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Morar na rua em Ipanema

Quem são os mendigos de um dos bairros mais ricos do Brasil e o que o poder público faz com eles

Paula Scarpin
O prefeito do Rio explicou por que os mendigos são recolhidos sem que existam vagas nos abrigos: “Não se pode transformar a rua em um lugar confortável para viver”
O prefeito do Rio explicou por que os mendigos são recolhidos sem que existam vagas nos abrigos: “Não se pode transformar a rua em um lugar confortável para viver” FOTO: APU GOMES

Pouco antes das quatro horas de uma madrugada recente, um comboio de seis veículos encostou junto à calçada da rua Visconde de Pirajá, a mais movimentada de Ipanema, no Rio de Janeiro. A picape prata da subprefeitura da Zona Sul era seguida por um carro da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, uma viatura da Guarda Municipal, outra da Polícia Militar, um ônibus da prefeitura e um caminhão da companhia municipal de lixo.

Um homem de óculos, na faixa dos 50 anos, vestido de camisa polo e calça jeans, bateu a porta da picape com força e, seguido por quatro seguranças musculosos, andou em direção à entrada de uma loja. Embaixo de uma marquise, três homens dormiam. Enrolados em panos velhos, usavam papelão encardido como colchão e sacolas de plástico como travesseiro. Em volta, havia garrafas PET vazias e jornais. O grupo recendia a suor, álcool, urina.

“Bom dia”, disse o homem da picape, “os senhores queiram se conduzir ao ônibus para nós os levarmos ao abrigo.” Um dos maltrapilhos, o que havia coberto a cabeça com a camiseta, colocou parte do rosto para fora, esforçando-se para entender o que se passava. Resignados, os mendigos começaram a se movimentar em câmera lenta. Trôpegos de sono, ou pelo evidente consumo de bebida na véspera, abaixaram-se para catar alguma coisa e caminharam em direção ao ônibus vazio.

Mal levantaram, dois garis entraram em cena como um furacão. Em menos de cinco minutos, sumiram com as sacolas, um carrinho de feira, os restos de papelão, os jornais e as garrafas de plástico. Tudo foi jogado dentro da caçamba do caminhão. Para os garis, era lixo. Para os mendigos, tudo o que tinham na vida.

“Antes, fazíamos a ronda às sete da manhã, mas dava tempo da pessoa correr, causar tumulto”, explicou dias depois o cérebro da limpeza, Bruno Ramos, um advogado de 31 anos, de camisa e cabelos engomados. “Agora é só na madrugada. Quando todo mundo está dormindo é mais fácil.” Subprefeito da Zona Sul, Bruno Ramos tem o apelido de “Eduardinho” devido à sua relação simbiótica com o prefeito Eduardo Paes, de quem é amigo há mais de dez anos.

Há um ano e meio, a retirada de mendigos da rua passou a integrar o Choque de Ordem, a bandeira da gestão de Eduardo Paes. A tolerância zero da prefeitura carioca se estende a cachorros e futebol nas praias, aos ônibus fora da faixa destinada a eles, aos camelôs e carros nas calçadas, e aos caminhões em determinadas vias e horários. Nada disso deu certo: basta os poucos fiscais se ausentarem (com ou sem motivos pecuniários) e cachorros, bolas, ônibus, camelôs, carros e caminhões voltam tranquilamente aos locais proibidos.

 

Com uma população de 50 mil moradores, Ipanema abriga os prédios mais caros da América Latina. Um apartamento na Vieira Souto, a avenida da praia, já foi vendido a 24 mil reais o metro quadrado. O condomínio chegava a 8 mil reais. O bairro é o único do Rio onde o comércio de luxo subsiste em lojas de rua – nos outros, foi confinado a centros comerciais.

Ipanema era uma vila de pescadores até o começo do século XX, quando um acordo entre a companhia de transporte e o governo expandiu a linha de bondes até a divisa com Copacabana. Em 1920, além das choupanas dos pescadores, havia menos de cinquenta construções na beira-mar. Na virada dos anos 50 para os 60, veio a fama nacional e internacional, embalada pela canção composta por Tom Jobim e Vinicius de Moraes e gravada por Frank Sinatra. Durante a ditadura, virou sinônimo da resistência artístico-boêmia, encarnada pelo semanário O Pasquim.

Veio então a especulação imobiliária, que destruiu a maioria das casas e permitiu a construção das torres de apartamentos e escritórios. Ipanema, junto com o Leblon, ficou sendo apenas um bairro da classe média alta e dos ricos. Mas manteve algo do glamour, da condição de centro de irradiação de modas e tendências, o que não aconteceu com Copacabana.

O bairro tem pobres espalhados por calçadas, marquises, bancos de praças e parques. Durante um passeio de dez minutos pelas ruas mais movimentadas, sempre se cruza com uma meia dúzia de mendigos. Um deles é o sergipano José Augusto Soares. Ele dormia nas imediações da praça Nossa Senhora da Paz quando o Choque de Ordem levou-lhe o carrinho de feira com todos os pertences: mudas de roupa, documentos, dentadura e algumas latinhas que catara no dia anterior.

Uma semana depois da expropriação, enquanto almoçava uma quentinha dada por uma ipanemense, Soares contabilizou o que lhe havia restado: “Essas havaianas, essa camiseta preta, esse moletom verde e essa bermuda xadrez: só sobrou a roupa que eu estava usando.”

