O meu pai nunca quis empregados brancos. Corria a cidade, o dia inteiro, de um lado ao outro, a controlar o trabalho da pretalhada, a pô-los na ordem com uns sopapos e uns encontrões
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Memórias coloniais

Minha infância em Moçambique
Isabela Figueiredo
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O meu pai nunca quis empregados brancos. Corria a cidade, o dia inteiro, de um lado ao outro, a controlar o trabalho da pretalhada, a pô-los na ordem com uns sopapos e uns encontrões FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Ao meu pai

Disse alto, com voz forte e jovial, muito perto da minha cabeça:

– Olá!

Era um olá grande, impositivo, ao qual me seria impossível não responder. Reconheci a sua voz, e, ainda no sono, pensei, não podes ser tu; tu já morreste.

E abri os olhos.

 

1

Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo o terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, duas vivendas, três machambas[1], bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais.

Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures?

 

2

Os brancos iam às pretas. As pretas eram todas iguais e eles não distinguiam a Madalena Xinguile da Emília Cachamba, a não ser pela cor da capulana[2] ou pelo feitio da teta, mas os brancos metiam‑se lá para os fundos do caniço[3], com caminho certo ou não, para ir à cona das pretas. Eram uns aventureiros. Uns fura-vidas.

As pretas tinham a cona larga, diziam as mulheres dos brancos, ao domingo à tarde, todas em conversa íntima debaixo do cajueiro largo, com o bandulho atafulhado de camarão grelhado, enquanto os maridos saíam para ir dar a sua volta de homens, e as deixavam a desenferrujar a língua, que as mulheres precisam desenferrujar a língua umas com as outras. As pretas tinham a cona larga, mas elas diziam as partes baixas ou as vergonhas ou a badalhoca. As pretas tinham a cona larga e essa era a explicação para parirem como pariam, de borco, todas viradas para o chão, onde quer que fosse, como os animais. A cona era larga. A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque à cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido, e pouco, e com dificuldade; eram muito estreitas, portanto muito sérias, e convinha que umas soubessem isto das outras. Limitavam‑se ao cumprimento das suas obrigações matrimoniais, sempre com sacrifício, pelo que a fornicação era dolorosa, e evitável, por isso é que os brancos iam à cona das pretas. As pretas não eram sérias, as pretas tinham a cona larga, as pretas gemiam alto, porque as cadelas gostavam daquilo. Não valiam nada.

As brancas eram mulheres sérias. Que ameaça constituía para elas uma negra? Que diferença havia entre uma negra e uma coelha? Que branco perfilhava filhos a uma negra? Como é que uma negra descalça, de teta pendurada, vinda do caniço a saber dizer, sim, patrão, certo, patrão, dinheiro, patrão, sem bilhete de identidade, sem caderneta de assimilada, poderia provar que o patrão era o pai da criança? Que preta é que queria levar porrada? Quantos mulatos conheciam o pai?

Os brancos entravam no caniço e pagavam cerveja, tabaco ou capulana a metro à negra que lhes apetecesse. A bem ou a mal. Depois abotoavam a braguilha e desapareciam para as suas honestas casas de família. Como poderia alguém saber de onde eram, e como se chamavam? Os brancos mantinham a mulher algures no Centro da cidade, ou na metrópole. E para aí seguiam.

As incursões sexuais pelo caniço não assombravam o seu futuro, porque uma negra não reclamava paternidade. Ninguém lhe daria crédito.

Mas um branco podia, se quisesse, casar com uma negra. Esta ascenderia socialmente, e passaria a ser aceite, com reservas, mas aceite, porque era mulher do Simões, e por respeito ao Simões… Era frequente no caso dos cantineiros e machambeiros afastados da cidade, homens relativamente à parte na sociedade colonial decente, que mais cedo ou mais tarde se cafrealizavam.

Para uma branca, assumir união com um negro implicava proscrição social. Um homem negro, por mais civilizado que fosse, nunca seria suficientemente civilizado.

O meu pai revoltava-se quando encontrava uma branca com um negro, já depois do 25 de Abril, em Portugal. Fitava os pares como se visse o Diabo.

