Desde 2015 foram achadas 229 guarajubas, árvores declaradas extintas na natureza em 1998
Ver dados da foto Desde 2015 foram achadas 229 guarajubas, árvores declaradas extintas na natureza em 1998 FOTO: IUCN_UNIÃO INTERNACIONAL PARA A CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E RECURSOS NATURAIS

A volta das que não foram

Uma árvore considerada extinta está, na verdade, sob o nariz dos pesquisadores
Bernardo Esteves
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Desde 2015 foram achadas 229 guarajubas, árvores declaradas extintas na natureza em 1998 FOTO: IUCN_UNIÃO INTERNACIONAL PARA A CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E RECURSOS NATURAIS

Há alguns meses, o biólogo Eduardo Fernandez não dispunha de muitas opções se quisesse ter acesso a seu principal objeto de estudo, uma árvore conhecida popularmente como guarajuba, que só ocorre em território fluminense. Ele podia observá-la no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde existem apenas seis exemplares, ou se contentar com amostras preservadas em herbários.

Dona de um tronco claro e vistoso que parece estar descascando, a guarajuba chega a atingir 30 metros de altura. Em 1846, quando a descreveu, o naturalista Francisco Freyre Allemão batizou-a de Terminalia acuminata e notou que predominava na baixada litorânea do Rio. Como sua madeira é de boa qualidade e flutua bem, a árvore se presta perfeitamente à fabricação de móveis e embarcações. Por isso, acabou sofrendo exploração indiscriminada e, em 1998, entrou na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. O catálogo – produzido por uma ONG com sede na Suíça – enumera bichos e plantas que se encontram em perigo ou já desapareceram. Nele, a guarajuba figura como “extinta na natureza”.

Foi em 1942, no município de Maricá, que um botânico a coletou em campo pela última vez. Nas décadas seguintes, outros pesquisadores fizeram expedições à procura da árvore nas áreas onde ela já havia sido encontrada, mas sempre voltaram de mãos vazias. Até que, em 2015, um colega de Fernandez lhe deu uma notícia surpreendente: um grupo de engenheiros florestais topara com um espécime semelhante à guarajuba no Parque Estadual da Pedra Branca, na Zona Oeste carioca. O biólogo, que trabalha no Jardim Botânico, juntou uma equipe e saiu atrás da raridade. Na Estrada do Pontal, encontrou um senhor que reagiu com entusiasmo às perguntas dos cientistas: “A guarajuba? Claro que conheço! Usamos muito para construir canoas. Por acaso, tenho uma no meu quintal.”

Fernandez e seus colegas não acreditaram quando ouviram aquilo. “Logo estávamos no quintal do cara, diante de um exemplar com 20 e tantos metros”, contou. Por sorte, a guarajuba frutificara, e os pesquisadores puderam coletar amostras para análise – só é possível determinar com certeza a espécie de uma árvore a partir de seus frutos ou flores. No Jardim Botânico, uma especialista examinou o material e confirmou que se tratava realmente da Terminalia acuminata.

Pesquisadores coletam amostras da primeira guarajuba reencontrada desde 1942. A árvore estava no quintal de uma casa na Zona Oeste do Rio
Revista Piauí Pesquisadores coletam amostras da primeira guarajuba reencontrada desde 1942. A árvore estava no quintal de uma casa na Zona Oeste do Rio FOTO: LUCAS MORAES/JBRJ

Eduardo Fernandez, um carioca moreno de 28 anos, organizou uma série de expedições em março de 2016 para localizar novos remanescentes da guarajuba. A partir de dados sobre a distribuição geográfica da árvore no passado, um software indicou as regiões nas quais seria mais provável encontrá-la hoje. O resultado das buscas saiu melhor do que a encomenda: com colegas do Jardim Botânico, o biólogo achou 229 exemplares da Terminalia, situados em vários pontos da cidade do Rio e numa unidade de conservação em Niterói.

Mas nada os preparou para o que iriam avistar no Parque Nacional da Tijuca, uma floresta urbana vizinha ao Jardim Botânico. Só ali o grupo identificou mais de 100 guarajubas. É, de longe, a maior concentração de “indivíduos adultos redescobertos”, como dizem os pesquisadores. “Encontramos tantas que, no fim, parei de contar”, relatou Fernandez enquanto se dirigia à floresta para mostrar as árvores. “Olha ali uma bitela”, apontou tão logo desceu da camionete. “Lá tem mais uma, e outra adiante.”

