questões do chão de fábrica

A indústria que é brasileira na propaganda

Vídeo da Confederação Nacional da Indústria desenha um mundo em que o Brasil fabrica “possibilidades” em forma de drones, tablets e turbinas de avião

Flávia Tavares
20nov2018_14h45

“Olhe a sua volta”, a voz em off ordena. “A indústria fabrica tudo que é importante pra sua vida.” Um homem de terno mira as luzes de uma cidade que parece ser São Paulo. A trilha sonora é de um instrumental crescente que mescla futurismo e marcha. “Fabrica liberdade, fabrica possibilidades”, a narradora encobre cenas de uma linha de montagem de produtos eletrônicos e de uma moça com um tablet na mão. “A indústria fabrica empregos, geração de renda, desenvolvimento. Um setor fundamental para todos os outros. Máquinas, equipamentos, tecnologias, inovações. Tudo vem da indústria.” Alternam-se takes do trânsito paulistano com pás de hélices eólicas, impressoras 3D, drones, tratores, leitores de impressão digital. “É ela que transforma, moderniza e aumenta a competitividade no agro, no comércio, na prestação de serviços. É por isso que a indústria fabrica mais que produtos. Fabrica um Brasil mais forte.” A logomarca da CNI, a Confederação Nacional da Indústria, e de seus braços Sesi, o Serviço Social da Indústria, e Senai, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, encerra o vídeo de um minuto, veiculado nacionalmente em intervalos comerciais de tevês abertas e fechadas desde julho.

Em nenhum momento está expresso que aqueles equipamentos são brasileiros, não há marcas associadas a eles. Nem é preciso. As imagens escolhidas pela CNI para ilustrar sua jactância parecem extraídas de um desses catálogos que oferecem representações genéricas para atendentes de telemarketing bem treinados e homens com disfunção erétil bem resolvidos. O timing da veiculação da propaganda institucional foi o da campanha presidencial. Foi o de chamar a atenção dos candidatos para a inegável relevância da indústria brasileira.

A vídeo-ostentação da CNI talvez tenha sido premonitória de uma briga que seria travada com a vitória de Jair Bolsonaro e a indicação de seu superministro da sutileza e da Economia, Paulo Guedes. O Posto Ipiranga do presidente eleito declarou, dois dias depois da eleição, que sua intenção de unir o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços ao da Fazenda e colocar ambos sob sua tutela era uma iniciativa para “salvar a indústria brasileira apesar dos industriais brasileiros”. O presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, respondeu, em nota: “Tendo em vista a importância do setor industrial para o Brasil, que é responsável por 21% do PIB nacional e pelo recolhimento de 32% dos impostos federais, precisamos de um ministério com um papel específico, que não seja atrelado à Fazenda.” Dias depois, Guedes anunciou que pretendia privatizar parte do Sistema S. Andrade retrucou que a ideia demonstrava a “falta de conhecimento” de Guedes sobre o funcionamento do Sesi e do Senai.

Daí a levar o brasileiro a crer que o Brasil fabrica integralmente drones e impressoras 3D, como sugere em seu filme a CNI, há uma distância importante. Essa realidade está desconectada da que a própria entidade apresentou, em fevereiro, ao governo federal, em seu estudo Oportunidades para a Indústria 4.0. O documento inspira um capítulo sobre inovação no Mapa Estratégico da Indústria 2018-2022, uma seleção de 43 propostas entregues aos presidenciáveis. Indústria 4.0 é o termo usado para tratar da quarta revolução industrial, a que une em definitivo o mundo digital ao da produção e abrange frentes como as da internet das coisas, ro­bótica avançada, big data e de inteligência ar­tificial.



A CNI aponta, no estudo, que, de 24 setores industriais brasileiros, catorze estão defasados em relação à adoção de tecnologias digitais. Os setores apontados como os mais atrasados são responsáveis por cerca de 40% da produção industrial, segundo o IBGE. No Mapa Estratégico, a CNI ainda relata que o Brasil ocupa a 69ª colocação no ranking do Índice Global de Inovação (GII, na sigla em inglês) de 2017. Foi a mesma posição obtida em 2016. São 22 posições abaixo do resultado de 2011, ano em que o país obteve seu melhor resultado. Esses dados foram entregues aos candidatos à presidência em um evento no dia 4 de julho. Antes, portanto, da veiculação do filme de exaltação à inovadora indústria brasileira.

