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26 de junho, sexta-feira de más notícias

Aniversário de Gil foi único momento de celebração neste tempo em que a tristeza é senhora

Eduardo Escorel
01jul2020_10h36

O aviso da Defesa Civil chegou às 06h13 com algumas palavras em letras maiúsculas – “ALERTA DE VENTO FORTE no início da manhã e CHUVA MODERADA na Cidade RJ a partir da tarde – 26/06 – Emergência, ligue 199”. Nada alarmante, em princípio, comparado à notícia da véspera – a aproximação de uma enorme nuvem de gafanhotos, vinda da Argentina, que levou o Ministério da Agricultura a tomar medida preventiva, decretando estado de emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. “Se o clima for favorável”, declarou a ministra Tereza Cristina, “os gafanhotos ficarão no Uruguai”. 

O país vizinho, cujo território é menor que o do Rio Grande do Sul, não merecia tamanho castigo, depois do desempenho exemplar que teve frente à pandemia, conforme Rogério Furquim Werneck assinalou na própria sexta-feira, em seu artigo no Globo: “Num momento em que o Brasil já acumula mais de 55 mil mortes decorrentes da Covid-19, o Uruguai registra não mais do que 26. Isso mesmo, 26 mortes… No Brasil, a pandemia já trouxe 259,8 mortes por milhão de habitantes. No Uruguai, 7,4 mortes… Não há espaço para autoengano. No combate à pandemia, o Brasil está levando um baile do Uruguai.” A alusão de Werneck ao drama nacional prestes a completar setenta anos é evidente. Foi em 16 de julho de 1950 que o Uruguai derrotou o Brasil por 2 a 1 no Maracanã, e ganhou a Copa do Mundo de futebol diante de quase 200 mil torcedores – a cada época a sua tragédia. 

O jornal de sexta-feira trouxe também a notícia da morte de Suzana Amaral, cineasta que teve a ousadia de adaptar A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, ao realizar seu primeiro longa-metragem, lançado em 1985. Com atuações memoráveis de Marcélia Cartaxo e José Dumont, o filme foi premiado com toda justiça em vários festivais, de Brasília a Berlim. Referindo-se a Macabéa, personagem principal de A Hora da Estrela, uma órfã alagoana, maltratada na infância, feia, tímida, ignorante e solitária, Suzana teria dito certa vez que todos nós somos um pouco Macabéa, que somos um pouco injustiçados no cinema brasileiro. Autopiedade à parte, a caracterização tem sua razão de ser em certas ocasiões, como a do início da semana passada, em que o novo secretário Especial da Cultura, quinto do atual governo, ao qual a Secretaria do Audiovisual (SAv) é subordinada, posou sorridente ao lado do presidente da Fundação Palmares, deixando explícito seu alinhamento com a chamada ala ideológica de extrema direita do desgoverno federal. Além da nuvem de gafanhotos, poderíamos passar também sem mais essa ameaça. 

O novo secretário da Cultura esteve na Cinemateca Brasileira – CB, no dia em que tomou posse (23/6), na reunião com a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto – Acerp, gestora da instituição. Estiveram reunidos também o ministro do Turismo e o diretor-presidente da Ancine, além do diretor geral da Acerp e o superintendente da CB. Todos entraram pela porta dos fundos, evitando contato com os funcionários, sem receber salário desde abril, que faziam manifestação de protesto na mesma hora em frente à sede. Na reunião, em que os participantes estavam de máscara, dois coordenadores da instituição apresentaram a CB no laboratório de restauro, explicando sua importância e as necessidades prementes. Nenhuma satisfação foi dada aos trabalhadores contratados que não vêm sendo remunerados. Às dez da noite, o ministro escreveu no Twitter que a reunião foi excelente e proclamou: “Nossa missão é restabelecer e dar vida nova à instituição. Juntos vamos superar esta fase.” Preocupa, porém, a ausência de medidas práticas imediatas e a falta de sentido de urgência dessa promessa. A situação de alto risco em que está o valioso acervo da CB foi comprovada mais uma vez na manhã de sábado (27/6), quando faltou luz das 10 às 14 horas na Vila Mariana, em São Paulo. Com o gerador quebrado, dependendo de conserto orçado em 4 mil reais, interrupção mais prolongada poderia ter causado a tragédia anunciada no depósito de matrizes. 



