No final de 2005, Lula e Toledo se reuniram para inaugurar parte da Interoceânica, que iria ligar o Brasil ao Pacífico. Orçada em 800 milhões de dólares e capitaneada pela Odebrecht, a rodovia acabaria custando 2,3 bilhões aos cofres peruanos
Ver dados da foto No final de 2005, Lula e Toledo se reuniram para inaugurar parte da Interoceânica, que iria ligar o Brasil ao Pacífico. Orçada em 800 milhões de dólares e capitaneada pela Odebrecht, a rodovia acabaria custando 2,3 bilhões aos cofres peruanos IMAGEM: AP PHOTO_KAREL NAVARRO

Uma história do Peru

A ascensão e a queda da Odebrecht na América Latina
Malu Gaspar
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No final de 2005, Lula e Toledo se reuniram para inaugurar parte da Interoceânica, que iria ligar o Brasil ao Pacífico. Orçada em 800 milhões de dólares e capitaneada pela Odebrecht, a rodovia acabaria custando 2,3 bilhões aos cofres peruanos IMAGEM: AP PHOTO_KAREL NAVARRO

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O calor e o céu claro típicos de janeiro, os turistas na Plaza Mayor de Lima – tudo parecia sugerir um dia como tantos outros quando o executivo brasileiro Mauricio Cruz, presidente da Odebrecht no Peru, atravessou os portões do palácio presidencial, ali em frente. Para o baiano de 43 anos e fala mansa, não havia nada de rotineiro naquele cenário. As confissões da empreiteira sobre pagamento de propinas a governantes da América Latina e da África, tornadas públicas um mês antes, criaram muitas dificuldades para a permanência da empresa no país. Sua missão naquele palácio era a mais difícil em vinte anos de companhia: amaciar o ânimo do primeiro-ministro Fernando Zavala, homem forte do presidente da República, Pedro Pablo Kuczynski. Dias antes, PPK declarara guerra à empreiteira. “Vão ter de vender todos os projetos. Lamentavelmente, eles têm esse defeito da corrupção. Terão de ir embora. Acabou.”

Até então, o presidente peruano vinha mantendo certa cautela em suas declarações sobre o escândalo, e por isso a mudança de atitude deixou a cúpula da Odebrecht em pânico. Àquela altura, preservar os negócios no Peru era questão de sobrevivência. No dia seguinte à declaração de PPK, Cruz decidiu contra-atacar. Em entrevista ao Gestión, o maior diário de economia e negócios do Peru, disse que a Odebrecht estava corrigindo sua conduta e a expulsão da empresa não traria nenhum benefício ao país: “Só posso imaginar que há a intenção de que não exista colaboração e não se revelem informações.” Foi um tiro no pé. “Ninguém ameaça o governo”, respondeu o primeiro-ministro. Poucas horas depois da declaração, Zavala recebia Cruz, que tentava um recuo tático e, ao mesmo tempo, buscava abrir algum tipo de negociação. Ele alegou que teria ocorrido um mal-entendido na entrevista, que só tentara explicar que a Odebrecht estava mudando e que, se matassem a empresa, ela não poderia pagar suas multas. Não colou. O primeiro-ministro foi até gentil, embora em vinte minutos de reunião tenha ouvido mais do que falado. Ao final, encerrou o encontro friamente. “Digam o que quiserem, mas, para nós, vocês são uma empresa corrupta e têm de deixar o país.”

Cruz chegara ao Peru havia menos de dois meses, e desde então não tivera um só dia de sossego. Já vivera no país entre os anos 1990 e 2000 – época em que trabalhar para a empreiteira ajudava o sujeito a conseguir empréstimos em bancos e prestígio entre os amigos. Com o controle de 80% dos investimentos em obras e infraestrutura do país, os dirigentes da empresa encontravam abertas as portas dos palácios governamentais e davam palpites sobre os rumos da economia. Mas esse tempo ficara para trás. Quando conversamos no final de abril em seu escritório em San Isidro, centro financeiro da capital, o presidente da Odebrecht Peru tinha a expressão cansada. “Fomos do céu ao inferno em trinta segundos”, ele resumiu.

 

A Odebrecht começou a virar “empresa non grata” no continente latino-americano em 21 de dezembro de 2016. Nas primeiras horas do dia, o site do Departamento de Justiça americano divulgou o conteúdo das delações dos executivos da empreiteira, feitas no âmbito do acordo de leniência fechado simultaneamente com o Brasil, os Estados Unidos e a Suíça. O mundo soube, então, que de 2003 a 2014 a companhia pagara 788 milhões de dólares em propinas a presidentes da República e funcionários dos governos de onze países da América Latina e da África, além do Brasil, por meio do Departamento de Operações Estruturadas, o setor que gerenciava a corrupção. A cifra não incluía o dinheiro de caixa dois enviado a campanhas políticas – o que, segundo veio à tona depois, com as delações dos marqueteiros João Santana e Mônica Moura, elevaria a conta a quase 900 milhões de dólares. Tratava-se da confissão mais bombástica e do maior acordo de leniência já realizado no planeta – maior do que o da multinacional alemã Siemens ou da francesa Alstom. Para ter o direito de continuar operando e se livrar de futuras punições, a Odebrecht pagaria uma multa sem precedentes: 2,6 bilhões de dólares, a serem divididos entre os três países do acordo. O Brasil ficaria com a maior parte.

No resumo do caso divulgado pelos americanos, os fatos eram descritos de forma vaga. Os personagens eram tratados pelos cargos (Brazilian official, Odebrecht executive, Peruvian high official) e as datas nem sempre eram muito precisas. Ainda assim, os poucos detalhes permitiam vislumbrar o alcance do poder que a empreiteira conquistara. No Panamá, dos 59 milhões de dólares distribuídos em propina, mais de 20 milhões haviam sido pagos diretamente aos filhos do ex-presidente da República Ricardo Martinelli. Outros 5 milhões foram dados a um ex-presidente da Pemex, estatal de petróleo do México, para garantir a vitória em uma concorrência. Na Venezuela, as contas de dirigentes dos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro receberam 98 milhões de dólares. As campanhas dos dois candidatos à Presidência na última eleição colombiana – incluindo o Nobel da Paz Juan Manuel Santos – haviam sido beneficiadas por dinheiro da empreiteira. Histórias semelhantes haviam se repetido na Guatemala, na Argentina, na República Dominicana, no Equador e no Peru. Na África, a Odebrecht confessou ter pago subornos de 50 milhões de dólares em Angola e de 900 mil dólares em Moçambique.

O escândalo provocado pelas revelações varreu a América Latina (na África, houve pouca ou nenhuma reação). Os governantes dos países latinos citados no relatório anunciaram providências de impacto para demonstrar que não tinham nada a ver com os esquemas – ou las trampas, em espanhol – da Odebrecht. Quem ainda não tinha nenhuma investigação em curso envolvendo a empreiteira abriu inquérito imediatamente. Quem já tinha aberto alguma sindicância pôs-se a realizar apreensões. No Equador, policiais com figurino à SWAT entraram encapuzados e armados nos escritórios da empresa; na Venezuela, a polícia marcou hora para recolher os documentos; Panamá e Colômbia suspenderam os contratos para obras em curso e proibiram a empreiteira de disputar novas licitações; na República Dominicana, milhares de manifestantes foram às ruas pedir a expulsão da Odebrecht.