Eu dizia-lhe, para de olhar, o que é que te interessa? Respondia-me que eu não sabia nada, que um preto nunca poderia tratar bem uma branca, como ela merecia. Era outra gente. Outra cultura. Uns cães. Ah, eu não entendia. Ah, eu não podia compreender. Ah, eu era comunista. Como é que tinha sido possível eu dar em comunista?

 

3

Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi, mas via‑se. Uma pessoa que observasse bem o meu pai, os olhos a sorrir ao mesmo tempo que a boca, a sensualidade viril das mãos, braços, pés, pernas… uma pessoa que escutasse a maliciosa rapidez da sua resposta, o sentido de humor permanente e dúbio desse gigante percebia que aquele homem gostava de foder. Eu não sabia, mas sabia. Quando o meu pai me levantava no ar como se fosse uma coisa, ou me transportava às cavalitas, sentia‑me fraca perante a força total, dominada, possuída por ela.

Eu nunca percebi nada sobre isso de foder, até os meus 7 anos, ou melhor, conscientemente nunca percebi. Não fazia qualquer ideia sobre como se realizava a procriação. Mesmo muito depois dessa idade, pensava que as crianças nasciam porque os homens e as mulheres se casavam e, nesse momento, Deus punha as mulheres “de bebé”. Não dizia “grávidas”. Não conhecia essa palavra, e a primeira vez que a disse, a minha mãe deu‑me uma bofetada para eu aprender a não dizer palavrões.

A sexualidade do meu pai foi uma questão que só me surgiu, e palidamente, depois dos 7. A certa altura da noite percebi que os meus pais fechavam a porta do quarto e a minha mãe parecia chorar. Houve uma noite em que me levantei, lhes bati à porta e disse, aflita, “para de fazer isso à mãe”. Não sabia o que faziam para que a minha mãe sofresse tanto, mas não queria que acontecesse, muito menos sob as mãos do meu pai, e percebia que o que quer que fosse, se era à porta fechada, não podia ser sadio.

Mais tarde, apareceu um livro volumoso debaixo da cama dos meus pais. Era do dr. Fritz Kahn e o título tinha a palavra “sexual”. Quando o abri, observei que continha ilustrações de homens e mulheres nus com pelos e órgãos sexuais visíveis. Havia muitas ilustrações absolutamente vergonhosas que me abstenho de revelar. Li o livro deitada a toda a largura da cama dos meus pais, com o queixo apoiado na borda do colchão e os braços caídos para virarem as páginas do livro, no chão. Quando escutava os passos da minha mãe, fazia deslizar o volume proibido para debaixo da cama e fingia uma situação em que me encontrava a ler qualquer outro livro inofensivo. Estava tudo pensado, mas eles perceberam, porque, a certa altura, o Fritz deixou de estar debaixo da cama e deu‑me algum trabalho a descobri‑lo escondido no guarda‑roupa.

Tirar o livro do guarda‑roupa para voltar a escondê‑lo representava um risco maior. Mas li‑o todinho, apesar das dificuldades – a minha mãe tinha demasiado que fazer no quintal! – e fiquei a perceber que o sexo era trabalhoso, eventualmente uma porcaria, embora houvesse interessantes potencialidades a explorar.

O maior choque que sofri com a consciência da sexualidade paterna aconteceu no dia em que o vi, com os meus olhos de 10 anos, cobiçar uma rapariga que passava, e atirar‑lhe um piropo. Foi na bomba de gasolina que ficava à saída de Lourenço Marques, logo a seguir ao entroncamento onde se apanhava a estrada da Matola. Estou a vê‑lo fora da carrinha, braço apoiado na janela, esperando a vez, que o preto viesse meter gasolina – e fazer aquela figura. Que vergonha! O meu pai! Que vergonha! A minha mãe diz que percebia perfeitamente quando ele andava com outras. Mas fazia de conta que não sabia. Calava‑se. Que opção havia?!

Contou‑me que a polícia chegou a ir lá a casa procurá‑lo, para falarem sobre certo caso em que teria ido fazer uma instalação numa casa particular e se teria metido com a dona, uma mulher casada. Imagino a cara da minha mãe e a do polícia “olhe, minha senhora, queremos fazer umas perguntas ao seu marido sobre uma queixa apresentada contra ele”. E também estou a vê‑lo, sorridente, sedutor, ufano, lançar umas indiretas à senhora, sozinha em casa. Ela pode ter-lhe dado corda e ele avançado com autorização, nunca se saberá. Ou pior, ter avançado sem corda. Conhecendo o meu pai, parece‑me menos provável. Ele gostava de mulheres, de jogar com elas a malícia do discurso, os duplos sentidos; gozava com as estratégias da sedução, e deve ter começado por aí. Quero acreditar que deva ter sido assim.