Soares chegou ao Rio nos anos 70, incitado por um primo que falara maravilhas sobre oportunidades de emprego na construção da Barragem de Saracuruna, em Duque de Caxias. A aposta deu certo. Ao final da obra, trabalhou como pedreiro no porto, na Fiocruz e em presídios de Bangu. Entre uma coisa e outra, namorou, casou, teve um filho e comprou uma casa.

Houve a crise da dívida externa, a recessão, a inflação. As vagas na construção civil escassearam e Soares ficou desempregado. “Aí, já viu: eu com a mulher o dia inteiro em casa, sem ganhar dinheiro, não podia dar boa coisa”, contou Soares. Uma briga mais violenta acabou com o casamento. “Fui embora levando só o carrinho de feira, com umas poucas coisas”, disse-me com os olhos marejados.

Passava o dia na rua. Recolhia latinhas em lixeiras de lanchonetes para ganhar algum dinheiro com a venda do alumínio. Morava em um albergue na Lapa, onde pagava 17 reais por noite. Não era uma vida fácil, mas piorou. “Logo o lugar fechou e fiquei na rua da amargura”, contou, agora em lágrimas. Dobrou cuidadosamente a quentinha e guardou metade da comida para a próxima refeição.

A economia melhorou. A vida de Soares não. Nunca mais viu a família nem arrumou emprego. Ainda não se acostumou com a situação. Não tem coragem de abordar transeuntes e pedir esmola. “Ganho algum vendendo o que consigo catar, ou o que me dão”, falou.

 

Ainda que todos sejam pobres, cada um tem um motivo específico para viver da mão para a boca em Ipanema. Há jovens que cresceram fora de casa ou que fugiram da agressão dos pais. Moradores de favelas expulsos por traficantes. Alcoólatras e doentes mentais abandonados pela família. Retirantes que não conseguiram reorganizar a vida. Bandidos ocasionais e pedintes profissionais.

Há também os que têm emprego, mas moram tão longe do trabalho que dormem algumas noites na rua, para economizar o dinheiro do ônibus e do trem. Há aqueles que só dormem por lá na sexta-feira e no sábado, quando Ipanema se enche de turistas e é mais fácil receber restos de comida e trocados. A proximidade da praia é outro atrativo: a orla conta com serviços gratuitos ou baratos, como duchas e banheiros nos postos de salva-vidas.

Em 2004, houve a primeira tentativa de se contar o número de pobres que vive ao relento. O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome encaminhou questionários a 76 cidades com mais de 300 mil habitantes. Das 53 que responderam, 22 informaram ser impossível precisar o tamanho do problema. O Rio foi uma delas.

A estimativa carioca foi feita há dois anos. Um censo da Secretaria de Assistência Social contabilizou 4 800 moradores de rua na capital. Desse total, 2 800 estavam abrigados. Os outros vagavam perpetuamente. O município mantém quarenta albergues, com 2 885 vagas no total. O descompasso entre demanda e oferta é evidente. E pode ser bem maior porque ninguém garante que os números estejam corretos.

“No final da pesquisa, eu ainda via funcionários discutindo se pessoas que só morassem temporariamente na rua ou crianças deveriam ser incluídas na contagem, ou seja, a metodologia não estava clara”, explicou o assistente social Marcelo Jaccoud da Costa, que participou do levantamento. Segundo ele, nos primeiros levantamentos ficaram fora da contagem bairros enormes, como a Barra da Tijuca, o Recreio dos Bandeirantes e toda a Ilha do Governador.

 

José Antonio Pereira Bastos empurra todos os dias um carrinho de compras abarrotado de papelão em Ipanema. O Choque de Ordem também o pegou. Enquanto dormia, os homens da prefeitura jogaram num caminhão a sucata que acumulara em semanas de peregrinação pelo bairro. “Tinha uns 800 reais ali”, disse.

Bastos tem 60 anos. Há 45 alterna temporadas no Rio e em Pirapetinga, no interior de Minas Gerais, onde moram sua mulher e as filhas. Quando o emprego míngua na roça, ele vem para o Rio e se hospeda na casa de um cunhado, na favela do Cantagalo. “Só volto depois de juntar um dinheiro bom”, afirmou.

Latas, papelão, plástico, madeira e esquadrias são sua fonte de receita. Vende o material num depósito na Cruzada São Sebastião, um conjunto habitacional mal cuidado na divisa do Leblon e Ipanema. Perdeu a conta de quantas vezes foi levado para albergues. “Eu não sou mendigo”, disse. “Pode ser que os homens da prefeitura me peguem porque ando maltrapilho, mas ninguém vai pôr a melhor roupa pra carregar sucata.”

No começo do mandato de Eduardo Paes, Bastos era conduzido para o albergue da Praça da Bandeira. Nos últimos meses, passou a ser levado para a Ilha do Governador. “Quando estou muito cansado, nem pego ônibus para voltar para Ipanema, pego táxi mesmo. Com eles não tem conversa. Por isso agora ando sempre com 50 reais no bolso”, disse, coçando a barba com suas unhas compridas. “Eles dizem que vêm limpar a rua, mas quem limpa a rua mesmo sou eu.”

A Praça da Bandeira fica na interseção viária entre as Zonas Norte, Sul, Oeste e Niterói. Com grande movimento de pedestres e carros, é um lugar sujo, que inunda infalivelmente quando chove mais de meia hora. Ali, num prédio de quatro andares e sem elevador, funcionava o centro de triagem da prefeitura. Estava sempre lotado. Na ala feminina, só as grávidas, as idosas e as com problemas psiquiátricos tinham uma cama garantida. Numa noite, em uma operação com três ônibus, o Choque de Ordem recolheu 130 mendigos em Copacabana. Não havia cama para nenhum deles no albergue da Praça da Bandeira.