 

Em nenhum outro país, porém, a reação institucional foi tão forte como no Peru. As autoridades e a imprensa estavam de olho nas empreiteiras brasileiras desde que, em 2015, soube-se que o ex-ministro José Dirceu viajara algumas vezes a Lima com a intenção de obter contratos para a Queiroz Galvão e a Engevix junto ao então presidente da República Alan García Pérez. Nessas ocasiões, Dirceu visitou García no palácio do governo, mas ambos negavam que tivessem negociado algo ilícito. Em 2014, o doleiro Alberto Youssef confessou ter enviado ao Peru dinheiro de propina da OAS via operadores como Rafael Ângulo López, que viajava com cédulas amarradas ao corpo para entregar a funcionários da Prefeitura de Lima, onde a empreiteira administra a via expressa Línea Amarilla. A cobertura jornalística do caso Lava Jato era intensa, e o Ministério Público peruano havia aberto inquéritos para apurar superfaturamento e suspeitas de suborno em diversos contratos. Mas as investigações não avançavam, e os políticos não faziam questão de ajudar.

Pressionado pelas denúncias, no final de 2015 o Congresso criou a Comisión Lava Jato (que, em espanhol, tem a curiosa pronúncia de “lavarrato”). Nos seis meses de funcionamento, a comissão ouviu depoimentos importantes, que renderam uma extensa cobertura jornalística, impressa e televisiva. Ao final, seu presidente, Juan Pari, produziu um documento de 650 páginas, detalhando irregularidades em diversas obras e expondo suspeitas de desvio de recursos e lavagem de dinheiro. Pari, no entanto, era um deputado em primeiro mandato, membro de um partido independente e nanico, o que selou o fracasso da comissão desde o início. Sem o apoio dos outros membros, o parlamentar foi obrigado a assinar o relatório sozinho. O documento nem chegou a ser apresentado ao plenário, já que em nenhum momento se obteve quórum para convocar uma sessão extraordinária, como mandava o regimento.

Depois das revelações do relatório norte-americano, não era mais possível ignorar que a Odebrecht, a maior potência empresarial estrangeira no Peru, exportara para o país não só serviços e obras, mas também seu modus operandi. Ao longo dos governos de Alejandro Toledo (2001-06), Alan García (2006-11) e Ollanta Humala (2011-16), foram distribuídos pelo menos 29 milhões de dólares em propinas. O relatório mencionava um suborno de 20 milhões de dólares em troca da vitória na licitação para um projeto de infraestrutura no ano de 2005 – que só podia ser a rodovia Interoceânica, xodó de Alejandro Toledo, licitada por 814 milhões de dólares e finalizada em cerca de 2 bilhões. Outro trecho do documento citava uma propina de 1,4 milhão de dólares em 2009 pela vitória em uma licitação na área de transportes – obviamente o metrô de Lima, obra-símbolo do presidente Alan García, contratada por 410 milhões de dólares e concluída a um custo de 520 milhões.

Dali em diante, os fatos se sucederam como numa série de tevê assistida em fast forward. No começo de janeiro, uma nova Comisión Lava Jato foi instalada no Congresso. O Ministério Público local montou um grupo de investigadores encarregados do caso, desencadeando uma sequência de buscas, apreensões e prisões. Até o ex-presidente Alejandro Toledo teve a prisão decretada – ele estava nos Estados Unidos e lá continuou, tornando-se oficialmente foragido. O governo editou um decreto proibindo que empresas condenadas por corrupção fechassem contratos com o Estado. Sem financiamento e, portanto, sem dinheiro para pagar os bônus da concessão do Gasoduto do Sul, sua maior obra em curso no Peru naquele momento, a Odebrecht teve a concessão cancelada. Ato contínuo, o governo executou as garantias dadas pela empresa no início do contrato – 262 milhões de dólares, um recorde para o país. Outro decreto, batizado pela imprensa de “Decreto Odebrecht”, proibia companhias que haviam confessado a prática de corrupção de vender ativos, fazer novos contratos com o Estado e retirar dinheiro do país, a menos que se fechasse um acordo de leniência. Por fim, 40 milhões de dólares que a empreiteira tinha em bancos foram bloqueados pelo governo, para garantir que não faltasse dinheiro na hora de pagar as multas. Se todas as medidas fossem mantidas, estaria decretado o fim das atividades da empreiteira no Peru.

 

Na sede da Odebrecht, em São Paulo, as notícias foram recebidas com desolação e perplexidade: aquela circunstância não havia sido prevista nem nos piores cenários imaginados para o pós-delação. O processo todo, aliás, frustrara qualquer tentativa de planejamento. Para começar, a empreiteira nunca tivera a intenção de confessar crimes em outros países. Mas os procuradores da Lava Jato foram taxativos: se não se abrisse a caixa-preta do exterior, não haveria acordo. A empresa resistiu o mais que pôde, mas, sem alternativa, acabou aceitando. Em compensação, conseguiu do Ministério Público brasileiro o compromisso de manter as informações em sigilo por seis meses, para ter tempo de negociar acordos de leniência específicos com cada país (o prazo venceu em 1º de junho, mas o sigilo continua valendo para os países que ainda não têm acordos com a Odebrecht).

Nos Estados Unidos, porém, a empresa não encontrou a mesma boa vontade: os procuradores americanos não concordaram com a cláusula do segredo. Decidiram divulgar o conteúdo do acordo assim que ele estivesse assinado, e comunicaram a decisão aos advogados da Odebrecht três dias antes de jogar a confissão no ventilador. Foi o tempo de mandar os principais executivos na América Latina de volta ao Brasil para evitar a prisão. Alguns já tinham vindo para as festas de final de ano; outros viajaram às pressas, trazendo a família e o que mais fosse necessário para uma longa temporada.

O golpe no Peru era particularmente preocupante porque o país era peça fundamental na estratégia da Odebrecht para sobreviver à tormenta financeira provocada pela Lava Jato. Com uma dívida de 40 bilhões de dólares e sem ganhar mais nenhum novo contrato no Brasil, a empreiteira precisava de dinheiro para concluir as obras em curso e receber o pagamento. O Peru era responsável por um dos maiores faturamentos da empresa no mundo e, mais importante, concentrava os ativos mais valiosos fora do Brasil: estradas, hidrelétricas, projetos de irrigação e de saneamento avaliados em 2,5 bilhões de dólares – praticamente a metade de tudo o que a companhia esperava vender para pagar dívidas e sustentar suas operações. A reação do governo peruano sepultara aquele plano. Para muitos executivos da empresa, aquilo pareceu o início do fim.

 

A primeira obra da Odebrecht fora do Brasil começou a ser erguida no Peru, em 1979. Construída sobre a encosta do vulcão Misti, a 3 600 metros de altitude, em meio a tremores diários, a hidrelétrica Charcani V abriu caminho para outros projetos na América Latina. Cinco anos depois, a Odebrecht dava os primeiros passos em Angola, então destruída pela guerra civil. A internacionalização foi uma das estratégias da empreiteira para fugir aos choques financeiros e à estagnação econômica que derrubaram a demanda por serviços no Brasil, no final dos anos 70 e início dos 80. Com sua atuação agressiva, muitas vezes sugerindo o projeto e já apresentando o financiamento, a Odebrecht rapidamente se transformou numa multinacional de infraestrutura. Depois de uma década, 22% do seu faturamento já vinha do exterior. No início dos anos 90, quando assumiu o comando do grupo no lugar do pai, Norberto, Emílio Odebrecht disse à revista Exame que o sucesso da estratégia se devia à escolha do Terceiro Mundo como nicho preferencial: “Temos capacidade de competir com as empresas estrangeiras, pois estamos acostumados a atuar em condições difíceis.”

A verdade é que, embora tenha feito incursões pela Europa, instalando-se em Portugal, na Inglaterra e na Alemanha, e ido também ao Iraque, o único país desenvolvido em que a Odebrecht teria algum sucesso seriam os Estados Unidos, onde realizou obras importantes, como a modernização do aeroporto de Miami. Só que, na prática, o país funcionava mais como vitrine do que uma fonte de receitas. Conforme me resumiu outro dia um ex-executivo da empresa, “no mercado americano a concorrência era tão grande que o lucro, quando havia, era mínimo. Dinheiro, mesmo, sempre se ganhou na América Latina e na África”.

