colunistas

Antídotos para o Carnaval – de Frankie a Clara Estrela

No cinema e na tevê, erros e acertos de quem fugiu da folia

Eduardo Escorel
27fev2020_13h43

Ao ler as cinco linhas de Ruy Gardnier dedicadas a Frankie, publicadas no Segundo Caderno do Globo de quinta-feira passada (20/2), achei que o filme de Ira Sachs seria um bom antídoto para o Carnaval. Ledo engano. Fui conferir no mesmo dia, à noite, e me decepcionei. Os elogios de Gardiner me pareceram descabidos, e não vi razão para a postura atenta e os aplausos do bonequinho. Ademais, falta a Frankie força necessária para fazer frente à folia que já vinha ocupando os fins de semana da cidade há uns quinze dias e iria dominar por completo as atenções a partir do sábado de Carnaval.

O que Frankie tem de melhor é o fato de ter sido filmado em Sintra. Quem se der por satisfeito em apreciar a paisagem da belíssima cidade portuguesa não terá do que reclamar. Fora isso, porém, o filme de Sachs resulta postiço e pretensioso, e é difícil entender como pôde ser selecionado para a competição oficial do Festival de Cannes, em 2019, no qual teve recepção classificada como “tépida” e foi ignorado pelo júri. Mesmo assim, legitimado talvez pela estreia na Croisette, o filme foi exibido depois na 43ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, e no Festival do Rio, antes de estrear no circuito comercial em 20 de fevereiro.

A sinopse de Frankie publicada no site de Sachs deixa clara a trivialidade do enredo, sem revelar a razão de as três gerações da família se reunirem em Sintra por iniciativa da matriarca Frankie (Isabelle Huppert, atriz como sempre inexpressiva): “Nesse cenário de conto de fadas, os personagens – maridos e esposas, pais e filhos, amigos e amantes – são movidos por seus impulsos mais românticos e descobrem as fissuras, assim como a inesperada profundidade dos sentimentos existentes entre eles.” Julgar um filme pela sinopse é injusto, eu sei. Mas o que se poderia esperar de um filme apresentado nesses termos com a marca de algo déjà-vu?

Conforme Sachs revelou em entrevista ao site The Film Stage, ter assistido a Kanchenjungha (1962), de Satyajit Ray, foi impactante para ele: “É um filme sobre uma família em férias nas montanhas do Himalaia”, contou. “Isso acontece em um dia. Há um drama central que os reúne e há nove histórias de cada membro da família contadas no decorrer do filme.” Ter visto “as relações entre os personagens e a paisagem” teria levado Sachs a pensar e refletir por uma década sobre esse filme que lhe serviu de inspiração. Outra referência possível que caberia mencionar seria A Aventura (1960), de Michelangelo Antonioni, exemplo clássico de filme no qual os locais em que o enredo transcorre refletem os conflitos psicológicos em jogo.

 

Em outra entrevista, nesse caso à Variety, Sachs admite que para ele “o cinema europeu foi sempre o mais importante” como orientação. Reside justamente aí a origem do mal de Frankie – filme de um cineasta independente americano, nascido em Memphis, no Tennessee, que reverencia a tradição cinematográfica europeia e vira as costas para o poderoso legado do cinema de seu próprio país. O resultado dessa postura é o que Roberto Schwarz chamou de “reverência embasbacada” em um texto de homenagem a Antonio Candido (incluído em Seja Como For – Entrevistas, retratos e documentos, Editora 34, 2019). Subordinado à concepção de cinema na qual prevalecem diálogos extensos, supostamente profundos e, de outro lado, planos gerais fixos, igualmente longos, com enquadramentos milimetricamente estudados, o que Sachs faz de Frankie é uma contrafação. De minha parte, dada a falta de consistência dos personagens, não entendo nem vejo mérito algum no que Gardnier destaca em seu segundo comentário, publicado sexta-feira (21/2) no suplemento Rio Show do Globo. Para ele, “o filme se atém a tudo que resplandece ao redor [da inevitabilidade da morte]: as árvores, a praia, as lindas vielas, um encontro fortuito ocasionado pela chuva, uma confissão desajeitada ou um enlace de antigos amantes. [...] O estilo doce e detalhista de Ira Sachs é ideal para que degustemos as pequenas coisas. Há um evidente prazer na sensualidade da paisagem, da luz (bela fotografia de Rui Poças) e da gestualidade dos atores. [...] Frankie recusa o todo e conduz a história de momento em momento. Modo de dizer que a vida se vive um instante a cada vez. E convence.”

Clara Nunes, Clara Estrela Cena do documentário Clara Estrela – Divulgação

 

Decepcionado com Frankie e ainda em busca de um antídoto poderoso para o Carnaval, cheguei a comprar ingresso para assistir ao documentário Modo de Produção, de Dea Ferraz. O mau tempo de sábado, porém, me reteve em casa. Em compensação, a algazarra habitual da vizinhança foi substituída por um relativo e maravilhoso silêncio – só se ouvia o ruído da chuva – e a alternativa foi assistir madrugada adentro ao final da quarta temporada da série This is Us, seguida, a partir de domingo, de episódios de Outlander, Homeland e Who Killed Malcolm X?; Ford vs. Ferrari e Um Dia de Chuva em Nova York; além de, por acaso, o documentário Clara Estrela (2017), de Susanna Lira e Rodrigo Alzuguir, no canal Curta! – uma valiosa coletânea de entrevistas e apresentações de Clara Nunes que quase me reconciliou com o Carnaval.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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