questões cênicas

A última tentação de Cristo

O ator José Pimentel reluta em se aposentar

Fabio Victor
“Essa coisa de idade me irrita; artista não tem idade”, argumenta José Pimentel, de 83 anos, que na última encenação da Paixão de Cristo precisou da ajuda de socorristas no palco
“Essa coisa de idade me irrita; artista não tem idade”, argumenta José Pimentel, de 83 anos, que na última encenação da Paixão de Cristo precisou da ajuda de socorristas no palco FOTO: LEO CALDAS_2017

O cilindro de oxigênio teve de ser camuflado no palco com mantas iguais às dos figurantes que representavam o povo de Jerusalém na época de Jesus. Vestidos do mesmo jeito e integrados à cenografia, três socorristas operavam o equipamento, ao qual José Pimentel recorreu dezenas de vezes, cerca de vinte a cada noite, nas três apresentações da Paixão de Cristo do Recife, em abril do ano passado, no Marco Zero da cidade. Então com 82 anos – hoje ele tem 83 –, o ator e diretor interpretava o filho de Deus pelo 40º ano seguido.

A brisa que sopra naquele ponto à beira-mar não bastava para aliviar a falta de ar do protagonista. Quatro meses antes da estreia, Pimentel sofrera uma cirurgia de hérnia inguinal. Na internação, descobriu-se que tinha um quadro pulmonar grave – embolia, enfisema e pneumonia. Ficou doze dias no hospital, quatro deles na UTI. Médicos, parentes e colegas alertaram o ator dos riscos que correria se insistisse em atuar na temporada 2017 da Paixão de Cristo, mas ele bateu o pé.

Por recomendação médica, foi improvisada no palco uma enfermaria de campanha, ocultada do público por uma barreira humana de figurantes. O cilindro de oxigênio teve papel crucial na montagem. Antes de cada apresentação, o ator recebia uma lufada turbinada de ar puro, renovada nos intervalos entre as cenas. Os socorristas aproveitavam para medir o pulso do paciente e conferir a coloração da sua mucosa bucal – se estivesse arroxeada, era sinal de má oxigenação do sangue. Como Pimentel tomava anticoagulantes para a embolia, havia a preocupação adicional de que um corte ou machucado acidental assumisse contornos trágicos.

Na última noite, a situação, tensa desde o início, tornou-se dramática: no clímax do espetáculo de duas horas, quando o Messias é crucificado – cena de extremo esforço físico, em que Pimentel é mantido suspenso por um calção de lona atado à cruz –, um de seus braços soltou-se do arco que o prendia à viga horizontal de madeira, e pendeu ao lado do corpo. O outro braço tremia. Quem viu de perto, achou que ele não fosse resistir. Ninguém, no entanto, ousou devolver o braço caído à cruz. Um misto de tensão e comoção dominou o elenco na reta final do espetáculo. O ator Sérgio Gusmão, que interpretava o rei Herodes, chorou no palco.

Pimentel resistiu. Ao fim da apresentação, Gusmão leu ao microfone um texto em tributo ao protagonista, diante de parte dos 100 atores e 300 figurantes. Encerrou o discurso sob aplausos: “Parabéns, José Pimentel, pelos quarenta anos de Cristo. O Cristo de todos os pernambucanos.” Com um semblante de quem parecia recuperado, e num tom mais sóbrio que o do locutor, o homenageado agradeceu numa fala rápida, e arrematou: “Eu queria ter feito cinco [apresentações], só fiz três; mas no ano que vem a gente conserta tudo isso.”

Pimentel ainda não sabia, mas aquela seria a última vez que interpretava o Messias.

 

A montagem recifense que encena os últimos dias de Jesus é uma dissidência da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, realizada no município de Brejo da Madre de Deus, no agreste pernambucano. Foi lá, num dos mais famosos eventos da semana de Páscoa no Brasil, que José Pimentel fez seu nome e ganhou status de celebridade em seu estado natal. A cada ano, Nova Jerusalém reúne um público de mais de 50 mil pessoas, numa peça ao ar livre que dura oito noites consecutivas. Segundo a produção do espetáculo, ele já foi visto por 3,86 milhões de espectadores, em seus cinquenta anos de existência.

Pimentel foi diretor da peça e interpretou Cristo por dezenove anos em Nova Jerusalém, até que a montagem, consagrada nacionalmente, passasse, no final dos anos 90, a contratar atores globais para interpretar o personagem principal. Preterido, Pimentel criou sua própria Paixão na capital pernambucana, que não demorou a ganhar brilho próprio e a atrair um público numeroso, também na casa dos milhares de pessoas. Ali, o artista veterano voltou a acumular, nos últimos 21 anos, as funções de diretor e protagonista. É também o autor do texto. Sua obsessão em manter o papel apesar da idade o transformou, no imaginário local, numa figura algo mítica, algo folclórica. E colou sua imagem, de forma indissolúvel, à do homem de Nazaré.