Nesses lugares, estabelecer um relacionamento privilegiado com a elite política local era imprescindível. A filosofia do grupo, expressa num documento intitulado Tecnologia Empresarial Odebrecht, ou teo, determina que não se meçam esforços para manter o cliente satisfeito – e para a Odebrecht, o cliente não é o Estado ou a sociedade, e sim o governante. Propina e recursos para as campanhas faziam parte do pacote, mas era preciso fazer mais, uma vez que dinheiro as concorrentes também tinham. Quanto mais perto do centro do poder, maior o acesso às informações e maior a influência sobre o processo de tomada de decisão. Alguns dos quadros da Odebrecht exerceram a missão com tal habilidade que se tornaram conselheiros de presidentes da República. Como o ex-presidente da companhia na Venezuela, Euzenando Azevedo, a quem Chávez consultava quando precisava tomar decisões difíceis. No Equador, um dos representantes da empresa chegou a ser convidado pelo presidente para compor o ministério.

Só com o advento do petrolão e da Lava Jato veio à tona o diferencial da Odebrecht em relação às estrangeiras. Documentos entregues à CPI da Petrobras por uma secretária que trabalhou no departamento financeiro da empreiteira em Salvador, nos anos 80, mostram que já naquela ocasião a Odebrecht forrava os bolsos de políticos, funcionários públicos e lobistas não só no Brasil, mas também no exterior. Parte da papelada, comprovantes de remessas de dinheiro a bancos na Suíça e nos Estados Unidos, mostra que eram constantes os pagamentos de algumas centenas de milhares de dólares a contatos no Peru, em Angola e no Equador. Entre figuras como Pinguço, Chinês ou Pistoleiro (os famosos codinomes já eram usados desde então), um chamava a atenção: o Pescoção, tio do então presidente Alan García, e que ocupava a Presidência de uma estatal de energia elétrica.

 

O empenho da Odebrecht para se firmar na América Latina se renovou no início dos anos 2000, quando as economias da região, saneadas por uma leva de gestões pautadas pelo ajuste fiscal, começaram a sair da pasmaceira. Ao longo da década, a supervalorização das commodities engordaria o Tesouro desses países, em geral muito dependentes das vendas de petróleo e minério. Com dinheiro em caixa, os governantes se lançaram às grandes obras de infraestrutura.

No Peru, a era das megaobras foi inaugurada pela rodovia Interoceânica, ou estrada do Pacífico, que começou a ser construída em 2005. Com 2 600 quilômetros de extensão, ela ligaria a cidade de Assis Brasil, no Acre, a Iñapari, no litoral sul peruano. Do ponto de vista do governo brasileiro, a grande vantagem era inaugurar uma via de escoamento para os produtos nacionais, especialmente a soja, pelo oceano Pacífico. Para o Peru, poderia proporcionar uma integração com as principais capitais do Brasil e ainda ajudar a desenvolver algumas das regiões mais pobres do país, conectando produtores agrícolas a portos no litoral. Para o presidente Alejandro Toledo, antes de mais nada, a Interoceânica representava uma chance de redenção política.

Descendente de índios quéchua, filho de uma faxineira e de um carpinteiro que viviam no interior, Toledo conseguiu escapar da pobreza e foi estudar nos Estados Unidos, onde se tornou economista do Banco Mundial. Elegeu-se em 2001 com uma agenda de recuperação da economia e de combate à corrupção – os vídeos que mostravam o chefe do Serviço de Inteligência de Alberto Fujimori, Vladimiro Montesinos, recebendo malas de dinheiro de empresários ainda estavam frescos na memória da população. Passados os primeiros anos de gestão, a economia se recuperava, mas a pobreza e o desemprego continuavam altos, bem como frequentes eram os escândalos de corrupção envolvendo membros do governo e da família do presidente. Os índices de aprovação popular de Toledo eram irrisórios e, em 2004, ele decidiu apostar na Interoceânica para se recuperar politicamente. Sua meta era ter a estrada pronta em dois anos, antes do final do mandato. Tratava-se de um objetivo impossível, dado o tamanho do empreendimento, mas Toledo não estava preocupado com isso.

 

A Interoceânica era um dos projetos nacionais que frequentaram por décadas a lista de promessas dos governantes peruanos. A notícia de que ele enfim sairia do papel agradou a opinião pública, com exceção de um pequeno grupo de políticos e especialistas em transportes que a consideravam superdimensionada para as necessidades do país. O mais aguerrido desses críticos fora o vice-ministro dos Transportes de Toledo: Gustavo Guerra García, conhecido entre seus pares como GGG.

Economista e ex-consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID, Guerra García participou da elaboração do primeiro plano de concessões de estradas do país, no qual a Interoceânica não era uma prioridade. Deixou o governo em 2002, por divergências políticas entre seu partido e o presidente. E nos últimos doze anos vem escrevendo artigos e dando entrevistas sobre os prejuízos trazidos ao Estado pelas escolhas feitas para a rodovia. Nacionalista convicto e aficionado por estatísticas, GGG é capaz de passar horas falando da Interoceânica. No final de abril, em Lima, almoçamos nos arredores de seu escritório, em San Isidro, uma espécie de avenida Faria Lima peruana.

“Há uma diferença muito grande entre superfaturamento e superdimensionamento. No Peru, há obras superfaturadas aos montes. Mas esse caso foi diferente, porque o projeto foi feito para uma demanda que nunca existiu”, explicou Guerra García. Entre os benefícios que a Odebrecht apresentou para justificar os altos custos estaria um aumento na produção agrícola e na rentabilidade, impossível de ser atingido na região atravessada pela estrada – segundo a empreiteira, a área plantada no país seria multiplicada por cinco. Na visão de GGG, o pecado original foi Toledo ter excluído a rodovia do sistema de monitoramento de obras públicas criado por seu próprio governo. “Como não se subordinou ao sistema e não passou por uma análise mais detalhada, a licitação pôde ser realizada a toque de caixa, como queria o presidente. Isso fez com que as grandes construtoras internacionais, que não tinham sede no Peru, não tivessem chance de se preparar para a concorrência. E, como os contratos foram divididos em trechos grandes, as construtoras peruanas, bem menores, também ficaram de fora”, ele disse.

O governo tampouco elaborou um projeto executivo detalhando os parâmetros da obra: deixou a tarefa para as empreiteiras. Por essa razão, mesmo prevendo um custo de 814 milhões de dólares, o contrato estabelecia uma cláusula que permitia que o preço final fosse definido ao longo dos trabalhos. “Na prática, era uma licitação sem preço. Eu trabalhei vinte anos como consultor do BID em todos os países da América do Sul, e nunca tinha visto isso antes”, disse GGG. Nessas condições de prazo, preço e risco, só as brasileiras seriam capazes de participar do projeto. Encerrada a licitação, o consórcio da Odebrecht ganhou contratos para dois trechos da rodovia. O terceiro trecho foi para um consórcio formado por Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Queiroz Galvão.

