questões eleitorais

Empate e luto no sertão

Numa cidade paraibana, dois candidatos a prefeito recebem o mesmo número de votos; vereador sofre infarto durante apuração

Marcos Amorozo
20nov2020_14h26
Ilustração de Carvall

Não é apenas Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos, que anda à espera de um telefonema do candidato perdedor, reconhecendo a sua vitória nas urnas. Em Caraúbas, município do semiárido paraibano, a 240 km de João Pessoa, o atual prefeito, reeleito no dia 15 de novembro, passa por frustração semelhante – guardadas, é claro, as devidas proporções. 

Ocorre que por lá, na Paraíba, a disputa foi ainda mais acirrada do que no estado da Geórgia, neste ano, ou na Flórida, duas décadas atrás. Quando todos os votos dos caraubenses afinal terminaram de ser contados, na noite de domingo, o resultado foi tão surpreendente que houve quem, tal qual um Donald Trump do sertão, cogitasse ter havido fraude. Um exagero, logo se viu, de apoiadores mais entusiasmados e afoitos. Dada a confiabilidade das urnas, aceitou-se rapidamente que o caso era mesmo de empate. Tanto o atual prefeito, Silvano Dudu, do Democratas, quanto o seu principal adversário, Nerivan Alvares de Lima, do MDB, tinham idêntica quantidade de votos: 1.761, o equivalente a 48,7% do total de escrutínios válidos para cada um deles.

Silvano Dudu, o prefeito, havia acompanhado a contagem de votos em casa, somando apreensivo os resultados parciais de cada seção. Em meio a familiares, assessores e amigos, ele revisava mentalmente sua campanha, nos meses anteriores, e seu trabalho à frente do Executivo no município. “A gente fez um bom trabalho nesses quatro anos”, argumentou. “Então a expectativa era ganhar com folga, com pelo menos uns quatrocentos votos de vantagem.”

Também rodeado de pessoas próximas, o desafiante, Nerivan Alvares de Lima, do MDB, estava na casa do pai durante a apuração. Recebia notícias das contagens parciais pelo WhatsApp, conferindo as fotos dos boletins das urnas, enviadas por apoiadores. “Eu tinha percorrido toda a cidade durante a votação. Já tinha visitado ou encontrado em comícios a maior parte dos eleitores. Isso foi me deixando mais confiante do trabalho que tinha feito – e da virada”, afirmou Lima. 



Na primeira parcial, o emedebista apareceu com vantagem de 42 votos, o que acendeu um alerta na campanha da situação: o resultado não seria tão favorável como esperado. Pouco depois, já era Dudu quem aparecia na frente. Mas por pouco tempo: a liderança se alternava a cada seção totalizada. “Tinha hora que diziam que eu estava ganhando, outra hora diziam que eu estava perdendo”, lembrou o prefeito. “Foi esse vai e volta umas cinco vezes pelo menos. Não dava para fazer festa, eu não sabia se ia ganhar ou perder.” Enquanto isso, Lima também se inquietava. “No início, com a gente na frente, fiquei bastante tranquilo. Depois, quando começaram a vir as urnas em que a gente perdeu, fiquei apreensivo. Já estava pensando no que a gente fez de errado, no que não tinha dado certo”, relembrou. 

A apreensão era geral, e a cidade de 4.185 habitantes parou, ansiosa pelo resultado. Mas a tensão dos apoiadores e candidatos à prefeitura não seria, de forma alguma, a pior emoção do dia. 

 

José Josimá Ferreira da Silva, mais conhecido como Bazoca, acompanhava a apuração nas proximidades da Escola Estadual Coronel Seveliano de Farias Castro, a maior do município. Além de candidato a um sexto mandato como vereador, pelo MDB, Bazoca, figura influente da política local, havia sido padrinho político de Nerivan Alvares de Lima e um dos principais cabos eleitorais do candidato da oposição. Para ele, muita coisa estava em jogo naquele domingo.

Comparecer ao colégio já era um hábito para o vereador, repetido havia pelo menos cinco eleições. Também tradicionalmente, a polícia costuma dividir os eleitores rivais, que se aglomeram no local, em dois grupos distintos, para evitar conflitos e garantir a segurança. Bazoca havia saído de casa pela manhã sem tomar café, ansioso. Andou de um lado para o outro, cumprimentando amigos e conhecidos. Às três da tarde, ainda não tinha almoçado. Foi quando voltou para casa. Queria rever os pais e os dois filhos, Ingrid e Ítalo Vylar Ferreira da Silva, que tinham vindo de João Pessoa, onde moram, para votar e passar a tarde em família. 

