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    Marcio Santos, em um evento da TV Record Foto: Edu Garcia/ R7

autos de denúncia

Como a TV Record abafou dois casos de assédio sexual

Um diretor da emissora, Márcio Santos, é acusado de assediar um repórter e arquivar a denúncia de uma apresentadora

João Batista Jr. | 24 nov 2023_15h22
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Márcio Santos tem 46 anos, é pai e avô, frequenta a Igreja Universal do Reino de Deus e, na juventude, começou a trabalhar como office-boy na Record TV, a emissora que pertence à igreja. Fez uma carreira muito bem-sucedida e, hoje, ocupa o cargo de diretor de Recursos Humanos da tevê. Mas, mesmo operando num setor que cuida da boa relação com os funcionários, Santos está sendo acusado de assediar sexualmente o jornalista Elian Matte, de 32 anos. O caso começou há pouco mais de um ano, resultou em três denúncias à direção da Record e o registro de um boletim de ocorrência com detalhes minuciosos. Até agora, no entanto, a emissora não tomou qualquer providência, e nem fala do assunto.

Formado em jornalismo por uma universidade particular de São José, município da grande Florianópolis, Elian Matte sempre sonhou em trabalhar em televisão. Tanto que durante a graduação, de vez em quando acionava jornalistas de emissoras locais para pedir uma oportunidade. A sorte estava do seu lado quando, no segundo ano de faculdade, mandou uma mensagem para um profissional da emissora local da Record. Havia uma vaga de estágio aberta e, no dia seguinte, Matte foi chamado para uma entrevista. Comunicativo, articulado e boa pinta, ele ganhou o emprego.

Em cinco anos na Record, Matte teve passagens como repórter de vídeo nas cidades de Chapecó, Itajaí e Florianópolis. Fez desde programas locais até entradas ao vivo para programas nacionais, entre eles o Cidade Alerta. Cansado de cobrir acontecimentos bem cedo da manhã e muito tarde da noite, sem uma rotina definida, ele pediu para sair da frente das câmeras para trabalhar como editor, época em que estava na equipe da redação de Florianópolis da Record.

Em 2017, Matte deixou a emissora ao receber um convite para trabalhar como editor na afiliada da Globo em Goiânia. No fim de 2019, fez um acordo para retornar a Santa Catarina e trabalhar no novo escritório da Record de Criciúma, mas, com a pandemia, os planos foram suspensos. Confinado em Florianópolis, o jornalista mandou currículos para emissoras locais e de outros estados. Até que foi chamado para uma entrevista presencial na matriz da Record, em São Paulo.

No dia 1º de dezembro de 2020, Matte já estava em São Paulo e começou a trabalhar como editor do Cidade Alerta, programa diário que vai ao ar entre 16h30 e 20h. Seu desempenho chamou a atenção, o que culminou com uma promoção tempos depois, quando recebeu a oferta de outra emissora. Em novembro de 2022, foi convidado para ocupar um cargo de editor de rede da equipe do jornalista Roberto Cabrini, responsável por fazer reportagens mais longas para os programas Domingo Espetacular e Câmera Record. Recebeu uma nova promoção. Matte estava bastante feliz – até começar o seu calvário.

Em agosto de 2022, com o objetivo de discutir sua transferência para a equipe de Cabrini, Matte foi convidado para uma conversa com três funcionários graduados da emissora, entre eles Márcio Santos, diretor de Recursos Humanos. O encontro, realizado na sala de Marcelo Trindade, diretor de Planejamento e Produção Executiva do Jornalismo, versou sobre suas perspectivas no novo cargo. Matte mostrou-se animado com a possibilidade de fazer reportagens de fôlego, com mais tempo de investigação. O papo correu bem e durou menos de 30 minutos. Foi a primeira vez que Matte encontrou Márcio Santos, o diretor de RH, conhecido por seu poder dentro da emissora, suas posturas conservadoras e sua proximidade com os bispos da Igreja Universal.