Ainda na sexta-feira, 26 de junho, momentos antes de ler o alerta da Defesa Civil, outra mensagem recebida de madrugada havia informado que era dia do aniversário de Gilberto Gil. E, de repente, lembrei que o Brasil teve um ministro da Cultura do quilate de Gil, de 2003 a 2008, atestado do quanto regredimos desde então. Logo em seguida à gravação da homenagem feita a Gil por vários artistas cantando Andar com Fé (“Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá”), chegou o registro de Caetano Veloso e Gil, cantando Desde que o Samba é Samba, mandado por uma de minhas irmãs.  

Além da ocasião festiva, porém, na sexta-feira o diagnóstico do primeiro caso de coronavírus no Brasil completou quatro meses. No boletim de 8 horas, o consórcio de veículos de imprensa informou que o Brasil tinha 55.102 mortos e 1.234.850 casos confirmados de Covid-19. Números atualizados durante o dia para 56.109 óbitos e 1.280.054. 

Em plena calamidade humanitária, ao ouvir Desde que o Samba é Samba, incluído no disco Tropicália 2, de 1993, o samba ganhou um sentido suplementar evidente, passados cem dias de isolamento: “A tristeza é senhora/Desde que o samba é samba é assim…Solidão apavora/ Tudo demorando em ser tão ruim/Mas alguma coisa acontece…Cantando eu mando a tristeza embora…/O samba ainda vai nascer/O samba ainda não chegou/O samba não vai morrer/Veja, o dia ainda não raiou/O samba é pai do prazer/O samba é filho da dor/O grande poder transformador.”  

O samba é filho da dor/O grande poder transformador – a sabedoria contida nos versos de Caetano e a conotação nova que adquirem neste momento me levaram a pensar no efeito que a pandemia está tendo sobre o cinema brasileiro, ainda e sempre por nascer, sem ter chegado ainda, mas que tampouco vai morrer – em especial os filmes recentes que tiveram seu lançamento adiado e começaram a ser exibidos de 19 a 28 de junho na plataforma Espaço Itaú Play.  

Nesses dez dias, pude assistir a Aos Olhos de Ernesto (2019), de Ana Luiza Azevedo; Três Verões (2019), de Sandra Kogut; A Febre (2019), de Maya Da-Rin; Pacarrete (2019), de Allan Deberton; Dora e Gabriel (2020), de Ugo Giorgetti; e Mangueira em 2 Tempos (2019), de Ana Maria Magalhães – amostra ampla e diversificada da produção recente, impedida por enquanto de ser oferecida em salas de cinema. A diversidade do conjunto é, por si só, virtude nada desprezível a ressaltar. Cada um desses títulos tem qualidades próprias – a começar pela fatura cuidadosa de todos – mas também, uns mais do que outros, aspectos sujeitos a ressalvas críticas que ficam para ser comentados quando estiverem disponíveis para público mais amplo. O que assinalo agora, sugerido pelo samba Desde que o Samba é Samba, é apenas o desafio adicional a vencer quando filmes brasileiros concluídos antes da pandemia forem lançados depois da reabertura do circuito exibidor. Serão capazes de atrair e estabelecer sintonia com espectadores traumatizados, de diferentes maneiras e em diversos graus, pela Covid-19? Não arrisco responder agora, mas confesso que, assistindo aos filmes na semana passada, minha impressão foi de que alguns podem ter perdido contato com o mundo, como se os elos que poderiam uni-los ao público tivessem sido rompidos. 

