questões da memória

Álcool, pancadas na cabeça e poluição, novos riscos para o Alzheimer

Teste aponta propensão para a doença vinte anos antes de sintomas aparecerem; estudo inédito identifica três novos fatores a evitar para não desenvolver o mal

Herton Escobar
30jul2020_13h30
Ilustração de Carvall

Os cientistas ainda não encontraram a cura para o Alzheimer, mas já têm uma boa noção de como evitar, ou pelo menos retardar, o desenvolvimento da doença. Baixa escolaridade, sedentarismo, hipertensão, fumo, obesidade, depressão, diabetes, déficit auditivo e baixo engajamento social são fatores de risco estabelecidos. Agora, um novo estudo publicado na revista britânica The Lancet adiciona mais três à lista: consumo excessivo de álcool, traumas cranianos e exposição à poluição do ar. Cerca de 40% dos casos de demência no mundo — incluindo Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas, geralmente associadas à perda de memória e outros déficits cognitivos na terceira idade —, poderiam ser evitados ou postergados pela supressão desses doze fatores de risco, segundo os pesquisadores, que fizeram uma revisão de toda a literatura médica e científica disponível sobre o tema.

“Nunca é cedo nem tarde demais para se prevenir a demência no decorrer da vida”, escrevem eles. “Embora mudanças de comportamento sejam difíceis e algumas associações possam não ser puramente causais, os indivíduos têm um enorme potencial para reduzir seu risco de demência.” 

Uma boa notícia divulgada nesta semana foi o desenvolvimento de um novo teste sanguíneo, pelo qual seria possível diagnosticar a doença de Alzheimer até vinte anos antes do surgimento dos primeiros sintomas, de forma muito mais simples e segura do que pelos métodos atuais, segundo um estudo publicado na revista JAMA, da Associação Médica Americana (um dos mais conceituados periódicos médicos do mundo, assim como o Lancet). Nesse caso, os pesquisadores identificaram que uma proteína associada ao desenvolvimento da doença de Alzheimer no cérebro, chamada P-tau217, está presente também no sangue dos pacientes e pode ser usada como um biomarcador, tanto para confirmar um diagnóstico da doença — muitas vezes confundida com outras formas de demência — quanto para fazer diagnósticos precoces, em pessoas que ainda não desenvolveram sintomas, mas têm grandes chances de manifestar a doença no futuro.

Esse tipo de diagnóstico já é possível hoje, mas apenas por meio de exames caros e complexos, que envolvem a coleta de líquor da medula espinhal e imageamento do cérebro por ressonância magnética (MRI) ou tomografia (PET). Em todos os casos, o objetivo é detectar proteínas associadas ao Alzheimer, como tau e beta-amiloide, que se depositam no cérebro de pessoas com a doença, causando deterioração progressiva do órgão e das funções cognitivas associadas a ele. O tipo e a gravidade dos sintomas variam de acordo com a área afetada e a quantidade de proteínas depositadas; os cientistas sabem que essa deposição começa muitos anos antes dos sintomas aparecerem — daí a possibilidade de um diagnóstico precoce.



“São testes difíceis de fazer”, diz o médico neurologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Ricardo Nitrini, especialista em demência. O exame de tomografia para proteína tau nem existe no Brasil, segundo ele, e o para beta-amilóide só é feito em dois hospitais do país: no Hospital das Clínicas da USP, em São Paulo, e na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. O exame de líquido cefalorraquidiano (líquor) é mais acessível, porém tecnicamente mais complexo, podendo trazer resultados inconclusivos.

A capacidade de diagnosticar o Alzheimer por um método simples, como um exame de sangue, seria um avanço importante para a prevenção e o desenvolvimento de futuros tratamentos para a doença. “É uma luta muito grande, que estamos travando há muito tempo”, afirma Nitrini, que não participou dos estudos, mas disse ver os resultados com entusiasmo.

O exame de sangue da P-tau217, reportado na JAMA, foi testado em 1.402 pessoas, e os resultados foram tão bons quanto, ou até melhores, do que os obtidos com os métodos disponíveis atualmente. O estudo foi liderado por pesquisadores da Suécia, e eles mesmo ressaltam que a técnica, apesar de promissora, ainda precisa ser aperfeiçoada e testada em outros grupos de pessoas para ter sua eficácia confirmada e, eventualmente, ser incorporada à prática clínica.