Até que a sua vaga no Cidade Alerta fosse preenchida, o que levou alguns dias, Matte continuou dando expediente no programa diário. Num desses dias, por volta das 17 horas, quando o programa estava no ar, ele recebeu uma ligação em seu ramal da secretária de Santos. Ela pedia para que ele fosse tomar um café com o diretor de RH. Sem entender a razão de uma reunião tão incomum, Matte comunicou o convite ao seu chefe direto. Ao chegar na sala de Santos, viu o monitor que mostrava a audiência dos programas da casa e da concorrência em tempo real, uma estante de livros e um aparador com fotografias da família do diretor.

Santos explicou que o encontro era para falar de seu desempenho. Com seu monitor aberto na avaliação de Matte, o diretor de RH perguntou se Givanildo Menezes, então diretor do Cidade Alerta, havia apresentado a sua planilha. Matte disse que os dois haviam conversado sobre o assunto, mas que não tinha visto a tal planilha. Santos bateu na mesa e desfiou críticas a Menezes. Matte gelou. Ficou com medo de ter complicado a vida de seu chefe, com quem sempre teve boa relação. Santos então perguntou se Matte conhecia Antonio Guerreiro, vice-presidente de Jornalismo da emissora. Ao ouvir que conhecia apenas de nome, Santos ficou possesso e, novamente, bateu na mesa. “Não acredito, já falei pro Guerreiro que é inadmissível um gestor não conhecer o seu funcionário”, disse. Mais uma vez, Matte temeu ter se colocado em uma situação desfavorável. A conversa terminou sem Matte entender por que o diretor de RH lhe havia chamado, ele que era apenas um entre os 3 mil funcionários, para falar sobre seu desempenho.

Dias depois, novamente a secretária de Santos ligou no ramal de Matte no Cidade Alerta.  O diretor de RH o convidava para um café. O horário era o mesmo, no fim de tarde, quando o programa estava no ar, um momento em que quase todos os jornalistas permanecem na redação. Mais uma vez, Matte avisou seu chefe sobre o chamado. Na ocasião, Santos perguntou o que Matte achava da ideia de repórteres de campo também serem responsáveis por atuar como cinegrafistas, um plano da empresa para reduzir custos. Matte se mostrou reticente à iniciativa. Suspeitava que a qualidade da captação das imagens seria comprometida. A conversa durou menos de uma hora.

Alguns dias mais tarde, aconteceu um terceiro convite. A esta altura, Matte já havia sido transferido do Cidade Alerta para a equipe de Cabrini, onde começou a atuar a partir de 17 de novembro de 2022. Não avisou ninguém sobre esse novo encontro, que aconteceu também em um fim de tarde.

Foi a última vez que Matte entrou na sala de Santos.

Na terceira conversa, a pauta mudou radicalmente. Saíram os temas corporativos, entraram os pessoais. O diretor de RH quis saber sobre os gostos de Matte, se gostava de ir ao cinema, o que fazia nos finais de semana. Santos também falou sobre seus filhos. Parecia uma conversa entre amigos. Ao final, quando já estavam de pé, ambos estenderam as mãos para o cumprimento de despedida. Santos, então, deslizou a sua mão pelo braço e peito de Matte – e perguntou se o jornalista gostava de treinar, pois tinha um corpo bastante “forte”. Matte ficou perturbado. Ao deixar a sala, conforme caminhava para a redação, finalmente entendeu a razão de todos os encontros anteriores. Decidiu que nunca mais entraria naquela sala.

Convites não faltaram. A secretária de Santos ligou para o ramal de Matte pelo menos mais duas vezes. Em ambas, Matte disse que estava muito atarefado. Santos chegou a mandar dois presentes, um tênis e um perfume, colocados em cima da mesa de Matte na redação. As conversas, então, migraram da sala física para o WhatsApp. Pelo aplicativo, Santos, basicamente, insistia para os dois se encontrarem para bater um papo. Matte sempre se esquivava, dizendo estar ocupado com a demanda de trabalho. Ele pensou que, com as desculpas reiteradas, uma hora a outra parte entenderia o recado.

