Igualdades

As mortes incógnitas da pandemia

Amanda Rossi e Renata Buono
15jun2020_10h30

Para cada 10 pessoas que morreram por Covid-19 no Brasil, mais 8 entraram em outra estatística: a das mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag) sem causa determinada. Até a primeira semana de junho, foram 23 mil casos. Os sintomas são os mesmos da Covid-19. A faixa etária das vítimas também: 7 de cada 10 têm 60 anos ou mais. Os casos cresceram juntos, a partir da oitava semana do ano. Os dados fazem parte das fichas de pacientes enviadas pelos hospitais para o Ministério da Saúde. O sistema foi desenhado para monitorar a influenza, mas se revelou um indicador da subnotificação de mortes pelo coronavírus. Em Minas Gerais, para cada 10 mortes por Covid-19, há 45 mortes por SRAG indeterminada.  O =igualdades desta semana aborda as mortes incógnitas da pandemia, que se parecem com a Covid-19, mas não entram na conta oficial.

Para cada 10 pessoas que morreram de Covid-19 depois de terem sido hospitalizadas, outras 8 pessoas morreram por Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag) sem causa determinada.

No Acre, para cada 10 vítimas da Covid-19, há apenas 1 vítima de SRAG indeterminada. Em Minas Gerais, 45. No Paraná, 51. No Mato Grosso do Sul, 87.

Mato Grosso do Sul e Minas Gerais são os estados com a menor taxa de mortes por Covid-19 do país – 8 e 17 mortes por 1 milhão de habitantes, respectivamente. Se forem somadas as mortes incógnitas, a taxa do Mato Grosso do Sul sobe para 73 e a de Minas para 92 por 1 milhão de habitantes.



A principal faixa etária das vítimas de Covid-19 e de Srag indeterminada é idêntica: 7 de cada 10 têm 60 anos ou mais. Já antes da pandemia de coronavírus, os idosos eram a menor parte dos mortos por Srag em geral e também a menor parte dos mortos por Srag indeterminada. Em 2019, apenas 4,6 de cada 10 vítimas de SRAG indeterminada tinham 60 anos ou mais.

O Brasil sempre teve mortes incógnitas por SRAG. Porém, este ano, o número explodiu. Equivale a 13 vezes a média dos cinco anos anteriores, nesse mesmo período: 23,4 mil X 1,8 mil. Em outras palavras, para cada 1 pessoa que normalmente morria de SRAG indeterminada, morreram 13 em 2020.

Os números de SRAG indeterminada cresceram mais nas regiões mais afetadas pela pandemia. No Norte, que tem a maior taxa de Covid-19 por habitante do país, a cada 1 pessoa que normalmente morria de SRAG indeterminada, morreram 23 este ano. No Sul, que tem a menor taxa, foram 6.

A oitava semana do ano marca o início da Covid-19 no Brasil. Sete pacientes que começaram a sentir sintomas naquela semana acabaram morrendo. Também na oitava semana, 78 pessoas desenvolveram sintomas e faleceram por Srag indeterminada. Desde então, a curva de crescimento das duas causas de morte é ascendente. Na 18ª semana, foram 4,7 mil mortes por Covid-19 e 2,8 mil por Srag indeterminada.

O padrão de crescimento de mortes por Srag indeterminada é muito diferente do que era registrado antes da pandemia. Em 2019, o número semanal de mortes passou de 48, na 8ª semana do ano, para 92, na 18ª semana.

Fontes: InfoGripe, Fiocruz, dados notificados até 6 de junho; OpenDataSUS, Ministério da Saúde, dados notificados até 5 de junho.

 

Amanda Rossi (siga @amanda_rossi no Twitter)

Jornalista, trabalhou na BBC, TV Globo e Estadão, e é autora do livro Moçambique, o Brasil é aqui

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

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