 

Seja como for, enquanto não houver cura disponível, o melhor a fazer é mesmo se prevenir da doença, evitando os fatores de risco identificados no estudo do Lancet — que são essenciais para a prevenção de uma série de problemas de saúde, e não apenas do Alzheimer. Cerca de 50 milhões de pessoas vivem hoje com algum tipo de demência no mundo, e esse número pode chegar a 152 milhões até 2050, segundo dados do World Alzheimer Report 2018, devido ao envelhecimento da população. O problema é maior nos países menos desenvolvidos, onde a prevalência dos fatores de risco é maior. O acesso à educação básica (escolaridade) na infância é um dos fatores que mais protege contra a demência, segundo os pesquisadores. O estudo foi realizado por um consórcio de 28 especialistas, de oito países, denominado Comissão Lancet.

Diversos estudos estão em curso para avaliar como a modificação desses fatores de risco pode reduzir a incidência da demência em diferentes populações, segundo Nitrini. “Mesmo que não se consiga impedir completamente o desenvolvimento da doença, somente postergá-la já traz um benefício enorme”, diz o médico. “Você ter demência aos 85 anos em vez dos 80 faz muita diferença.” Ambos os estudos foram apresentados na conferência internacional da Alzheimer’s Association, evento científico mais importante sobre o tema, que ocorre de forma virtual este ano, por causa da pandemia do novo coronavírus.

O diagnóstico precoce pode ser importante para orientar os cuidados de pessoas que já apresentam sintomas e seus familiares, mas os pesquisadores em geral não recomendam que pessoas sadias façam o exame. Além de não haver tratamento efetivo, a velocidade e o grau de desenvolvimento da doença variam muito entre indivíduos. Mesmo que a pessoa tenha os marcadores de Alzheimer no sangue, isso não significa que ela vá manifestar a doença, alerta Nitrini. Os sintomas podem demorar décadas para aparecer, ou nem chegar a se manifestar. “Qual é a importância de fazer o teste se você não tem nada?” questiona Nitrini. “Eu não faria”, completa ele. “Quando houver um tratamento, aí sim, a facilidade e a segurança do diagnóstico precoce será muito importante.”

Herton Escobar (siga @hertonescobar no Twitter)

Repórter do Jornal da USP, é especializado em ciência e meio ambiente. É colaborador da revista Science

Leia também

Últimas Mais Lidas

Monitoramento à beira da explosão

Falhas nas tornozeleiras eletrônicas colocam em xeque o rastreamento de presos no Paraná

Reação adversa a Bolsonaro

Apostando na briga com Doria, presidente toma um caldo nas redes sociais e fica isolado na primeira semana de vacinação no Brasil

Uma agenda prioritária

Novos prefeitos e vereadores têm o desafio de implementar mudanças emergenciais nas cidades brasileiras, sobretudo nas áreas de maior vulnerabilidade social, onde tudo falta – como escancarou a pandemia

Ex-sócio da Vale é condenado por corrupção

Após julgamento que durou sete dias, tribunal da Suíça condenou o bilionário israelense Beny Steinmetz a cinco anos de prisão nesta sexta-feira (22)

Lobo nasce endividado

Com a dívida da União batendo recorde em 2020, governo federal emite títulos públicos até para pagar propaganda da nota de 200 reais

Foro de Teresina #134: Sem vacina, sem Trump, sem nada

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Mais textos
1

121

2

Natasha

Presente raro: a experiência metafísica e visionária de uma donzela russa, num conto que permaneceu guardado na Biblioteca do Congresso americano até o início deste ano, 31 anos após a morte do autor

5

O lobby da capivara

Como nasce um emoji

6

Ceci n’est pas une poire

Um retratista da polícia insiste em trabalhar com lápis e papel

7

Documentário Obit será exibido na véspera do Festival

Margalit Fox é uma das entrevistadas do filme que estará em cartaz em São Paulo

8

Retrospectiva 2011: Biografia de Jobs revela que Apple lançará iSarney

CUPERTINO – A biografia de Steve Jobs que chegou hoje às livrarias americanas causou impacto imediato nas ações da Apple, que subiram 23% só na parte da manhã. A valorização se deve à revelação de que, nos meses que antecederam sua morte, Jobs trabalhou incansavelmente no desenvolvimento do iSarney, um aplicativo para dispositivos móveis que permitirá ao usuário criar, em menos de 30 segundos, cinco ONGs de inclusão social, dois ministérios com orçamento superior a um bilhão de reais e pelo menos um novo estado nordestino.

9

Cria Bolsonaros

Mais popular cabo eleitoral do presidenciável do PSL no Nordeste, cearense de 20 anos abandonou sonho de ser candidato a Whindersson Nunes para ser candidato a deputado

10

Ndongo quer ser titular

A viagem e o sonho de um imigrante senegalês em terras gaúchas