Fiz ciências sociais com a ambição de demonstrar numa tese de doutorado que o futebol, ao contrário do que dizia a esquerda, era mobilizante e não alienante
Ver dados da foto Fiz ciências sociais com a ambição de demonstrar numa tese de doutorado que o futebol, ao contrário do que dizia a esquerda, era mobilizante e não alienante FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Que pena, Brasil

O basquete, a ditadura, o Corinthians e a Seleção de 82
Juca Kfouri
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Fiz ciências sociais com a ambição de demonstrar numa tese de doutorado que o futebol, ao contrário do que dizia a esquerda, era mobilizante e não alienante FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Estou sentado numa confortável poltrona do avião da Iberia com destino a Sevilha e escala em Madri.

A Copa do Mundo de 1982 é o objetivo, e uma sensação de quase euforia me invade quando ouço o aviso da decolagem.

Quantas pessoas não gostariam de estar no meu lugar? Quantas não pagariam para curtir uma Copa? Pois eu estava indo com tudo pago, teria o salário religiosamente depositado no dia 1º e no dia 15 e outra vez no dia 1º, ficaria em hotéis decentes, almoçaria e jantaria (nem sempre, nem sempre) à custa da Editora Abril, que mais poderia querer?

Seria minha primeira Copa in loco, aos 32 anos, diretor de redação, desde 1979, da Placar, então A (com maiúscula mesmo) revista semanal de futebol do país. Só me beliscando para ver se era verdade.

O futebol estava na minha vida desde sempre, tanto que minha primeira memória nítida é a decisão do Campeonato Paulista de 1954, o do IV Centenário de São Paulo, acontecida em fevereiro de 1955, um mês antes de eu completar 5 anos.

O Corinthians empatou 1 a 1 com o Palmeiras, tornou‑se o Campeão dos Centenários, pois tinha vencido o campeonato dos 100 anos da Independência, em 1922, e meu pai nos levou, meus dois irmãos mais velhos e eu, para comemorar no Parque do Ibirapuera, recentemente inaugurado.

Ah, sim, se você não sabe, sou corintiano, uma das melhores heranças que o velho Carlos nos deixou, além da obsessão pela retidão, promotor de Justiça que era. Cresci ouvindo‑o contar histórias do Corinthians, a cujos jogos sempre ia levado pelo seu Antônio, um português que era dono da mercearia vizinha à casa de meu pai. Quando o juiz entrava em campo, seu Antônio gritava:

– Ladrão, ladrão!

As pessoas em volta estranhavam, o jogo nem havia começado. E ele:

– É pra sabeire, é pra sabeire!

Herdei do velho Carlos, também, a admiração pelo camisa 7, meu número preferido, Cláudio Christóvam de Pinho, chamado de Gerente porque comandava o time como se fosse um armador.

Conheci Cláudio por acaso, no Morumbi, no meio de um jogo qualquer, dois anos antes de sua morte. Ao vê‑lo, fiz questão de abordá‑lo e dizer o quanto gostava dele, acrescentando que meu pai me aconselhava a comer agrião porque “o Cláudio leva agrião no bolso do calção”.

Levei anos para me tocar que o calção dos jogadores não tem bolso, mas, humilde, o Gerente olhou para mim e disse:

– Que bom, pra alguma coisa eu servi.

Cláudio é até hoje o maior artilheiro do Corinthians, com 305 gols.

Trocamos telefone, ele vivia em Santos, e nos falávamos de vez em quando.

Cláudio era sinônimo do Corinthians vencedor, situação invertida depois do título de 1954 até 1977, período do longo jejum alvinegro, terminado num 13 de outubro, no Morumbi, gol de Basílio, o Pé de Anjo, aos 37 minutos do segundo tempo.

Quando me perguntam quem eu gostaria de ser se não fosse eu, corrijo a pergunta e respondo que gostaria de ser o Basílio, não de ser eu. Explico por quê.

Pense num menino corintiano acostumado a ouvir histórias sobre as façanhas de seu time, o qual, no entanto, nunca consegue ser campeão, enquanto o São Paulo era, em 1957, e Santos e Palmeiras se revezavam, mais a equipe praiana que a alviverde, com timaços.

Imagine um adolescente corintiano que, entre 1957 e 1968, nem sequer vira uma vitória contra o Santos.

Reflita sobre um adulto corintiano que, em 1974, com 24 anos, testemunhara o vigésimo ano sem títulos, na derrota para o Palmeiras por 1 a 0 que, além de tudo, decretou a saída do melhor jogador da história alvinegra, o injustiçado Roberto Rivellino, campeão mundial pela Seleção em 1970.