O efeito foi o contrário. Todas as conversas relatadas a seguir correspondem a trechos de mensagens trocadas entre Matte e Santos no período que vai de novembro de 2022 e julho deste ano, durante e depois do trabalho, em dias úteis e fins de semana. Esses trechos foram entregues pela vítima tanto à direção da emissora quanto para a polícia. Eis o que dizem:

– Vc deve estar todo gostosinho aí na redação de camisetinha mostrando seus dotes, neh? — escreveu Santos numa mensagem, às 14h16 de um dia de semana.

– Tô todo ferrado, isso sim; almocei uma pipoca — respondeu Matte, às 14h18.

– Vou demitir a sua chefa assim! — replicou Santos, na mesma hora.

– kkkkkkkkk. Hoje não dá para parar mesmo. Tem MUITA coisa; chegou tudo ao mesmo tempo — respondeu Matte, já preocupado de que sua chefia, de algum modo, pudesse ser prejudicada.

Com o tempo, as mensagens foram ficando cada vez menos sutis. Em um dia de semana, às 17h31, Santos escreveu:

– Se eu pudesse, lhe colocaria no carro agora e lhe sequestraria por meia hora, vc voltaria para a sua redação super animado; para o Cabrini não perceber.

– Hehe — respondeu Matte.

– Sabe aquela fugidinha, da música? Então! Garantia o depois daqui; Tchau, vc faz com que eu nem consiga ir embora [para casa]”, escreveu.

Santos se referia à música Fugidinha, de Michel Teló, cujo refrão diz “primeiro a gente foge, depois a gente vê”. Matte mais uma vez usa o recurso de dar risada, de se fazer de desentendido, e responde:

– kkkkkkkkkk; aproveita que vc pode; eu tenho 1h de Cabrini para assistir.

Em outra ocasião, Santos enviou uma foto dele mesmo, de calça clara e camisa escura, sentado no sofá de sua sala na Record, com a seguinte legenda: “Pose para o café, esperando vc! Que sempre foge de mim!”

Quando Matte lidava com a suspeita de ter contraído Covid, Santos lhe mandou uma mensagem noturna, às 21h47, horário em que o jornalista já estava em casa:

– E aí, Covid?

– Ainda não saiu o resultado. Acho que amanhã cedo vou fazer na farmácia — respondeu Matte, às 22h52.

– Vou aí fazer o teste em você, não é possível! Tiraria toda a sua roupa, depois a minha, para não haver contaminação, depois pegaria a haste maior e… [emoji com cara feliz] – escreveu Santos, às 23h19.

Matte não respondeu.

– Vai na farmácia 24h, está do lado de várias – disse Santos.

Com essa mensagem, Matte deu-se conta de que o assediador, como diretor de RH, tinha todos os seus dados pessoais, inclusive seu endereço residencial. Isso o deixou mais tenso. Matte passou a ter crises de ansiedade. Deixou de ir à academia, passou a ter compulsão alimentar e dificuldades de dormir. Quando o seu celular apitava com uma mensagem de Santos, seu coração disparava de tensão.

Um dia, fez uma nova descoberta. Estava trabalhando quando, às 15h01, Santos lhe mandou uma mensagem dizendo o seguinte:

– Preciso mais que nunca de um psicólogo.

Matte não respondeu. Quarenta minutos depois, Santos enviou uma nova mensagem:

– Que ciúmes desse povo grudado em vc com esses músculos à mostra! [emoji de cara sorrindo]

Matte o deixou sem resposta novamente, mas ficou intrigado com a descrição – correta – do que estava vestindo. Depois que Santos reclamou de seu silêncio, enviando um emoji de cara enfurecida, Matte perguntou:

– Como tu sabe?

– Meus informantes – respondeu Santos.

