questões do voto

Arrastão da direita redefine o país

Foro de Teresina destrincha realidade política que emerge do primeiro turno

08out2018_03h02
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Foi a maior vitória eleitoral da direita desde o fim da ditadura. O ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro recebeu quase 50 milhões de votos e ficou a pouco mais de um João Amoêdo e meio de ser eleito presidente da República no primeiro turno. Seu partido, que elegera um único deputado federal há quatro anos, montou a segunda maior bancada da Câmara, com 52 cadeiras. Entre elas, a de Eduardo Bolsonaro, o filho, o mais votado do Brasil, eleito com 1,8 milhão de sufrágios. Ele só não teve mais votos do que Janaína Paschoal, também do PSL, a deputada estadual mais votada da história, com 2 milhões de votos.

O PSL elegeu ainda quatro senadores e levou seu candidato ao segundo turno nas disputas pelos governos de três estados. Mas o partido do Bolsonaro não foi o único que surfou o tsunami conservador. Seu antigo partido, o PSC, teve o candidato a governador mais votado no terceiro maior colégio eleitoral brasileiro. Wilson Witzel recebeu 41% dos votos no Rio. O juiz quadruplicou seu eleitorado em uma semana, após conseguir se apresentar ao eleitor de Bolsonaro como candidato dele no Rio.

Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral, uma única frase, dita pelo candidato a governador do Novo, Romeu Zema, ao final do debate da Globo, recomendando voto em Bolsonaro, fez com que o empresário saísse do dígito solitário das intenções de votos para o primeiro lugar no primeiro turno, com 43% dos votos. 

Na ponta oposta, os maiores derrotados da eleição foram os dois partidos que conduziram nas urnas a redemocratização do Brasil. O MDB desceu ao seu degrau mais baixo na Câmara desde o fim da ditadura. As 65 cadeiras que conquistou na eleição de 2014 viraram 34. De segunda maior bancada, passou a quarta. Nenhum outro partido perdeu tantos deputados quanto o MDB.

O PSDB, uma defecção emedebista originada pela corrupção que dominou o então PMDB, teve o mesmo destino que o partido de onde saiu. Dos 54 deputados que elegeram quatro anos atrás, os tucanos ficaram com pouco mais da metade. Pagaram o preço das reinações de Aécio Neves com a perda de 25 cadeiras na Câmara. Ironicamente, Aécio conseguiu ficar com uma delas para si.

 

SALVAÇÃO DEMOCRÁTICA

Os resultados do primeiro turno assinalam uma guinada conservadora nunca vista no país. E foi esse tsunami da direita que dominou os debates do Foro de Teresina, videocast transmitido ao vivo, no domingo, dia das eleições, com jornalistas e especialistas em política. “Acabou a República do Real”, afirmou o filósofo político Marcos Nobre, para quem “é muito assustadora a mobilização de massa de tipo autoritária na base da sociedade brasileira”, como a que está ocorrendo.

A inclinação autoritária de Jair Bolsonaro também causa preocupações ao cientista político César Benjamin. “Temo que um governo dele seja pior que o governo militar”, ele disse. “Há do seu lado uma mobilização de grupos, de massas, que o regime militar não tinha. Uma vez que ele chegue à Presidência, um fazendeiro do Pará pode entender como recado que está na hora de soltar os jagunços, um policial que participa de um grupo de extermínio que está na hora de ir mais longe”. Segundo ele, está ocorrendo um completo rearranjo no sistema político-partidário do país. “O sistema vigente desde os anos 80, especialmente desde a Constituição de 1988, já não existe mais.”

Na opinião de Nobre, Haddad só conseguirá bater Bolsonaro se conseguir convencer os eleitores de que fará um governo radicalmente diferente dos do PT. “O problema não é ganhar ou perder a eleição”, disse. “Haddad precisa assumir que é ele o candidato. Será que sua candidatura pode se transformar em alguma coisa como um governo de salvação democrática nacional? É isso que vai estar em causa nessa eleição.” Para o filósofo político, isso implica em Haddad se investir do papel histórico que precisaria exercer, levando o PT a propor um amplo governo em favor da democracia.