Já chefe de reportagem da revista Placar, eu estava no meio da torcida naquela noite de 1977. Vi o gol de Basílio e nada mais, uma vez que os olhos embaçaram. Lembro de um jovem de uns 15, 16 anos, perguntar se eu estava me sentindo mal e de eu responder que nunca tinha me sentido tão bem.

Não sei como, mesmo, fui parar no gramado do Morumbi, com uma bandeira na mão, bandeira que não levara ao estádio e não me recordo de ter comprado.

Lembrei, então, que havia prometido ir buscar minha mulher Ledinha, do segundo casamento, em casa se o Corinthians fosse campeão, para irmos ver o Trio Elétrico Tapajós, que a Placar trouxera da Bahia para a festa da vitória.

Liguei o rádio do carro e mudei de estação, porque Osmar Santos declamava algo como “o que será que você me dá, Corinthians”, apropriando‑se da letra de À Flor da Terra, de Chico Buarque, composta um ano antes para o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, o que me despertou uma enorme vontade de chorar.

Troquei para a Bandeirantes, onde Fiori Gigliotti chamava Mauro Pinheiro, o Senador, para seus comentários. Melhor teria sido desligar o rádio.

Mauro começou mais ou menos assim:

– Antes de falar do jogo, da festa, quero mandar um abraço ao jovem jornalista, chefe de reportagem da revista Placar, Juca Kfouri, que deve estar enlouquecido em algum lugar do estádio.

Eu passava em frente ao Hipódromo de Cidade Jardim; subi na ilha que separa as duas mãos da avenida e chorei de alegria todos os prantos inconformados dos tempos de criança.

Quando, digamos, voltei a mim, era tarde para ir atrás do trio elétrico, embora já pudesse morrer. Peguei minha mulher e fomos à cantina Gigetto, que ficava aberta madrugada adentro e era frequentada pela classe teatral.

 

A paixão pelo futebol pautou minha infância e adolescência, a ponto de eu fazer um arquivo das coisas do Corinthians, do Pelé, de basquete, que joguei à vera dos 14 aos 18 anos no Club Athletico Paulistano, dois anos como infantil, mais dois como juvenil e uns poucos meses na categoria principal, abandonada depois de uma derrota para o Corinthians de Amaury Pasos, Wlamir Marques, Ubiratan, Rosa Branca, todos bicampeões mundiais em 1963.

Tenho recortes com fotos de Pelé atuando como goleiro pelo Santos contra o Grêmio, numa tarde, no Pacaembu, em que Gylmar dos Santos Neves, melhor goleiro da história do nosso futebol, bicampeão mundial pela Seleção e pelo Santos, foi expulso de campo.

Embora eu sempre tenha sido corintiano, o Santos teve grande importância em minha adolescência, porque era impossível gostar de futebol e não gostar do Santos. Devo àqueles jogadores vestidos de branco muitas alegrias e, ao menos, dois anos de vida saudável.

Comecei a fumar muito cedo, aos 12 anos. Surpreendido com um cigarro na boca por meu pai, um fumante moderado que apreciava, às vezes de olhos fechados, o prazer da nicotina, ouvi dele um conselho, não uma bronca:

– Não posso impedir que você fume, porque também fumo. Mas não faz bem, ainda mais para quem quer ser jogador de basquete. E prefiro que você fume na minha frente, porque, escondido, você vai fumar mais.

Segui fumando longe dele, mas sem a irresistível sensação da coisa proibida. Até que o Santos, em 1963, disputou o mundial de clubes com o Milan, e perdia por 2 a 0 no intervalo do jogo, num Maracanã lotado por 132 mil cariocas que, como eu, adoravam o time. No banheiro de casa, aos 13 anos, prometi, olhando para o espelho, que, se o Santos virasse, pararia de fumar.

O Santos virou o placar para 4 a 2, ganhou o jogo no desempate, porque havia perdido em Milão pelo mesmo placar, e foi campeão. Só voltei a fumar, aí já na frente de meu pai, aos 15 anos.

A virada santista é um de meus jogos inesquecíveis, narrado, na antiga TV Record, por Raul Tabajara, que antes do quarto gol, em falta batida por Pepe, citou Camões:

Cesse tudo que a Musa antiga canta/que outro valor mais alto se alevanta… goooooollll!

Havia caído uma tempestade colossal sobre o Rio de Janeiro, muita, mas muita água, e muitos gols – o suficiente para forçar o terceiro jogo, vencido pelo Santos por 1 a 0 –, mesmo sem o machucado Rei Pelé nos dois jogos.