Matte então suspeitou que Santos estava lhe assistindo através do sistema de câmeras do circuito interno, ao qual os diretores têm acesso por meio de um aplicativo de celular. A comprovação de sua suspeita ocorreu num sábado, quando estava trabalhando, e o diretor estava de folga, em casa. Às 10h43, recebeu a seguinte mensagem:

– Olha!!! Que delícia acordar tendo uma visão deliciosa, eu quero – e, junto com a mensagem, anexou uma foto de Matte, tirada a partir do circuito de câmeras da Record. Na imagem, não aparecia o rosto de Matte, e o foco estava na sua genitália, num momento em que o jornalista estava de pé na redação. Na legenda da foto, Santos escreveu:

– Pergunta se está sensual? SIMMM, SEX!

Ansioso, com receio de hostilizar o diretor e perder o emprego, o jornalista não sabia como reagir. Um dia, Matte recebeu em seu WhatsApp uma foto de si mesmo, tirada por Santos de dentro do seu carro, no estacionamento da emissora. Santos estava saindo para almoçar acompanhado de uma colega de trabalho e, junto com a foto de Matte, escreveu:

– Gostoso.

– hahahahaha – respondeu o jornalista.

Em outra ocasião, Matte deixou a emissora a pé, indo em direção à estação do metrô, quando percebeu que estava sendo seguido. Era Santos, que se aproximou dele e, pela janela do carro, lhe ofereceu uma carona. Ele declinou o convite, disse que estava apressado para ir à faculdade, onde cursava enfermagem. Em mensagens posteriores, Santos insistiu para saber onde ficava a faculdade e propor encontros nos arredores.

Em outro final de semana, quando Matte estava trabalhando na redação e Santos estava de folga, o diretor de RH mandou uma foto sua. Na imagem, ele aparece usando apenas uma sunga azul-marinho, deitado de bruços sobre o sofá de sua casa, com a bunda arrebitada. Escreveu a seguinte legenda:

– Se falar que está de pau duro, vou aí.

Eram 14h41. Matte respondeu:

– Estou quietinho na minha mesa.

À medida que se sentia cercado e vigiado, dentro e fora do ambiente de trabalho, em horário de expediente e à noite, Elian Matte foi sucumbindo. Procurou ajuda da equipe de saúde da própria Record. Receitaram-lhe ansiolítico e antidepressivo para conter as crises de ansiedade e ajudar no sono. Também buscou ajuda de profissionais particulares. Um laudo de 1º de junho, assinado pelo médico Felipe Cappellette Monteiro Fernandes, diz o seguinte: “Apresenta-se em acompanhamento médico […] por compulsão alimentar, distúrbio metabólico e sinais de burnout”.

No dia 3 de julho, com a saúde abalada e sem perspectivas de alívio, Matte tomou a iniciativa de denunciar o diretor pelo assédio. Ligou para a secretária de Antonio Guerreiro, o vice-presidente de Jornalismo, e pediu uma reunião. Na conversa, falou explicitamente que estava sofrendo assédio sexual, mas não mencionou o nome de Santos. Naquele mesmo dia, depois da conversa com o vice-presidente, outros três funcionários graduados procuraram Matte. Eram Clovis Rabelo (diretor de estratégias e conteúdo de jornalismo) e Fabiano de Souza (gerente de produção executiva de jornalismo) e Marcelo Trindade, o mesmo diretor em cuja sala o jornalista teve uma boa reunião antes de assumir seu posto no programa de Roberto Cabrini. Entraram numa sala para discutir as denúncias, mas Matte, ali cercado por amigos de Santos, sentiu-se intimidado e achou que era imprudente repetir a denúncia. Desconversou. Saiu dali sem saber a quem poderia recorrer.

