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Paradoxos de Wong

Um jovem militante chinês entra na maioridade

Alejandro Chacoff
Na miscelânea de referências de Wong estão o ativismo virtual, o cristianismo paterno e ícones históricos da desobediência civil
Na miscelânea de referências de Wong estão o ativismo virtual, o cristianismo paterno e ícones históricos da desobediência civil FOTO: TYRONE SIU_REUTERS

Joshua Wong tinha oito meses em julho de 1997, quando Hong Kong, então uma colônia britânica, foi devolvida à China. Ele cresceu falando cantonês, e a julgar pelas entrevistas dadas à tevê – são muitas – seu inglês é pobre e gutural. No dia 1º de outubro deste ano, quando se comemoravam 65 anos de fundação da República Popular da China, Wong assistiu à cerimônia de hasteamento da bandeira nacional. No palácio de governo de Hong Kong, uma banda de metais tocava o hino enquanto pessoas levavam a mão ao peito, naquele gesto universalmente patriótico. Wong virou as costas, fechou os olhos e ergueu os braços. Se cerrasse os punhos, incorporaria a gestualidade tradicional do líder revolucionário. Mas Wong foge aos estereótipos, embora não à luta. De mãos dadas com seus amigos e seguidores, gritou slogans a favor da liberdade.

Wong completou 18 anos no dia 13 de outubro. Não precisa se preocupar com o serviço militar – os cidadãos de Hong Kong são dispensados de servir o Exército –, e ganhou o direito de beber e de votar. Parece se interessar mais pela segunda opção. Ao lado de companheiros mais velhos, como o universitário Lester Shum e o professor de direito Benny Tai Yiu-ting, Wong é um dos principais líderes do movimento político que tomou as ruas de Hong Kong desde setembro.

O movimento pretende impedir o governo chinês de controlar, por meio de um comitê, a escolha dos candidatos que disputarão a eleição do próximo chefe do Executivo de Hong Kong, em 2017. Será a primeira vez que o dirigente da região será escolhido pelo voto direto. Desde sua devolução à China, a ex-colônia vive sob o princípio de “um país, dois sistemas”, mantendo Legislativo e Judiciário próprios, além de gestão econômica autônoma.

O atual chefe do Executivo, Leung Chun-ying, conhece Wong de outras manifestações. Em 2011, quando tinha apenas 14 anos, o garoto criou o grupo estudantil Scholarism, que se opôs à tentativa do governo de Leung, simpático à China, de introduzir aulas de “educação patriótica” no currículo escolar. Segundo os jovens, a politização do currículo atrapalharia a qualidade do ensino. Wong e seus companheiros levaram mais de 100 mil pessoas às ruas, forçando o governo a engavetar seus planos. Desta vez, eles ainda não conseguiram nenhuma concessão significativa de Leung nem de Pequim.

A reação do governo chinês ao prodígio mais famoso de Hong Kong tem sido aquela mesma que você está pensando. O garoto é acusado de ser uma marionete de governos do Ocidente, ou até mesmo um fantoche da CIA. A mídia estatal chinesa o define como “um extremista”. Wong costuma rebater as acusações de forma enfática, por vezes deixando aflorar a insolência adolescente. Em um tuíte recente, ele escreveu: “As forças externas que me influenciam são meu celular coreano, meu computador americano e as séries japonesas de anime.” Depois completou: “Mas claro que tudo isso é feito na China.”

 

“Eu tenho uma empatia enorme por revolucionários de óculos, que o inimigo poderia derrubar com um peteleco e neles pisotear. Presume-se que sejam pessoas extremamente corajosas.” Essa passagem do romance Mating, do escritor americano Norman Rush, parece ter sido pensada para Joshua Wong. A fragilidade aparente do rapaz não deriva apenas dos óculos: magricela, com um corte de cabelo tigelinha e camisetas maiores do que seu corpo franzino, ele parece um nerd. Em entrevista a uma tevê australiana, distraía-se com o smartphone enquanto a repórter o metralhava de perguntas. A postura daria a impressão de descaso, não fosse o teor das respostas. Mesmo com um tom de voz robótico, talvez indício de uma puberdade tardia, Wong é altamente persuasivo quando discorre sobre democracia.

Como todas as figuras políticas interessantes, ele tem uma estranheza. Combina tendências da sua geração – como o uso hábil de redes sociais para fins de mobilização política – com um altruísmo mais antiquado, típico de ícones históricos da desobediência civil. Um dos textos que seus seguidores mais compartilharam no Facebook foi postado depois que ele ficou detido na sede do governo por mais de quarenta horas, em decorrência de um protesto.

“Muita gente diz que Hong Kong depende de mim e alguns até me consideram um herói”, ele escreveu. “Eu me sinto desconfortável e fico irritado com esses elogios. Enquanto vocês tomavam gás lacrimogêneo e spray de pimenta na cara, e mesmo assim continuavam protestando, eu não podia fazer nada além de olhar para a minha refeição e para as paredes brancas da sala onde estava confinado, sentindo-me impotente.”

A mistura de elementos novos e tradicionais talvez seja fruto de sua criação cristã. Wong costuma dizer que seu pai, um protestante devoto, foi o primeiro a ensiná-lo sobre as desigualdades econômicas. Quando ele tinha 6 ou 7 anos, o pai o levava para passear em partes abandonadas da cidade, onde viviam pessoas pobres e solitárias. A experiência lhe deu a primeira faísca de empatia social.

Wong não esconde sua crença em Deus, e por vezes sua oratória soa como um emaranhado de todas as suas influências. Numa manifestação, ele puxou o coro: “Deus, por favor, nos ajude nessa caminhada… e a não levar spray de pimenta na cara.” Além da referência religiosa, a frase tem o humor conciso de uma postagem no Twitter e a premissa central da desobediência civil: se houver violência, não virá dos manifestantes, mas sim do outro lado.

 

A atenção que recebe por vezes coloca Wong em situações inusitadas. Em julho, ele deu uma entrevista coletiva para discutir os resultados de seus exames de vestibular. Queria mostrar que o engajamento político não havia atrapalhado os estudos. Não convenceu todo mundo: suas notas foram boas, mas não excelentes, e ele ficou desapontado por não tirar o grau máximo na disciplina estudos liberais. Entre os paradoxos de Wong, está o fato de que seu gosto pela retórica política contrasta com um diagnóstico de dislexia que recebeu quando criança.

No dia do seu aniversário, Wong ganhou um bolo amarelo em forma de guarda-chuva. O artefato ganhou certo simbolismo após manifestantes abrirem guarda-chuvas para se defenderem do gás lacrimogêneo da polícia. Ele agradeceu o presente, e depois fez três desejos, todos ligados ao movimento por eleições livres. Em 26 de outubro, porém, os líderes dos protestos adiaram uma decisão sobre seus próximos passos, devido a divergências internas; eles querem organizar um referendo para consultar os manifestantes, mas ainda não sabem como. A presença popular nas ruas tem diminuído, e há pressão para que se inicie uma conciliação com o governo.

Após uma infância e adolescência explosiva, por assim dizer, o movimento, bem como Wong, parece chegar à letargia da vida adulta.

Alejandro Chacoff

Alejandro Chacoff, jornalista da piauí, trabalhou como analista político em Londres

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