Do bicampeonato mundial de basquete, no Maracanãzinho, tenho recortes dos quais fiz cópias e dei de presente para Amaury Pasos e Wlamir Marques, a melhor dupla que vi jogar no Brasil.

Minha despedida do basquete se deu pela constatação de que o jogo jogado por eles era muito diferente daquele praticado por mim, depois do aplastrante resultado de 135 a 60 no ginásio do Jardim América.

Quando juvenil, perdi os dois lances livres decisivos que levariam o Paulistano ao campeonato estadual em Franca, sonho do time que disputava o quarto lugar (Corinthians, Palmeiras e Sírio se revezavam entre os três primeiros) com o Floresta – que virou Esperia mais tarde, ao readotar seu nome de origem, trocado na Segunda Guerra como o do Palestra, que virou Palmeiras.

Frustração redobrada porque, depois de, na quadra, ser consolado pelos companheiros, no chuveiro ouvi alguém dando murros na parede do boxe ao lado e, ao sair para ver quem era, encontrei um dos colegas, o Viana, que não sei que fim levou, batendo no chão e na parede enquanto blasfemava:

– FDP do Kfouri, FDP do Kfouri.

Fiquei arrasado.

Nós perdíamos por um ponto quando, ao faltarem apenas três segundos para terminar o jogo, sofri uma falta. Nosso técnico pediu tempo e falou só comigo:

– Kfouri, nos treinos você quase não perde lances livres. Nem precisa fazer os dois. Empata o jogo que a gente ganha na prorrogação.

Acho que aquele minuto parado foi fatal. Esfriei e… tremi.

Por anos a fio não esqueci esse momento.

Como colecionava recortes de jornais e de revistas, acabei indicado por um amigo para trabalhar no Dedoc da Abril, a fim de atender à revista Placar, que nasceu em 1970, antes da Copa do México, a do tricampeonato mundial de Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson, Jairzinho e Cia.

O Departamento de Documentação e Pesquisa (hoje apenas Departamento de Documentação) foi criado para servir à Veja, em 1968. Tinha milhares de pastas de fotos e recortes alimentadas por seus funcionários, em regra gente que vinha dos cursos de história, economia, geografia, filosofia e ciências sociais.

Aprendi muito naquela “escola” frequentada pelos melhores jornalistas do país em busca de informações para suas reportagens. Pense num grande nome da imprensa brasileira e tenha certeza: passou horas no Dedoc pesquisando.

Todos ali eram mais velhos que eu, como Celso Ming, até hoje colunista de Economia do Estadão, e Irede Cardoso, uma feminista militante que veio a se eleger vereadora pelo pt nos anos 80.

Antes de estrear de corpo presente numa Copa, portanto, eu já tinha participado das Copas de 1970, 1974 e 1978, nas duas últimas como chefe de reportagem da Placar.

Nunca havia pensado em ser jornalista, apesar de meu avô materno, Luis Amaral, que era de direita, ter sido o primeiro repórter a entrevistar Luís Carlos Prestes no comando de sua Coluna.

Tive pouco contato com esse avô, porque o conheci já depois de ele ter sofrido um derrame cerebral. Mas sei que não se tratava de uma figura fácil. Viveu entre os índios, era ativista do cooperativismo, especialista em questões agrícolas. Antissemita e antissionista, escreveu, em 1948, Os Servos do Talmud, livro em que arrasava os judeus. Participou da fundação da Folha da Noite, origem do Grupo Folha. Era profundamente orgulhoso, a ponto de preferir passar por bêbado a admitir que estava sequelado pelo derrame.

Uma vez, férias de julho no Rio, em Ipanema, na rua Visconde de Pirajá, quando minha mãe saía comigo e com meus irmãos para a praia, ele pediu a ela que não fosse.

– Tenho de cuidar das crianças para que não se afoguem – ela ponderou.

– Que morram – reagiu.

Sim: não tenho uma boa lembrança dele.

 

Entrei no curso de ciências sociais da USP com duas ideias: seguir carreira universitária e escrever uma tese de doutorado para demonstrar que o futebol, ao contrário do pensamento vigente em nossa esquerda, era mobilizante e não alienante. Duros tempos, aqueles. Tempos de ditadura.

Uma noite, nos barracões que abrigavam o curso, na Cidade Universitária, o professor de sociologia 1, o grande Gabriel Cohn, marcou prova no horário em que jogariam Brasil e Romênia, em Guadalajara. Levantei a mão e lembrei que era dia de jogo de Copa do Mundo. A classe vaiou e o mestre submeteu à votação a manutenção do dia da prova.