Quando isso acontecia, os indigentes se amontoavam na porta do prédio, buscavam algum lugar para dormir pelas redondezas ou iam embora antes mesmo do atendimento. Segundo estatísticas da Secretaria de Assistência Social, 95% dos mendigos levados para o centro de triagem da Praça da Bandeira voltavam para as ruas.

Conversei com um ex-funcionário do abrigo, que pediu para não ser identificado. Ele disse se lembrar do dia em que agentes da prefeitura entraram no prédio dizendo que deveria ser esvaziado imediatamente. “Achei que era um incêndio”, contou. Mais tarde, ele soube que a ordem de fechamento partira do próprio Eduardo Paes, que teria passado pela frente do prédio e ficara chocado com a quantidade de mendigos do lado de fora. “No dia seguinte, o Choque de Ordem já levava as pessoas para o abrigo Stella Maris, na Ilha do Governador”, disse o servidor.

O Stella Maris fica perto do aeroporto do Galeão, a 24 quilômetros de Ipanema. O prédio está a uma quadra da subida do Morro do Barbante, há anos controlado por milícias, numa área com pouco trânsito de pessoas e carros.

 

Eram quase duas da tarde quando Gustavo Villas-Boas contou as moedas no bolso e resolveu comer alguma coisa antes de voltar para a porta do banco. A lanchonete mais próxima era o KFC, mas ele torceu o nariz: detesta frango. Andou mais uma quadra e chegou ao McDonald’s.

Ao entrar na fila, percebeu que os demais clientes o encaravam com insistência. Fez de conta que não era com ele. Ao chegar sua vez, pediu a “promoção número 1 para viagem”, pela qual pagou 13 reais. “Vou levar isso para minha mulher, para ver se ela melhora de cara”, disse-me Villas-Boas. “Ela falou que eu estava fedendo, mas ontem mesmo tomei banho.”

Villas-Boas é muito magro, tem a pele tomada por escaras, vários hematomas ao longo das pernas e, de fato, seu mau cheiro era percebido de longe. Ele disse ter 16 anos, mas levando em consideração datas e situações que menciona, é provável que tenha mais. Falou que foi expulso de casa pelo padrasto aos 5 anos e desde então passou a morar na rua.

Desde os 12 anos, vive com a mulher, Patrícia, com quem tem um filho de 3 anos. Ela está grávida novamente. Villas-Boas a conheceu depois que “um gringo muito bacana” lhe deu de presente 350 reais. “Eu ficava olhando para ela na praia e, quando peguei o dinheiro, fomos ao McDonald’s. Gastamos tudo. Aí ela viu que eu era legal e foi morar comigo.”

Quando o entrevistei, eles haviam brigado e Patrícia pedia esmola na praça General Osório, a poucas quadras dali. O ponto do casal é a porta do banco Itaú, na rua Visconde de Pirajá. É onde Villas-Boas pode ser encontrado de segunda a segunda, com a palma da mão direita virada para cima, pronunciando as mesmas frases: “Senhora, me dá uma ajuda?”, “Moço, me paga um lanche?” e “Tem um trocado?”

A escolha do banco não é estratégica. “É só um ponto, não fico achando que vão me dar o dinheiro que eles pegaram lá”, disse. Para ele, os dias, meses e anos na rua são quase indistinguíveis. “Eu sei que o tempo está passando quando o banco coloca enfeites de Natal na calçada”, disse. “Aí, já é dezembro. Quando é Páscoa, tem coelho por todo o lado”, explicou.

 

“Dar esmolas: uma droga que vicia e rouba o futuro”, dizia uma faixa que ficou pendurada durante meses na praça Nossa Senhora da Paz. Ela foi posta lá pelo Projeto de Segurança de Ipanema, formado por moradores do bairro. O grupo se reúne uma vez por mês para discutir o que fazer com a segurança, a ordem, camelôs, barraqueiros de praia e, principalmente, mendigos.

Quinze pessoas participaram da reunião do Projeto de Segurança de Ipanema que acompanhei, numa sala do campus ipanemense da Universidade Candido Mendes. A primeira a falar foi uma senhora de vestido estampado e sandálias, aparentando uns 70 anos, que se apresentou como advogada. “Eu boto muita fé nesse prefeito, porque ele vai tirar os mendigos daqui. É impossível isso, com o IPTU que a gente paga”, disse.

Apesar de seus companheiros não lhe darem muita atenção, a senhora continuou: “Uma vez, um moleque veio me roubar. Eu prendi o braço dele com o vidro do carro, e o arrastei por dois quarteirões. Eles dizem que são ‘de menor’, mas eu sou idosa, já posso revidar.”

Ninguém disse nada, e ela continuou: “Mendigos, ladrões, são todos uns delinquentes… tem que matar! Vai pôr na cadeia para eles ficarem pondo fogo nos colchões?” A coordenadora do grupo, Ignez Barreto, uma senhora de cabelo preto e liso, vestida com elegância, interveio: “O.k., o.k., vamos focar no primeiro item da pauta que é o policiamento no bairro”, disse.

Ignez Barreto explicou depois, num café de Ipanema, como o grupo nasceu. “Quando os traficantes da Rocinha fecharam a Escola Parque por vários dias, minha filha, que tinha só 15 anos, se mobilizou completamente, alugou até carro de som”, lembrou. “Pensei então: ‘E eu fico aqui, dentro de casa, reclamando?'”