Em sua cruzada de oposição à Interoceânica, García tentou mobilizar as construtoras locais para uma campanha contra o domínio das empresas brasileiras. Defendia que a licitação fosse fatiada em mais trechos, de tamanho menor, possibilitando a participação das peruanas. “Era uma indignidade uma obra de integração entre Peru e Brasil, que custava o equivalente a cinco anos do orçamento do Ministério dos Transportes, ser entregue exclusivamente às companhias brasileiras. Eu pensava: somos idiotas ou o quê? Mas, quando eu falava, todos olhavam para o teto”, recordou GGG, já fornecendo ele mesmo a explicação para o fenômeno: “A Odebrecht incluiu as principais empreiteiras peruanas em seus consórcios e deu a elas uma porcentagem de todos os contratos. Mesmo com uma parte menor, elas faturariam o triplo do que estavam acostumadas. A Odebrecht cooptou as concorrentes locais, e passou a dominar todo o mercado.”

 

As empreiteiras brasileiras foram as maiores beneficiadas pela política externa de Luiz Inácio Lula da Silva, que visava transformar o Brasil em potência geopolítica. Seu governo criou 77 postos diplomáticos, a maioria em países do Terceiro Mundo, e ampliou de forma agressiva o financiamento a obras e serviços no exterior. Entre 2003 e 2015, o BNDES liberou 14 bilhões de dólares para 575 projetos em onze países da África e da América Latina (e a Odebrecht ficou com impressionantes 82% de tudo o que foi liberado nos últimos dez anos). Como diz o jornalista Fábio Zanini, no livro Euforia e Fracasso do Brasil Grande, “a estratégia internacional deixou de ser um nicho reservado a especialistas, portanto algo de interesse restrito, para ser alçada a parte de um novo projeto de poder. Raras vezes a diplomacia se prestou com tamanha intensidade a ser braço de uma plataforma política”.

Em suas viagens internacionais, era comum Lula receber da Odebrecht um memorando listando seus interesses nos países por onde ele passaria, com sugestões de tópicos a serem abordados. Vários desses resumos foram encontrados pela Polícia Federal no computador da secretária pessoal de Marcelo Odebrecht durante as buscas na sede da empreiteira. Em 2008, por exemplo, foi produzido um documento para a equipe de Lula a respeito de uma concorrência para a construção de uma hidrelétrica. “Seria importante que o presidente Lula pudesse reforçar, junto à presidente Cristina [Kirchner], a confiança que tem na Odebrecht”, diz o presidente do grupo na mensagem. Nos depoimentos que deu à Lava Jato no Brasil, o diretor de Relações Institucionais Alexandrino Alencar admitiu que a companhia usava Lula como garoto-propaganda. “Era um cartão de visitas muito importante, para o presidente do país saber que ele tinha uma relação diferenciada com o grupo”, declarou Alencar em seu depoimento. Ao longo desta reportagem, ouvi algumas vezes de executivos da Odebrecht que a influência da empresa no exterior também impressionava Lula. “Ele gostava de dizer que, em muitos locais que visitava, o primeiro a recebê-lo na porta do avião não era o embaixador ou alguém do governo, e sim um executivo da Odebrecht.”

No início de setembro de 2005, Lula e o presidente Toledo, do Peru, e Eduardo Rodríguez, da Bolívia, se reuniram para inaugurar as obras da Interoceânica na cidade de Puerto Maldonado, na fronteira do Brasil com o Peru. Depois de desfilar em carro aberto pelas ruas, os mandatários subiram ao palanque. Em seu discurso, Lula tomou para si a autoria do projeto da Interoceânica e disse que a ideia de construir a estrada havia surgido de uma conversa entre ele e o presidente peruano. “Estamos aqui demonstrando que, quando o político é sério, conversa seriamente, transforma suas conversas em realidade”, disse o brasileiro. Toledo retribuiu com uma mensagem de carinho ao colega, então no centro da crise do mensalão. “A você, Lula, eu digo: coragem, não tenha medo das pedras no caminho. Ladram, Sancho, porque estradas estamos fazendo”, disse, parafraseando um trecho de Dom Quixote.

 

Os bastidores do que ocorria no continente naqueles anos de bonança só começaram a vir à tona com as delações da Odebrecht. O detentor dos segredos peruanos revelados à Lava Jato era o presidente da empreiteira naquele país, Jorge Barata, de 53 anos. No Peru por quase duas décadas, Barata havia se tornado um membro respeitado da elite local, diretor e conselheiro de uma dúzia de associações empresariais, entidades beneficentes, entidades culturais e ONGs. Com o escândalo batendo à porta, ele decidiu se antecipar. No início de novembro de 2016, enquanto seus colegas brasileiros fechavam os detalhes da colaboração, ele começou a cantar, como dizem por lá. Além dele, mais seis funcionários da subsidiária local participaram do processo. Em uma delação de oito capítulos, o executivo expôs um panorama da corrupção local, pela ótica da Odebrecht. Perto do que vinha sendo revelado no Brasil, as tramas até pareciam amadoras, e os valores, acanhados. Uma delas, porém, espantaria até mesmo um brasileiro calejado com as histórias da Lava Jato.

No início de 2004, Barata recebeu em seu escritório o israelense Avraham (Avi) Dan On, chefe de segurança do presidente da República. Todos sabiam que ele era um preposto de Josef Maiman, um dos maiores empresários de Israel, cônsul honorário do Peru em Tel Aviv havia décadas e amigo íntimo de Alejandro Toledo. Dan On disse que seu grupo tinha interesse em se associar à Odebrecht nas obras da rodovia Interoceânica e queria conversar a respeito. Barata concordou, mas a negociação não foi adiante. Alguns meses mais tarde, em meados de 2004, já com a licitação em curso, Dan On e dois executivos do grupo de Maiman voltaram a procurar Barata e disseram que garantiriam a vitória da Odebrecht mediante uma propina de 35 milhões de dólares. Barata considerou o valor muito alto, mas sabia da importância da negociação com os israelenses: eles poderiam pressionar Toledo a manter os apertados prazos previstos no edital, viabilizando a vitória da Odebrecht. Pediu opinião a Marcelo Odebrecht, que o aconselhou a ir enrolando os interlocutores, esperando para pagar depois que a licitação estivesse ganha e a obra, contratada.

Mas os postulantes à sociedade com a empreiteira tinham outros planos. No início de novembro de 2004, a sete meses do final do processo licitatório, os israelenses convocaram Barata para um encontro no Rio de Janeiro, durante uma reunião de chefes de Estado latino-americanos. O encontro aconteceu no final de uma das manhãs do evento, na suíte presidencial do Hotel Marriott da praia de Copacabana. O apartamento havia sido alugado por Maiman, que não estava presente no início da conversa entre Barata e os dois funcionários. Quando a negociação atingia seu momento mais delicado – os israelenses pleiteando 35 milhões e Barata procurando regatear –, Maiman entrou no quarto acompanhado do presidente da República em pessoa. Depois de um breve cumprimento, a dupla se acomodou em duas poltronas a poucos metros de distância, fingindo que conversava, e ficou assistindo à negociação. Ver Toledo sentado ali funcionou como elemento de pressão incontornável. Sem mais resistência, o representante da Odebrecht concordou em pagar os 35 milhões de dólares, cumprimentou a todos (inclusive Toledo) e saiu. Ao final, foram depositados 20 milhões de dólares nas contas de Maiman no exterior. O resto acabou não sendo pago, em parte porque a empreiteira alegou dificuldades para receber pelos serviços, mas também porque Toledo deixou de ser presidente e foi aos poucos perdendo influência na máquina estatal. Na gestão Toledo, a Odebrecht ganhou contratos de 1,2 bilhão de dólares, a maior parte relativa à Interoceânica.

Mas a empresa baiana não pagou a conta sozinha. Segundo Barata contou ao MP, os donos das empreiteiras peruanas, sócias do consórcio da Interoceânica, foram informados do acerto e contribuíram com sua parte na propina ao final de cada ano. O valor era descontado do lucro anual e registrado no balanço do consórcio como um “risco adicional” assumido pela Odebrecht em nome das demais. A informação será a base de futuras ações contra as sócias locais da Odebrecht, que no início não estavam na mira das investigações no Peru.