Foi então que eu soube que a classe tinha 21 alunos. Deu 20 a 1. Porque, diziam os colegas, que passaram a me tratar como um reles alienado, “cada gol do Brasil atrasava em dez anos a revolução brasileira”.

Pior ainda foi no ano seguinte, nos Jogos Pan‑Americanos em Cali, na Colômbia, quando anunciei que torceria pelo time brasileiro de basquete contra Cuba.

– Mas você vai torcer contra o time do Comandante [Fidel Castro]? – perguntavam meus colegas.

– A revolução é uma coisa, basquete é outra. Eu sou brasileiro, não sou cubano – eu respondia.

Nunca permiti que a ditadura roubasse até o que eu tinha de mais íntimo. Seguia me comovendo ao ouvir, e sempre cantei, o Hino Nacional, porque era o do meu país, não o da ditadura usurpadora. Já bastava o medo que ela nos incutia.

O desfecho do episódio com Gabriel Cohn é saboroso.

Em 1982, sou convidado pelo professor e historiador da USP José Sebastião Witter para participar de uma reunião em que se discutiria a elaboração de uma enciclopédia brasileira do futebol. Reunião em curso, entra na sala o mestre Gabriel. Não seguro minha surpresa, há uns oito anos sem vê‑lo, e exclamo:

– Mestre, você aqui?!

Incontinente, ele se dirige a mim de dedo em riste e sorriso irônico:

– Você só está surpreso porque é tão preconceituoso como os seus colegas que não me deixaram ver Brasil e Romênia na Copa de 70.

– Peraí, professor. Foi você quem marcou a prova – retruco.

– Sim, foi, porque sou desligado. Mas, depois daquela noite, você nunca mais falou de futebol comigo. E saiba que sou tão ou mais corintiano que você e que não acredito em sociólogo no Brasil que não tenha as calças puídas pelas arquibancadas. Mas você também achava que a faculdade não era o locus apropriado para falar de futebol.

Gabriel Cohn acabou por influenciar minha escolha pelo jornalismo. Ao dar uma nota alta em meu trabalho final em sociologia 4, a respeito do sociólogo francês Émile Durkheim, sob o pretensioso título “Durkheim, um conservador?”, o que só um moleque de 23 anos poderia escrever, ele observou:

– Você tem certeza de que não quer ser jornalista?

Quando perguntei a razão da observação, numa nota tão boa, ele foi ao ponto:

– Como trabalho acadêmico talvez eu devesse dar zero, mas como resenha está muito divertida.

No ano seguinte, ao começar a fazer pós‑graduação em política, sempre às terças‑feiras, com o professor Francisco Weffort, um dos fundadores do pt e depois ministro da Cultura de Fernando Henrique Cardoso, surgiu o convite para assumir a chefia de reportagem da Placar e tive de optar.

Não havia pós‑graduação à noite e a Abril me liberava para fazer o curso, algo impossível com a Placar, porque a abertura da revista se dava às terças, dia de expedir as pautas e cobrar as anteriores, função do chefe de reportagem.

Bem mais tarde soube que em minha classe a maioria fazia parte, como eu, de grupos clandestinos. Já aos 17 anos, eu era do chamado “grupo de apoio” da Ação Libertadora Nacional, a ALN, organização de combate à ditadura comandada por Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira.

Ajudava a fazer a documentação para quem tinha de sair do Brasil e, depois da morte de Marighella, em 1969, servi como motorista de Câmara Ferreira, o Toledo, ou o Velho, a quem devo o fato de estar vivo. Ajudei a fazer os documentos, por exemplo, do publicitário Carlos Knapp, o Washington Olivetto dos anos 60 em São Paulo, dono da badalada agência Oficina de Propaganda.

Knapp dirigia seu Mercedes‑Benz com Marighella para cima e para baixo, além de esconder o guerrilheiro em sua residência, no elegante bairro paulistano do Jardim Europa, a 300 metros da casa do comandante do II Exército. Ninguém desconfiaria que dentro de um carrão raro como aquele na cidade pudesse estar o “inimigo público número 1” da ditadura.

Não foi fácil tirá‑lo do país, pois Knapp usa bota ortopédica por causa de uma osteomielite sofrida na infância.

Relato apenas este caso porque o próprio publicitário já o contou em suas memórias Minha Vida de Terrorista.

Mas não foi por nada disso que na noite de 7 para 8 de setembro de 1971 fui preso e levado para o DOI‑Codi, na rua Tutoia, o inferno chamado de Operação Bandeirantes.