Ela aderiu ao movimento Basta!, depois integrou um grupo em Santa Teresa para combater a desordem no local, e finalmente criou um grupo semelhante em Ipanema. Esperar que o poder público resolva os problemas do bairro, segundo ela, é esperar em vão. “Nosso governo é mais do que paternalista, é demagógico”, afirmou.

Também disse que Ipanema melhoraria se o Projeto conseguisse convencer os moradores a parar de dar comida aos pedintes. O subprefeito da Zona Sul, Bruno Ramos, também crê que conscientizar os ipanemenses é uma das tarefas mais difíceis no combate à mendicância diuturna. “Quando você dá comida para quem está no meio da rua, você traz um monte de vetor: rato, pombo, bandido camuflado no meio”, explicou.

 

Sentada na calçada em frente a uma agência do Banco do Brasil, Fátima Aguiar da Silva cheirava a sabonete. Apesar das roupas puídas e da aparência descuidada, ela se apressou para esclarecer a vaidade. “Eu carrego tudo nessa mochilinha”, disse, abrindo uma bolsa de viagem para mostrar artigos de perfumaria e duas mudas de roupa.

Fátima tem 49 anos. Mora em Duque de Caxias, na Baixada, com outras doze pessoas, entre filhos e netos. De segunda a quinta-feira, fica em casa. No fim de semana, muda para as ruas de Ipanema. “Num dia bom de verão, dá para tirar 80 reais”, contou.

Durante toda a vida, trabalhou apenas uma vez, lavando roupa para fora. Achou que o dinheiro não compensava. Com o que ganha de esmola, sustenta a família e ainda paga uma senhora para cuidar dos netos pequenos. “Sei que ganharia mais se andasse com criança no colo”, disse. “Mas, como já vi muitas mães perderem o filho para o Juizado de Menores por causa disso, não me arrisco, não.”

Fátima costuma tomar banho nos Postos 8 ou 9 da praia, onde se cobra 1 real pela chuveirada. Quando o tempo está bom, dorme sob os coqueiros. Como ocorreu com todos os entrevistados que moravam na rua, ao final da entrevista ela pediu dinheiro.

Segundo Bruno Ramos, o roteiro das operações de retirada dos pobres da rua é em boa parte definido a partir de reclamações de moradores, que entram em contato com a ouvidoria por telefone ou e-mail. A ouvidoria, no entanto, enviou-me uma nota oficial informando que, entre dezembro de 2009 e abril de 2010, recebeu “cerca de 33 reclamações sobre moradores de rua”, o que equivale a menos de 6% das queixas no período.

Às vezes, as reclamações vão direto para o endereço eletrônico do prefeito Eduardo Paes. Seis meses depois de sua posse, ele recebeu um e-mail iracundo da Associação de Moradores do Leblon, bairro que faz fronteira com Ipanema e onde mora o governador Sérgio Cabral. Ela reclamava que, quase 200 dias depois de o prefeito tomar posse, as calçadas ainda estavam cheias de mendigos.

É o caso da praça Antero de Quental. Ali, é possível ver mendigos defecando entre arbustos, à luz do dia, ao lado de crianças brincando e idosos que jogam dominó. À noite, sem constrangimento, fazem amor no chão e nos bancos da praça.

Eduardo Paes encaminhou a mensagem ao titular e a vários funcionários da Secretaria Municipal de Assistência Social, com uma ameaça: se a situação não melhorasse, outro órgão assumiria as operações de rua. O assistente social Marcelo Jaccoud da Costa, que abordava os mendigos para convidá-los a entrar nos ônibus, foi informado do desígnio do prefeito.

“Não tenho dúvidas de que a estratégia do Choque de Ordem vai funcionar”, Marcelo Jaccoud me disse, meses depois. “Afinal, 300 pessoas que estavam na Nossa Senhora de Copacabana estão agora escondidas na Ilha do Governador. Mas a questão é: estamos fazendo isso tudo para quem? Para a pessoa que está na calçada ou para quem mora no prédio em frente à calçada? Na lógica da assistência social, quem deveria ser o foco principal do trabalho é o morador de rua.”

 

Nilo Alves de Oliveira é visto no coreto da praça Nossa Senhora da Paz há 33 anos. Vítima de paralisia infantil, ele se locomove em um skate, o que lhe valeu no bairro o apelido de “skeitinho”. “Olha só, que pantera!”, disse ele, numa tarde recente, enquanto acompanhava com a cabeça uma loira que usava uma calça tão justa que se poderia jurar que havia nascido dentro dela.

Aos 50 anos, vestindo apenas bermuda, Nilo Oliveira deixava à mostra os braços desproporcionalmente fortes em relação ao corpo. Em um deles, exibe uma tatuagem da caveira da morte, de capa preta e cajado. “Aqui tem que andar reto, certo e correto para nunca sofrer reflexo”, disse ele, mal-humorado. Encadeou outra frase desconexa e uma risada sarcástica. Quando uma flanelinha se aproximou, perguntei se a mulher incomodava os moradores da praça. “Ela não é doida: se fizer isso, morre”, disse.

A seu lado, um mendigo que arrastava a perna e parecia estar há dias sem tomar banho falou que Oliveira tinha uma “mansão” no bairro da Mangueira. “Eu tenho um barraco”, esclareceu Oliveira. “Quando estou a fim, vou para lá, mas em geral durmo aqui.”

Um garoto de bicicleta passou e ergueu o polegar em sinal de positivo. “É foguete do pessoal do movimento”, disse. O seu companheiro serviu de tradutor: “É o cara que passa os bagulhos das favelas para os playboys daqui.”