Com a prisão de Fabrício Queiroz e a fuga do ex-ministro da Educação, o desastrado, inepto e irresponsável ocupante provisório do Gabinete Presidencial se recolheu um pouco, no que parece ser uma manobra tática. Até quando, todos se perguntam. Por outro lado, “cadê a Márcia?” é a pergunta que continua pairando sobre o enredo no qual um personagem ganhou destaque, chegando à capa de duas revistas semanais – o advogado Frederick Wassef, responsável por invencionices negadas na semana passada por testemunhos de terceiros que o levaram a desmentir suas próprias alegações anteriores. Ele agora admite, como fez à revista Veja, na edição 2693, de 1 de julho, mas divulgada na fatídica sexta-feira (26/6), que abrigou Queiroz, supostamente para impedir que fosse assassinado por “forças ocultas”, evitando assim que sua morte fosse considerada queima de arquivo atribuída ao Zero Um e ao morador temporário do Palácio da Alvorada. Segundo Wassef, esse enredo é “absolutamente real… Havia um plano traçado para assassinar Fabrício Queiroz e dizer que foi a família Bolsonaro que o matou em uma suposta queima de arquivo para evitar uma delação”. A entrevista de Wassef termina com uma declaração de amor: “O que me aproximou do Bolsonaro foi o inconformismo. Eu amo o presidente.” 

Narrador e personagem que perdeu credibilidade, a fábula que Wassef conta e reconta parece ter relação tênue com a realidade factual e preserva vários episódios obscuros. Aguardemos os próximos capítulos. 

No sábado (27/6) à tarde, o vento forte e a chuva moderada chegaram à Zona Sul do Rio de Janeiro, 36 horas depois do alerta da Defesa Civil do dia anterior. Quanto aos gafanhotos, eles foram vistos a 100 km de Uruguaiana, mas a nuvem teria perdido intensidade. Durante a semana, perguntas sobre gafanhotos invadiram o Google. Uma das consultas pede instruções sobre a maneira de fazer gafanhoto frito. 

Até 9 de julho a mostra online de dez Clássicos do Cinema Japonês prossegue, promovida pela Fundação Clóvis Salgado. Através do site da Fundação, estão disponíveis três longas de Yasujiro Ozu, três de Kenji Mizoguchi, três de Mikio Naruse (1905-1969) e um de Kinuyo Tanaka (1909-1977). 

A campanha pública de apoio aos funcionários e prestadores de serviço da Cinemateca Brasileira (CB) continua. Para contribuir, basta acessar o link https://benfeitoria.com/trabalhadoresdacinemateca. A partir de 20 reais, todo valor é bem-vindo. Falta completar, nos próximos três dias, 51% da meta proposta. 

A página Cinemateca Acesa, iniciativa do “movimento que pretende articular novas ideias, produções e processos de criação em defesa da CB e de seus funcionários”, em defesa do Cinema Brasileiro e da CB, patrimônio da nossa sociedade, foi criada em 13 de junho. Em https://www.facebook.com/CinematecaAcesa/ estão sendo disponibilizados “tesouros” do acervo da CB que correm o risco de serem perdidos, e há informação atualizada sobre o andamento dessa ameaça. Na sexta-feira, 26 de junho, foi exibido A Hora da Estrela, de Suzana Amaral, falecida na véspera. 

Estreou na Netflix, em 30 de junho, Homemade, série de curtas-metragens realizados em isolamento social, devido à Covid-19. Os filmes foram realizados por dezessete diretores, entre eles Kristen Stewart, Maggie Gyllenhaal, Ladj Ly, Ana Lily Amirpour e Paolo Sorrentino. 

Dez episódios de La Maison du mystère (1922), de Alexandre Volkoff, destacam-se entre as novidades disponíveis na plataforma de streaming gratuita da Cinemateca Francesa https://www.cinematheque.fr/henri/.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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