Quando já se aproximava o horário da apuração, o vereador saiu de casa mais uma vez, em direção ao colégio no Centro da cidade. Como manda a lei eleitoral, as urnas foram fechadas pontualmente às 17 horas. A inquietação pelo resultado tomou conta do local. “Eu olhava meu pai de longe, naquela hora, e pensava: ‘Nossa, ele tem um coração de aço, né?’”, lembrou a filha, Ingrid. “Ver os dois partidos ali, um lado contra o outro, vibrando e disputando: eu não tenho coragem, nem aguentaria essa emoção.” 

Sem nenhum problema crônico de saúde, adepto de uma rotina de caminhadas e exercícios, Bazoca, com os exames médicos em dia, parecia ter mesmo um coração resistente aos 56 anos. Mas, dessa vez, ele não aguentou. A empolgação com a provável reeleição para a Câmara e com as grandes chances de vitória de Nerivan Alvares de Lima, seu afilhado político, devem ter contribuído. A falta de alimentação e o calor de mais de 30ºC, também. Às 17h32, cercado por fiscais dos partidos, apoiadores e demais candidatos, o vereador disse estar se sentindo mal. Depois caiu. O político foi levado rapidamente ao posto de saúde, que fica a poucos metros da escola. A filha, que é enfermeira, foi chamada em casa e correu para o local. Ainda tentou reanimar o pai, mas o infarto foi fatal. Não deu tempo nem de Bazoca saber que tinha sido reeleito, com 177 votos.

 

Não havia mais clima para festa – nem mesmo para alguma outra tristeza que não fosse a do luto pela morte do vereador. A notícia logo se espalhou pela cidade e virou o assunto mais importante do dia. 

Com a contagem da última seção, veio a constatação do empate entre Nerivan Alvares de Lima e Silvano Dudu, o prefeito. Bem atrás na disputa, o terceiro candidato, José Renivan Neves, da Rede, obteve meros 94 votos. Ainda que incomum, o empate não foi o único das disputas municipais do último domingo: resultado idêntico ocorreu em Kaloré, no Paraná, e em Jardinópolis, Santa Catarina.

Nem nas duas cidades do Sul do país nem em Caraúbas a disputa foi desempatada no par ou ímpar. A lei eleitoral determina que em caso de empate em cidades com menos de 200 mil habitantes, locais não há segundo turno, vence o candidato mais velho. Vale a mesma regra dos concursos públicos. Nascido em 12 de março de 1968, Silvano Dudu tem 52 anos. Já Lima nasceu em 24 de novembro de 1985. Tem, portanto, 34 anos. Levou o prefeito, experiente, candidato à reeleição.

“Eu fiquei feliz com o resultado, entrei para a história do Brasil e do município”, gabou-se Dudu. “Foi uma surpresa. Nunca tinha acontecido nada assim nas cidades por aqui. Mas tudo que acontece na vida é determinado por Jesus.” O vencedor não se esqueceu, de toda forma, de homenagear o vereador da oposição, recém-falecido. “Apesar da vitória, a morte do Bozoca deixou a gente muito triste, sem clima de poder realmente comemorar a vitória. Tanto que, até hoje, está todo mundo de luto. Não teve nenhuma festa na cidade. Ele era muito querido.”

Duplamente triste ficou Nerivan Alvares de Lima, o derrotado. “Eu fiquei sem saber o que fazer, perdido com a notícia do infarto do Bazoca, que eu via como um pai. E, ao mesmo tempo, ainda acontecia a apuração. Nessa confusão, eu me sentei, fiquei sozinho, aguardando o resultado final das urnas e a confirmação se o Bazoca tinha mesmo falecido.”

Lima sabe que poderia ter conseguido a vitória se apenas mais um eleitor tivesse comparecido e votado na chapa emedebista. “Tem um eleitor que hoje mora em Campina Grande. Até sexta-feira à noite ele dizia que vinha, mas não veio. Tínhamos também dois eleitores que estão trabalhando na Bahia e vinham, mas o patrão não liberou. Não conseguiram vir.” Ele pondera, contudo, que eleitores propensos a votar na candidatura adversária também devem ter deixado de comparecer às urnas. No fim das contas, atribui a derrota à “vontade de Deus”.  

Os dois candidatos ainda não se encontraram, nem trocaram ligações. “Estou esperando ele me parabenizar”, disse o prefeito. “Mas o direito é igual. Qualquer um dos dois pode ligar para se cumprimentar. Moramos numa cidade pequena, pacata, todo mundo é amigo. Quando a gente se vir na rua, vou cumprimentar normalmente.” Lima, que não ligou, anuncia que, se encontrar o adversário, vai parabenizá-lo. “Parabéns, você vai continuar prefeito porque assim Deus permitiu e por conta da sua idade”, pretende dizer. “Pronto, é só isso que vou falar, não vou tratar mais nada”, acrescentou, dando o assunto por encerrado. 

Marcos Amorozo

Estagiário de jornalismo na piauí

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