Oliveira foi levado inúmeras vezes para albergues. E sempre voltou para Ipanema: “A gente chega lá, não tem vaga. Eles só anotam o nome, dão café, biscoito, e eu pego o ônibus de volta.” Em sua opinião, as operações não vão durar muito tempo. “Estão querendo fazer com o Rio o que não pode”, comentou.

 

Durante dezessete anos, o Stella Maris, na Ilha do Governador, funcionou como um abrigo de família, destinado apenas a pais e filhos. Depois que os alvos do Choque de Ordem passaram a ser levados para lá, as famílias foram transferidas e sua capacidade aumentou. Além dos quarenta leitos, um auditório foi adaptado para comportar mais quarenta beliches. A prefeitura comprou dezenas de colchonetes e os espalhou pelos corredores e pelo gramado do abrigo. Mas continua contando com apenas dois banheiros, lavados duas vezes ao dia.

“Ainda estamos ajustando tudo porque tivemos que trocar o pneu com o carro andando”, disse o secretário de Assistência Social, Fernando William, em seu gabinete no centro da cidade. “Na Ilha, a evasão é de 10%, o inverso da Praça da Bandeira. E não tem nada a ver com o fato de ser mais longe”, disse.

No ano passado, pelas cifras da prefeitura, houve 7 600 encaminhamentos para abrigos. O número faz supor que uma mesma pessoa possa ter sido levada quatro ou cinco vezes. A maioria dos mendigos voltou às ruas depois de um banho e uma refeição. “Há casos aqui de a gente acolher o mesmo cara dez, doze vezes”, reconheceu o subprefeito Bruno Ramos. “Nossa ideia é vencer pelo cansaço, fazê-lo desistir. O cara tem que voltar para a casa, para a sua cidade, procurar uma alternativa de trabalho.” Manter os pedintes nos albergues é inviável: “Não existe amparo legal para manter uma pessoa em cárcere privado.”

A prefeitura admite a precariedade dos abrigos. Por isso, anunciou um gasto de 26 milhões de reais para a criação de 500 novas vagas e de melhorias nos locais já existentes. O plano é construir mais dois, um em Paciência, com 250 vagas, e outro em Bonsucesso, com 150. Em ambos, a prefeitura promete criar cursos profissionalizantes.

“São espaços muito interessantes, onde funcionam creches, cursos técnicos de altíssimo nível, com área para esporte, saúde; dá para fazer, digamos assim, um abrigo VIP”, disse o secretário Fernando William. “Esse tipo de alternativa vai ser um incentivo para que eles permaneçam no local.”

Segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social, 70% das pessoas que moram nas ruas têm alguma atividade profissional. São catadores de lixo, guardadores de carros, vendedores de sucata ou pedreiros. Um exame nos registros de triagem dos abrigos, no entanto, mostra que aqueles que optam por morar nos albergues não querem trabalhar.

O assistente social Jaccoud da Costa tirou duas conclusões dessa informação: “Primeiro, que a atividade no abrigo é frágil. E outra: as pessoas que topam ficar num abrigo são mais dependentes, enquanto quem fica na rua é mais safo.” Para ele, só o fato de a prefeitura discutir o assunto já é um avanço. “Nas gestões anteriores, ficava aquela briga se era competência municipal ou estadual, já que grande parte dos moradores de rua vem de outros lugares”, disse. “Mas, se alguém mora nas ruas do Rio há vinte anos, isso não é um problema do Rio?”

 

Em 1997, o então secretário de Segurança do Rio, o general Nilton Cerqueira, disse que o aumento do número de indigentes não era um problema de assistência social. “Só com atos violentos poderíamos livrar a cidade de mendigos”, disse. No ano seguinte, o ex-prefeito Cesar Maia anunciou que usaria creolina para tirar os mendigos das ruas da cidade. O desinfetante chegou a ser aplicado em alguns pontos de concentração de moradores de rua. A oposição protestou. A creolina saiu e os pedintes voltaram.

Em muitos prédios da Zona Sul, condôminos instalaram canos de PVC perfurados, ligados a uma mangueira, ao longo de toda marquise do edifício. É a “técnica do chuveirinho”. O zelador ou o síndico de vez em quando ligava a água, que caía sobre quem estava na calçada. A queda intermitente impedia que se dormisse no local.

A atual prefeitura também lançou mão de medidas espanta-mendigos. Debaixo de todos os viadutos da avenida Presidente Vargas, ao longo de túneis próximos ao Sambódromo e na praça Carlo del Prete, em Laranjeiras, foram fixadas pedras pontiagudas no concreto, para repelir os pobres que moravam ali. Na Praça da Cruz Vermelha, no centro, cerca de vinte bancos foram divididos ao meio por estruturas de ferro, que impedem as pessoas de se deitar.

Em função dessas iniciativas, o defensor público do estado Leonardo Rosa Melo entrará com um processo judicial contra a prefeitura. “São medidas discriminatórias travestidas de disciplinamento do espaço público”, disse Melo, no seu gabinete. “Se um restaurante pode puxar um toldo e ocupar a calçada sem ser repreendido, por que um cidadão não pode ocupar um espaço na rua?”, indagou. “É uma política belicista de coação da pobreza.”

