colunistas

A cisão

Eleição tende a acentuar dramaticamente o fosso entre azuis e vermelhos

Marcos Nobre
08ago2018_00h00

Do jeito que se armou a eleição presidencial, as coisas caminham para novo embate entre PT e PSDB. As novas circunstâncias tendem a reforçar ainda mais traços preocupantes de confrontos presidenciais anteriores entre os dois partidos. Em especial, tendem a agravar em nova chave a tendência de cisão entre Norte e Sul do país que vem desde a eleição presidencial de 2006.

O dinheiro encurtou significativamente, mesmo quando se pensa somente nos valores oficialmente declarados da última eleição. No atual quadro de financiamento eleitoral, as candidaturas a todos os cargos e mandatos disputam ferozmente os mesmos fundos. Sempre foi quase proibitivo sustentar financeiramente uma candidatura presidencial competitiva. A novidade agora é que se tornou impossível fazer uma campanha de âmbito efetivamente nacional. O tempo de tevê sozinho não é capaz de realizar essa nacionalização sem o lastro das máquinas eleitorais (partidária e de governo). E essas máquinas são movidas a cargos e dinheiro.

As estratégias eleitorais se regionalizaram de maneira acentuada. Montado na popularidade de Lula, o PT fez do Nordeste sua fortaleza eleitoral, uma região com quase 27% do eleitorado. O que vier de outros cantos é lucro. Conseguir votos em São Paulo, com a quase candidatura presidencial de Fernando Haddad, e no Rio Grande do Sul, com a quase candidata a vice Manuela D’Ávila, é bônus. O mesmo se passa no caso da candidatura ao governo de Fernando Pimentel e de Dilma Rousseff ao Senado em Minas Gerais.

A concentração estratégica do PSDB é no Sul-Sudeste. A escolha da senadora Ana Amélia como vice de Geraldo Alckmin selou esse caminho sem volta. Isso significa concentrar as apostas em algo como 58% do eleitorado e praticamente abandonar as demais regiões. A estratégia tirou o oxigênio de Álvaro Dias e de Bolsonaro na região, inviabilizando na prática essas alternativas eleitorais. Mas regionalizou a campanha de maneira radical.

Os cerca de 15% de votos das regiões Norte e Centro-Oeste ficaram de fora das estratégias dos dois principais partidos. A escolha de Kátia Abreu como vice de Ciro Gomes indica um redirecionamento estratégico. E bastante desespero. Sufocado por Lula no Nordeste, Ciro terá de ir à caça desses votos colocados em segundo plano pelos dois principais partidos para tentar manter viva sua candidatura. Se não se falou de Marina Silva até agora nesta coluna é porque a candidata está onde sempre esteve: querendo ganhar sem entrar no jogo. Ninguém se preocupou em isolá-la porque isolada já está.

 

As estratégias de Lula e de Alckmin são complementares. As decisões que tomaram não apenas sufocaram alternativas dentro de seus próprios campos, mas também visaram escolher um ao outro como adversário. Resultaram nessa repartição de celeiros eleitorais preferenciais, na cisão regional das campanhas. O que provavelmente vai resultar em um início de campanha na tevê em que as candidaturas do PSDB e do PT vão se ignorar mutuamente. Até que consigam estar à frente nas pesquisas, pelo menos.

Esse jogo complementar inclui ainda fazer vistas grossas para o pântano partidário brasileiro. Dependendo do estado, partidos da aliança de Alckmin pretendem apoiar Lula, Ciro, Bolsonaro ou Álvaro Dias. E as candidaturas estaduais do PT no Nordeste incluem praticamente todos os partidos que estão na aliança de Alckmin. Isso mostra que a estratégia de regionalização das campanhas nada tem a ver com siglas partidárias.

Se a eleição confirmar um confronto de PT e PSDB em segundo turno, há o risco muito concreto de uma regionalização na atuação de partidos que deveriam liderar projetos nacionais.

A República do Real começou com uma explícita aliança eleitoral entre Norte e Sul. O símbolo dessa aliança foi a vice-presidência ocupada por Marco Maciel durante os dois mandatos de FHC (1995 a 2002). Depois desse período, apenas a candidatura de Geraldo Alckmin em 2006 reproduziu a diretriz, tendo o pernambucano José Jorge como candidato a vice. Todas as demais candidaturas presidenciais tucanas desde então compuseram chapas Sudeste-Sudeste. (É de se pensar se a derrocada do PSDB em eleições presidenciais não começou justamente quando José Serra se recusou a repetir o padrão de aliança Sul-Norte estabelecido por FHC.)

As candidaturas presidenciais de Lula não tiveram essa composição. Pela simples razão de que Lula já encarna ele mesmo a aliança entre Norte e Sul, sem necessidade de explicitá-la ainda mais. No caso do PT, a mudança veio com as candidaturas presidenciais de Dilma Rousseff, também elas composições Sul-Sudeste. Mesmo que se possa considerar o aval de Lula como uma forma de representar uma vez mais o Norte-Nordeste, foi uma mudança sintomática.

A candidatura de Alckmin este ano abandonou a pretensão de disputar de fato o Norte-Nordeste. A chapa Fernando Haddad e Manuela D’Ávila é formalmente Sudeste-Sul, mas se apoia decisivamente na transferência de votos de Lula, especialmente no Nordeste. Para que isso aconteça, entretanto, Haddad terá praticamente de se mudar para a região, de maneira a conseguir colar sua cara à do ex-presidente. Como no jogo de máscaras de Lula que se viu na convenção do PT que o escolheu como candidato.

Mesmo que a tática de concentração regional funcione em termos eleitorais para colocar as candidaturas de PT e PSDB no segundo turno, o fosso estará lá depois de apuradas as urnas, mais amplo do que nunca. Um eventual governo Alckmin surgirá totalmente descolado do Norte-Nordeste. Se Haddad vencer, não poderá contar com Lula como ponte viva entre as diferentes regiões do país. Não por acaso Ciro viu na impossibilidade de Lula concorrer a oportunidade de sucedê-lo na posição de ponte. Só não contava que Lula fosse capaz de toda a articulação que fez, mesmo preso.

Não bastasse a situação de descalabro em que se encontra o país em todos os âmbitos, quem quer que vença não poderá governar sem a obsessão permanente de ao menos mitigar a cisão eleitoral, preparando terreno para sua superação futura. Qualquer esforço no sentido de começar esse movimento já na campanha de segundo turno é crucial. Mas não terá sucesso se não contar com a participação decisiva do eleitorado. Que, no entanto e com toda a razão, tem outras preocupações muito mais prementes e urgentes, a começar pela própria sobrevivência material. É em temas vitais como esse que se mostrará ou não a densidade e a responsabilidade das candidaturas presidenciais com o futuro do país, e não apenas com a reprodução do sistema político no seu formato atual.

Marcos Nobre

É professor de filosofia da Unicamp e autor de Imobilismo em Movimento, pela Companhia das Letras, e Como nasce o novo, pela Todavia

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