 

Entre os mandatários peruanos, porém, o mais próximo da Odebrecht não foi Alejandro Toledo, e sim seu sucessor, Alan García. Houvesse no país um político com o codinome “Amigo”, como no Brasil, certamente essa figura seria ele. García governou o Peru entre 1985 e 1990, quando foram concluídas as obras da hidrelétrica de Charcani V e do megaprojeto de irrigação de Chavimochic, que levou água a uma região desértica do norte do país. Ex-aluno de Celso Furtado na Sorbonne , visto inicialmente como um intelectual cheio de energia, García foi eleito pela primeira vez aos 36 anos, prometendo reerguer a nação, destroçada pelo terrorismo do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso. Mas fez uma gestão de caráter ultranacionalista, pautada por intervenções em empresas privadas e bancos, que acabou por desencadear um acentuado processo inflacionário. Acusado de enriquecimento ilícito em diversas ocasiões, terminou o governo marcado como corrupto e incompetente, e passou anos na Europa, numa espécie de exílio voluntário. Nunca abandonou a política, porém, e fez de seu partido, Aliança Popular Revolucionária Americana, o Apra, uma das principais forças do Peru.

Em 2006, García voltou ao governo. Dizia ter aprendido com o fracasso da primeira gestão e prometia implementar uma agenda liberal. No poder, estreitou o relacionamento com empresários, realizou grandes projetos de mineração e de infraestrutura e fez a economia crescer entre 7% e 9% ao ano. Carismático e à vontade no figurino populista, não perdia a oportunidade de, a cada inauguração de obra da Odebrecht, comparecer a churrascos de operários e se deixar fotografar com o macacão da empreiteira. Em 2006, ao receber Marcelo Odebrecht no palácio do governo pela primeira vez, apresentou o empresário aos jornalistas: “Eu cumprimento aqui nosso amigo, cujo pai tive ocasião de conhecer quando inauguramos a primeira etapa de Chavimochic em 1990, e cujo avô, fundador da empresa, ainda segue à frente da parte corporativa – don Norberto, figura emblemática.”

No segundo governo García, a Odebrecht viveu sua era de ouro no Peru. Arrebanhou 2 bilhões de dólares em contratos para a execução de obras e concessões de projetos de irrigação, saneamento e geração de energia. O mais importante foi a construção do metrô de Lima, projeto-chave da gestão. A licitação, vencida em 2009, rendeu a membros do segundo escalão do governo propinas de 7 milhões de dólares, entregues em duas etapas. O dinheiro, segundo Jorge Barata, foi distribuído a membros da equipe de licitação e ao vice-ministro de Comunicações, Jorge Cuba. Barata era amigo pessoal de García, com quem viajava para as inaugurações e se reunia frequentemente no palácio do governo. O executivo, porém, afirmou ao MP peruano que os dois nunca falaram sobre propinas.

 

Num dos pontos mais altos de Lima, no topo de uma montanha conhecida como Morro Solar, uma estátua de 37 metros de altura se destaca na paisagem. Batizada de Cristo do Pacífico, ela parece contemplar o oceano, alguns prédios de classe média próximos da orla e um enorme bairro popular que se expande continente adentro. Instalada num terreno com chão de areia e rodeada por alguns poucos bancos de cimento quebrados, é um resquício de um plano ambicioso de reurbanização daquela parte da cidade. Em 2011, Alan García convocou um grupo de empresários que estava financiando a construção do Teatro Nacional de Lima. O então presidente achava que a capital precisava de um símbolo, e insistiu que fosse igual ao do Rio de Janeiro. Liderados por Barata, os empresários encomendaram a um arquiteto um projeto que previa a instalação de uma praça com feira de alimentação e artesanato aos pés do Cristo, além de um teleférico ligando a cidade ao topo da montanha, que transformariam o local em atração turística.

Logo que foi divulgada, a iniciativa passou a ser combatida pela oposição e pela imprensa. Com medo da repercussão negativa, os empresários abandonaram o projeto – era o último ano do mandato presidencial, nenhum benefício político poderia justificar o desgaste. Barata, porém, manteve o compromisso e empenhou 1 milhão de dólares na execução do monumento, esculpido na Bahia pelo artista plástico Tatti Moreno. A inauguração do Cristo foi realizada com pompa, em meio a fogos de artifício. Logo o Corcovado local ganhou da população o apelido de “Gordo Vago” (Gordo Vagabundo), numa alusão à silhueta de García.

Quando o escândalo da Odebrecht tomou o país, houve quem sugerisse devolver o Gordo Vago ao Brasil. Mas ele acabou ficando lá, abandonado no alto do morro. Na manhã ensolarada em que o visitei, encontrei um grupo de senhoras que havia chegado lá num micro-ônibus da prefeitura de uma pequena cidade nos arredores. Era uma pena um monumento assim estar tão malcuidado, diziam. Sabiam que o Cristo fora presente da Odebrecht? “Um regalo desses não se dá por nada”, disse a mais enfática. “Certamente foi em troca de algo maior”, comentou outra, antes de embarcar no ônibus.

 

Ollanta Humala, o terceiro presidente peruano listado na delação da Odebrecht, entrou na história graças a Lula. Até o primeiro turno da eleição presidencial de 2011, ele era praticamente um candidato nanico. Ocupava o quarto lugar nas pesquisas, atrás de Alejandro Toledo, Pedro Pablo Kuczynski e Keiko Fujimori. Em agosto de 2010, Jorge Barata recebeu uma ligação de Marcelo Odebrecht que o surpreendeu. O chefe lhe dizia para dar 3 milhões de dólares à campanha de Humala. Familiarizado com a política peruana, Barata julgou uma temeridade. As chances de vitória do candidato eram remotas e, não bastasse isso, na hipótese improvável de que fosse eleito, Humala – ex-tenente-coronel e estatista fervoroso – poderia querer estatizar os ativos da empreiteira. O executivo preferia Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, preso por corrupção desde 2005. Marcelo Odebrecht, porém, deixou claro que a doação era um pedido de Lula – e o dinheiro sairia, soube-se depois, da conta reservada ao ex-presidente no setor de propinas da empreiteira. Barata obedeceu. Depois de ganhar as eleições, Humala foi recebido num jantar na casa de Odebrecht, em São Paulo. Ele e Nadine, sua mulher, foram agradecer a ajuda, como declarou ao Ministério Público o próprio anfitrião.

O Departamento de Operações Estruturadas enviava ao escritório em Lima o dinheiro destinado ao candidato presidencial. A cada remessa, Barata levava as cédulas até um apartamento que funcionava como Q.G. de campanha, em Miraflores, bairro de classe média-alta. Lá, o executivo entregava a mala à futura primeira-dama, Nadine Heredia. Cerca de 1,5 milhão de dólares engordou a campanha de Humala pelas mãos de Barata. Outro 1,5 milhão de dólares foi depositado em contas bancárias indicadas pelos marqueteiros do candidato – Luis Favre e Valdemir Garreta, conhecidos personagens da política brasileira.

Antes de enveredar pelo marketing político, Garreta atuara como secretário de Comunicação de Marta Suplicy na Prefeitura de São Paulo e membro da Comissão Executiva Nacional do PT. Favre fora casado com a prefeita, de quem se separou em 2009. Nos anos seguintes, a dupla havia trabalhado em campanhas petistas Brasil afora, inclusive prestando serviços a João Santana – que, a despeito de ser a primeira opção de Humala, declinara do convite. O principal desafio era suavizar a imagem do candidato, visto como radical; recorreram ao expediente já testado no Brasil em 2002 e ofereceram aos eleitores um Humala “paz e amor”. Aos poucos, o clone peruano de Lula se descolou dos outros, passou apertado pelo primeiro turno e acabou vencendo com 51% dos votos.

