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2019 não virou 1961

Ruas mostram ruim/péssimo maior que ótimo/bom, mas Bolsonaro tem militância que faltou a Dilma e a Collor; segue o impasse

José Roberto de Toledo
26maio2019_20h06

Não foi um fracasso total. Diferentemente de quando o presidente Fernando Collor conclamou a população em 1992, muita gente de verde e amarelo aproveitou o domingo de sol e foi à rua defender o governo de Jair Bolsonaro. O problema foi a comparação. Os protestos de 15 de maio, contra cortes de verba na educação, ganharam em volume de manifestantes, em duração e amplitude pelo país: 222 cidades dia 15 contra 156 neste domingo, segundo o G1. De quebra, os protestos da oposição ocorreram em dia de trabalho e, no caso de São Paulo, sob chuva.

Como resultado, pela primeira vez deu para ver a olho nu o resultado das pesquisas de opinião: há mais brasileiros achando o governo Bolsonaro ruim ou péssimo do que bom ou ótimo.

Quais as implicações práticas disso? São pelo menos cinco.

1º) A chantagem do Executivo contra o Congresso tem menos chance de dar certo. Os parlamentares puderam constatar, em cada unidade da federação, onde Bolsonaro tem pouco, muito ou nenhum poder de pressão contra eles. Na maioria dos casos, nada amedrontador. Ao patrocinar as manifestações – mesmo dizendo o contrário –, Bolsonaro abriu o jogo e mostrou suas cartas: dois pares. Se em vez de pôquer a metáfora fosse com o truco, poderia ser dito que ele correu o risco de ver o adversário gritar “seis” e pregar-lhe o zap na testa. Só não aconteceu porque a oposição não joga junta.

2º) Bolsonaro mostrou que não é Dilma nem Collor. Tem apoio de uma parcela nada desprezível da população, consegue mobilizá-la quando precisa e pode fazê-lo se a oposição insistir em falar de impeachment. Ele pode até perder a briga, mas vai brigar na rua.

3º) Rodrigo Maia foi o principal alvo individual das manifestações de domingo, como já vinha sendo nos grupos de WhatsApp bolsonaristas. Se tinha alguma dúvida, o presidente da Câmara agora sabe com certeza que o governo quer vê-lo no espeto. Não pode confiar em Bolsonaro para fazer acordos. Logo, Maia chega esta semana a Brasília sabendo que o único caminho que lhe resta é redobrar a aposta em tomar do governo o protagonismo na agenda legislativa. Como fazer isso é que são elas. O impasse entre os poderes segue sem um favorito óbvio.

4º) Se trabalhar bem, o governo tem chance de pegar o embalo da aprovação da Medida Provisória da reforma administrativa, das manifestações de apoio e experimentar talvez pela primeira vez duas semanas de noticiário positivo (ou menos negativo). Até agora há pouca mobilização nas redes em torno dos protestos contra Bolsonaro marcados para o dia 30. O MEC agiu para esvaziá-los anunciando mais recursos para a educação. Se a manifestação de quinta-feira fracassar, o governo pode respirar.

5º) A polarização política continua forte e saiu das redes para as ruas. Não dá sinal de retroceder. Eleitoralmente, candidatos com discurso radicalizado, contra e a favor do governo e de Bolsonaro, tendem a levar vantagem sobre os moderados. Isso pode mudar até 2020 ou 2022? Pode, mas nada indica que vá, por ora.

O resumo do dia 26 é que o governo apostou alto, perdeu na comparação, mas não de goleada, e mostrou que tem militância. A resultante da equação é que o jogo político continua indefinido. Nem Bolsonaro exibiu força para fazer o que Jânio Quadros tentou em 1961 e não conseguiu – um golpe contra o Congresso – nem o governo sofreu desgaste suficiente para Rodrigo Maia e o Centrão impingirem o parlamentarismo – de fato ou de direito –, como João Goulart teve que engolir para conseguir suceder Jânio na Presidência. Não foi desta vez que 2019 virou 1961.

PS: As análises simplórias sobre o comportamento das mídias sociais, baseadas exclusivamente em citações de palavras-chave, mostraram-se inúteis para prever o tamanho das manifestações. Segundo essas previsões, o dia 26 deveria ter sido algumas vezes maior do que foi o dia 15. A realidade se mostrou diferente porque há muitos robôs e contas falsas fazendo volume de tráfego e trolagem para emplacar hashtags nos trending topics mas nem tantos militantes de carne e osso assim. Modelos que misturam análise de sentimento em relação ao presidente (se positivo ou negativo) conseguiram antecipar melhor o que aconteceu de fato.

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Editor-executivo da piauí (site), foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

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