Tão rápido quanto mandava o BNDES apostar num determinador setor, o governo o relegava a segundo plano e mudava seu foco de ação, levando o banco a reboque de decisões erráticas e criando problemas para diversos setores da economia
Ver dados da foto Tão rápido quanto mandava o BNDES apostar num determinador setor, o governo o relegava a segundo plano e mudava seu foco de ação, levando o banco a reboque de decisões erráticas e criando problemas para diversos setores da economia MONTAGEM DE PEDRO ZOLLI SOBRE ILUSTRAÇÃO DE HARRY CLARKE

O ralo

Para acelerar o crescimento, o BNDES emprestou como nunca no governo Dilma, e ainda assim o país está em recessão. O que deu errado?
Consuelo Dieguez
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Tão rápido quanto mandava o BNDES apostar num determinador setor, o governo o relegava a segundo plano e mudava seu foco de ação, levando o banco a reboque de decisões erráticas e criando problemas para diversos setores da economia MONTAGEM DE PEDRO ZOLLI SOBRE ILUSTRAÇÃO DE HARRY CLARKE

Asede do sindicato dos metalúrgicos de Pernambuco fica numa arborizada rua de paralelepípedos próxima ao centro histórico do Recife. O movimento ali costumava ser igual ao de qualquer entidade de classe. Uma ou outra rescisão de contrato de trabalho, pedidos de informações, certa agitação em época de campanha salarial. Costumava ser assim. Desde janeiro, o sindicato vive outra rotina. Diariamente, por volta das oito da manhã, dezenas de homens de todas as idades, com expressões que vão da passividade ao desconsolo, chegam ao acanhado prédio de dois andares para homologar suas demissões.

Todos vêm de um único lugar: o Estaleiro Atlântico Sul, das empreiteiras Queiroz Galvão e Camargo Corrêa, em Ipojuca, a poucos quilômetros do Recife. São tantos os dispensados que o sindicato decidiu reuni-los no auditório da entidade não só para agilizar o processo, mas para evitar o constrangimento adicional de filas do lado de fora do prédio. No espaço de cerca de 60 metros quadrados, sentados em carteiras escolares, os metalúrgicos aguardam em silêncio o chamado de seus nomes.

O Atlântico Sul entrou em operação em 2008, com o objetivo de fabricar para a Petrobras navios e sondas que seriam utilizados na produção de petróleo na camada do pré-sal. O estaleiro atrasou as entregas e teve canceladas 16 das 22 encomendas de navios feitas pela Transpetro – o braço logístico da Petrobras –, embora já tivesse recebido boa parte dos recursos para tocar as obras.

A situação se complicou ainda mais no ano passado. Atolada numa crise financeira, a Petrobras cancelou encomendas futuras. Para piorar, tanto a estatal quanto as empreiteiras encarregadas das embarcações foram flagradas no escândalo da Operação Lava Jato. Com graves problemas de caixa, o Atlântico Sul reduziu o ritmo das obras e fez um drástico corte de pessoal. Dos 5 mil metalúrgicos que trabalhavam no estaleiro no final do ano passado, mais de 2 250 já haviam sido dispensados até setembro deste ano.

Na sede do sindicato dos metalúrgicos de Niterói, no estado do Rio, o quadro não é muito diferente. Numa terça-feira de setembro, postados atrás de um balcão de madeira, dois funcionários da entidade chamavam por ordem alfabética os trabalhadores demitidos do estaleiro Mauá Eisa Petro-Um. O estaleiro fechou as portas em julho, deixando de entregar para a Transpetro três navios em construção. Naquele dia, o sindicato fez 102 homologações de rescisão, só de metalúrgicos cujos nomes começavam pela letra R. Uma centena de Rafaéis, Reinaldos, Renans, Ricardos. Para o dia seguinte, outra leva com a letra R – de Robsons, Rodrigos, Ronaldos – também já estava agendada. Com o fechamento do estaleiro, 2 mil metalúrgicos perderam o emprego. A maioria ainda não recebeu nenhuma indenização. O dono do Mauá, o empresário Germán Efromovich, proprietário da companhia aérea colombiana Avianca, alega falta de recursos.

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