Às 9h24 do dia 10 de julho, Matte achou que tinha descoberto um caminho. Enviou um email para Luiz Claudio da Silva Costa, presidente da Record. No email, Matte conta que havia dois meses tentava contato com o presidente, sempre sem sucesso, e diz que tem uma “grave denúncia de assédio sexual” do qual vem “sofrendo há quase 1 ano” da parte de  “uma pessoa muito próxima ao senhor”. Não cita o nome de Santos. Conta ter desenvolvido problemas de saúde e faz um apelo: “Peço, por favor, pela minha segurança, que este e-mail, em hipótese alguma, seja rebatido, compartilhado ou enviado para sua equipe e demais pessoas”.

Matte nunca recebeu uma resposta de Silva Costa. No mesmo dia 10 de julho, Santos ligou para Matte, que não o atendeu. Em seguida, às 11h15, Santos mandou uma mensagem de Whatsapp: “Preciso saber de vc sobre a denúncia de assédio junto ao presidente, isso é grave, né, precisamos tratar!” Às 11h43, com sua denúncia nas mãos do seu algoz, Matte abre o jogo e faz um pedido para Santos: “Mas meu. Me prometa que o fato de eu não ter saído com vc não seja empecilho pra eu continuar na tv e crescer lá dentro. Por favor. Se não, prefiro ser demitido. Pq aí nada mais fará sentido. Ainda tenho muito o que conquistar. Com mto trabalho, de Deus quiser”. Às 11h48, Santos replica: “Não acredito! Acha que eu faria isso com você?” Matte, no minuto seguinte, responde: “Ah, sei lá, tenho medo, né?” No dia seguinte, Santos procura Matte se dizendo “muito mal” com o ocorrido, oferecendo “ajudar para sair dessa” e promete nunca mais se dirigir ao jornalista.

O que estava ruim ficou ainda pior.


O jornalista catarinense Elian Matte

 


No dia 12 de julho, Elian Matte fez uma consulta com a médica Nicolle Taissun, do Centro Médico Hadassah, empresa que presta serviços de medicina do trabalho para a emissora do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e dono da Record. Taissun diagnosticou burnout, um distúrbio adquirido pela exaustão extrema no trabalho. Dias depois, no entanto, Taissun acionou Matte por WhatsApp. Dizia que estava sofrendo pressão e “com medo de ser demitida” por ter dado aquele diagnóstico ao jornalista.

No dia 18 de julho, a médica encaminhou, também por WhatsApp, um novo diagnóstico, com data retroativa ao dia 12. Antes de mandar o documento, Taissun escreveu: “Eu não queria ter que te pedir isso… mas enfim, dependo da minha renda”. O novo laudo não menciona a palavra burnout e diz o seguinte: “Paciente acima está em acompanhamento com médico do esporte e médica da família e psicóloga. Tem o seguimento por diagnóstico de compulsão alimentar, sintomas de ansiedade e depressão. Tem apresentado sintomas evitativos e de insônia e não tem conseguido cumprir as suas tarefas bem como ir ao trabalho. Atesto para devidos fins que paciente necessita de 13 dias de afastamento por esse quadro”.

A saúde de Matte continuou piorando. Nas semanas seguintes, teve novas crises de pânico e continuou em estado depressivo. No dia 17 de outubro, consultou um médico particular, Pedro Henrique Lima, que fez um relatório pedindo para que, devido ao seu estado de saúde, Matte passasse a trabalhar em regime de home office “por tempo indeterminado”.

Doente e com receio de perder o emprego, Matte voltou a recorrer à direção da empresa e, desta vez, resolveu contar tudo sobre seu inferno particular. No dia 6 de novembro, mandou um novo e-mail para Silva Costa, presidente da Record, com cópia também para Marcus Vieira, o CEO do Grupo Record. O email diz: “Desde o ano passado, venho sendo alvo de assédio sexual escancarado por parte do diretor de RH da Record, Márcio Santos. São pedidos insistentes para sair, fazer coisas fora da TV e, apesar das minhas negativas, nada adiantou. Continuou com conversas de WhatsApp, onde pergunta o tamanho do meu órgão genital, onde diz que tem ciúmes doentio de mim e que precisa de ajuda médica. Tudo piorou quando começou a usar a estrutura da TV para me monitorar”. Anexou ao email diversos prints de conversas para provar os assédios, além de laudos médicos. Mais uma vez, não obteve resposta.