A vitória rendeu a Garreta e Favre convites para várias outras campanhas no país. A primeira cliente foi a prefeita de Lima, Susana Villarán, que apoiara o presidente e em 2013 enfrentava um referendo popular a respeito de sua permanência no cargo. De acordo com a delação de Barata, Garreta o procurou para pedir dinheiro mais uma vez, sem passar por Lula ou Marcelo Odebrecht. Versão peruana de Luiza Erundina, Villarán havia sido eleita com um discurso inflamado contra a relação da Odebrecht com Alan García. A empreiteira, no entanto, reconhecia na prefeita uma liderança emergente e tinha razões concretas para cooptá-la, entre elas a Rutas de Lima, uma administradora de vias expressas com pedágios bastante rentáveis na capital peruana. Barata prometeu dar o dinheiro e, dias depois, recebeu uma ligação da própria prefeita, agradecendo. Naquela campanha, a Odebrecht empenhou mais 3 milhões de dólares, dos quais 2 milhões foram pagos a Favre e Garreta por meio do departamento encarregado. Outro milhão foi entregue em espécie a um preposto da prefeita – o chefe de gabinete, José Miguel Castro. Villarán venceu o referendo e permaneceu no cargo.

Os marqueteiros ainda teriam emprestado a conta da empresa para o pagamento de subornos – o beneficiado da vez era Félix Moreno, governador regional de Callao, na região metropolitana de Lima. Moreno favorecera a Odebrecht na licitação para as obras de uma via expressa na orla, orçada em 145 milhões de dólares. Moreno pediu 4 milhões de dólares em propina, dos quais pouco mais de 2 milhões foram pagos. O político foi preso no início de abril e libertado em junho, por ordem de uma corte superior. Garreta e Favre negam ter recebido qualquer pagamento desvinculado de seus préstimos em campanhas políticas.

A trajetória ascendente dos marqueteiros só teve um freio nas eleições de 2016, quando embarcaram na campanha de Pedro Pablo Kuczynski (que sairia vitorioso). Em 45 dias, deixaram a campanha, pois o candidato se recusou a pagar os 5 milhões pleiteados por eles, então substituídos por outro brasileiro, Renato Pereira. Notabilizado por ter eleito Sérgio Cabral e depois Luiz Fernando Pezão, Pereira hoje integra o time dos investigados.

 

No capítulo da Lava Jato reservado aos marqueteiros, porém, Favre e Garreta são coadjuvantes. Na América Latina, não havia rivais para o predomínio de João Santana e Mônica Moura, sua mulher e sócia. Responsável pelas vitórias de Lula e Dilma, Santana se tornou figura cobiçada por todo político latino-americano com grandes pretensões. A disputa por seu passe criou uma demanda que ele não tinha como atender. Nessas circunstâncias, Lula passou a atuar como uma espécie de intermediário, a quem alguns políticos recorreram para convencer o marqueteiro oficial do PT a aceitar seus pedidos. Entre 2009 e 2014, Santana fez cinco campanhas internacionais: El Salvador, Venezuela, República Dominicana e Panamá, na América Latina; e Angola, na África. De acordo com o relato do casal ao Ministério Público, de todas essas campanhas, a única que não foi feita a pedido do ex-presidente foi a dominicana. Mônica Moura também disse que foi a única não financiada naquele período pela Odebrecht. No caso do Panamá, a própria empreiteira insistiu para o marqueteiro aceitar o trabalho, negociando inclusive o cachê. Lula, que não tinha afinidades ideológicas com o candidato do presidente panamenho Ricardo Martinelli, só reforçou o lobby a pedido de Emílio Odebrecht. Para o petista, importava mesmo era que Santana elegesse Mauricio Funes, em El Salvador, e sobretudo Hugo Chávez, na Venezuela.

Em 2011, a pedido de Lula, Santana desembarcou em Caracas. Acompanhado dos ex-ministros José Dirceu e Franklin Martins, desceu de um jato fornecido pela empreiteira Andrade Gutierrez. O trio fora negociar com Nicolás Maduro os valores da campanha de Chávez pela terceira reeleição. O marqueteiro pediu alto – 35 milhões de dólares, o maior valor que ele cobrara no continente. Maduro não pechinchou, mas tampouco pagou o combinado. Mônica Moura, que administrava as finanças, calculou ter recebido 20 milhões de dólares, tudo no caixa dois. A maior parte, 11 milhões, foi paga diretamente por Maduro, então chanceler e hoje presidente.

Apavorada com a ideia de circular com dinheiro vivo pelas ruas de Caracas, Moura disse à força-tarefa da Lava Jato que havia contratado seguranças para acompanhá-la o tempo todo. Mas se o destino fosse o Palácio de Miraflores, sede do governo, ou o Ministério das Relações Exteriores, ela os dispensava. Nessas ocasiões, era escoltada pelos homens de Maduro. “Ele mandava me buscar com o carro dele, um blindado, um carrão preto, daquelas caminhonetes de rapper americano, funkeiro, sei lá, com mais dois carros, um na frente e outro atrás. Me levava para a chancelaria, entrava pela garagem, os seguranças subiam comigo para a sala dele, eu ficava lá esperando. Depois me chamava, conversava um pouquinho, uma conversa fiada de política, e me entregava o dinheiro. Ele próprio. Não mandava ninguém me entregar, não. Depois eu descia com os seguranças para a mesma garagem e eles me levavam até o hotel.” Nessa época, a marqueteira chegou a transportar 800 mil dólares numa única viagem. Além do dinheiro entregue por Maduro, o casal recebeu 7 milhões de dólares da Odebrecht e mais 2 milhões da Andrade Gutierrez.

Comparados às cifras brasileiras, os valores distribuídos pela Odebrecht no exterior podem ser considerados modestos. A exceção é Angola, onde a empresa deu a João Santana 50 milhões de dólares para a campanha do eterno presidente José Eduardo dos Santos. O volume de recursos rivaliza com os 150 milhões de reais que a empreiteira injetou só na campanha petista de 2014, ou com os 300 milhões aplicados nas eleições anteriores de Lula e Dilma. Considerando as doações no caixa dois de outras empresas – recentemente, a JBS confessou ter dado mais 150 milhões de reais para as campanhas presidenciais petistas –, fica ainda mais evidente a disparidade entre o que se gasta com eleições no Brasil e em outros países da América Latina. Afora o fato de o Brasil ser um país de tamanho continental, a diferença em parte se explica por não haver horário gratuito em vários países e, portanto, não há necessidade de se produzir conteúdo para programas diários. Mesmo assim, a julgar pelo caso do Peru, é possível inferir que a participação dos marqueteiros brasileiros tenha inflacionado a eleição de um candidato por aquelas bandas. “Antes, as campanhas eram mais simples e mais baratas. Os empresários locais se reuniam e decidiam quanto e para quem doar, e os valores eram muito menores”, me disse um grande executivo acostumado a dar dinheiro de caixa dois para as campanhas no Peru. No depoimento à Lava Jato brasileira, Santana foi instado por um procurador da República a reconhecer que o financiamento irregular de campanha via caixa dois tornava desigual a competição entre os candidatos. “Sem dúvida”, ele respondeu. “Mas todos violam a democracia. Pequenos e grandes, cada um à sua maneira. E se associam para violar.”

