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Guerra civil em Palermo

Com a máquina fotográfica a tiracolo, me tornei testemunha de todo o mal

Letizia Battaglia
Ao fundo, Rosaria Schifani, viúva do guarda-costas Vito Schifani, morto com o juiz de Palermo Giovanni Falcone e outros colegas em 1992
Ao fundo, Rosaria Schifani, viúva do guarda-costas Vito Schifani, morto com o juiz de Palermo Giovanni Falcone e outros colegas em 1992

Trabalhei como fotógrafa do jornal L’Ora, de Palermo, de 1974 a 1992. Fui a primeira repórter fotográfica da Itália a cobrir notícias policiais. Dia e noite, inclusive feriados. Eu era uma bela mulher de 40 anos, transgressiva, mãe de três filhas, e dirigia um grupo de jovens fotógrafos. Entre eles, meu companheiro Franco Zecchin, dezoito anos mais jovem que eu, e minha filha Shobha.

Foram anos de tomada de consciência. Com a máquina fotográfica a tiracolo, me tornei testemunha de todo o mal que estava ocorrendo. Foram anos de guerra civil: sicilianos contra sicilianos. Foram assassinados os melhores juízes, os jornalistas mais corajosos, os policiais preparados, os políticos avessos à corrupção. E mulheres e até crianças. Por incúria política, os edifícios do centro histórico de Palermo desmoronavam. Por corrupção política, não havia trabalho. O desemprego levava ao desespero, ao tráfico, ao uso de drogas pesadas. Foram anos muito complicados para mim e para tantos outros.

Em meu estúdio, que por muito tempo foi também minha casa, conviviam amor e indignação. Nas paredes, fotos de crimes e de poesia se alternavam obsessivamente. Queríamos documentar tudo, queríamos dizer ao mundo o que estava ocorrendo e, simultaneamente, queríamos ser pessoas que amavam e aproveitavam a vida.

Enquanto a guerra da Máfia recrudescia, dávamos cursos para jovens fotógrafos, Franco e eu abrimos a primeira galeria fotográfica siciliana, levamos para casa pacientes saídos de hospitais psiquiátricos, fundamos uma revista chamada Grande Vu, divertida e politicamente corajosa. Com nossas fotografias de mafiosos e de vítimas, fazíamos exposições onde fosse possível, inclusive nas ruas.

Em 1986, inesperadamente, chegou de Nova York a notícia de que eu tinha recebido o prêmio Eugene Smith. Foi a virada. Entendi que deveria fazer mais. Não bastava apenas fotografar.

Filiei-me ao Partido Verde e participei de suas batalhas. Tornei-me conselheira municipal. Juntei-me ao trabalho de um prefeito jovem e corajoso, Leoluca Orlando, católico e antimafioso, e me tornei funcionária pública de Palermo. Durante quatro anos me dediquei à cidade. E dela recebi amor e gratidão. Foram os melhores anos de minha vida. Eu tinha finalmente o poder de “fazer as coisas”, plantar milhares de árvores e flores, ajudar os pobres, trabalhar pelas mulheres e pelos desfavorecidos, demonstrar que era possível existir uma classe política honesta.

Depois de quatro anos, fui eleita deputada para a Assembleia siciliana. Uma das experiências mais inúteis de minha vida. Conseguia um monte de verba e não podia fazer mais nada pela cidade nem pela Sicília. Na oposição, eu era apenas um número. Tudo era decidido em segredo nos gabinetes políticos, e qualquer luta estava perdida de antemão.

Depois, em 1992, vieram os grandes massacres: assassinaram o juiz Giovanni Falcone, a mulher e três agentes da escolta. Sessenta dias depois, um outro juiz, Paolo Borsellino, e mais cinco agentes saltaram pelos ares. Em seguida, também mataram um padre excelente, dom Pino Puglisi, que queria educar os jovens. Não fotografei: ao lado dos sicilianos honestos, chorando, me juntei às passeatas contra a Máfia.

Tínhamos perdido. Nosso sonho estava aos pedaços. A Máfia seguia  cada vez mais forte, cada vez mais associada à polícia. Fundei uma pequena editora, Edizioni della Battaglia, gastei todo o dinheiro que tinha para publicar textos contra a Máfia, lancei 150 títulos. Depois de algum tempo, fui embora. Estava mal. Por um ano e meio me refugiei em Paris.

Hoje, passados dezoito anos, vivo em Palermo. Não fotografo mais para jornal. Não teria forças para isso. As novas fotografias estão ligadas à minha intimidade. E também ligadas ao passado.

Minha cidade está suja e cheia de armadilhas, a nova Máfia quase não mata mais. Não é mais necessário. Muitos dos mafiosos já estão no poder, no comando da economia ou da política.

Tradução de Maurício Santana Dias

Palermo, 1976. Vincenzo Battaglia foi morto no escuro, no meio do lixo. A esposa tentou socorrê-lo, mas era tarde demais.

Palermo, 5 de Setembro de 1979. O juiz Cesare Terranova, comunista, membro do parlamento italiano e membro da Comissão Parlamentar Antimáfia, acabara de ser assassinado.

Palermo, 1980. Detenção do capo Leoluca Bagarella, na época braço direito de Totó Riina, ex-líder da máfia siciliana. Sua mulher, Ninetta, irmã de um mafioso arrependido, se suicidou

Palermo, 1982. Nerina trabalhava como prostituta. Ela e seus dois amigos foram mortos por não respeitarem as regras da Máfia

Palermo, 1988. Homicídio encomendado

Capaci, 8 de agosto de 1980. Nesse dia, o dono do hotel Costa Smeralda foi assassinado por três homens. A mulher pensava que seu filho fora a vítima

Palermo, 1976. Homem morto a tiros a caminho da garagem para apanhar o carro

Letizia Battaglia

Letizia Battaglia é fotógrafa siciliana.

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