Mas dessa vez saiu‑se mal.

Recordo as conversas ouvidas entre mulheres. Eu não tinha idade para entender, pensavam elas, por isso falavam abertamente sobre o que ele fazia nos bairros indígenas antes da chegada da minha mãe, e os herdeiros mulatos que por lá teria deixado antes de casar. As suas surtidas às palhotas teriam sido bastante frequentes. Porque o meu pai, já se sabe, gostava de foder, porque as esposas de colono, quando se juntavam, falavam das cabras das pretas e da facilidade com que tinham filhos uns atrás dos outros, porque eram muito abertas, e também gostavam… e aludiam sub-repticiamente ao que se dizia serem as características dos órgãos sexuais masculinos do negro e voltavam ao tema de que as negras gostavam de fazer aquilo… e esta conversa sempre me cheirou a esturro.

Uma branca não admitia que gostasse de foder, mesmo que gostasse. E não admitir era uma garantia de seriedade para o marido, para a imaculada sociedade toda. As negras fodiam, essas sim, com todos e mais alguns, com os negros e os maridos das brancas, por gorjeta, certamente, por comida ou por medo. E algumas talvez gostassem, e guinchassem, porque as negras eram animais e podiam guinchar. Mas, sobretudo, porque as negras autorizavam‑se a si próprias a guinchar, a abrir as pernas, a ser largas.

Uma branca cumpria a obrigação.

 

4

Ele sentia prazer em viver e gostava de comer, beber e foder, isso já expliquei.

O meu pai expirava essa festa dos sentidos.

Lourenço Marques, na década de 60 e 70 do século passado, era um largo campo de concentração com odor a caril.

Em Lourenço Marques, sentávamo‑nos numa bela esplanada, de um requintado ou descontraído restaurante, tanto fazia, a qualquer hora do dia, a saborear o melhor uísque com soda e gelo e a debicar camarões, tal como aqui nos sentamos, à saída do emprego, num snack do Cais do Sodré, forrado a azulejos de segunda, engolindo uma imperial[4] e enjoando tremoços.

Os criados eram pretos e nós deixávamos‑lhe gorjeta se tivessem mostrado os dentes, sido rápidos no serviço e chamado patrão. Digo nós, porque eu estava lá. Nenhum branco gostava de ser servido por outro branco, até porque ambos antecipavam maior gorjeta.

O meu pai, a quem coube a missão de eletrificar a Lourenço Marques desse tempo, nunca quis empregados brancos, porque teria de lhes pagar os olhos da cara.

Lembro‑me bem de o escutar à mesa, tagarelando sobre a questão, com a minha mãe, relativamente a determinados brancos que lhe vinham pedir emprego, e que seriam uma boa aquisição, pois, sim senhor, mas o ordenado dobrava ou triplicava, e não, preferia andar ele sozinho a tomar conta das suas inúmeras obras, por onde deixava os seus inúmeros pretos. Tinha doze no prédio da 24 de Julho, mais vinte no Sommerschield, mais sete numa vivenda na Matola… e corria a cidade, o dia inteiro, de um lado ao outro, a controlar o trabalho da pretalhada, a pô‑los na ordem com uns sopapos e uns encontrões bem assentes pela mão larga, mais uns pontapés, enfim, alguma porrada pedagógica, o que fosse necessário à fluidez do trabalho, cumprimento dos prazos e eficaz formação profissional indígena.

