questões político-futebolísticas

Pivo de escândalo Fifa volta ao Brasil “de vez”

J. Hawilla disse à piauí que foi liberado para voltar dos Estados Unidos, onde confessou crimes como lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça; preso em 2013, fez acordo para delatar cartolas

Fabio Victor e Allan de Abreu
08fev2018_21h01
Empresário J. Hawilla, que estava proibido de deixar os EUA desde maio de 2013
Empresário J. Hawilla, que estava proibido de deixar os EUA desde maio de 2013 FOTO: ZANONE FRAISSAT_FOLHAPRESS

Esta reportagem foi atualizada às 13h15 do dia 9 de fevereiro

Um dos pivôs do escândalo Fifa, o empresário José Hawilla – ou J. Hawilla, como ficou conhecido ainda quando era apresentador de TV – está de volta ao Brasil. Definitivamente, segundo disse à piauí. Hawilla é pessoa-chave no processo que apura esquema de corrupção que envolveu o pagamento de propinas milionárias a dirigentes de algumas das organizações responsáveis pelo comando do futebol mundial, como a própria Fifa, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Hawilla havia sido preso nos Estados Unidos. Fechou um acordo de delação em 2013, e, desde então, vem colaborando com o Departamento de Justiça norte-americano.

O dono da Traffic chegou a São Paulo no domingo, 4 de fevereiro. “Voltei de vez”, afirmou à piauí na noite desta quinta-feira, por telefone. Desde maio de 2013, Hawilla estava proibido de deixar os EUA, embora pudesse circular pelo país. Questionado sobre a proibição, respondeu: “Estava [proibido], mas acabou o processo”.

O empresário se recusou a dar mais informações. “Não posso dar entrevista. Estou proibido pelos advogados de falar. Não vai tentar arrancar coisa minha que você vai me comprometer.” O advogado de J. Hawilla, José Luis de Oliveira Lima, disse que não daria declarações à imprensa.

A viagem de Hawilla ao Brasil só ocorreu por conta de um acordo com a Justiça norte-americana. Segundo o Departamento de Justiça (DoJ), o acordo de liberação do empresário não é um documento público. O Brasil não tem tratado para extradição de cidadãos brasileiros aos Estados Unidos, mas, segundo o DoJ, Hawilla deverá estar presente na corte de Nova York no dia de sua sentença, no próximo 23 de abril.

Hawilla deverá passar o Carnaval em sua casa no Guarujá, litoral paulista, e em seguida segue para São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, sua cidade natal, onde também tem residência – um imóvel de 12 mil metros quadrados avaliado em 18 milhões de reais.

O empresário é dono do grupo Traffic, que atua no marketing esportivo desde 1980. Seus negócios se estenderam do Brasil a dezenas de países das américas do Sul, Central e do Norte. Preso em maio de 2013 pelo FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, sob acusação de obstruir a Justiça, Hawilla optou por delatar os envolvidos em dezenas de episódios em que ele diz ter pago milhões de dólares em propina para vários dirigentes esportivos. Entre eles estão Nicolás Leoz, que comandou a Conmebol entre 1986 e 2011; Ricardo Teixeira, presidente da CBF entre 1989 e 2012; e Marco Polo Del Nero, presidente afastado da confederação brasileira (ele foi suspenso do cargo pela Fifa no fim de 2017, e seu julgamento deve ocorrer até abril).

As propinas, segundo Hawilla, foram pagas entre 1991 e 2013 por meio de empresas offshore sediadas no Caribe. Ele também aceitou a incumbência do FBI de gravar conversas comprometedoras entre ele e dirigentes e empresários do esporte, entre 2013 e 2014. Sua delação serviu de base para a maioria dos indiciamentos feitos pelo Departamento de Justiça norte-americano.

Em dezembro de 2014, Hawilla declarou-se formalmente culpado pelos crimes de extorsão, conspiração por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça. Pela lei norte-americana, a pena para esses crimes, somada, pode chegar a 80 anos de prisão. Ele também concordou em vender todos os ativos da Traffic e indenizar o governo dos Estados Unidos em 151 milhões de dólares, dos quais 25 milhões foram quitados no fim de 2014. O restante deveria ser pago até a sentença judicial do empresário, prevista para abril deste ano.