Em plena Semana da Pátria na faculdade, fui estudar com três colegas no apartamento de um deles no Guarujá. Na volta a São Paulo, os convidei para tomar cerveja em minha casa. Dois aceitaram o convite. O terceiro, Guido Mantega, não aceitou. Passamos a brincar com ele por ser um cara de sorte e com ele viajei, no ano seguinte, até a região dos lagos quentes de Osorno, no Chile, de automóvel.

Pouco antes da meia‑noite, quando nos preparávamos para deitar, minha primeira mulher, Susana, que aniversaria no dia 8 de setembro, e eu ouvimos a campainha tocar forte e a porta do apartamento ser esmurrada. Quando abri, sei lá quantos homens armados de metralhadora entraram na sala.

Apavorante e ridículo. Apavorante por motivos óbvios, ridículo porque até um faqueiro, cuja chave foi impossível localizar em meio àquela cena, eles ameaçaram explodir, por suspeitar que nele houvesse armas.

Nos levaram para a rua Tutoia, de onde só nos soltaram no início da noite seguinte. Durante a madrugada e o dia inteiro ouvimos um de nossos colegas gritar sob tortura.

No meio da madrugada, fui interrogado. Eu podia saber por que estava sendo preso, mas sabia, também, que eles não sabiam por que haviam me prendido. Nenhum dos dois colegas tinha a menor ideia do que eu fizera na ALN, da qual já estava desligado.

Com muito medo, mas firme, comecei a responder ao interrogatório.

– Você é comunista?

– Não – menti.

– Mas socialista você é?

– Socialista é o ideal cristão – respondi.

– Você tem um primo procurado como terrorista – afirmou o interrogador.

– Como tenho outro que é o braço direito do governador Laudo Natel.

(O primo procurado era João Carlos Kfouri Quartim de Moraes e o braço direito do governador era Henri Aidar.)

– Por que você tem tantos livros subversivos?

– Não são subversivos, são livros de estudo da faculdade.

– Sua mulher já viu seu amigo pelado?

– É claro que não.

– Pois vai ver agora e vai chupar o pau dele na sua frente.

Tomado pelo pavor e pela indignação, reagi:

– Sou um cidadão comum, pago meus impostos, vocês não têm nada contra mim e eu exijo ser bem tratado e ficar ao lado de minha mulher.

O interrogador, de cabelo cortado rente e não mais de 35 anos, levantou‑se irritado e me deu um tapa no rosto, gritando:

– Vocês saem na chuva e não querem se molhar. Você vai ficar com ela até que a gente saiba tudo. Daí você vai ver o que é bom, porque aqui pode ser o céu ou o inferno.

No fim da tarde, sem mais, outro policial entrou na salinha em que estávamos confinados e disse que poderíamos ir embora, mas que não falássemos nada para ninguém sobre o que havia acontecido e que olhássemos para o episódio como experiência de vida.

Dias depois, sempre seguido por dois homens aonde quer que fosse, inclusive um jogo entre Corinthians e Vasco no Parque Antarctica, fui chamado a depor no Dops. Nome do delegado que me interrogou: Alcides Singillo, mais tarde denunciado por ter participado da prisão ilegal e ocultação do paradeiro do lavrador Manoel Conceição Santos. Quando vi o sobrenome numa placa sobre sua mesa, pensei em Kafka: dr. Singillo!

Minha ficha no Dops diz que meu nome de guerra é… é… Juca! De fato. Um tio foi o responsável. Eu tinha uns 3 anos.

O que nos levou à prisão foi o carro mal estacionado de um dos colegas. Pela placa levantaram sua identidade e souberam que ele já tinha sido preso por subversão. Abriram o carro, havia panfletos, esperaram por sua chegada e o fizeram dizer de onde vinha.

 

De volta para a Copa do Mundo: o voo para Madri transcorreu como um sonho.

Na chegada ao aeroporto de Barajas, um contratempo: nada de minha mala. O problema não era a máquina de escrever, as laudas, os livros de apoio sobre a história das copas, muito menos as roupas – remédios, na época, não eram necessários. Mas o meu credenciamento para fazer parte da família Fifa estava nela. “Sem sorte não se chupa nem um Chicabon”, dizia Nelson Rodrigues.

Perdi a conexão para Sevilha e a companhia de dois doces Albertos, Dines e Helena Júnior, o primeiro encarregado de cobrir a Copa para a revista Playboy, e o segundo como colunista da Placar. Dines abriu sua monumental reportagem com a famosa frase do poeta espanhol Federico García Lorca: “Eram cinco em ponto da tarde.”