 

Dificilmente se notava o compensado de madeira apoiado na base da construção do Posto 8, na avenida Vieira Souto. Mas duas malas grandes na areia, uma florida e outra preta, chamavam a atenção. Eram dez e meia da manhã, quando se abriu uma fresta no compensado. Dali saiu uma garota loira, vestida com calça legging e bustiê preto e rosa, exibindo uma pontuda barriga de oito meses de gravidez. Na frente do Posto 8 fica um prédio, projetado por Oscar Niyemer, cujo apartamento de cobertura foi colocado à venda no início do ano por 23 milhões de reais.

Uma faxineira da Comlurb saudou a moça: “Bom dia, barriguda! Dormiu bem?” Michele de Castro Pereira deu de ombros. “Estou cheia de fome”, reclamou. Avistou um vendedor de biscoitos Globo e conseguiu um pacote de graça. Comendo biscoitos com avidez, ela contou sua história. Morando em Niterói, frequentava aquele ponto da praia de Ipanema, onde tinha uma turma de amigos. Ali, conheceu Jonathan, morador do subúrbio de Campo Grande. Apaixonaram-se.

E Michele teve uma ideia: por que não largar tudo e ir morar ali? Havia um vão na lateral do posto que, se fechado, funcionaria quase como uma gaveta, fazendo as vezes de cama, assim como se vê em hotéis japoneses. Uma noite, Michele e Jonathan fizeram o teste. Na manhã seguinte, mudaram-se com as malas para a areia.

A prefeitura já a levou para o abrigo em três ocasiões. “Aquele lugar é para quem não tem nada na vida”, ela explicou. “Eu tenho casa, moro aqui porque eu quero.” Vi quando Michele abordou um casal italiano. Depois de dez minutos de conversa, os estrangeiros foram embora com cara de poucos amigos. Michele tentara lhes vender o bebê que trazia na barriga. Pedira 50 mil reais.

Duas semanas mais tarde, um funcionário da prefeitura, vestindo um colete escrito “Controle de Ratos”, passou no Posto 8 e indagou sobre o casal. A mesma faxineira da Comlurb que a saudara semanas antes lhe contou que o bebê nascera prematuro. Ao saber da notícia, os pais de Jonathan abrigaram o filho, Michele e o bebê em Campo Grande.

 

O pesquisador argentino Jorge Muñoz foi um dos fundadores do Fórum Permanente sobre População Adulta em Situação de Rua. Morando no Brasil desde 1967, quando veio estudar as ações sociais apadrinhadas por dom Hélder Câmara, Muñoz se tornou uma autoridade no assunto.

Baseado em pesquisas e experiências bem-sucedidas de várias localidades, o Fórum produziu dois documentos e os entregou ao secretário de Assistência Social, Fernando William. Poucas das ideias foram aceitas pela prefeitura. A principal delas foi vocabular. Os funcionários municipais foram orientados a deixar de falar “centro de triagem”, usando no lugar “casa de passagem”. Em vez de “recolher pessoas” passaram a dizer “acolher”.

Para Muñoz, os abrigos respondem às necessidades imediatas, como a fome e o local onde dormir. “A pessoa levou um tempo para cair na rua, e não se pode esperar que ela se recupere em 24 horas”, afirmou Muñoz. “Ela precisa fazer o caminho de volta, e é necessário que ela se sinta acolhida para percorrê-lo.” Desde a posse de Eduardo Paes, o Fórum não conseguiu agendar uma audiência com o prefeito.

Formado em publicidade, o paulistano Luciano Rocco morava em Londres quando conheceu The Big Issue, a revista cuja filosofia é exposta da seguinte maneira em todas as edições: “Oferecer aos sem-teto uma forma legítima de obtenção de renda.” De volta ao Brasil, Rocco criou uma publicação semelhante, a Ocas. Ela foi lançada em junho de 2002, com o apoio da M. Officer e do British Council.

Desde então, mais de 1 700 moradores de rua já foram recrutados para vendê-la no Rio e em São Paulo. Os pobres pagam 1 real por exemplar e o revende por 3 reais, embolsando o lucro. “Muitas pessoas vêm dizer que saíram da rua com o dinheiro que conseguiram vendendo a Ocas“, contou Rocco.

Na edição de abril, o tema da capa da Ocas era um filme de Teresa Aguiar sobre a morte de mendigos no Rio, nos anos 60. Havia uma reportagem sobre artistas de rua e um ensaio fotográfico sobre a capital paulista. O número anterior estampava uma entrevista com o jornalista Marcelo Tas, um artigo sobre a invisibilidade dos garis e uma reportagem sobre um grafiteiro que pintou uma cidade inteira na Bahia.

 

Num amplo galpão com paredes descascadas, cerca de sessenta moradores de rua estavam sentados em cadeiras de plástico. Funciona ali a Igreja Batista Farol da Lapa, bem próxima aos Arcos do bairro boêmio carioca. Na frente, o missionário Henrique César pulava e cantava ao microfone. Poucos pareciam interessados na cantoria. Depois de uma hora, Henrique César os convidou para receber uma bênção.

Seis homens se levantaram. Um deles, um rapaz musculoso vestindo uma regata preta com a inscrição “Eu chapo”, puxou uma oração de olhos fechados: “Obrigado, Senhor, por esse momento, Senhor, por essa oportunidade, Senhor, de recebermos este alimento, Senhor!”

Diariamente, à uma da tarde, a igreja distribui almoço aos pobres do bairro. O pedágio é assistir ao culto. “Às seis e meia, teremos outro culto, mas tem que vir assistir!”, conclamou o missionário. “Quem vier só para o lanche vai encontrar o portão trancado.” Chegara a hora de comer.