Nos meses que se seguiram às apresentações de abril de 2017, os produtores, sócios de Pimentel na Paixão de Cristo do Recife – como num flashback do que ocorrera em Nova Jerusalém duas décadas antes –, decidiram que havia chegado a hora de substituí-lo. Vinham considerando e discutindo aquela possibilidade havia anos, e acreditavam que motivos não faltavam. À idade do intérprete (que contracena, por exemplo, com uma Maria, mãe de Jesus, representada por uma atriz de 26 anos, 57 a menos do que o ator que faz o seu filho), se somavam sua barriga pronunciada, o desgaste natural da figura do protagonista e a dificuldade crescente para se obter patrocínio. Como a estrela do espetáculo resistisse vigorosamente a abrir mão do papel, o plano acabava sempre adiado.

“Como vender um produto com um cara de 83 anos fazendo o papel de um cara de 33?”, questionou Paulo de Castro, presidente da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco, a Apacepe, entidade que produz o espetáculo, num encontro recente no Recife. Aos 67 anos, atarracado, com cabelos e cavanhaque brancos e um início de calvície, Castro é um sujeito espirituoso. Seu desembaraço e seus óculos de estilo moderno, com aro preto, lhe emprestam um ar jovial.

Na sede da Apacepe, um sobradinho sem placa de identificação no bairro de Santo Amaro, usado pelo produtor como escritório e residência – e onde Pimentel, seu amigo há quarenta anos, tem uma sala só para ele –, Castro me contou por que considerava a substituição imprescindível. “Só temos uma semana de ensaio antes da estreia, e muitos atores nem vão. Ou seja, ele dirige sem ver o resultado da representação, porque está em cena.” Nos últimos anos, queixou-se, o acúmulo de problemas afetou a credibilidade e o público do espetáculo, que chegou a reunir 25 mil pessoas numa boa noite, mas hoje dificilmente junta 15 mil.

“A Paixão é nota 10 para as classes C, D e E. E nota 0 para as classes A e B. As pessoas que sacam de teatro não aceitam mais Pimentel como Cristo. A voz dele é belíssima, ele é um ator do caralho, mas não tem mais fôlego, não tem mais condições”, ponderou Castro.

Diante das evidências de que não dava mais para Pimentel interpretar Cristo, Castro conseguiu o apoio dos demais produtores para a ideia de substituí-lo. O intérprete veterano, segundo os planos de seus sócios, poderia manter a direção do espetáculo, mas teria que sair de cena. Traumatizada com a experiência da última temporada, a filha única do ator, Lilian, apoiou a ideia. Isolado, Pimentel em tese também concordou. Mas, como eu descobriria mais tarde, não era tão simples assim.

No início de setembro do ano passado, a notícia da mudança saiu com destaque na imprensa local, que passou a anunciar um concurso para a escolha do novo Cristo. Os candidatos deveriam ter entre 25 e 35 anos e medir pelo menos 1,70 metro. Cobrava-se experiência mínima de três espetáculos teatrais. Os concorrentes receberam trechos do texto da Paixão para serem dramatizados e gravados em vídeo. A ideia era selecionar três finalistas. Um deles seria ungido o novo Messias.

 

A primeira triagem de candidatos, feita a partir das encenações em vídeo enviadas pelos postulantes ao papel de protagonista da peça, ocorreu na tarde de 6 de novembro, uma segunda-feira. Paulo de Castro, o presidente da Apacepe, conduziu-me pelas escadas do sobrado até a sala de reuniões da sede da entidade. Para minha surpresa, logo em seguida chegou José Pimentel. Cristo em pessoa participaria do grupo que escolheria o seu substituto.

O ator vestia calça jeans e camisa verde-abacate, com botões abertos que permitiam entrever uma corrente dourada com um crucifixo. Dourado também era seu enorme relógio. Os cabelos longos estavam loiros: três meses antes, Pimentel os tingira para interpretar o cangaceiro Corisco, o “Diabo Loiro”, numa montagem sobre Lampião que ele fora convidado a dirigir em Serra Talhada, cidade natal do Rei do Cangaço. Parecia abatido e tinha um fiapo de voz.

Problemas técnicos com o laptop e a conexão à internet emperravam a exibição dos vídeos. A cada problema técnico, Pimentel bufava e desviava o olhar para o chão. Castro reclamou, mais de uma vez, com seu filho Daniel, encarregado da parte técnica da sessão. Longos silêncios, em que só se ouvia o ruído do ar-condicionado, eram intercalados por gozações de todos com a atuação dos candidatos nos breves trechos em que a internet capenga permitia acesso às imagens. Pimentel desancava o pouco que via – “Viximaria, que coisa ruim da gota”; “Já vi uns cinco, achei tudo uma porcaria” –, dava soquinhos no braço da cadeira e coçava a cabeça, impaciente.

