anais da política

Os intocáveis

Como um grupo de procuradores combateu a corrupção na Itália – e acabou derrotado

Rafael Cariello
Gherardo Colombo, Antonio Di Pietro (ao centro) e Piercamillo Davigo compunham a equipe principal da Operação Mãos Limpas; em 1992, pichações nos muros de Milão saudavam o herói do grupo: “Di Pietro é melhor que Pelé”, dizia uma delas
Gherardo Colombo, Antonio Di Pietro (ao centro) e Piercamillo Davigo compunham a equipe principal da Operação Mãos Limpas; em 1992, pichações nos muros de Milão saudavam o herói do grupo: “Di Pietro é melhor que Pelé”, dizia uma delas FOTO: CORRIERE DELLA SERA_1993_REPRODUÇÃO

A intérprete, que traduzia do italiano para o português e vice-versa, vinha fazendo o seu trabalho havia quase uma hora, sempre de maneira objetiva e impessoal – o tom de voz era neutro, monocórdio, sem ênfases ou inflexões que sugerissem qualquer interpretação sobre o que estava sendo relatado. Mantinha os olhos baixos, sobre um caderninho onde anotava os pontos mais importantes do discurso do ex-magistrado italiano Antonio Di Pietro. De repente, aparentemente motivada por algo que acabara de ouvir, achou por bem fazer uma pausa – muito breve – no fluxo do que estava dizendo e, do outro lado da mesa, levantou os olhos na minha direção. “Acho importante verificar isso”, alertou-me em português, como se questionasse sutilmente aquilo que Di Pietro havia acabado de falar. “Sete milhões de liras são cerca de 3 mil euros”, ela disse.

A quantia lhe parecia irrisória. Era difícil crer – como mais tarde, depois de terminada a entrevista, ela insistiria – que a Operação Mãos Limpas tivesse começado por tão pouco; um suborno quase desprezível na antiga moeda italiana. O que aconteceu depois que aquele punhado de dólares trocou de mãos foi talvez a maior crise política da Itália desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A série de investigações deflagrada no início de 1992 por Di Pietro na Procuradoria de Milão, no norte do país, foi responsável por colocar um ponto final, em pouco mais de dois anos, no regime político clientelista e corrupto comandado ao longo de quase cinco décadas pela Democracia Cristã, a mais importante legenda italiana do pós-guerra. Como resultado da ação dos magistrados, em 1994 os principais partidos políticos do país simplesmente haviam deixado de existir.

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES
Para acessar, assine a piauí

Rafael Cariello

Editor da piauí. Foi editorialista da Folha de S.Paulo e correspondente do jornal em Nova York

Leia também

Relacionadas Últimas

Guerra civil em Palermo

Com a máquina fotográfica a tiracolo, me tornei testemunha de todo o mal

O chefão

As relações de Frank Sinatra com o presidente e a máfia

Na era da Lava Jato, Supremo nunca afastou juiz

Tribunal recebeu 190 pedidos de suspeição de magistrados desde 2014 e rejeitou todos

Um general da ativa no centro da articulação política

Novo ministro terá de deixar Alto Comando do Exército; divergências no uso da verba de comunicação e atritos com ala olavista, inclusive Carlos Bolsonaro, explicam demissão de Santos Cruz

RBG – Ruth Bader Ginsburg, a juíza da Suprema Corte que faz diferença

Mesmo aquém de seu personagem, documentário é chance de conhecer mulher singular

Moro contra a parede

Para especialistas, conversas entre ex-juiz e Dallagnol indicam parcialidade e, no limite, podem levar Supremo a anular julgamento de Lula

Alertas mais precisos contra o desmatamento

Nova plataforma gratuita de monitoramento flagrou, em seis meses de testes, quase 900 quilômetros quadrados desmatados

Foro de Teresina #54: O trânsito de Bolsonaro, o bate-cabeça da oposição e o elogio da agressão

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Bolso esvazia bolsonarismo

Estagnação da economia é a maior razão de arrependimento de quem votou em Bolsonaro mas acha o governo ruim ou péssimo

Mais textos
1

Excelentíssima Fux

Como a filha do ministro do STF se tornou desembargadora no Rio

2

A redenção dos cinco

Um filme sobre os rapazes presos por um estupro que não cometeram

3

Um general da ativa no centro da articulação política

Novo ministro terá de deixar Alto Comando do Exército; divergências no uso da verba de comunicação e atritos com ala olavista, inclusive Carlos Bolsonaro, explicam demissão de Santos Cruz

4
5

Moro contra a parede

Para especialistas, conversas entre ex-juiz e Dallagnol indicam parcialidade e, no limite, podem levar Supremo a anular julgamento de Lula

7

Procura-se um presidente

Dependência virtual e extremismo de Bolsonaro precipitam corrida política no campo da direita

9

Na era da Lava Jato, Supremo nunca afastou juiz

Tribunal recebeu 190 pedidos de suspeição de magistrados desde 2014 e rejeitou todos

10

Bolso esvazia bolsonarismo

Estagnação da economia é a maior razão de arrependimento de quem votou em Bolsonaro mas acha o governo ruim ou péssimo