Dias depois, no entanto, Matte recebeu uma ligação para agendar uma reunião com Edinomar Galter, diretor jurídico da Record. O encontro se deu na manhã do dia 13 de novembro, na sede da emissora. Na ocasião, Matte leu todas as mensagens que recebeu de Santos, além de detalhar as investidas que sofreu e a piora de seu estado de saúde. Informou sobre a troca do laudo médico. Galter sugeriu que Matte procurasse uma delegacia para lavrar um Boletim de Ocorrência. Ao fim da conversa, minimizou o seu calvário, sugerindo que tentasse esquecer o que aconteceu e voltasse a focar no trabalho. No dia seguinte, 14 de novembro, Matte fez um BO e apresentou trocas de mensagens, denunciando Márcio Santos por assédio sexual, nos termos do artigo 216-A do Código Penal, que designa o ato de constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual. A pena prevista vai de 1 a 2 anos de detenção.

Ao ser procurado por telefone pela piauí, Márcio Santos disse que sabia “por cima” sobre a denúncia de assédio sexual, afirmou ser vítima de uma mentira e alegou que tudo não passou de “brincadeiras”. Sobre a foto que enviou de sunga, com a legenda mencionando membro ereto, disse: “Fora de contexto, totalmente. Eu estava com a minha filha, eu estava com preguiça e minha filha pedindo para ir na piscina”.

Sobre o uso do circuito interno de câmeras da Record para monitorar um funcionário, alegou: “Eu estava brincando, até porque ele tirava foto minha do celular. Assim como eu tirava [fotos pelas câmeras da empresa], uma única ou duas vezes, dizendo que ‘tô vendo você passando’”. Santos negou ter seguido Matte de carro da empresa até o metrô e diz que jamais perguntou o tamanho do órgão sexual do jornalista, a despeito de mensagens apresentadas à direção do canal e à polícia. Santos diz que parte das mensagens foram adulteradas. Matte contou à polícia que seu celular está à disposição para ser periciado e negou ter tido qualquer envolvimento com o diretor.

Dentro da Record, o assunto é tratado com medo e silêncio. Testemunhas das ações de Santos – como presentear Matte com tênis e perfume, além de convites para ir tomar café em sua sala – não querem ter seus nomes mencionados. “Não gostaria de aparecer na matéria, eu trabalho na empresa e isso pode me prejudicar”, disse um jornalista. “É um assunto muito complicado para eu me envolver, eu estou na empresa…”, disse outro.

A piauí procurou todos os nomes mencionados nesta reportagem, por meio da assessoria de imprensa do canal. Nenhum deles – Luis Claudio da Silva Costa, Marcus Vieira, Marcelo Trindade, Clovis Rabelo, Fabiano de Souza, Nicolle Taissun – quis falar. Antonio Guerreiro, o vice-presidente de Jornalismo, orientou a revista a procurar o diretor jurídico, Edinomar Galter, e a assessoria de imprensa da emissora. Nem o diretor, nem a assessoria deram retorno. A emissora também não negou, nem confirmou as versões de que Márcio Santos teria sido afastado em razão da denúncia de assédio sexual. No Outlook da Record, no entanto, sua conta continuava ativa até sexta, 24.

Santos saiu de todas as suas redes sociais, do Facebook ao LinkedIn.

Embora sempre tenha sido um homem de bastidores, nas eleições de 2018 o diretor de RH ganhou o noticiário ao expressar apoio a Jair Bolsonaro em seu perfil do Facebook. Escreveu: “Melhor Jair se acostumando”, “PT Não” e “Ele sim”. O PT chegou a mover uma ação contra a Record, o bispo Edir Macedo e alguns de seus diretores – Santos, entre eles. Alegou que o canal promovia uma campanha ilegal contra a chapa liderada por Fernando Haddad, ao dedicar um tempo desproporcional em seu noticiário para promover Bolsonaro. Santos ficou irritado. Usou seu perfil no Facebook para atacar o que classificou de censura: “Primeiramente, um recado, todos são livres, estando abaixo apenas das leis, primeiramente as de Deus e depois as dos homens”.