Por que sorte? Porque, quando minha mala apareceu, cerca de duas horas depois, peguei o voo para Sevilha e desembarquei no exato momento em que a Seleção Brasileira chegava de Portugal, onde estivera treinando. Junto com ela, o repórter da Placar, Carlos Maranhão, dono de um dos melhores textos da imprensa nacional.

Pude, então, testemunhar por que o técnico Telê Santana acabou por escolher o Doutor Sócrates como capitão daquele timaço. Um dos jornalistas que o abordaram perguntou ao Magro quem era o melhor do mundo, Zico ou Michel Platini, os maiores craques do Brasil e da França. Ele olhou bem no olho do repórter e respondeu:

– A pergunta está errada. A pergunta é: Quem é o melhor do mundo, Zico ou Falcão?

Não que Zico, ídolo da torcida do Flamengo, a maior do Brasil, e Paulo Roberto Falcão, então chamado de Rei de Roma, disputassem a braçadeira de capitão, mas era meio inevitável que um deles, pela liderança técnica, fosse escolhido por Telê. Sem saber sabendo, no entanto, Sócrates, que também tinha cabeça e bola para a missão, botava os dois à sua frente, postura de humildade ao gosto do treinador.

Quando a Copa de 82 começou, era ele o encarregado de levantar a taça no pódio do tetracampeonato que escapara em 1974, na Alemanha, diante da fabulosa Laranja Mecânica, a seleção holandesa do mago Johan Cruyff e do cérebro de Rinus Michels, assim como escapara, sem derrota, na Argentina, em 1978.

Sevilha é uma cidade encantadora. Tanto que o poeta João Cabral de Melo Neto, depois de ter sido cônsul na Andaluzia, dizia querer passar seus últimos dias ali.

Cobríamos a Copa por telex, e com remessas de textos frios e de fotos por avião. Quando não conseguíamos pegar o malote da Varig, a companhia aérea brasileira que viajava o mundo, apelávamos para um passageiro de boa vontade e avisávamos a Redação para ir apanhar o material, não sem antes descrever minuciosamente o cidadão que o entregaria. Às vezes o pombo‑correio trocava de roupa no voo e dava o maior trabalho localizá‑lo.

Fax? Só na Itália, em 1990. Computador? Já nos Estados Unidos, em 1994, com direito a telefone celular.

Você sabe o que é um aparelho de telex? Melhor nem saber, mas vá lá. É como se fosse uma máquina de escrever, mas muito mais pesado, no qual, depois de escrever sua matéria no papel, você a copia ao perfurar uma fita que, pronta, é transmitida por linha telefônica.

Os centros de imprensa e as cabines públicas eram recheados desses monstrengos, mas, é claro, tinham horário, razão por que perturbávamos o pessoal dos hotéis para usar suas máquinas de telex, ali instaladas para receber reservas.

As fotos quentes eram passadas por maquinetas barulhentas da United Press International, UPI. A transmissão de uma foto, em preto e branco, levava em média dezoito minutos, seis minutos por lâmina, de magenta, amarelo e cinza, se a telefonista do hotel não estranhasse o barulho e interrompesse a transmissão, riscando a foto e obrigando o repórter a passá‑la de novo. Por paus ou por pedras, fato é que as reportagens chegavam aos seus destinos, e jornais e revistas fechavam no prazo.

Nos hospedamos no Hotel Inglaterra, bem no Centro de Sevilha, onde era servido um delicioso gaspacho, sopa típica gelada ideal para ser consumida depois de se passar a manhã sob o sol de mais de 40 graus do verão sevilhano, seco a ponto de não sujar o colarinho.

Já estava na cidade havia duas semanas quando minha mulher chegou. Cabeludo e barbudo, fui ao barbeiro de Sevilha antes de ir buscá‑la no aeroporto. Na saída do hotel, quando depositei a chave na portaria, o recepcionista elogiou minha aparência e ouviu o motivo. Na volta, deu‑me uma chave com número diferente de quarto. Disse a ele que não era aquela, ele insistiu que era e piscou o olho.

Era a chave da suíte presidencial, com uma cesta de frutas sobre a mesa e um balde de gelo com uma garrafa do espumante Freixenet! Minhas roupas estavam no armário, a máquina de escrever e as laudas na escrivaninha, os apetrechos de higiene no banheiro! Pense no tamanho da gentileza do funcionário de um hotel que já fora pago e recebia um bando de jornalistas desordeiros sem uma peseta para dar de gorjeta!

Outra história que só iria acabar muitos anos depois, como a de Gabriel Cohn. Porque, passadas mais de duas décadas, voltei a Sevilha e fiz questão de me hospedar no mesmo hotel, embora até pudesse ficar num melhor.