 

REVIRAVOLTAS

“Essa eleição foi a mais impressionante da história brasileira”, afirmou o cientista político Jairo Nicolau. Para ele, a surpresa não se restringiu à votação expressiva do capitão reformado. Expressou-se também no fato de tal votação ter reverberado nas eleições para governadores e para o Congresso. “Em estados como Rio de Janeiro e São Paulo, o PSL vai eleger uma bancada maior que a do PT, PSDB e MDB. Vários candidatos bolsonaristas chegaram à frente de nomes tradicionais da elite política.”

Nicolau não vê paralelo entre esse fenômeno e outros momentos da história brasileira, como as eleições de 1990, que ocorreram meses depois de Fernando Collor de Mello assumir a Presidência. À época, seu partido – o PRN – não conseguiu conquistar muitas cadeiras na Câmara. “Collor não transferiu o prestígio da Presidência para o partido”, concluiu o pesquisador.

Ainda durante o Foro de Teresina, a cientista política e colunista da piauí Ana Carolina Evangelista definiu o sucesso dos aliados de Bolsonaro como uma avalanche. “O PSL praticamente não existia e agora chega com uma grande bancada.” Ela acredita que esse movimento deverá chamar a atenção da imprensa e da academia para o eleitorado do ex-capitão, notadamente para a fatia que segue religiões neopentecostais. “Teremos que olhar os evangélicos mais detalhadamente e sem preconceito.”

À semelhança dos cientistas políticos, a estatística Márcia Cavallari – que participou do Foro de Teresina por telefone – também se surpreendeu com as eleições. CEO do Ibope Inteligência, ela disse nunca ter visto tantas reviravoltas num dia de votação. “Trabalho na empresa desde 1982, e esta foi a eleição mais imprevisível de que participei.”

Algumas novidades do pleito não haviam sido captadas pelo Ibope ou por outros institutos nos levantamentos divulgados até sábado. Foi o caso dos aliados de Bolsonaro que chegaram à frente na disputa pelos governos do Rio e de Minas – Wilson Witzel, do PSC, e Romeu Zema, do Novo, respectivamente. Os institutos tampouco previram a derrota de nomes dados como certos para o Senado, a exemplo de Eduardo Suplicy (PT-SP) e Dilma Rousseff (PT-MG).

Segundo Cavallari, as reviravoltas não significam necessariamente que as pesquisas estivessem erradas. “Ficou nítido que os eleitores escolheram primeiro seus candidatos à Presidência e deixaram as decisões sobre governador e senadores para um segundo momento”, explicou. Por isso, as reviravoltas das urnas só foram percebidas nas sondagens de boca de urna.

 

MINIATURA DO BRASIL

A transmissão ao vivo do Foro de Teresina, que ocorreu entre as 17h e as 23h20, foi comandada pelos jornalistas Fernando de Barros e Silva, diretor de redação, José Roberto de Toledo, editor, e Malu Gaspar, repórter.

Além deles, participou o editor João Moreira Salles, que conversou com personagens de sua reportagem sobre a vida política em Três Corações, no sul de Minas Gerais, publicada na última edição da revista. A cidade foi escolhida depois de uma consulta feita pela piauí ao Ibope sobre os municípios cujo eleitorado mais se assemelhava ao eleitorado brasileiro como um todo. “Três Corações era a cidade que encabeçava a lista de vinte municípios”, explicou Moreira Salles no Foro de Teresina. “Além disso, houve ali, em 2013, uma operação da Polícia Federal que prendeu o PIB local. Isso desestabilizou a cidade, como a Lava-Jato desestabilizou o Brasil. Também nesse sentido, Três Corações é um espelho estupendo do Brasil.”

Na cidade mineira, Moreira Salles entrevistou dezenas de pessoas – desde autoridades a simples eleitores –, buscando entender, entre outras questões, como os conflitos políticos locais refletem os embates nacionais e tentando descobrir “se a democracia está ou não está morta” no Brasil. Três desses personagens tricordianos conversaram com Moreira Salles e os demais apresentadores no videocast: o escritor e blogueiro Renato Lelo de Brito e os estudantes Luis Guilherme Miguel de Souza e Raquel Stéfani de Souza.