Quando a reunião se aproximava de completar uma hora de duração, e o clima de frustração dominava a sala, deu-se o momento mais tenso do dia. Castro e Antônio Pires, cunhado de Pimentel e também coprodutor do espetáculo, explicaram seus planos para a apresentação em 2018. Pimentel faria a cena inicial, normalmente. Logo em seguida a mise-en-scène seria paralisada, permitindo a passagem de bastão do veterano para o novo intérprete, que subiria ao palco. Previram também uma homenagem ao antigo protagonista, antes que ele se retirasse de cena definitivamente, e a ação fosse enfim retomada.

Pimentel cortou os colegas: “Vocês estão decidindo uma coisa que é função minha.” Entre risadas nervosas dos interlocutores, ele prosseguiu: “Eu já estou cheio desse negócio. Quem vai dirigir o espetáculo? Não sou eu? Em teatro, quem decide quem vai fazer o quê é o diretor.”

Castro rebateu, num tom duro: “Primeiro, Pimentel, não é o diretor quem escolhe. Quem escolhe é quem paga, e quem paga é o produtor. Em canto nenhum do mundo…” Com a voz baixa, Pimentel interrompeu o sócio, lamuriento: “Então ninguém aqui vai fazer teatro…” Castro continuou: “Você está invertendo o processo. Quando se vai fazer um filme, o produtor pode aceitar ou não o que o diretor está querendo. Mas a palavra final é de quem banca. Isso não só aqui, é assim no mundo inteiro. Agora, quando a gente chama o diretor é porque confia na obra do diretor. Mas isso é feito em comunhão de bens, isso é um casamento, que tem de ser feito afinadamente, porque senão vai dar merda. Entendeu, Pimentel?” Sem dar tempo para que o ator respondesse, Castro olhou na minha direção e tentou pôr fim ao embaraço: “Mas não vamos ficar discutindo isso aqui, ainda mais na frente de um ilustre jornalista.” Pimentel calou-se. Fitava o vazio.

Daniel, o filho de Castro, arranjou outro laptop e chamou todos para uma sala alternativa, no térreo, onde o sinal de internet era mais forte. Pimentel desceu as escadas com dificuldade. A cada vídeo exibido, lançava um comentário ferino. “E as mãos dele? Empalharam as mãos, não mexem não, ó”, disse sobre um. “Uma bosta. Dá um trabalho da porra dirigir isso aí”, impacientou-se com outro.

Ao fim da exibição, fiquei sozinho na sala com Pimentel. “E então, está resolvido?”, perguntei. “Não está, não. Está do jeito que eles querem. Produtor que escolhe é o que tem dinheiro, não esses nossos produtores de merda. Quem produz teatro aqui são a prefeitura e o governo do estado. Ouvir o que ouvi hoje me deixa muito puto. Minha vontade foi reagir, não reagi por causa de você. Mas esse assunto ficou enganchado aqui”, comentou, passando o dedo indicador sobre a garganta. “Vai ter troco.”

 

Na manhã seguinte, uma terça-feira quente e de céu azul, Pimentel me recebeu em sua casa, numa rua residencial do Arruda, na Zona Norte do Recife, a poucos metros do estádio do Santa Cruz. Da varanda ventilada onde sentamos, avistava-se o quintal, com pés de pitanga, carambola e jasmim, e um viveiro que abrigava uma arara amarela e azul, Lala. Nas paredes da sala contígua, havia fotos e gravuras emolduradas em que uma imagem se repetia: a do dono da casa caracterizado como Cristo.

Pimentel parecia um pouco menos abatido que na véspera. Durante quase três horas de conversa, repassou episódios de sua carreira, falou de saúde e doença, do presente e do futuro. À exceção de duas breves ocasiões em que o raciocínio rateou, mostrou o tempo todo uma cabeça acesa e a memória afiada.

Mulher do ator há mais de cinquenta anos, Aurinete de Oliveira Pimentel acompanhou tudo a distância, fazendo vez ou outra comentários sobre assuntos paralelos. Ela tem Alzheimer, e o avanço da doença a obrigou a abandonar um dos dois papéis que por anos desempenhou na Paixão de Cristo: o da mulher adúltera, cuja fala não consegue mais decorar. Restou-lhe a tarefa de incorporar a esposa de Herodes, uma figuração de luxo.

Católico não praticante, Pimentel disse que não sabe como conseguiu atuar na Paixão de Cristo mais recente com a saúde tão frágil. Mas logo em seguida argumentou que o cilindro de ar no palco era desnecessário. “Inventaram que eu precisava, mas por mim eu nem usaria.” Não é o que pensa o clínico geral Fábio Queiroga, um dos médicos do ator. Mesmo com a ajuda do equipamento, observou, subir ao palco foi uma decisão temerária. “O fato de ele ter conseguido atuar é algo que transcende a medicina”, afirmou Queiroga.