Chegamos à tarde, e na portaria perguntei se ainda havia ali alguém dos tempos da Copa de 1982. Disseram que sim, havia três funcionários, os quais estavam perto de ser jubilados (aposentados) e só faziam o turno da manhã.

No dia seguinte, ao descer para o café, vi na portaria o funcionário autor da gentileza, de cabelos brancos. Temi querer mais do que ver. Aproximei‑me, perguntei se ele se lembrava de um grupo de jornalistas brasileiros que se hospedara lá durante a Copa de 1982, ele respondeu que sim meio sem convicção e eu, então, disse que estava de volta ao hotel só por causa dele.

– É claro que o senhor não vai se lembrar de mim, mas da sua gentileza eu jamais esquecerei.

À medida que eu detalhava o episódio, ele ia ficando com os olhos marejados e dizia baixinho:

– Mas é o meu trabalho, deixar os hóspedes felizes, para que voltem.

No dia seguinte à noite desfrutada na suíte presidencial, fomos minha mulher e eu ao estádio do Betis, o Benito Villamarín, ver Brasil e Nova Zelândia, com a Seleção já classificada para a fase posterior, e ali vivi também inesquecíveis emoções estéticas.

Sob o sol das nove da noite na Andaluzia, ao lado da mulher amada, vi Cerezo, Sócrates, Zico, Júnior, Leandro e Falcão trocar passes, a Seleção golear por 4 a 0, e um marinheiro do navio‑escola brasileiro Custódio de Mello empinar uma pipa ao rés do gramado enquanto a banda tocava Aquarela do Brasil, música incomum em jogos de futebol.

Guernica, Pietà, Praga, Paris, o Rio visto do Corcovado, o gol de Basílio em 1977, que acabou com 23 anos de jejum de títulos para o Corinthians, os dois de Emerson Sheik em 2012, que valeram a primeira Libertadores, o de Guerrero que valeu o bicampeonato Mundial de Clubes da Fifa, a Catedral de Milão: foi emoção dessa grandeza.

A Copa havia começado num susto e terminaria em tragédia. O susto foi bem absorvido, a tragédia de Sarrià dura até hoje.

A União Soviética pregou o susto, pois saiu na frente no estádio do Sevilla, o Ramón Sánchez‑Pizjuán; o zagueiro brasileiro Luizinho cometeu dois pênaltis não marcados pelo assoprador de apito espanhol e provavelmente anticomunista (só pode ter sido por isso, como de resto a Fifa…); e Sócrates e Éder viraram para 2 a 1, pouco depois do meio e no fim do segundo tempo.

Demos na capa da Placar uma foto fria, de outro jogo, em cores, mas que parecia quente, de Sócrates comemorando gol. Concluí o texto de apresentação da revista com uma frase curta: “Gente, que susto!” Para minha surpresa, recebi de Roberto Civita, o dono da Abril, que não dava a mínima pelota para futebol, um telex em que dizia: “Até eu estou de chuteira.”

O resto da história é mais que conhecido e termina no dia 5 de julho, no Sarrià, estádio do Espanyol, em Barcelona, com a derrota para a Itália por 3 a 2, três de Paolo Rossi. Cada um a descreve a seu modo, cada um a digeriu como pôde, quem esteve lá e quem não esteve e gosta de futebol chora o revés até hoje.

A verdade é que, se jogasse dez vezes contra aquela ótima seleção italiana, a brasileira venceria seis, empataria três e perderia uma. O dia 5 de julho de 1982 estava reservado para ser o da derrota. Naquele dia, a Itália jogou melhor e mereceu vencer.

O jogo foi uma constante troca de superioridade, Zico sofreu um pênalti ao ter a camisa puxada e rasgada pelo zagueiro Gentile ainda no primeiro tempo, a Itália teve um gol mal anulado no segundo, acusou‑se Telê Santana de não ter recuado o time para garantir o 2 a 2 que classificava o Brasil, mas fato é que no terceiro gol italiano o time nacional inteiro estava na área para defender um escanteio. Um jornal andaluz deu como manchete: “Não se entende mais este mundo; Brasil eliminado.”

Sócrates escrevia o “Diário da Copa” para a Placar. Cabia a mim editar. O que imaginei que seria uma dura tarefa não passou de mero trabalho de datilógrafo. Texto perfeito, letra de gente, não do médico que ele era; ainda guardo os manuscritos. Terminados os jogos, eu ia buscá‑los no vestiário. Sim, naquele tempo os jornalistas entravam nos vestiários.