 

Como os brasileiros, os peruanos gostam muito de telenovelas. Embora elas sejam o principal passatempo do país, as tevês dedicam bastante espaço à política. Durante a semana, a tevê aberta transmite sobretudo entrevistas e debates; os programas dominicais costumam exibir grandes reportagens sobre temas nacionais do momento. Nos últimos meses, a pauta incontornável é “El caso Ôdebrecht” – os peruanos pronunciam o nome da empreiteira com a letra “o” bem acentuada e as sílabas finais quase inaudíveis. Num dos programas de debates no final de janeiro, o entrevistado era um senhor de cabelos grisalhos e barba bem aparada, de camisa índigo e calça cáqui, com uma pochete preta acomodada sobre o colo. A âncora o apresentou como “Gustavo Gorriti, o jornalista que mais sabe sobre o caso Odebrecht no Peru”. Sério e compenetrado, ele detalhou as denúncias que vem fazendo desde 2011 a respeito de superfaturamentos e pagamentos de propinas envolvendo o governo. A certa altura, a jornalista perguntou se ele não achava que a Lava Jato local transcorria em ritmo muito lento. Sem alterar o tom de voz, o repórter respondeu: “A forma como os investigadores peruanos trabalham faz pensar que estão treinando para uma competição internacional de tai chi chuan. Não posso entender essa lentidão e nem essa cautela. Sobretudo se se compara aos brasileiros.”

Aos 69 anos, decano dos repórteres peruanos, Gustavo Gorriti é uma figura bastante conhecida. Acompanha política desde a época em que cobria a guerrilha do grupo Sendero Luminoso, nos anos 70, e se tornou personagem da história do país ao ser sequestrado em casa pelo Exército de Fujimori, que buscava apreender seu computador. Foi libertado em dois dias. Quando o ditador caiu, Gorriti trabalhou para eleger Alejandro Toledo. No dia seguinte à vitória, abandonou o político e retomou o jornalismo.

No caso Odebrecht, os colegas tratam Gorriti como autoridade. Suas reportagens são publicadas no site de jornalismo investigativo IDL-Reporteros, financiado por uma ONG de defesa de direitos humanos. Também escreve para a revista semanal Caretas, a maior do Peru, e é colunista do espanhol El País. Em abril de 2016, a partir de pistas encontradas nos Panama Papers, o IDL-Reporteros descobriu as empresas-laranja usadas pela Odebrecht no Peru para movimentar o dinheiro da propina. Com as revelações do Departamento de Justiça americano, várias reportagens de Gorriti e sua equipe foram confirmadas.

Além da mídia tradicional e do IDL, há outros três sites independentes atrás de notícias sobre a Odebrecht no Peru. Há, também, redes de jornalistas que trocam informações, por e-mail ou em encontros ao vivo – como a autointitulada Red Latinoamericana de Periodismo de Investigación Estructurado, de que Gorriti faz parte, junto com colegas do Panamá, da Venezuela, da Argentina e do Uruguai, ou a Investiga Lava Jato, que reúne outros vinte jornalistas da América Latina e da África, incluindo brasileiros. A Red, que ajudou o IDL-Reporteros a encontrar os laranjas da empreiteira no Peru, descobriu também depósitos de 600 mil dólares feitos pelo ex-sócio de Alberto Youssef, Leonardo Meirelles, em contas do chefe da Agência Federal de Inteligência argentina, homem de confiança de Mauricio Macri. O próprio doleiro afirmou ter feito as transferências por encomenda da Odebrecht e da OAS.

Apesar dessas descobertas, quando encontrei Gorriti para um café de final de tarde, em Lima, ele explicou por que não considerava a Lavarrato um acontecimento definitivo para a política no Peru. “Ao contrário do que aconteceu no Brasil, onde o Ministério Público e a Justiça divulgam informações regularmente, aqui foram os jornalistas que empurraram a operação para a frente. Os procuradores são burocráticos e cultuam o segredo.” Para ele, a falta de colaboração com a imprensa deixa o MP refém da versão da construtora – que ele considera incompleta. “A delação da Odebrecht contém o que ela admite, mas não revela necessariamente tudo o que aconteceu. Veja que todas as medidas tomadas até agora são pautadas pelas revelações da empresa”, ele disse.

Assim como boa parte dos peruanos, Gorriti teme que uma eventual operação abafa, várias vezes ensaiada, acabe de repente com as investigações. Julga que o MP, subordinado hierarquicamente ao presidente da República, seja mais vulnerável à pressão do que o brasileiro, que tem autonomia garantida por lei. Por isso, ele e seus colegas visitam o Brasil com frequência, sobretudo Curitiba, Brasília ou São Paulo, buscando informações exclusivas para que o caso não esfrie. Nos últimos tempos, as incursões ao país têm sido frustrantes. “Os procuradores brasileiros viraram estrelas. Não recebem e não precisam de mais ninguém”, falou, com um sorriso irônico. Para Gorriti, uma das maiores provas de que a investigação no Peru ainda não está consolidada é o fato de o ex-presidente Alan García não ter sido citado na delação da Odebrecht.

Nem Gorriti, nem nenhum jornalista peruano acredita na afirmação de Jorge Barata de que a empreiteira não pagou propina a García. O Ministério Público tampouco, e por isso está investigando se o ex-presidente recebeu parte dos subornos pagos pelos contratos do metrô de Lima. Até agora, que se saiba, não foi encontrada nenhuma prova concreta. Quando perguntei por que a empreiteira protegeria um presidente e entregaria outro, Gorriti foi assertivo: “Toledo, hoje, não tem capacidade de reação. É um saco de areia político. Só apanha e não pode fazer nada. García não. Ele tem poder e é vingativo. A Odebrecht deve muito a ele.”

Apesar do temor e dos rumores generalizados, ao final de junho a Lava Jato peruana seguia seu curso. Desde dezembro, foram presos oito beneficiários de propinas da Odebrecht, e três ordens de extradição de foragidos foram emitidas, uma delas para o ex-presidente Alejandro Toledo. Há doze inquéritos em curso sobre o propinoduto da Odebrecht e mais três que investigam lavagem de dinheiro de Toledo, Humala e Jorge Barata. Em 15 de maio, os investigadores peruanos foram a Curitiba interrogar Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro, da OAS. Odebrecht confirmou as informações de Jorge Barata e acrescentou detalhes à história contada pelo ex-subordinado. No final de junho, procuradores esperavam receber, na íntegra, os depoimentos feitos no Brasil pelos executivos da empresa, referentes a acontecimentos no Peru. O próximo teste para as investigações será o comportamento das autoridades quanto às empreiteiras locais. O Ministério Público já as denunciou por participação no pagamento de propinas da Interoceânica. A grande questão, agora, é saber se elas serão impedidas de fechar contratos com o setor público, a exemplo do que ocorreu com a Odebrecht.

 

Um dito popular espanhol muito conhecido na América Latina diz que “Deus perdoa o pecado, mas não o escândalo”. Nos dias que passei em Lima, tal máxima foi lembrada diversas vezes por diferentes interlocutores para explicar o tsunami político que varreu o continente com a divulgação das confissões da Odebrecht. Um deles foi Jorge Medina Méndez, presidente da seção peruana da ONG Transparência Internacional. Ex-CEO da empresa de auditoria Ernst & Young no Peru, Méndez abandonou o setor privado para se tornar um ativista anticorrupção. “Não é novidade para ninguém que a corrupção seja um problema nacional. Temos diversos políticos presos e até mesmo um ex-presidente na cadeia [Alberto Fujimori]. Mas sempre houve muita tolerância.” Méndez lembrou que, em 2014, um instituto de pesquisa perguntou aos eleitores de Lima se eles votariam em um candidato que “rouba mas faz” (em espanhol, roba pero hace obra). Ainda que a resposta predominante tenha sido não (55,7%), um número expressivo de limenhos (41%) admitiu essa possibilidade. “Da mesma forma, todos sempre souberam que a Odebrecht subornava políticos e funcionários públicos, mas ninguém nunca disse nada. Pelo contrário. Bajulavam-na, davam prêmios”, comentou.