Médicos são uma novidade na vida do artista. “Nunca fui a um, porque sabia que, quando fosse, iam descobrir um monte de coisa, como descobriram.” Do tema dos cuidados com a saúde, passamos ao assunto que mais incomoda Pimentel: as limitações da velhice. “Essa coisa de idade me irrita profundamente”, disse, sentado na varanda de casa, com os olhos na direção do quintal. “Não tem nada a ver. Artista não tem idade. Se estou com pleno domínio das coisas que quero fazer, a idade não vai interferir, a não ser que eu seja um velho merda. Tem gente que envelhece a cabeça, e aí pronto, não tem cura. Minha cabeça não é velha. É cabeça de menino, menino safado, e é isso que me mantém vivo.”

Pimentel jogou bola com amigos até os 82 anos. Sem as peladas nem a musculação, outro hábito abandonado, reclama que anda muito parado, e que a inércia tem lhe embotado os planos. “Mil coisas já passaram na minha cabeça. Às vezes eu quero pensar em algo, mas não dá. É cansaço mesmo. Acho que estou velho. Eles têm razão”, disse, aos risos. Logo em seguida emendou, como quem procura mais confundir que esclarecer: “Não, isso passa. Em duas semanas de ginástica eu me recupero. Preciso voltar urgentemente.”

O ator e diretor sobrevive de duas aposentadorias – uma como professor de comunicação da Universidade Federal de Pernambuco e outra também por atividades de magistério, na Escola Técnica Federal —, que lhe rendem em torno de 9 mil reais mensais. Passará a ganhar também uma bolsa de 1 600 reais do governo de Pernambuco por ter sido escolhido, em 2017, um dos Patrimônios Vivos do Estado. Só com plano de saúde, gasta mais de 3 mil reais por mês. “É uma agonia arretada para viver”, queixou-se. (Pela atuação na última temporada da Paixão de Cristo, recebeu 4 100 reais. O ganho como coprodutor, que afirma ser ínfimo, até hoje é incerto, pois as contas não foram fechadas, e há parte da verba oficial por receber.)

Naquele dia, Lilian Pimentel, a filha, não estava na casa. Mora em outro bairro com sua filha, Bruna, e o neto, José, de 3 anos, mas costuma visitar os pais com frequência. Numa família em que tudo se confunde com o espetáculo, Lilian é responsável por cuidar dos figurinos da Paixão de Cristo, ao mesmo tempo que vive em constante conflito com os produtores da peça, uma guerra fria na qual uma parte acusa a outra de manipular Pimentel em benefício próprio.

O empregado da casa também atua na montagem anual, interpretando um tocheiro. Com o casal de patrões fisicamente fragilizado, José Bezerra, que os acompanha há dezesseis anos, é o faz-tudo e guardião da residência. Tem sinal verde para acessar os acervos de Pimentel distribuídos por dois quartos atulhados de livros, fotos, papéis, trecos. Quando a entrevista já havia terminado e eu me preparava para ir embora, o telefone tocou. Foi Bezerra quem atendeu, comunicando ao patrão que do outro lado da linha a representante de uma escola de inglês o procurava. “Diz que eu morri”, ordenou Pimentel. “Ele morreu”, avisou Bezerra à interlocutora, e desligou o telefone.

Na tarde deste mesmo dia, segui com Pimentel de táxi para a Apacepe, onde ocorreria uma segunda rodada de avaliação dos vídeos de pretendentes a substituto do ator. Ao sairmos do carro, brinquei: “Agora vai começar mais uma sessão de tortura.” Ele refestelou-se com o comentário. “Taí, agora você usou a expressão certa”, respondeu.

Durante a exibição, o ator novamente escarneceu dos candidatos, num vocabulário coalhado de palavrões e chistes homofóbicos. A contragosto de Pimentel – para quem não havia nenhum postulante minimamente qualificado para substituí-lo –, foram escolhidos quatro finalistas. Combinou-se que seria marcada uma data para vê-los no palco, quando então seria escolhido o novo Cristo.

 

Em seu apartamento arejado no bairro recifense do Espinheiro, cuja sala é repleta de livros de artes cênicas, o pesquisador e professor de teatro Leidson Ferraz contou-me histórias e anedotas que acumulou em onze anos de convivência com Pimentel – período em que foi ator e assessor de imprensa da Paixão de Cristo da capital. Lembrou como era difícil caminhar ao lado do colega no Centro do Recife, dado o frisson que a figura dele causava pelas ruas. Ao fim dos espetáculos da Paixão, espectadores se amontoavam nos bastidores com pedidos que iam de autógrafos a empregos. “O povo realmente o confunde com Cristo”, observou Ferraz, autor de Memórias da Cena Pernambucana, série de quatro livros sobre a trajetória de companhias teatrais do estado de 1940 a 2009.

Certa vez, sob a alegação de que Pimentel era adorado também pelos detentos do Aníbal Bruno, então o maior presídio de Pernambuco, a direção da instituição convidou o ator para, no mês da Páscoa, fazer uma espécie de versão pocket da Paixão de Cristo dentro da penitenciária, contracenando com alguns presos de bom comportamento. Pimentel relutou. “Ele morre de medo de cadeia”, confidenciou Ferraz, que testemunhou o episódio, no início dos anos 2000. Diante da insistência de autoridades e colegas, acabou aceitando.