À beira de uma estrada que corta a mata, o cientista indicou dois exemplares cujas raízes estavam parcialmente cobertas pelo asfalto. Mesmo a poucos metros da sede administrativa do parque nacional havia uma guarajuba das grandes. “Elas proliferam em lugares por onde andamos o tempo todo e não são árvores que passam despercebidas. Como é que ninguém notou antes?”, perguntou-se o biólogo.

Guarajuba à beira da estrada no Parque Nacional da Tijuca. Mais de cem exemplares da espécie foram encontrados ali
Revista Piauí Guarajuba à beira da estrada no Parque Nacional da Tijuca. Mais de cem exemplares da espécie foram encontrados ali FOTO: BERNARDO ESTEVES

Espanta que uma árvore desse porte tenha sido ignorada por tanto tempo numa área muito bem documentada. O Rio de Janeiro não só serviu de ponto de partida para expedições de naturalistas brasileiros e estrangeiros no século XIX como hoje sedia várias instituições de pesquisa botânica. “É embaraçoso admitir um desconhecimento tão profundo de nossa flora, mas precisamos aceitá-lo para repensar nossas estratégias de conservação ambiental”, ponderou Fernandez.

O cientista explicou que, atualmente, seus colegas preferem explorar regiões menos estudadas em vez de revisitar seu próprio quintal. Também lembrou que muitas zonas periféricas das metrópoles se tornaram perigosas e começaram a ser evitadas pelos biólogos. “Num dos locais que visitamos em busca da guarajuba, havia inúmeras carcaças de carros roubados. A equipe ficou com bastante medo.”

No fim de outubro, Fernandez voltou de uma temporada na Inglaterra, onde fez mestrado. Trabalhando nos laboratórios dos Jardins Botânicos Reais de Kew, em Londres, analisou a diversidade genética dos espécimes coletados no Rio. Os resultados, ainda não publicados, mostraram que a população da Tijuca é muito variada. Trata-se de uma boa notícia, pois essa característica revela-se essencial para viabilizar a reintrodução da espécie em áreas de onde desapareceu. Afinal, quanto maior a variedade de guarajubas descobertas, maior a chance de a árvore se adaptar em diferentes lugares.

O biólogo dedica-se agora a elaborar um plano de ação para proteger a Terminalia. O primeiro passo será modificar a classificação oficial dela. Enquanto for considerada extinta, a árvore permanece fora do radar das políticas públicas. Caso a avaliação se altere, a guarajuba poderá ser alvo de diversas iniciativas de conservação. No início de 2017, Fernandez pretende enviar as conclusões de sua pesquisa aos responsáveis pela Lista Vermelha, reivindicando que a espécie mude de categoria. Ele aposta que a árvore fluminense ganhará o status de “em perigo”.

Vista ao microscópio, a folha da guarajuba revela padrões que os pesquisadores são capazes de identificar (FOTOS: LUCAS MORAES/JBRJ)

A guarajuba tem um tronco claro e vistoso que parece estar descascando (FOTO: LUCAS MORAES/JBRJ)

Eduardo Fernandez observa amostras de uma guarajuba preservadas no herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (FOTO: BERNARDO ESTEVES)

Eduardo Fernandez ao lado de uma das seis guarajubas plantadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (FOTO: BERNARDO ESTEVES)

Guarajuba encontrada na Floresta da Tijuca. Endêmica do estado do Rio, a árvore pode chegar a 30 metros de altura (FOTO: LUCAS MORAES/JBRJ)

Uma das guarajubas identificadas no Parque Nacional da Tijuca estava a poucos metros da sede administrativa (FOTO: BERNARDO ESTEVES)

O biólogo Caio Meira escala uma guarajuba para coletar amostras (FOTO: LUCAS MORAES/JBRJ)

Eduardo Fernandez e um técnico do Jardim Botânico do Rio de Janeiro medem o diâmetro de uma guarajuba (FOTO: LUCAS MORAES/JBRJ)

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