Um branco saía caro, porque a um branco não se podia dar porrada, e não servia para enfiar tubos de eletricidade pelas paredes e, depois, cabos elétricos por dentro deles; não tinha a mesma força de besta, resistência e mansidão; um branco servia para chefe, servia para ordenar, vigiar, mandar trabalhar os preguiçosos que não faziam nenhum, a não ser à força. O que se dizia à mesa era que o sacana do preto não gostava de trabalhar, ganhava o suficiente para comer e beber na semana seguinte, sobretudo beber; depois, ficava‑se pela palhota estiraçado no pulguedo da esteira, a fermentar aguardente de caju e de cana, enquanto as pretas trabalhavam para ele, com os filhos às costas. Os brancos respeitavam estas mulheres do negro, muito mais que os seus homens. Era frequente o meu pai dar dinheiro extra às mulheres, quando os ia procurar às palhotas, e os encontrava perdidos de bêbados. Dinheiro para elas comerem, para darem aos filhos.

O negro estava abaixo de tudo. Não tinha direitos. Teria os da caridade, e se a merecesse. Se fosse humilde. Se sorrisse, falasse baixo, com a coluna vertebral ligeiramente inclinada para a frente e as mãos fechadas uma na outra, como se rezasse.

Esta era a ordem natural e inquestionável das relações: preto servia o branco, e branco mandava no preto. Para mandar, já lá estava o meu pai; chegava de brancos!

Além do mais, empregados brancos traziam vícios; um negro, por muitos vícios que ganhasse, havia sempre forma de lhos tirar do corpo.

Em Moçambique não havia televisão e, portanto, não suportávamos o ruído do telejornal, nem dos programas da manhã, da tarde e da noite. Havia os rádios, que, em Portugal, se chamavam telefonias, e que todos empunhavam para ouvir a emissora local, ou a da metrópole, em onda curta, essa muito mais protocolar, dando outro estatuto a quem a escutasse; até porque era preciso um rádio melhor, não um mero transístor minúsculo, ou um Xirico.[5]

Havia pelo menos uma emissora para os negros, que falava a sua língua e tocava a sua música, e que nenhum branco ouvia, embora a tolerasse nas ruas, no trabalho, nas obras, porque a negralhada ia produzindo, entretida com a marrabenta[6] e mais o batuque e a ladainha incompreensível do landim falado, e os cabos e fios iam progredindo pelas entranhas dos edifícios, como tinha de ser.

Em Lourenço Marques, as pessoas sentavam‑se no restaurante, de preferência no exterior, porque as ventoinhas no interior eram inúteis, e o ar-condicionado um luxo, conversando, durante prolongadas horas, sobre o fait divers colonial; bebiam do bom e do melhor e, eventualmente, fodiam, no final, em casa ou fora dela, legitimamente ou não.

Em Moçambique era fácil um branco sentir prazer de viver. Quase todos éramos patrões, e os que não eram, ambicionavam sê‑lo.

Para esse fim, havia sempre muitos pretos, todos à partida preguiçosos, burros e incapazes a pedir trabalho, a fazer o que lhes ordenássemos sem levantar os olhos. De um preto dedicado, fiel, que tirasse o boné, dobrasse a espinha à nossa passagem, a quem se pudesse confiar a casa, as crianças, e deixar sozinho com os nossos haveres, dizia‑se que era um bom mainato. Arranjava-se‑lhe farda cáqui, chinelos, dava‑se‑lhe da nossa comida, comia na mesa do quintal ou na da cozinha, e quando a roupa do patrão ficava coçada, oferecíamos‑lha como grande esmola. Ninguém queria perder um bom mainato.

Os pretos começavam a pedir trabalho às nossas portas desde crianças, rapazes e raparigas. Batiam ao portão, abríamos, e apareciam crianças esfarrapadas, descalças, ranhosas e esfomeadas de farinha dirigindo‑nos as poucas palavras que conheciam, “trabalho, patrão”. Crianças da minha idade ou mais novas. Abria a porta aos pedintes e ficava a olhá‑los sem palavras. Não compreendia. Chamava a minha mãe, que rapidamente os enxotava, “vai‑te embora, aqui não há nada!”, e eu seguia para o meu quarto e continuava a ler Dickens ou o que quer que fosse. Não compreendia.