Os administradores do presídio providenciaram um camburão para buscar o artista em casa e levá-lo até o Aníbal Bruno. Pimentel, já caracterizado como Cristo, pronto para a apresentação, foi no banco da frente da viatura, na vaga de passageiro. No trajeto de quase 20 quilômetros entre a casa do ator e o complexo penitenciário, motoristas buzinavam e pedestres acenavam e gritavam, todos se esbaldando com a visão de um Jesus conduzido por carro de polícia, lembrou Ferraz, que também estava no veículo. Dentro do presídio, Pimentel selecionou doze detentos, e com eles encenou trechos da montagem original, sob certa tensão.

Quando os artistas e produtores convidados se preparavam para ir embora, chegou a notícia de que, numa ala vizinha, havia começado uma rebelião de presos. Ninguém podia entrar ou sair do complexo penitenciário enquanto o levante não fosse contido. Ciente do pânico que a informação poderia causar a Pimentel, a direção do presídio o convidou para almoçar. Durante todo o tempo esconderam do ator o que de fato estava acontecendo. Por sorte logo a rebelião foi controlada, e o grupo pôde partir.

Ferraz tornou-se um fã do ex-colega. “Os mais jovens não sabem, mas Pimentel foi um excelente ator. É muito confiável, é fiel e honesto, por isso é que se fodeu na vida. É um artista. Se não ganhar dinheiro nenhum, ainda assim faz. Sempre se preocupou em pagar todos os atores, em mantê-los em atividade, por isso é muito querido pela classe teatral. É um cara do bem.” Sobre a insistência de Pimentel em se manter no palco, comentou: “Ele tem essa coisa de querer ser jovem eternamente. É meio Peter Pan.”

 

José de Souza Pimentel nasceu em 11 de agosto de 1934 em Garanhuns, no agreste de Pernambuco. O pai morreu de febre tifoide quando ele tinha 10 anos. A família mudou-se para a capital. Primogênito de quatro filhos, desde muito cedo trabalhou para sustentar a casa. Em cursos por correspondência, virou técnico em elétrica/eletrônica. Consertava rádios, amplificadores e aparelhos para esterilizar instrumentos hospitalares.

Tinha uma vida dura, mas encontrava tempo, na juventude, para frequentar ginásios de halteres. Chegou a ganhar um campeonato juvenil de fisiculturismo. Foi graças ao amigo de maromba Octávio Catanho, o Tibi, que Pimentel começou a atuar, numa companhia de bairro, o Grupo Dramático Paroquial de Água Fria. Tibi, que era ator e diretor, levou Pimentel a Fazenda Nova, distrito do município de Brejo da Madre de Deus, por cujas ruas se encenava uma Paixão de Cristo. Musculoso, Pimentel estreou como soldado romano, em 1956.

No mesmo ano, se juntou ao Teatro Adolescente do Recife e interpretou dois papéis na primeira montagem de Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. A peça venceria um festival nacional de teatro amador no Rio e lançaria Suassuna como um dos grandes dramaturgos do país.

Pimentel integraria alguns dos principais grupos do teatro pernambucano da segunda metade do século XX, como o Teatro de Arena e o Teatro Popular do Nordeste, o TPN. Autodidata e avesso a formalismos estéticos, era talentoso e intuitivo. Ganhou prêmios como ator e prosperou como diretor.

“Ele é um ator com muitas qualidades, inclusive com conhecimento de luz, de som e tecnologia. Todos os problemas de cena ele sabia, fosse num teatro pequeno ou em Nova Jerusalém. A outra metade dele é de muitas idiossincrasias”, me disse a ex-atriz Leda Alves, que contracenou com Pimentel nos anos 60 e hoje é secretária de Cultura da Prefeitura do Recife. Viúva do dramaturgo e encenador Hermilo Borba Filho, fundador do TPN, ela é polida ao mencionar o lado difícil do antigo colega. Mas lembrou que, no grupo liderado por Borba Filho, Pimentel era conhecido como um ator que resistia a ser dirigido se discordava da orientação dramatúrgica.

Outros contemporâneos, mesmo os que reconhecem as virtudes de Pimentel, apontam a egolatria como mácula também em seu ofício de diretor. Dizem que ao montar peças, muitas vezes o artista apostava em visões tão idiossincráticas das obras que acabava por deformar os textos – e enfurecer os autores. Foi o que ocorreu em 1970. Osman Lins, autor da peça Lisbela e o Prisioneiro – que se tornaria um hit décadas mais tarde –, pediu ao amigo Hermilo Borba Filho que dirigisse uma obra nova, Auto do Salão do Automóvel. Por problemas de saúde, Borba Filho repassou a tarefa a Pimentel. Em visita ao Recife, Lins pôde assistir a um dos ensaios comandados pelo diretor substituto. Ficou desesperado com o que viu e, de volta a São Paulo, onde morava, escreveu uma carta irada a Borba Filho:

“Concluí, da conversa com Pimentel e do ensaio que vi, que ele está bastante errado na sua compreensão da peça […]. Foi feita, sem nenhuma consulta a mim, uma transposição da peça, concebida [tendo] em vista a realidade paulista, para o Recife. Vejo a ação da peça decorrendo numa cidade de 8 milhões, com mil dificuldades a esmagar o indivíduo. Nunca numa cidade como o Recife, marítima e, apesar do movimento, doce sob muitos aspectos.”

