Questões da Ciência

Monitoramento amplo, geral e irrestrito

Uma iniciativa de pesquisadores brasileiros com o Google vai monitorar o desmatamento no país

Bernardo Esteves
18dez2015_14h26

A Amazônia brasileira é a única floresta tropical do mundo a ter o desmatamento mensalmente monitorado a partir da análise de imagens de satélite. O acompanhamento regular teve papel importante no controle do desmatamento nesse bioma, que caiu cerca de 80% desde 2004. Não que a situação esteja sob controle: no último ano, foram derrubados 5,8 mil quilômetros quadrados de mata, 16% a mais do que no ano passado.

Atualmente há duas iniciativas para o monitoramento mensal da derrubada da Amazônia. Uma delas é promovida pelo governo federal e realizada desde 2004 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. Há ainda uma iniciativa independente conduzida desde 2007 pela ONG paraense Imazon, Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. (A história desse instituto e de Chris Uhl, um de seus fundadores, foi contada na reportagem “O mentor”, publicada na piauí 111, de dezembro de 2015 – atualmente nas bancas e disponível on-line para assinantes).

Mas o monitoramento mensal se restringia até agora à Amazônia, deixando de fora biomas sob intensa pressão da atividade agropecuária, como o cerrado, que tem registrado taxas anuais de desmatamento maiores que as da Amazônia. Esse quadro começou a mudar com a entrada em operação de uma iniciativa que vai monitorar a perda da cobertura vegetal em todos os biomas do país, incluindo também a mata atlântica, o pantanal, a caatinga e o pampa.

Batizada de MapBiomas, a iniciativa é fruto de uma parceria entre dezenas de universidades, empresas e ONGs brasileiras e foi lançada em versão beta num evento no fim de novembro. O primeiro produto derivado da nova plataforma será uma série de mapas que permitem acompanhar as mudanças no uso da terra em todo o território brasileiro ao longo de oito anos, de 2008 a 2015. Uma versão preliminar dos mapas foi apresentada ao público durante a COP21, a conferência do clima realizada em Paris no começo deste mês.

Assim como o sistema de monitoramento independente operado pelo Imazon, o MapBiomas recorre à tecnologia do Google Earth para a análise das imagens de satélite. As imagens são tratadas na nuvem, nos servidores da gigante do Vale do Silício, o que poupa tempo e recursos computacionais preciosos para os pesquisadores.

“É um grande playground”, disse o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador da iniciativa, enquanto fazia uma demonstração do sistema em seu laptop numa conversa com o questões da ciência nos corredores da COP21. Azevedo mostrou a evolução de uma região do Acre que era ocupada floresta primária e foi convertida em pastagem. O pesquisador chamou a atenção para a agilidade do sistema. “Se eu fosse fazer isso manualmente, demoraria quatro dias; trabalhando no melhor computador, seria preciso um dia”, explicou. “Aqui demorou o tempo de eu explicar e ele já gerou o resultado.”

Cada pixel das imagens usadas no MapBiomas representa um quadrado com 30 metros de lado. A resolução é maior que usada no monitoramento mensal da Amazônia feito pelo governo, conforme notou Azevedo. “A frequência é muito maior do que a do inventário nacional de gases do efeito estufa”, disse o engenheiro florestal. “Vamos enxergar coisas pela primeira vez.”

O coordenador do projeto notou ainda que a plataforma desenvolvida pelos pesquisadores brasileiros em parceria com o Google tem acesso aberto e poderá ser usada por cientistas de todo o mundo. A novidade já despertou o interesse de colegas da América do Sul. “Já temos demandas de uso do sistema por parte da Argentina, Colômbia, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e da rede dos países amazônicos”, disse Azevedo.

Atualização: o post foi atualizado em 22/12/15 para corrigir a resolução do satélite que captura as imagens analisadas pelo MapBiomas (a versão original afirmava que os pixels representavam quadrados com 30 km de lado).

Bernardo Esteves (siga @besteves no Twitter)

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

Leia também

Últimas Mais Lidas

Bolsonaro e a tirania da maioria

País que exige ficha limpa de políticos desdenha da ficha democrática

Maria vai com as outras #10: Fim da temporada – Divisão sexual do trabalho

No último episódio desta temporada, a jornalista e escritora Rosiska Darcy de Oliveira fala dos primórdios do movimento feminista no Brasil e no mundo, do exílio durante a ditadura e do seu livro "Reengenharia do Tempo", sobre a divisão sexual do trabalho.

A imprensa precisa fazer autocrítica

Foram anos tratando o inaceitável como controverso ou mesmo engraçado

Bolsonarismo não é partido

Democracia brasileira depende de petismo e antipetismo se organizarem em siglas que se respeitem

O lado M da eleição

Mulheres negras no poder são o outro destaque das urnas

Foro de Teresina #22: O arrastão da direita, a derrota da mídia tradicional e o favoritismo de Bolsonaro

O podcast de política da piauí analisa a corrida presidencial após o primeiro turno

Cinema político – o risco da obsolescência

Crítico escreve carta aberta aos cineastas brasileiros: “Falhamos por omissão”

Medo por medo, dá Bolsonaro

Datafolha mostra que PT não projeta sonho mas continuísmo

Bancada policial e militar mais do que dobra na Câmara

Deputados eleitos vinculados às Forças Armadas ou às polícias passam de 12 em 2014 para 28 nesta eleição

Maria vai com as outras extra: ao vivo no Foro de Teresina

Ouça a participação de Branca Vianna no podcast de política da piauí; o bloco debateu o peso da mulheres na eleição 2018

Mais textos
1

Vivi na pele o que aprendi nos livros

Um encontro com o patrimonialismo brasileiro*

2

O fiador

A trajetória e as polêmicas do economista Paulo Guedes, o ultraliberal que se casou por conveniência com Jair Bolsonaro

3

A festa que Bolsonaro cancelou

O PSL enviou 300 convites para celebrar a vitória já no primeiro turno, num hotel na Barra da Tijuca. No fim, sobrou para aliados justificar por que não ganhou

4

Medo por medo, dá Bolsonaro

Datafolha mostra que PT não projeta sonho mas continuísmo

5

O PT em segundo lugar

Ameaça autoritária exige pacto de refundação institucional

6

A acusadora

Como a advogada Janaina Paschoal, uma desconhecida professora da USP, se transformou em peça-chave do impeachment

7

Extremo centro x extrema direita

Do entendimento entre PT e PSDB depende a democracia no Brasil

8

O candidato da esquerda

Pouco conhecido, sem nunca ter feito vida partidária ou disputado votos, o ministro Fernando Haddad parte em busca dos militantes do PT, dos paulistanos e da prefeitura

9

Arrastão da direita redefine o país

Foro de Teresina destrincha realidade política que emerge do primeiro turno

10

O guarda da esquina e sua hora

Reflexões em torno de um slogan de Jair Bolsonaro