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    CREDITO: BRUNO RODRIGUES BAPTISTA DA SILVA_ALAMY_FOTOARENA

questões vultosas

Procura-se um Mark Milley

Quem encontrar um, favor entregar nas Forças Armadas

Fernando de Barros e Silva | Edição 179, Agosto 2021

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Se tudo der certo – e a essa altura da vida nacional não há como dizer isso sem ironia, sob o risco de sermos apenas cínicos –, se tudo der certo, Jair Bolsonaro será derrotado nas urnas daqui a pouco mais de um ano e deixará a Presidência da República no dia 31 de dezembro de 2022. Não sem antes boicotar o processo eleitoral e tentar tudo que estiver a seu alcance para desacreditar o resultado, atropelar a democracia e permanecer no poder. O golpe que ele prepara, anuncia e testa quase diariamente será finalmente frustrado, se tudo der certo.

O Brasil viveria, nesse caso, um repeteco do que aconteceu nos Estados Unidos no ano passado. Donald Trump não reconheceu sua derrota, como é sabido. Praguejou, denunciou fraudes inexistentes no sistema de votação, abusou de recursos à Justiça e insuflou a franja fanatizada de seu eleitorado a invadir o Congresso. Sua arruaça provocou mortes e deixou feridas abertas no país, mas, apesar do imenso estrago que causou, Trump foi vencido no final. Joe Biden assumiu a Presidência no dia 20 de janeiro, conforme mandava o figurino. Prevaleceu a democracia.

O script norte-americano pode não ser exatamente o nosso. Há boas razões para desconfiar que nos falta, por assim dizer, capacidade instalada (as tais instituições funcionando) para copiar o roteiro da matriz e conter a epidemia autoritária em gestação. O vírus golpista encontra entre nós organismos políticos e institucionais débeis para proliferar. A variante brasileira do golpe é mais resistente à vacina democrática.

Basta pensar, por exemplo, no papel desempenhado pelas Forças Armadas. A comparação entre o comportamento delas na Trumplândia e no Bolsonaristão tem algo a nos ensinar.

Acaba de ser lançado nos Estados Unidos o livro I Alone Can Fix It: Donald J. Trump’s Catastrophic Final Year, de Carol Leonnig e Philip Rucker, dois veteranos repórteres do Washington Post. A frase do título – “Só eu posso consertar” – foi dita pelo próprio Trump em 2016, durante o discurso em que aceitou a indicação do Partido Republicano para concorrer à Presidência. É o segundo livro da dupla de jornalistas sobre a era Trump – o anterior, Um Gênio Muito Estável, lançado em 2020, trata dos primeiros anos da gestão e já está traduzido no Brasil.

Na nova obra, os repórteres revelam a certa altura que o general Mark Milley, chefe do Estado-Maior, no topo da hierarquia militar, discutiu com o alto comando do país um plano de ação para frustrar uma eventual tentativa de golpe de Estado. “Podem tentar, mas não vão conseguir merda nenhuma”, disse Milley a um grupo de subordinados sobre as intenções de Trump e seus aliados. “Não é possível fazer isso sem as Forças Armadas”, comentou, explicando que a ideia seria promover o pedido conjunto de demissão dos comandantes militares caso fossem confrontados por alguma ordem de Trump que pudesse colocar em risco a legalidade democrática.

Meses antes, o mesmo Milley havia pedido desculpas ao país por ter participado de um ato público ao lado de Trump. No dia 1º de junho, em meio aos protestos contra o racismo e a violência policial pelo assassinato de George Floyd, o presidente decidiu ir a pé até a igreja episcopal Saint John, a uma quadra da Casa Branca. Acompanhado por uma comitiva da qual Milley fazia parte, Trump atravessou a praça onde uma pequena multidão foi dispersada de forma violenta pela Guarda Nacional. A isso, seguiu-se a foto do presidente em frente à igreja exibindo um exemplar da Bíblia como forma de ostentar sua autoridade. A imagem patética correu o mundo e provocou muitas críticas, de religiosos inclusive.