O problema, segundo Osman Lins, não era apenas de interpretação cênica: Pimentel, ele disse, havia alterado até mesmo os diálogos que apareciam na versão original. “Foram feitas várias alterações no texto, também sem nenhuma consulta a mim”, escreveu o autor. “Algumas, é certo, devido à transposição da ação da peça [para o Recife]. Outras, porém, foram simplesmente despropositadas.”

Apesar dos protestos do autor, acabou prevalecendo a adaptação livre de Pimentel, e a montagem foi realizada seguindo os desígnios do diretor.

 

Pimentel também fez cinema, atuando em quatro longas: Riacho do Sangue (1966), Faustão (1971, rara ficção do documentarista Eduardo Coutinho), A Noite do Espantalho (1974) e A Batalha dos Guararapes (1978). Foi galã da telenovela A Moça do Sobrado Grande, exibida em 1967 pela TV Jornal do Commercio do Recife e, no ano seguinte, pela TV Bandeirantes de São Paulo. Na televisão, comandou programas de auditório e de entrevistas, cuja marca era um tom anárquico que não raro desmoralizava a censura vigente na época.

Essas facetas se somam à incursão tardia na academia. Pimentel já era um homem no umbral da meia-idade quando retomou os estudos interrompidos na adolescência. Ingressou no curso de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco em 1972, aos 38 anos. Formou-se em 1975, aos 41. Mais tarde lecionou no curso de comunicação social da Universidade Federal de Pernambuco, a UFPE. Deu aulas de várias disciplinas, entre elas a de rádio e tevê. Foi um professor sofrível e descompromissado, mais preocupado com suas atividades artísticas, conforme nos recordamos eu e outros colegas, alunos de Pimentel em meados dos anos 90.

O ecletismo do ator será o foco da biografia José Pimentel: Para Além das Paixões, escrita pelo jornalista e roteirista Cleodon Coelho, cujo lançamento estava previsto para este mês pela Cepe, editora do governo de Pernambuco. “Para os mais novos, Pimentel é só um excêntrico, mas descobri uma história muito maior que a do louco que brigou com Nova Jerusalém e montou uma Paixão de Cristo no Recife. Ele é um homem de teatro importante, um artista que esteve em grandes momentos da cultura pernambucana”, disse-me Coelho.

 

Idealizada e erguida pelo jornalista gaúcho Plínio Pacheco, Nova Jerusalém foi inaugurada em 1968, quando a Paixão de Cristo de Fazenda Nova – onde Pimentel já atuava em papéis menores – foi transferida para uma cidade cenográfica que até hoje os produtores definem como “o maior teatro ao ar livre do mundo”. Pimentel, que já se envolvia com parte da produção no antigo endereço, passou em 1969 a dirigir o espetáculo, com texto de Pacheco.

Começaria a interpretar Jesus mais tarde, em 1978, aos 43 anos – ou seja, quando já era dez anos mais velho do que o personagem ao ser crucificado. À época, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém já tinha o apoio e a transmissão da TV Globo e era uma das maiores atrações turísticas do estado.

No final dos anos 70, Pimentel se aproximou do poder público. Nomeado diretor de Artes Cênicas da Fundação de Cultura, teve a ajuda do prefeito biônico Gustavo Krause para realizar – como autor, diretor e ator – grandes espetáculos épicos ao ar livre, pelas ruas do Recife. Foi o caso de A Batalha dos Guararapes, reproduzindo o combate que selaria a expulsão dos holandeses do Brasil no século XVII, e O Calvário de Frei Caneca, sobre o mártir republicano da Confederação do Equador, no século XIX.

Antonio Cadengue, um dos principais encenadores pernambucanos, doutor em teatro pela Universidade de São Paulo sob orientação do crítico e professor Sábato Magaldi, destaca essas grandes montagens urbanas como o ponto alto da carreira de Pimentel, ressalvando que elas eram cronicamente dependentes de apoio estatal. E relativiza a importância artística do colega para a cena teatral pernambucana: “Nunca o senti como alguém disponível a conversar, receptivo a mudanças de parâmetros, à atualização estética. Ele nunca compreendeu bem as obras, nem Osman Lins, nem Albert Camus” – de quem Pimentel dirigiu Calígula –, “nem Milan Kundera” – de quem dirigiu Jacques e Seu Amo.