Em regra eu trocava uma impressão com Zico (ele sempre saía perdendo, porque a dele era melhor que a minha), pedia que Falcão desse uma nota para sua atuação e pegava o “Diário”. Numa dessas ocasiões, depois do jogo contra a Escócia, o segundo da primeira fase, 4 a 1 para o Brasil, ao contrário do que acontecera em Barajas me estrepei certo de que tinha dado sorte.

Sócrates foi escolhido para o antidoping. Passada mais de hora, ônibus da Seleção esperando pelo xixi do Doutor, Telê pergunta se vou aguardá‑lo até o fim. Diante do sim, pede que eu leve o capitão para o hotel, que ficava a uns quarenta minutos do estádio. Aceito feliz da vida a tarefa, pois seria oportunidade de conversarmos só os dois.

O Doutor demora uma eternidade para aparecer, conta que tomou todas as cervejas e vinhos brancos que estavam na geladeira, para estimular o xixi, e, esfalfado e briaco, dorme durante todo o percurso, ao meu lado, no banco da frente. Tive de acordá‑lo para que saltasse ao chegar no hotel…

O ambiente depois da eliminação era bem outro. Procurei Zico e não achei. Falcão disse que eu é que daria a nota. Dei 10, coisa que ele não fizera até então. Com os olhos marejados, o Rei de Roma agradeceu. Já o Doutor Sócrates entregou seus escritos e pediu, pela segunda vez, que eu redigisse o fecho.

– Mas não sei, vou escrever o quê?

– Você me conhece, você sabe.

– Digo o quê? – insisti.

– Que pena, Brasil – respondeu, olhos fundos como eu jamais os tinha visto.

A frase foi a chamada de capa da Placar, uma foto do fim do jogo, rasgada pela metade, com os brasileiros cabisbaixos em meio à comemoração dos adversários. Reitere‑se que naquela tarde os italianos jogaram melhor e o placar foi justo, como não teria sido injusto um empate que levaria a Seleção às semifinais.

Sérgio Cabral (o pai) saiu do Sarrià tão desacorçoado que resolveu ir a pé até o hotel em que se hospedara, muito, mas muito longe do estádio. Disse ele que, ao parar para atravessar uma das largas avenidas catalãs, em frente a um outdoor do Instituto Brasileiro do Café que anunciava as qualidades de nosso fruto, devia estar com tal cara de enterro que um jovem o abordou, olhou para a credencial que trazia pendurada e o consolou:

– Não faz mal, senhor. Vocês ainda produzem o melhor café do mundo.

Achei que passaria um bom tempo sem ser capaz de torcer por ninguém, nem mesmo pelo Corinthians. Qual o quê! Em seguida jogaram em Sevilha, pelas semifinais, Alemanha e França, que tinha um trio fabuloso no meio de campo, formado por Giresse, Tigana e Platini. Um novo embate entre o futebol‑arte e o futebol‑força.

O tempo normal terminou 1 a 1, gol de empate de Platini. Na prorrogação, a França chegou a ficar na frente por 3 a 1, mas, você sabe, se há um povo que não desiste nunca, esse é o povo alemão. Eles empataram 3 a 3 com, simplesmente, um gol de bicicleta. E adivinhe o que aconteceu nos pênaltis? Alemanha 5 a 4!

Toca para Madri, onde, no santuário do Santiago Bernabéu, estádio do Real Madrid, Alemanha e Itália jogaram a final da Copa. A força vencera, mas, essencial frisar, com talento.

Se produzir o melhor café do mundo não consolava, muito menos o fato de a presença brasileira na decisão ser a do árbitro Arnaldo Cezar Coelho, porque a regra é clara: final de Copa do Mundo tem de ter a Seleção Brasileira, não nossa arbitragem.

Pensar que estava tudo indo tão bem até ali! No Brasil vivia‑se a expectativa das primeiras eleições, desde 1965, para governador. Realizadas em novembro, foram coroadas pela vitória dos partidos de oposição em dez estados, entre eles os três principais: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, que elegeram, respectivamente, Franco Montoro (PMDB), Leonel Brizola (PDT) e Tancredo Neves (PMDB). Estavam abertas as portas para a campanha das Diretas Já e para o fortalecimento da Democracia Corintiana, movimentos que agitaram o país e o futebol nacional.

Era indisfarçável, no entanto, o gosto amargo da derrota no Sarrià.

Uma falsa questão nasceu da eliminação: melhor ganhar jogando feio ou perder jogando bonito?

Consultei o Conselheiro Acácio e ele acabou com a dúvida: melhor ganhar jogando bonito!

Trecho do livro Confesso que Perdi, que a Companhia das Letras publica este mês

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