmente. O Vasco responde a 284 processos ligados ao incidente. “Tem acusação de gente que nem estava aqui. Já perdemos mais de 1 milhão de reais nessa história”, comentou, recentemente, em seu gabinete.

A terceira partida da final aconteceu no Maracanã, e o Vasco venceu por 3 a 1. Dizendo-se prejudicado pela transmissão da Globo, que fora a favor da interrupção do jogo em São Januário, Miranda ordenou que a camisa do time exibisse a logomarca do Sistema Brasileiro de Televisão, SBT. Durante duas horas, a Globo teve que veicular o símbolo da emissora que era, à época, sua maior concorrente. Três dias depois da conquista do título, o cartola justificou o ato: “Foi uma homenagem ao SBT e uma forma que encontrei de mostrar que a gente não pode ter monopólio. Precisamos estimular a concorrência.”

Oito anos depois desse episódio, a relação entre ele e a Globo voltou a ser amistosa. O diretor de marketing do Corinthians, Luiz Paulo Rosenberg, explicou: “Quanto mais emissoras houver batalhando, maior vai ser o preço pago pelo direito de transmissão. Mas o Eurico é a favor do monopólio. Quando ele acha que o interesse dele coincide com o da Globo, eles ficam do mesmo lado. E é bom estar na trincheira dele, que é um briguento muito articulado.”

Em fevereiro, o Vasco jogou contra o Flamengo, pela semifinal da Taça Guanabara. Eurico Miranda acordou cedo, para pegar a missa das nove, numa igreja perto do seu apartamento. Devoto de Nossa Senhora Aparecida, que adorna a tela do seu computador e pende de uma corrente que carrega no pescoço, ele se considera um “católico apostólico romano convicto, mas não praticante”.

Depois de visitar os jogadores na concentração, o cartola se dirigiu ao gabinete e ligou o computador. “Vou me inteirando das notícias.” Primeiro, checou as novidades culturais. “Tropa de Elite ganhou prêmio!”, exclamou, surpreso, embora não tenha visto o filme. Conferiu a tabela da Taça Guanabara e acessou os sites NetVasco e Casaca, ligados ao clube. Depois, ficou jogando Paciência.

Às duas da tarde, foi para o Maracanã. Quando entrava no carro, foi abordado por um funcionário, que lhe pediu ingressos.

– Ô Tubarão, tem algum sobrando aí? – perguntou ao chefe de segurança.

– Não sobrou nada, presidente. Todos que estão comigo têm dono.

– Pega dois e dá para ele – ordenou.

– Mas aí tem gente que vai ficar sem – tentou argumentar um vice-presidente.

Miranda o ignorou: “Pega dois e dá para ele.” A contragosto, Tubarão tirou os ingressos do bolso. O dirigente virou-se para o funcionário contemplado e disparou: “Agora some da minha frente.”

No Maracanã, repetiu os rituais: não apresentou crachá, visitou os jogadores no vestiário, disse um palavrão para o funcionário que vigia a entrada do gramado e se acomodou numa cabine de imprensa. Ficou calado na maior parte da primeira etapa, que terminou em 1 a 1. Aos dez minutos do segundo tempo, levantou-se e avisou: “Vou mijar.” Não voltou mais.

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