Ninguém discorda, no entanto, que Pimentel foi determinante para a consolidação e o sucesso da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Além de atuar e dirigir, projetou os sistemas de luz e som da peça, e inaugurou o recurso da dublagem, logo tido como indispensável numa montagem ao ar livre (em que o vento atrapalha o som ambiente, por exemplo) para grandes públicos.

 

A ruptura com Nova Jerusalém veio em 1996, quando os produtores anunciaram um novo Cristo para a Paixão do ano seguinte, o ator global Fábio Assunção. Pimentel tinha então 62 anos. Ouviu dos produtores que o acúmulo de funções em suas mãos estava prejudicando o espetáculo. Recorda-se também de terem alegado que ele já estava velho para o papel. A princípio, ele permaneceria como diretor. Mas terminou sendo dispensado de tudo. Bateu boca pela imprensa com os ex-parceiros e apontou, como uma das razões para a mudança, a influência comercial da tv Globo.

Depois de Assunção, dezenas de atores e atrizes globais assumiram papéis centrais em Nova Jerusalém. Cristo já foi interpretado por artistas como Herson Capri e Thiago Lacerda, mas também por modelos com veleidades artísticas, caso de Luciano Szafir e Rômulo Arantes Neto, protagonista no ano passado.

Pimentel se disse traído por Plínio Pacheco, o idealizador de Nova Jerusalém, e pelo ator Carlos Reis, que assumiu a direção do espetáculo. Aos 81 anos, Reis continua como diretor da peça. Diz que entrou na querela “quase como inocente”. “Ele acha que eu fui traidor, que fiquei buzinando no ouvido de Plínio, e isso não aconteceu. Mas não me incomodo. Não tenho raiva dele. Admiro sua capacidade de trabalho”, me disse, por telefone, o diretor. Instantes depois, fez críticas ao temperamento do ex-parceiro. “Era um ator muito bom, e nos demos bem no início, mas sempre foi uma pessoa difícil. Tem que ter muito cuidado. Porque ele é muito egocêntrico. Se não elogiá-lo, fica chateado; não se pode discordar dele. Mas sem dúvida é um cara com muitos méritos.”

Procurei por telefone Robinson Pacheco, filho de Plínio (morto em 2002) e coordenador-geral da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Ele disse que preferia se manifestar por e-mail, mas não respondeu minha mensagem.

Quando anunciou que montaria a sua própria Paixão de Cristo no Recife, Pimentel atiçou o nativismo pernambucano. Procurou ressaltar a valorização dos artistas da terra – em oposição às estrelas globais – e levou consigo vários desertores da montagem no agreste. A estreia na capital, em 1997, foi no estádio do Arruda, onde a peça voltou a ser encenada nos quatro anos seguintes. Foi transferida depois para o Marco Zero, no Centro histórico, com a novidade da entrada gratuita. O orçamento da temporada de 2017 foi de 480 mil reais, a maior parte em verba oficial – 250 mil reais da Prefeitura do Recife, e 150 mil do governo de Pernambuco.

 

Depois que as apresentações em vídeo foram analisadas e se chegou à seleção dos finalistas no concurso para o novo Jesus, instalou-se um impasse na cúpula da Paixão de Cristo do Recife. Pimentel não demonstrava a mais remota preocupação em definir seu substituto. Transcorrido um mês da primeira triagem, o processo havia empacado. Paulo de Castro marcou para 11 de dezembro a apresentação, agora no palco, dos pré-selecionados. “Eu vou resolver, isso está um negócio doentio”, me disse o produtor pelo telefone. “Trabalho para mim é gozo, é prazer, se não for assim eu saio. Tenho muitas coisas maiores a fazer.”

Pouco antes dessa conversa, eu havia procurado Pimentel. Queria saber se ele iria ao teste final. “Não sei, se eu estiver bem eu vou. Mas tenho a impressão de que não vai dar para eu ir, não.” Castro reagiu com uma ameaça: “Se ele não for, para mim acaba a Paixão. Pedimos desculpa e anunciamos o fim. E, para ser sincero, acho até melhor. Precisamos de um novo figurino e não sei se conseguiremos dinheiro.” Parecia jogo de cena, porque o produtor dobrou a aposta e marcou para 12 de dezembro, dia seguinte ao teste, a entrevista coletiva em que anunciaria o nome do Cristo substituto. Divulgou que o Cristo substituído participaria do anúncio.

No dia do teste, Pimentel, a quem caberia a palavra final na escolha, não apareceu. Disse que estava com dores nos joelhos. Juntei-me a Castro e a Antônio Pires, o outro produtor, nas poltronas gastas do Teatro Apolo, no Recife Antigo, para assistir ao ensaio dos finalistas. Para garantir que Pimentel participasse do processo, as performances foram filmadas. Dos três finalistas presentes, um era nitidamente mais fraco, concordaram Castro e Pires. Um quarto concorrente, que não chegou a tempo, faria sua cena mais tarde na sede da Apacepe. Todos os postulantes encenaram trechos do texto da Paixão sobre as tentações de Jesus e sobre o Sermão da Montanha. Ao fim do dia, os vídeos foram levados por Pires e pelo ator Sérgio Gusmão – que interpreta Herodes na Paixão e fez um bico de cinegrafista – à casa de Pimentel.