Além do caso do jornalista Elian Matte, o diretor Márcio Santos também é acusado de trabalhar para abafar um outro caso de assédio sexual dentro da Record.

A jornalista mineira Rhiza Castro, de 32 anos, atuava na filiada do SBT em Belo Horizonte quando recebeu um convite de Thiago Feitosa para ser apresentadora da Record News, o canal exclusivo de notícias do grupo. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria “Liderança em Veículo de Comunicação” de 2021, Feitosa é o diretor da Record News e casado com uma apresentadora da casa, Fabiana Oliveira, com quem tem dois filhos.

Rhiza Castro mudou-se para São Paulo em janeiro de 2022, com a missão de apresentar dois programas da Record News: o Hora News e o Esporte Record News. Logo nas primeiras semanas de trabalho, ela passou a receber mensagens de WhatsApp e mensagens diretas de Instagram enviadas por Feitosa. Não eram sobre trabalho. O chefe tecia elogios à sua beleza, perguntava quando estaria sozinha em casa e fazia convites para sair. Isso no mundo online. No mundo real, Feitosa instruiu a figurinista a tirar foto de Castro vestindo as roupas que usaria na programação (e enviar as imagens para o seu celular).

Feitosa também mudou a estação de trabalho de Castro, que foi instalada em uma baia de frente para sua sala, que, envidraçada, tem uma visão ampla da redação. A partir de sua mesa de trabalho, Feitosa passou a fotografar sua subordinada. Fazia imagens do rosto e do busto – e as enviava para o celular da jornalista. Em certa ocasião, pediu que Castro fosse até a sua sala levando a bolsa. Razão: deu-lhe uma garrafa de vinho de presente. Castro diz que nunca saiu para jantar, nem cedeu aos apelos de Feitosa. Em setembro, nove meses depois de estrear na Record, ela soube que seria retirada do ar. Recebeu a notícia enquanto estava ao vivo no Hora News.

Castro ficou abalada com a notícia, mas não entendeu a razão de uma decisão tão abrupta. Começou a pensar que erro teria cometido, seguiu fazendo aulas com fonoaudióloga três vezes por semana, até começar a suspeitar de que estava sendo vítima de um boicote. Passou a ter crises de pânico e desenvolveu um caso de bruxismo tão severo que precisou de implante dentário. Teve problemas para dormir. Ela passou três meses fora do ar. Até que na escala de plantão de final de ano, soube que seu nome não estaria na lista.

Com a saúde abalada, Castro resolveu denunciar à cúpula da emissora o que vinha sofrendo. Pensou em falar com o departamento de RH da Record News, que fica na região da Avenida Paulista. Mas, por se sentir mais segura, preteriu o RH da Record News e preferiu agendar uma reunião com o diretor de RH da Record. Márcio Santos tinha uma viagem de família agendada para o fim do ano e, para não atrapalhar seu compromisso, marcou a reunião entre o Natal e o Ano Novo. A conversa entre Castro e Santos ocorreu na tarde de 28 de dezembro de 2022 e contou com a presença de uma gestora de RH. Durou cerca de uma hora.

Castro explicou o seu caso desde a sua contratação até aquele momento, narrando como os assédios evoluíram até o boicote. Disse ter provas dos atos praticados pelo diretor por meio da troca de mensagens. Santos escutou tudo e, em dado momento, quis saber se ela havia feito algum Boletim de Ocorrência. Ao ouvir a negativa, Santos sugeriu que Castro mantivesse as coisas como estavam, sem nenhum registro policial, para evitar que o caso vazasse à imprensa. Ao final da conversa, ele pediu para que Castro enviasse os prints das conversas para o seu e-mail. Ela saiu do encontro com esperança de que  alguma investigação seria instaurada.