Constrangido, Milley primeiro disse a pessoas próximas que imaginava estar acompanhando Trump para passar em revista as tropas da Guarda Nacional. Dez dias depois da pantomima, o chefe do Estado-Maior divulgou um vídeo no qual admitia: “Eu não deveria estar lá.” O mea-culpa à nação foi cristalino: “Minha presença naquele momento e naquele ambiente criou a percepção de envolvimento dos militares na política interna”; “Como oficial da ativa, foi um erro com o qual aprendi, e espero sinceramente que todos nós aprendamos com ele.”

 

Não adianta procurar nada equivalente no nosso quintal. Os militares brasileiros estão atolados até o nariz, chafurdando na politicalha interna do país. Há aqui pelo menos dois grandes problemas a considerar. Primeiro, o aparelhamento em escala inaudita da máquina pública por oficiais da ativa e da reserva, na esmagadora maioria dos casos lotados em funções de natureza civil. O braço forte e a mão amiga – lema do Exército – soam hoje como uma evocação aos atrativos acolhedores do poder. Não será simples o desmame dessa tropa de marmanjos.

A militarização do aparelho estatal teve consequências particularmente trágicas no Ministério da Saúde. Eduardo Pazuello se prestou a executar a política negacionista de seu chefe, coisa que os antecessores não tiveram coragem de fazer. À frente de uma coleção de coronéis escalados onde não deviam, o general foi responsável pelo mais desastroso enfrentamento da pandemia de que se tem notícia no planeta. A gestão do grande expert em logística transcorreu sob o signo do obscurantismo. Seu legado, materializado em centenas de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas, conjuga incompetência extrema com evidências de corrupção que se avolumam. Não é casual que Pazuello seja um militar da ativa – Bolsonaro quis vender ao país a fantasia de que o Exército iria salvar a população. Como aconteceu o contrário, é natural que o fracasso do ex-ministro contribua para o desagaste da instituição que ele representa. A desmoralização das Forças Armadas está em curso.

E aqui chegamos ao segundo problema. Quando, no início de junho, o comandante do Exército, general Paulo Sérgio de Oliveira, decidiu pelo arquivamento do processo interno contra Pazuello, alegando que sua participação num ato político ao lado de Bolsonaro não configurava transgressão disciplinar – quando isso aconteceu, as Forças Armadas saíram do armário. Mandaram a legalidade às favas e assumiram que estão, sim, a serviço do governo, que são, sim, uma instituição a serviço de Jair Bolsonaro. A absolvição de Pazuello foi o caguei do Exército ao país.

De lá para cá as coisas só se deterioram. O ministro da Defesa, Walter Braga Netto, e os três comandantes militares assinaram uma nota conjunta abusiva e intimidatória contra o presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz, que havia feito um comentário bastante cauteloso sobre a existência de corrupção localizada dentro das Forças Armadas. Mais recentemente, soube-se por uma reportagem do Estado de S. Paulo que o mesmo Braga Netto mandou um recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira, condicionando a realização das eleições no ano que vem à aprovação do voto impresso. O ministro veio a público para negar a ameaça, mas foi pouco convincente. E assim ficamos, como se tudo estivesse normal, à espera da próxima nota extravagante, pois ela certamente virá.

Outra coisa é certa. Braga Netto não poderá olhar para trás e dizer como o general Fernando Azevedo e Silva, seu antecessor no cargo, ao ser demitido por Bolsonaro em março: “Nesse período, preservei as Forças Armadas como instituições de Estado.” Esse tempo, se existiu, não existe mais. Agora é a vez do “meu Exército”, como gosta de falar o capitão.

Desde que Joe Biden foi eleito, vozes na imprensa e na política, inconformadas com a polarização entre Lula e Bolsonaro, começaram a repetir coisas como “precisamos de um Biden brasileiro”, “quem será o Biden brasileiro?”. É uma demanda legítima, embora um tanto ridícula. A pergunta a quem quiser espelhar o nosso futuro na trajetória recente dos Estados Unidos na verdade é outra: Quem será o Mark Milley brasileiro?