 

Alexandre Mainardi é CEO da Nuvem UAV. Fundada em 2011, a “indústria de aeronaves”, como descreve seu site, “desenvolve e fabrica sistemas aéreos não-tripulados de alta performance”. Um de seus principais equipamentos é o drone Batmap, de mapeamento aéreo. Desde 2016, foram vendidas oitenta unidades, que custam entre 61 mil e 100 mil reais, dependendo dos acessórios. No site da Nuvem, está em negrito: Fabricação Nacional. Mas Mainardi admite que não é bem assim. “Nós somos uma indústria de montagem. A gente não produz nada dentro da nossa empresa.” O empresário explica que a equipe da Nuvem elabora o projeto e encomenda para fabricantes dos componentes, que podem ser nacionais ou estrangeiros. A parte elétrica é quase toda feita no Brasil. Mas parte relevante das peças é trazida de fora. “Temos fabricantes da China, dos Estados Unidos, da Alemanha. Quando se trata de tecnologia, sempre tem algum insumo que vem de fora. Ainda não temos tecnologia para produzir um drone 100% nacional.”

Por contar com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, Mainardi tem de abrir que porcentagem de seu equipamento é nacional: são 68%. O BNDES só financia projetos com um mínimo de 50% de insumos produzidos em terras brasileiras. Mas esse critério está prestes a ser flexibilizado. Para se credenciar na linha de crédito para o setor de máquinas e equipamentos, a partir de 3 de dezembro, o cálculo do chamado “índice de nacionalização” levará em conta variáveis diferentes e mais difíceis de medir, como o investimento em inovação e o valor adicionado. A pedido da indústria brasileira.

 

Nem tudo que aparece no vídeo da CNI é fantasia. A turbina de avião, as pás de turbinas eólicas e os equipamentos avançados de medicina são “fabricados” no Brasil. A assessoria da General Electric informa que a companhia produz em solo brasileiro a turbina CF34 10E, para aviões da Embraer; monitores, arcos cirúrgicos, tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas e equipamentos de ultrassonografia; e pás de turbinas eólicas. Mas não revela detalhes da fabricação. Questionada sobre quanto das máquinas é feito nas unidades brasileiras e quanto são componentes importados, a assessoria diz que, por questões estratégicas, a empresa não abre essa informação. Resposta quase idêntica vem das fabricantes de celulares e tablets Samsung, Gradiente e Qualcomm.

“Essas gigantes da indústria conseguem trazer inovação de fora e vender aqui. Mas há especificidades no Brasil que precisam ser exploradas”, diz Leonardo Lima, coordenador do laboratório de objetos urbanos conectados, o LOUCo, do Porto Digital, no Recife. Segundo ele, uma indústria brasileira inovadora está surgindo com força, mas com foco nos softwares. “Estamos desenvolvendo um microscópio que ajuda a detectar qual a doença, barateando o processo de análise. Também temos termômetros que monitoram a temperatura do paciente remotamente, útil tanto no ambiente hospitalar quanto doméstico. Além disso, há setores da indústria mais desenvolvidos. Quem entender que produzir inovação aqui é o caminho vai sair na frente”, completa Leonardo.

Até lá, os componentes para essa indústria de ponta que a propaganda da CNI nos faz crer ser totalmente brasileira seguem vindo do exterior. Um indício forte desse movimento são os números de importações e exportações do estado do Amazonas, onde fica o Polo Industrial de Manaus. Em 2017, enquanto as exportações representaram 673 milhões de dólares, as importações chegaram a 8,7 bilhões de dólares – os principais itens vindos de fora são aparelhos receptores e transmissores de rádio e televisão, circuitos integrados e microconjuntos eletrônicos e partes de aparelhos de telefonia. Procurada, a CNI não respondeu às perguntas da reportagem sobre quem produziu o filme e por que foram usadas as imagens genéricas que ilustram a propaganda.

Flávia Tavares (siga @flaviactavares no Twitter)

Flávia Tavares foi repórter e editora na revista Época e repórter no jornal O Estado de S. Paulo

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