O prazer de ler um livro amortecia humilhações, e era muito maior do que o de brincar sozinha com os bichos ou imaginando guerras com as roseiras do jardim. Um livro trazia um mundo diferente dentro do qual eu podia entrar. Um livro era uma terra justa. Entre o mundo dos livros e a realidade ia uma colossal distância. Os livros podiam conter sordidez, malevolência, miséria extrema, mas, a um certo ponto, havia neles uma redenção qualquer. Alguém se revoltava, lutava e morria, ou salvava‑se. Os livros mostravam‑me que na terra onde vivia não existia redenção alguma. Que aquele paraíso de interminável pôr do sol salmão e odor a caril e terra vermelha era um enorme campo de concentração de negros sem identidade, sem a propriedade do seu corpo, logo, sem existência. Nada nos meus livros, que recorde, estava escrito desta exata forma, mas foi o que li!

Quem, numa manhã qualquer, olhou sem filtro, sem defesa ou ataque, os olhos dos negros, enquanto furavam as paredes cruas dos prédios dos brancos, não esquece esse silêncio, esse frio fervente de ódio e miséria suja, dependência e submissão, sobrevivência e conspurcação.

Não havia olhos inocentes.

 

5

Foder. Essa descoberta tornou‑se algo que me envergonhava e desejava.

Tinha os tais 7 ou 8 anos.

Numa das raras ocasiões em que pude brincar fora do meu quintal – o meu pai não estava em casa e a minha mãe deve ter‑se querido livrar do empecilho – lembro que voava num baloiço improvisado num ramo de cajueiro, empurrada por um rapazito da vizinhança, mais ou menos da minha idade. O cajueiro situava‑se junto aos caboucos e paredes semierguidas de uma nova casa de colonos – e nunca de lá saiu, mesmo depois de concluída a construção. Ironicamente, era a casa da dona Prazeres. O miúdo era, obviamente, branco, filho de vizinhos de confiança, gente boa da metrópole; havia convivência. Perguntou‑me, “Queres jogar a foder?” Jogar a foder?! Ora aí estava uma brincadeira que não conhecia, nunca tinha jogado na escola e não imaginava mesmo como seria. Devo dizer que o Luisinho tinha também apenas uma vaga ideia, embora soubesse mais do que eu.

Era uma miúda curiosa, portanto não me passou pela cabeça recusar a brincadeira. Perguntei‑lhe como se fazia e ele esclareceu‑me resumidamente, “despimo‑nos e eu ponho‑me em cima de ti”. A ação não me pareceu muito ortodoxa, “despirmo-nos”, “em cima de”, mas aceitei sem problemas. Tinha curiosidade, e não só. Pressentia ser o que não se podia fazer, portanto devia ser bestial e queria experimentar. Era curiosa, era aventureira, era uma miúda sozinha que brincava com as formigas.

O Luisinho avisou que era melhor irmos jogar para dentro da casa. Mas não existia casa, apenas alguns tijolos já colocados até à altura do que viriam a ser as janelas, nada de teto, apenas chão de terra vermelha. No interior da estrutura encontrava‑se já alicerçada e erguida, sem reboco, a divisão em compartimentos a haver.

Escolhemos o que viria a ser o espaço da casa de banho. Deve ter‑nos parecido adequado à fisiologia da função. Era um espaço pequeno e dava para as traseiras da futura casa. Escolhemos sem pensar esse espaço mais pequeno, portanto mais fechado sobre nós, mais íntimo. Nenhum de nós sabia muito bem o que estava a fazer, o que era isso de foder. Mas intuíamo‑lo. E foi muito simples. Despimo‑nos completamente, eu deitei‑me sobre a terra, exatamente como nos ensinavam que se devia dormir, pernas e braços bem direitos, o Luisinho deitou‑se nuzinho sobre mim, exatamente como nos ensinavam nos livros da escola que se devia dormir, e ali ficamos alguns minutos, nessa posição de difícil equilíbrio, conversando e “fodendo”. Eu estava por baixo e daí podia ver a abertura já existente na parede exterior, onde se situariam as janelas. E, num ápice, apercebo‑me da figura do meu pai, oh, meu Deus, o meu pai, estou a vê‑lo, debruçado nesse vago, com os antebraços pousados no tijolo da abertura da janela, olhando para baixo, observando a cena, apercebendo‑se da situação e desaparecendo rapidamente, no meu encalce. Percebi tudo. Levantei‑me, derrubando o Luisinho, e agarrando a minha roupa. No momento em que o meu pai deu a volta ao exterior da casa, entrou pela porta da frente e me arrebatou pelo braço, estava o Luisinho ainda em pelota e eu já meia vestida. Segundos antes da pancada, tinha já a certeza absoluta de que foder era proibidíssimo.