Cumprindo o combinado, Castro reuniu todas as provas de que dispunha e, no dia 2 de janeiro de 2023, encaminhou tudo para o email de Santos. Depois de mandar o material, recebeu a notificação de que sua mensagem havia sido aberta pelo destinatário. Achava que as coisas estavam bem encaminhadas, mas não recebeu nenhuma resposta no dia seguinte. E, mais um dia depois, voltou ao trabalho na Record. Assim que chegou, foi chamada por uma diretora, que lhe entregou sua carta de demissão. (Procurado pela piauí para falar sobre as razões da demissão de Castro, Santos não respondeu as mensagens de Whatsapp.)

Castro tomou então duas iniciativas. Na esfera trabalhista, moveu uma ação por assédio moral e sexual contra a empresa, acusando Thiago Feitosa. Em primeira instância, a Justiça trabalhista reconheceu o assédio sexual e condenou a emissora a pagar uma indenização para Castro. A Record está recorrendo contra a decisão. Na esfera criminal, a apresentadora fez uma denúncia de assédio, que se transformou em inquérito. Feitosa, no entanto, chegou a um acordo com o Ministério Público para sustar o caso, em um trâmite chamado “transação penal”. Isso se dá quando o acusado paga um valor para o processo ser arquivado. “O drama da nossa legislação é que os assediadores saem impunes e com a chance de, nas próprias empresas, discursarem para seus superiores que são inocentes já que não ocorreu a condenação, enquanto meninos e meninas continuam sendo vítimas, muitas vezes de modo reiterado, sofrendo abalos emocionais e profissionais incomensuráveis”, diz Thiago Anastácio, advogado de Castro na esfera criminal. (A piauí também tentou ouvir Feitosa, mas não recebeu retorno.)

Feitosa pagou 26 mil reais, quantia que foi depositada na conta do Fundo Municipal da Criança e do Adolescente de São Paulo. “Antes de tudo, eu, como ser humano e mulher, tenho aversão a esse tipo de comportamento. É de extrema importância denunciar e expor esses assediadores. São criminosos, que tiram a nossa paz e ainda nos adoecem. Sinto que fiz a minha parte e é isso que me fortalece a cada dia. Espero que a justiça seja feita”, diz a jornalista assediada, referindo-se à ação que tramita na Justiça trabalhista.

A Polícia Civil de São Paulo esteve na quarta-feira, 22, na residência de Elian Matte para intimá-lo a prestar depoimento no bojo da investigação iniciada depois do registro do BO. Há algum tempo, o jornalista procurou a delegada Sandra Mara Pereira, de Florianópolis. Matte e Pereira se conhecem há tempos por questão de trabalho.

O jornalista pediu à delegada uma orientação sobre como proceder. Sentia-se perdido e desorientado; (Matte tem duas irmãs, mas é órfão desde os 2 anos, quando, numa tarde de domingo, uma tragédia atravessou sua família: seu pai matou sua mãe e em seguida se suicidou.)

A delegada e o jornalista passaram a se falar com frequência. “É um assédio sexual claríssimo”, diz Pereira, que não está envolvida no caso. “Acredito que são duas vítimas: a médica também foi coagida a adulterar o laudo.” Pereira conta conta que, uma vez procurada por Matte, resolveu ajudá-lo. “Eu dei forças para o Elian procurar a polícia e pedir ajuda dentro da empresa. Ele está doente depois de viver todas essas questões com um diretor que usa as câmeras do circuito interno da empresa para dar zoom em sua genitália.”

Matte contratou as advogadas criminalistas Sandra Pereira Cacciatore e Blaine Alves Diogo, catarinenses. Procuradas pela reportagem, as duas afirmaram que só vão se manifestar nos autos, bem como seu cliente. Elian Matte está afastado pelo INSS por “esforço excessivo” e seu emprego está garantido até julho de 2024.

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