Nos bons tempos, o próprio Pedro Pablo Kuczynski se enfileirava entre os “amigos da Odebrecht”. Ex-empresário com uma carreira bem-sucedida em mineradoras e bancos de investimento americanos, ele foi uma espécie de fiador econômico do governo de Alejandro Toledo, primeiro como ministro da Economia e depois como primeiro-ministro.

Por essa época, PPK convidou Jorge Barata para ser conselheiro de duas ONGs que ele fundou – Empresários para el Desarollo e Agua Limpia. A empreiteira doou a esta última algumas dezenas de milhares de dólares. Para assessorá-la na disputa pela concessão do Gasoduto do Sul, uma obra de 7 bilhões de dólares, a Odebrecht contratou a consultoria de um sócio de Kuczynski. Por causa dessas conexões, a forte reação do governo contra a empresa surpreendeu os executivos da Odebrecht. E levou alguns deles a concluir – como o próprio presidente da empresa no Peru chegou a insinuar, em sua entrevista – que PPK pretendia expulsá-los para tirar a razão de ser da Lava Jato e impedir que a investigação se espraiasse sobre seu governo. Tais fatos, porém, já foram divulgados, e além deles não surgiu nenhuma ligação concreta do atual presidente da República com o escândalo. É mais provável que a ofensiva do governo peruano contra a Odebrecht esteja pautada pela opinião pública. Em fase de baixa popularidade, Kuczynski precisava dar uma resposta que o afastasse definitivamente da empreiteira. E provavelmente não vislumbrou outra alternativa a não ser jogar duro com a empresa.

 

Já passava das onze da noite em Lima quando meu telefone tocou, anunciando uma ligação pelo WhatsApp de um número do Peru. A origem da chamada era inusitada: o celular da ministra da Justiça, Marisol Pérez Tello. Depois de várias tentativas frustradas para ouvir os membros do governo de Pedro Pablo Kuczynski, eu havia decidido apelar: enviei mensagens com perguntas para os celulares do presidente, do primeiro-ministro e da ministra. Queria saber por que o governo peruano havia sido mais duro do que os outros países contra a Odebrecht; queria também ouvir alguém que pudesse comentar a insinuação de que PPK pretendia expulsar a empresa para encerrar a investigação antes que o escândalo capturasse o seu governo. Pérez Tello foi a única que não ignorou minhas mensagens. Ex-advogada especializada em direitos humanos e ex-congressista pelo partido de PPK, a ministra tem um estilo enérgico, assertivo, e desde o início foi uma forte adversária da Odebrecht no governo. Ao iniciar a conversa, explicou ter ligado àquela hora porque fazia questão de comentar o assunto, mas passaria o dia seguinte em reuniões no ministério e não teria chance de me receber. “Por que iríamos temer a investigação? O presidente não tem nada a ver com o caso. Da forma como falam, parece que são perseguidos, como se não houvessem cometido crimes. A Odebrecht quer dar a entender que nos fez um favor com sua delação premiada. É como o sujeito que te toma o dinheiro e ainda quer que você o agradeça”, disparou a ministra.

A postura do governo ecoa um debate que mobilizou a opinião pública depois das delações: uma companhia confessadamente corrupta, que cometeu crimes reiterados contra o Estado, merece continuar existindo? No Peru, onde a lei só prevê o instituto da colaboração premiada para pessoas físicas, não há experiência de negociações com empresas. Os parâmetros para esse tipo de acordo estão sendo estabelecidos agora, na prática, e a ideia de que uma empresa corrupta deva ser perdoada desde que pague as multas e corrija suas condutas ainda incomoda muitos peruanos. A ministra da Justiça está nesse grupo. “Os danos causados às estruturas sociais são tão graves que não é possível imaginar a empresa voltando a ter contratos públicos. A Odebrecht ganhou sua experiência e seu dinheiro lesando o Estado. Se quiserem ficar, que trabalhem com o setor privado.”

Percebendo que a postura do governo peruano encontrava receptividade em outros países do continente e preocupados com uma possível desmoralização da investigação, os membros da Lava Jato brasileira procuraram defender o acordo de leniência diante de plateias latinas. Em fevereiro passado, numa palestra que fez em Lima a convite da associação peruana de magistrados, Sérgio Moro fez questão de passar o recado: “Por maiores que sejam os delitos, a mudança de postura das empresas representou um grande avanço e foi uma atitude louvável. Por isso, deve-se estimular as que decidem colaborar com a Justiça a reconhecer seus crimes, e não castigá-las mais do que as que não colaboram.” Semanas depois, Moro repetiu o mesmo discurso na Argentina.

No início de fevereiro, em uma reunião em Brasília com membros do MP de catorze países sobre o caso Odebrecht, os procuradores brasileiros explicaram que, por força do acordo feito com a empresa, só poderiam enviar as informações contidas na delação do Brasil para os outros países a partir de junho, e apenas para os locais onde já houver um acordo entre o governo e a Odebrecht. Os mps de cada país também têm de assumir o compromisso de não processar a empresa nem seus executivos. Numa deferência da Lava Jato, os procuradores permitiram que os advogados da empreiteira fizessem uma apresentação sobre as multas que já pagaram e as medidas que estão tomando para sanear a companhia.

Nem todos os procuradores estrangeiros, porém, foram contaminados pela mesma boa vontade. Desde o final de dezembro, quando as confissões vieram à tona, os advogados da Odebrecht percorreram todos os países onde a empreiteira distribuiu propinas, mas até agora só conseguiram fechar um acordo definitivo de colaboração com a República Dominicana e com o Equador. Na República Dominicana, vai pagar uma multa de 184 milhões de dólares; no Equador, o acordo foi fechado, mas o valor da multa ainda não está definido. Em todos os outros locais, inclusive no Peru, a empresa continua tentando um acordo.

 

Depois do revés no exterior, a Odebrecht foi obrigada a refazer todos os planos de sobrevivência e partir para uma solução agressiva. Aos poucos, as outras empresas do grupo estavam vendendo ativos, reestruturando dívidas, fechando negócios e demitindo gente. A construtora, porém, seguia como a grande âncora. Com o caixa secando e os ativos do Peru congelados, as melhores chances de arrecadar mais recursos haviam desaparecido de uma hora para outra. A solução foi partir para uma renegociação com os credores. A dívida do grupo somava, então, 40 bilhões de dólares. Os cinco maiores credores – BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco e Itaú – tinham a receber da Odebrecht algo como 14 bilhões; já haviam postergado os prazos de vencimento diversas vezes e queriam abater da dívida o bilhão de dólares obtido neste ano com a venda da Odebrecht Ambiental. Mas os executivos do grupo foram claros: se os banqueiros ficassem com o dinheiro, a construtora seria obrigada a pedir recuperação judicial. Os credores teriam de entrar numa fila e a dívida passaria a figurar como rombo nos balanços dessas instituições. Os bancos aceitaram, mas em troca receberam ações da petroquímica Braskem, única empresa do grupo que preserva razoável saúde financeira. Fechado no final de abril, o acordo deu um fôlego de cerca de um ano para a Odebrecht, segundo estimam seus próprios executivos. A questão que ainda não está respondida para nenhum deles é se a empresa conseguirá outros meios para se recuperar até lá. Embora não haja arrependimentos sobre o acordo de colaboração com a Lava Jato, também não escapa a ninguém a ironia da situação, expressa por um dos executivos do grupo com quem conversei nos últimos meses: “Fizemos a delação para nos salvar, mas ainda não podemos nos considerar livres de morrer, justamente por causa dela.

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