Senti durante muito tempo as violentas bofetadas do meu pai a arder no rosto e os golpes que espalhou pelo meu corpo; rosto, braços, nádegas, costas, pernas. Onde caísse. Foi bruto. Depois fechou o meu braço nas suas poderosas garras e fez‑me voar para dentro do nosso quintal, onde me largou e pude fugir em direção ao meu quarto, contendo as lágrimas, ardendo, humilhada, pensando que a minha vida acabava ali. Pior que a dor da pancada era a da humilhação por ele me ter visto foder, me ter apanhado no pior dos pecados. Achei que não era capaz de voltar a olhar para ele nem de sair do quarto. Mais tarde ouvi‑o contar a desgraça à minha mãe, meio ralhando. Nunca, no resto da minha infância, da minha vida, qualquer um deles falou comigo sobre o acontecido. É algo que não existiu.

Nesse dia longínquo de 1970 perdi a inocência, e comecei a sonhar que fodia com o Gianni Morandi enquanto ele me cantava Non son degno di te,/non ti merito più.

 

6

Ele gostava de viver. Não tinha medo de nada. Com ele tudo era possível.

Tinha uma carrinha Bedford, branca, na qual transportava os materiais da eletricidade; cabos, tubos, maquinaria. Na altura, só quem morava no mato é que tinha jipe.

Quando decidia que íamos passear – e decidia‑o muitas vezes –, a minha mãe tremia. Era certo que o passeio ia acabar conosco perdidos ou acidentados num qualquer fim de mundo, tendo de procurar, a pé, cantinas ou palhotas para pedir ajuda. Enterrávamo‑nos ou o carro gripava ao atravessar um riacho ou embatia numa pedra ou num buraco fundo e partia‑se o eixo ou acabava‑se a gasolina… Eu e a minha mãe dizíamos‑lhe “não passa!”. E ele, “vocês vão ver!” E víamos! Daquele sítio em concreto víamos horas de paisagem! Terra, areia, lama. Folhas e casca de bananeira ou palmeira para entalar debaixo das rodas, “e agora vou ver se pega”. Seguia-se o “agora, chovar,[7] tudo a chovar”. Tudo era eu e a minha mãe, com ele à direção.

Findos os preâmbulos dos ineficazes primeiros-socorros mecânicos, o meu pai metia‑se pelo mato dentro e desencantava alguém, em alguma palhota, para vir empurrar, desenrascar o branco por uma gorjeta. Eu bendizia sempre essa gente recrutada à força, que para mim surgia do meio das árvores como se viesse do céu.

Saindo da cidade, os lugares podiam tornar‑se selvagens e inabitados por quilômetros e quilômetros. Eu e a minha mãe temíamos a noite, e só pensávamos em como sair dos apuros em que o meu pai nos metera por ter descoberto uma estrada que “de certeza devia ir dar a qualquer sítio”. O homem era assim.

Era África, inflamante, sensual e livre. Sentia‑se crescer por debaixo dos pés. Tremia. Um coração inchado. Era vermelha. Cheirava a terra molhada, a terra mexida, a terra queimada, e cheirava sempre.

Não é que não apreciasse os passeios do meu pai, mas tinha medo. Era criança. Não era o filho homem que desejou. Gostaria que tivesse sido possível o meu pai viver o suficiente para podermos repeti‑lo sendo adulta, capaz, mas não sei se lhe seria possível regressar a África, apesar de ter sido a única terra que amou. Nos dias que antecederam a sua morte ainda sonhava andar a fazer umas instalações nuns prédios da Sommerschield.

O meu pai nunca amou outra terra. Nos meus sonhos, os caminhos são também, ainda, picadas de terra vermelha batida.

[1] Hortas.

[2] Tradicional tecido estampado que as moçambicanas usam amarrado ao corpo como um sarongue.

[3] Bairro pobre da periferia.

[4]  Chope.

[5] Marca de aparelho de rádio portátil.

[6] Estilo musical surgido em Moçambique nos anos 30, mistura da música folclórica portuguesa com a música local.

[7]  Empurrar.

 

ASSINANTE PIAUÍ

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