Igualdades

A quarentena afrouxada

Luigi Mazza e Renata Buono
20abr2020_11h10

O isolamento social no Brasil atingiu um pico no final de março, e desde então afrouxou. Mais pessoas passaram a circular nas ruas e no comércio em abril, contrariando as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). No dia 9, véspera do feriado de Páscoa, o movimento nos mercados e farmácias cresceu tanto que superou em 11% a média dos dias anteriores à pandemia. Também há mais pessoas usando transporte público. Na cidade de São Paulo, os ônibus tiveram um acréscimo de 213 mil passageiros desde o começo do mês. No Rio de Janeiro, os trens que conectam a capital aos municípios da Baixada Fluminense estão mais cheios a cada dia: para cada 29 pessoas que embarcaram no final de março, 34 o fizeram na segunda semana de abril. O =igualdades faz um retrato do atual momento da quarentena brasileira, cada vez menos rígida e mais próxima da fase crítica da pandemia.

Até 29 de março, o fluxo de brasileiros em mercados e farmácias tinha caído 35% por causa da quarentena, segundo os dados de movimento de usuários do Google. Mas a frequências a esses estabelecimentos aumentou aos poucos. No dia 9 de abril, véspera da Páscoa, houve um pico, e o movimento nesses locais ficou 11% acima da média dos dias anteriores à pandemia.

No estado de São Paulo, o movimento em mercados e farmácias tinha caído 36% até 29 de março. No dia 9 de abril, o fluxo de paulistas nesses estabelecimentos teve um pico, ficando 16% acima da média dos dias anteriores à pandemia.

O índice de isolamento social no Brasil atingiu um pico no final de março, mas desde então vem caindo, de acordo com os dados de localização da empresa de tecnologia In Loco. No dia 23 de março, uma segunda-feira, a cada 100 brasileiros, 56 estavam estavam isolados. No dia 13 de abril, também segunda-feira, a proporção era de apenas 46 a cada 100.

No dia 13 de abril, o Tocantins era o estado com menor índice de isolamento, com 35 pessoas isoladas a cada 100. O Distrito Federal, o estado mais isolado, tinha 56 a cada 100 pessoas dentro de casa.

No estado do Rio de Janeiro, a cada 100 pessoas que circulavam de trem antes da quarentena, apenas 29 continuaram circulando, no dia 23 de março. Três semanas depois, em 13 de abril, o fluxo já tinha aumentado para 34 a cada 100 fluminenses.

Em média, os ônibus da cidade de São Paulo transportam, em média, 8,5 milhões de passageiros nos dias úteis. Em 30 de março, devido à quarentena, o fluxo foi de apenas 2,4 milhões. Mas esse número cresceu, chegando a 2,6 milhões de passageiros no dia 13 de abril. Ou seja, houve um acréscimo de mais de 213 mil passageiros – o equivalente a aproximadamente 5.235 ônibus cheios, com todos os assentos ocupados.

No Ceará, desde o início da quarentena, a Polícia Militar registrou, a cada hora, 8 ocorrências de estabelecimentos que desrespeitavam o isolamento social. Em São Paulo, foram 87 ocorrências desse tipo a cada hora, na última semana de março.

Em Pernambuco, o isolamento fez cair o número de furtos de celulares. Para cada 10 furtos desse tipo ocorridos em março do ano passado, 6 ocorreram em março deste ano.

Apesar do menor movimento nas ruas, Pernambuco teve um aumento no número de homicídios durante a quarentena. Para cada 10 assassinatos cometidos em março do ano passado, houve 12 em março deste ano.

Fontes: Community Mobility Reports (Google); In Loco; Supervia; Secretaria Municipal de Transportes de São Paulo; Polícia Militar do Ceará; Polícia Militar de São Paulo, via Fiquem Sabendo; Secretaria de Defesa Social de Pernambuco.



Luigi Mazza (siga @LuigiMazzza no Twitter)

Repórter da piauí, produtor da rádio piauí e diretor do podcast Foro de Teresina

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

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