Três caldeirões com arroz, carne de panela e angu foram colocados em cima do altar. Os mendigos se levantaram um a um, fizeram seus pratos, alguns completando o cardápio com farinhas ou pimentas trazidas em sacolas de plástico. Ao irem embora, alguns combinaram de se encontrar na próxima refeição.

George Orwell viveu na rua e relata como é a vida dos pobres no livro Na Pior em Paris e Londres, publicado em 1933. Ele contou como religiosos obrigavam os indigentes a assistirem sermões em troca de uma refeição. “Os temas eram sempre religiosos – sobre como Jesus Cristo sempre tinha um lugar macio para os homens pobres e rudes como nós, e sobre como fazia diferença para um homem na estrada se ele fizesse suas orações regularmente”, escreveu Orwell, que em seguida revela o que os mendigos achavam das pregações: “Odiávamos aquilo.”

Outro autor que morou na rua foi o americano Jack London. No início do século XX, ele viveu por 86 dias como mendigo em Londres, onde 450 mil pessoas se espremiam entre cortiços e calçadas. Suas conclusões sobre a caridade estão em O Povo do Abismo: “As pessoas que tentam ajudar! As suas obras sociais, missões, demonstrações de caridade, e todo o resto, são embustes. Ainda que bem-intencionados, seus projetos são concebidos equivocadamente. Essas pessoas pensam na vida a partir de um juízo malfeito sobre a vida dos pobres. Como disse alguém, fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas.”

 

“Eu entendo que eles fazem isso na melhor das intenções, mas não deixa de ser humilhante”, disse um homem moreno e calvo, que pediu para ser chamado de Cláudio, ao comentar a ação dos missionários da Igreja Farol da Lapa. Nascido em uma família de classe média da serra fluminense, Cláudio fala inglês e é bacharel em turismo. Durante seis anos viveu em Munique com uma brasileira de origem alemã.

Ao voltar ao Brasil, Cláudio deu aulas e entrou como sócio na franquia de uma escola de inglês. O negócio o levou à falência. Sem nada, resolveu tentar a sorte no Rio e se hospedou em um hotel no Catete. Quando o saldo de sua conta bancária bateu os 300 reais, foi morar na rua. Logo no primeiro dia, conheceu um mendigo que sugeriu que procurasse um albergue. Depois de dez dias na fila de espera, conseguiu vaga no Hotel Champagne, um abrigo conveniado com a prefeitura.

“Por sorte, meu único companheiro de quarto era um advogado que também estava tentando reconstruir a vida”, contou. Ali, soube que a Secretaria Municipal de Assistência Social selecionava pessoas para o cargo de educador dos abrigos. Em três meses, já empregado, Cláudio conseguiu alugar um pequeno apartamento em Santa Teresa. Atualmente, tem dois alunos particulares de inglês.

“Tenho muita consciência de que sou uma exceção, ainda mais agora, que trabalho com a população de rua”, disse Cláudio. “A burocracia para quem quer sair da rua é muito grande. Tirar uma identidade para eles é uma tarefa muito árdua.”

Em uma tarde de abril, andei com Cláudio pelo centro do Rio para que ele mostrasse o que os transeuntes não percebem sobre a vida dos indigentes. No espelho d’água em frente ao Museu de Arte Moderna, ele apontou para uma bica escondida e disse: “Dali sai uma água razoavelmente limpa. As pessoas enchem baldes e tomam banho, lavam roupa.”

Dito e feito. Um rapaz se aproximou com uma garrafa PET e uma escova de dentes. Em um canto do estacionamento, lavou o rosto, a boca e abriu a tampa de um bueiro, de onde tirou um par de tênis e um saco plástico.

Mais à frente, perto do monumento em homenagem aos pracinhas, dois rapazes misturavam xampu à água de um balde, onde mergulhavam e esfregavam suas camisetas. Um deles, Giovanni Moura da Costa, encarnaria facilmente o papel de galã sem camisa em uma novela das 7. Ele contou ter “casa, mulher e filha”, mas o vício em cocaína o levara para as ruas há seis anos. Costa disse manter contato com a família da ex-mulher pelo Orkut. “Quando sobra uma graninha, eu gosto de frequentar as lan houses aqui do centro”, contou.

Cláudio sugeriu que ele tentasse acolhimento no abrigo Stella Maris, onde está trabalhando. “É o mesmo abrigo da Praça da Bandeira, só que agora mudou para a Ilha do Governador”, argumentou. “E pelo menos um colchão você consegue lá, com certeza.” Giovanni da Costa não se animou.

Numa manhã, Marcos Alexandre de Menezes tomava sol na calçada em frente ao Stella Maris, aonde tinha sido levado quatro dias antes. “Eu ia fazer o quê? Sair correndo?”, disse ele, que tem uma perna amputada e é cego do olho direito. Nas ruas há mais de dez anos, Menezes parecia tranquilo no novo lar. “Por enquanto, estou bem aqui, tem comida. Mas, se eu mudar de ideia, volto para a rua”, afirmou.

Um casal deixava o abrigo carregando uma mochila quase vazia. Marilene Silva puxou a barra da calça azul e mostrou um descamado purulento. “Achei que era uma alergia e fiquei tratando com uma pomada de mel, mas deve ser uma infecção mais grave”, disse. Como aqui não tem médico, vamos tentar achar um posto de saúde aqui perto.”

Marilene e o marido saíram de São Paulo há três meses. Viajaram ao Rio em busca de emprego. “Procuramos a prefeitura para tentar conseguir um lugar para ficar e nos mandaram para cá”, ele contou. “Mas é difícil. Por enquanto, só conseguimos dormir no corredor.”