Quando chegaram lá, o artista veterano via tevê no sofá da sala. Vestia apenas uma bermuda, estava sem camisa, e assim permaneceu. Não se abalou quando ouviu que na tarde do dia seguinte o substituto seria anunciado numa entrevista coletiva já divulgada à imprensa, em que sua presença era aguardada. Disse que não havia sido comunicado nem do teste final, nem da coletiva – o que os produtores e a assessoria de imprensa do espetáculo negam.

“Como andam as coisas?”, perguntou Gusmão, procurando quebrar o gelo.

“Péssimas”, respondeu Pimentel.

“Por quê?”

“Porque está tudo errado”, disse o ator.

Passou então a ver os vídeos. Ao seu lado no sofá, Gusmão tentava auxiliá-lo com informações sobre os candidatos. Mas também não se furtava a dar sua opinião sobre o desempenho dos concorrentes, no que era rebatido com palavrões.

“Ator não tem nenhum”, concluiu Pimentel. Com má vontade, acabou escolhendo um dos quatro – justamente aquele que tanto os produtores quanto Gusmão haviam considerado o pior. Ao ser informado disso, Pimentel reagiu: “Então, pronto, é esse mesmo que eu escolho, porque é a opinião de três merdas.” Seguiu-se uma nova discussão, em que o dono da casa acusou Castro de estar tramando para acabar com a Paixão de Cristo, e logo uma calmaria. Pimentel pediu para ver novamente os vídeos. Lilian, sua filha, chegou, e ouviu mais queixas do pai sobre a operação para destituí-lo. “E essa coisa de ‘você não pode mais fazer’ [o papel]… Por que eu não posso fazer?”, questionou o artista. Ralhou com a filha, os médicos e Pires, o cunhado-produtor. Por fim mudou de ideia, descartou o primeiro escolhido e apontou outro finalista como seu sucessor.

 

Hemerson Moura parecia enlevado e acanhado ao lado de Pimentel, ambos sentados atrás de uma mesa na sede da Apacepe, à espera da entrevista coletiva. Jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos se apertavam na pequena sala. Nove veículos estavam presentes, entre eles as principais emissoras de tevê e os três maiores jornais do Recife.

Potiguar de Caicó que vive na capital pernambucana desde a infância, Moura tem cabelos, barba e olhos pretos, é musculoso e, com 1,78 metro, parece uns 10 centímetros mais alto que Pimentel, que diz ter medido 1,76 metro na juventude – mas hoje mal parece alcançar 1,70 metro. O novo Cristo contou que tem 39 anos – no e-mail enviado em setembro, candidatando-se à vaga, dissera ter 37. Formou-se técnico em rádio e tevê, graduou-se em turismo e estuda publicidade. É produtor de eventos e ator profissional – fez desde o papel de Cristo numa Paixão em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, a personagens em espetáculos infantis.

Moura foi generoso com o colega forçado a se aposentar. “Eu me encantei pela imagem de Pimentel ainda criança. Não tinha noção de quem era Jesus, mas aquela figura sentada no burrico me fascinava. Depois fiz curso com ele, que virou um grande ícone e minha referência artística.”

Pimentel não deu bola. Estava mais calmo que na véspera, mas não menos ferino. Tampouco buscava ser simpático. Em determinado momento, Moura passou a mão no cabelo do antecessor, de maneira afetuosa. Noutro, fez um afago no braço do artista veterano. Pimentel permanecia impassível, sem reagir aos gestos de aproximação. O substituto sacou o clima, e tratou de ser humilde: “Tenho dentro de mim que não estou entrando para substituí-lo, mas para auxiliá-lo a contar essa história. Não quero ser definido como o novo Cristo, mas como um ator que vai ser dirigido por José Pimentel.”

Quando afinal chegou a sua hora de responder às perguntas, Pimentel foi pelo caminho inverso.

“De quem foi a ideia de trocar de ator?”, alguém quis saber.

“Os produtores, que são também meus sócios, acharam que eu estava velho demais para fazer o papel.”

“E você, o que acha?”

“Eu acho que não. Vou morrer sem achar. E tenho minhas dúvidas sobre o que vai acontecer. Acho que esse novo ator não vai aguentar muito tempo.”

Pimentel foi em frente: “O rapaz estava aqui nervoso, agoniado. Quando pegar Cristo para fazer, vai se lascar, porque é muito difícil fazer Cristo.”

“Como está se sentindo?”, perguntou um repórter.

“Eu estou chateado, estou infeliz porque não vou fazer.”

“Mas compreende que é necessário?”

“Não”, reagiu Pimentel. “É porque eu estou velho? Amanhã eu boto uma roupa e faço o papel melhor que qualquer um.”

Fabio Victor

Fabio Victor é repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por 20 anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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