Em dezembro de 2017, Hawilla depôs como testemunha de acusação na ação penal que resultou na condenação do brasileiro José Maria Marin, ex-presidente da CBF, e do paraguaio Angel Napout, ex-presidente da Conmebol, por lavagem de dinheiro, fraude financeira e participação em organização criminosa. Ambos recorreram da decisão.

Fabio Victor (siga @fabiopvictor no Twitter)

Fabio Victor é repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por 20 anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

Allan de Abreu (siga @allandeabreu1 no Twitter)

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela Record

Leia também

Relacionadas Últimas

Pivô do escândalo Fifa, J. Hawilla morre em São Paulo

Em acordo de delação em 2013, o empresário confessou crimes e teve de pagar 151 milhões de dólares ao governo norte-americano

O delator

Delcídio do Amaral fala sobre os tempos de poder, os meses na prisão e a ruptura com Dilma, Lula e o PT

A janela de Haddad

A vulnerabilidade de Bolsonaro e a chance do candidato do PT

Sem a elite, sem (quase) nada

Em doze anos, Alckmin sai de 45% para 6% das intenções de voto no eleitorado que cursou universidade; eleitores migram principalmente para Bolsonaro

Lacrou: não entra mais nome novo na urna

Se um candidato morrer ou desistir, sua cara e seu número continuarão aparecendo na tela; TSE fechou os registros e diz que não muda mais

A nossa hora mais escura

O legado de trinta anos de democracia está em jogo nesta eleição

Bolsonaro e Haddad vão ao JN, bombam no Twitter e crescem

Jornal Nacional foi evento mais tuitado das campanhas dos candidatos do PSL e do PT; apresentadores viraram o assunto após as entrevistas

Por que mulheres trocaram Marina por Haddad, Ciro e Bolsonaro

De líder no voto feminino, candidata despencou para o quarto lugar; seu discurso é “sincero”, mas falta clareza, dizem ex-eleitoras

Bolsonaro não queria sair da Santa Casa

A história de como a família do presidenciável dispensou o Sírio-Libanês, contrariou a vontade do candidato de ficar em Juiz de Fora e aceitou a proposta do tesoureiro do PSL de levá-lo para o Einstein

Aluguel do PSL custa R$ 1,8 milhão à campanha de Bolsonaro

Ex-presidente do partido, Luciano Bivar recebeu sozinho, até agora, 28% dos gastos da cúpula nacional da sigla que cedeu ao ex-capitão

Antipetismo e democracia

O candidato do PT e o candidato do PSL não são dois lados da mesma moeda

Robôs tiram sono de 90% dos jovens no Brasil

Pesquisa da Pew Research mostra que, entre os brasileiros, os mais preocupados com a automação do seu trabalho têm de 18 a 29 anos

Mais textos
1

SUS salva Bolsonaro por R$ 367,06

Pago pelo sistema público brasileiro, cirurgião de veias e artérias de Juiz de Fora é tirado de almoço de família para achar e conter hemorragia no candidato

2

Bolsonaro não queria sair da Santa Casa

A história de como a família do presidenciável dispensou o Sírio-Libanês, contrariou a vontade do candidato de ficar em Juiz de Fora e aceitou a proposta do tesoureiro do PSL de levá-lo para o Einstein

3

Aluguel do PSL custa R$ 1,8 milhão à campanha de Bolsonaro

Ex-presidente do partido, Luciano Bivar recebeu sozinho, até agora, 28% dos gastos da cúpula nacional da sigla que cedeu ao ex-capitão

4

Ciro queima pontes com o Exército

Cúpula militar reage à declaração do candidato de que general Villas Bôas “pegaria uma cana” por falar de política; de “bom quadro”, pedetista vira “insensato”

5

Antipetismo e democracia

O candidato do PT e o candidato do PSL não são dois lados da mesma moeda

6

Restam três para uma

Haddad, Ciro, Alckmin e a vaga contra Bolsonaro

7

Paulo Guedes contra o liberalismo

A história mostra que uma onda de ódio só chega ao poder quando normalizada

9

O mínimo e o justo

Menos Estado gera mais justiça social?

10

O fiador

A trajetória e as polêmicas do economista Paulo Guedes, o ultraliberal que se casou por conveniência com Jair Bolsonaro