Em outro canto do pátio, um homem de olhos vidrados tremia e balançava o tronco. Dois rapazes o abordaram e o levaram para trás de uma árvore. Minutos depois, os três reapareceram caminhando normalmente e rindo alto. “Foram fumar crack, com certeza”, comentou um funcionário com colete da Secretaria de Assistência Social.

 

Às três em ponto, conforme o combinado, o prefeito Eduardo Paes abriu a porta de seu gabinete, de onde se avista o grande relógio da Central do Brasil. Dispensou o assessor de imprensa (“Pode ir, não preciso de babá”) e ofereceu água e café. Perguntei-lhe o que a prefeitura pretendia fazer com os mendigos que tira da rua.

“Esse é um dos problemas mais difíceis de se resolver”, respondeu. “É o tipo de área onde você não tem uma política pública uniforme. Você está lidando com dramas de indivíduos, com as histórias as mais loucas possíveis.” Para Eduardo Paes, há um dilema insolúvel entre “o lado humanitário e….” – parou para escolher a melhor palavra – “…essa demanda de limpar a cidade. Tem o cara que reclama e tem o cara que acha que tem que permitir. E aí você tem os mais variados tipos de desencargo de consciência da burguesia: o pessoal vem e liberta a sua alma dos pecados distribuindo um sopão.”

O prefeito acredita que, no final das contas, a solução duradoura está em dar um tratamento individualizado a cada morador de rua. E disse que é possível fazer isso: “Tem assistente social a dar com o pé na prefeitura do Rio. Eles podem analisar caso a caso.”

A desativação do abrigo da Praça da Bandeira, ele disse, era um plano antigo. Uma das razões é que a população do centro da cidade tem o hábito de sustentar os mendigos com comidas, roupas e esmolas. “Acolher um sujeito e levar para lá é o mesmo que levar a raposa para o galinheiro: ele não vai querer sair de lá nunca”, afirmou. “Mudar para a Ilha não foi escolha minha, mas foi uma boa escolha. E certamente tem a ver com dificultar a volta para as ruas.”

Eduardo Paes reconheceu que as operações de retirada de pessoas da rua acontecem mesmo que não haja vagas nos abrigos. E defendeu que continuem assim: “Você não pode transformar a rua em um lugar confortável para viver. O ideal é que você consiga devolver essa pessoa para casa. Mas, se não conseguir, não dá pra ficar embaixo do viaduto.”

O prefeito rechaçou a afirmação que as operações servem para esconder a pobreza dos ricos e dos turistas. “O Choque de Ordem também está tirando muito puxadinho da calçada, é uma ação permanente de preservação do espaço público”, disse. Sobre as críticas de elitismo, o prefeito riu. “Não estou nem aí, olha as minhas rugas de preocupação”, falou, levantando a mão direita em minha direção. “A degradação do Rio de Janeiro tem muito a ver com esses sociólogos de plantão, essa falsa intelectualidade.”

Paes se irritou quando perguntei se as operações não teriam o objetivo de preparar o Rio para a Copa e as Olimpíadas. “É, põe aí que é por causa da Copa do Mundo, da Olimpíada”, disse com sarcasmo. “Agora tudo que a gente faz é por causa disso. O acolhimento de hoje é só para 2016. Depois pode voltar tudo para a rua.”

 

Em 1984, a prefeitura do Rio resolveu transformar em abrigo uma fazenda da época do Império, no bairro de Guaratiba, a uma hora do centro da cidade. A ideia era criar um espaço civilizado – com alojamentos limpos e organizados, hortas comunitárias e oficinas de profissionalização – para preparar indigentes a voltar ao trabalho.

A experiência foi narrada no livro No Olho da Rua: a Vida na Fazenda Modelo, do médico pernambucano Marcelo Antonio da Cunha, diretor da instituição entre 1999 e 2003. Ao chegar ao abrigo, Cunha encontrou o que descreveu como

um imenso repositório de vidas naufragadas, reunindo uma estranha e multiforme massa humana formada por todo tipo de gente e procedência: criminosos, pacientes psiquiátricos, portadores de deficiências, crianças de todas as idades, adolescentes, idosos moribundos e doentes crônicos acamados vivendo em total promiscuidade. 

No auge de sua ocupação, a fazenda chegou a abrigar 2 500 pessoas.

Ele descreve: “O ônibus da prefeitura, conhecido como ‘Cata-tralha’, ‘Cata-mendigos’ ou ‘Mendigão’, não parava de chegar trazendo mais gente – aqueles que ‘enfeavam’ a cidade com suas súplicas e andrajos.”

Certa vez, uma fábrica de calçados doou parte do estoque para os abrigados. A montanha de sapatos, todos misturados, chegava ao teto de uma sala. Cunha tentou organizar uma brincadeira. Propôs que cada um achasse o par perdido. “A cena me fez lembrar as imagens de Serra Pelada, onde multidões de mineiros subiam e desciam dificultosamente, como formigas, uma grande colina, em busca do ouro escondido sob a terra”, escreveu.

Cunha é hoje coordenador do Núcleo de Direitos Humanos da Secretaria Municipal de Assistência Social. E está esperançoso com a promessa de novos abrigos. “Eles vão oferecer alternativas de reinserção dos moradores de rua na sociedade, o que não acontecia na Fazenda Modelo.”

Paula Scarpin

Paula Scarpin é repórter da piauí desde 2007. Também é responsável pelos podcasts no site da revista

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