Lelo de Brito apresentou sua tese de que a vida política em Três Corações, como aliás no país, ainda está na pré-história, pois os políticos não sabem manejar os instrumentos institucionais à sua disposição no âmbito municipal. Como não sabem, recorrem a astúcias, como compadrios e troca de favores. Se esse político avança em sua carreira, acaba levando essa informalidade e essa ignorância da vida institucional para o exercício da política nos níveis estadual e municipal.

Os estudantes Luis Guilherme e Raquel Stéfani, ambos pobres e negros, mas com escolhas políticas opostas, falaram sobre suas opções. “Vejo em Bolsonaro uma pessoa de bem que pode minimizar os problemas no Brasil. Algumas ideias dele eu comungo, outras não, e não acho que ele seja uma ameaça à democracia”, explicou ele. Raquel Stéfani contou como seus pais mudaram o voto de Lula para Bolsonaro depois do deslanche da Lava Jato. “Eles são de uma época em que político não era preso; desde que começaram a prender, eles ficaram extremamente decepcionados.” Isso a levou a se distanciar da própria família: “Fico com medo de Bolsonaro, porque o que ele diz me afeta diretamente. Ele é uma pessoa que não respeita as diferenças.”

 

HIPER-HISTÓRIA

O cientista político Miguel Lago, colunista do site da piauí, que participou em seguida do Foro de Teresina, disse discordar que o país esteja na pré-história. Para ele, o Brasil é o primeiro país que entrará na “hiper-história”, um tempo em que as pessoas já não distinguem realidade de virtualidade, verdadeiro do falso. Segundo Lago, o candidato está relacionado a uma forma de populismo desenvolvido por meio das redes sociais, onde se formam vínculos sociais superficiais, mas se criam inimigos externos e internos comuns. “Ele é praticamente um youtuber”, disse.

O fenômeno Bolsonaro, para o colunista, é uma encarnação do espírito do tempo. Como os governos recentemente eleitos na Itália, na Áustria, na Hungria e na Polônia, o candidado do PSL “encarna uma extrema direita meio palhaça, meio fascista, em um mundo que vive uma crise de representatividade.”

O sociólogo Marco Aurélio Ruediger, da Fundação Getúlio Vargas, chamou a atenção para a necessidade de o TSE ampliar a fiscalização das fake news. “O TSE sabia que as fake news seriam um ponto importante nessas eleições, mas faltou articulação maior com a sociedade civil para mapear esse tipo de coisa”, ele disse no Foro de Teresina. “A gente viu uma enxurrada de fake news.”

“A estratégia do PT no final do primeiro turno foi bastante estranha”, pontuou o jornalista Rafael Cariello. “Em vez de lançar pontes políticas e econômicas em direção ao centro, preferiu adotar uma postura isolacionista.” Para ele, esse comportamento dominante no primeiro turno deve dificultar o movimento de aproximação com o centro no segundo turno.

O economista Fabio Giambiagi destacou que pode ser “horroroso” o debate entre os candidatos no segundo turno. “Dificilmente será um debate propositivo. Haverá acusações mútuas, superficiais. Haddad tem normalmente fugido pela tangente, e Bolsonaro vai se endereçar ao Posto Ipiranga.”

 

MULHERES E VOTO

A linguista Branca Vianna comandou o debate sobre o papel das mulheres nas eleições e do qual participaram a economista Lena Lavinas e Suellen Guariento, doutoranda em ciências sociais. “Sempre achei muito estranho dizer que ‘amulher’ vota assim ou assado. Mas mulher não é uma massa disforme, mulher é igual homem”, comentou Vianna. “Existe isso que chamam de voto da mulher? Tem assuntos específicos que guiam o voto feminino?”, perguntou.

Também para Guariento não existe a mulher genérica e universal, e é preciso identificar de quais mulheres se fala, pois cada grupo tem demandas diferentes. Ela destacou que para as mulheres negras de periferia, por exemplo, é essencial a criação de creches.

Para Lavinas, os partidos em disputa nessa eleição não fizeram em geral nenhum esforço para resgatar questões que são importantes para as mulheres. “Não houve nenhum esforço no âmbito dos debates importantes para elas. Várias questões que o movimento de mulheres levanta estiveram fora do debate eleitoral, como o da violência de gênero e dos direitos reprodutivos.”

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