colunistas

Bacurau – celebração da barbárie

Filme exalta de modo inquietante parceria entre povo desassistido e bandidos

Eduardo Escorel
28ago2019_09h03

Confesso minha surpresa, além de certo temor, ao ler a crônica de Arnaldo Bloch dedicada a Bacurau no Segundo Caderno do Globo há quinze dias, antes de assistir ao filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Jornalista experiente, e esclarecido, a quem costumo ler com prazer, Bloch chama de “estupidez” a reação dos “que poderiam acusar o diretor, se o filme se passasse no presente, de ter viajado”. Não satisfeito, ele decreta: “A viagem, aqui, é a da inteligência, da extrema lucidez. Quem não embarcar, pode até estar, ainda, nas diligências da História, mas rumando, a passos decididos e mesmo conscientes, para o abismo.” Segundo Bloch, o filme de Mendonça Filho e Dornelles é “obra mais-que-prima, obra-irmã, família-brasileira-mundial, obra mãe-natureza e pai-ancestral, obra juventude-atenta”.

Sem ter visto ainda Bacurau, não pude avaliar naquele dia até que ponto o elogio de Bloch era merecido ou um tanto ou quanto hiperbólico. Mais do que tudo, porém, o que me surpreendeu e amedrontou foi a agressão verbal e a ameaça do cronista dirigidas a quem, por hipótese, não compartilhasse seu entusiasmo – além de visto como estúpido, o infeliz estaria condenado ao precipício.

Três dias depois, ainda sob efeito da crônica de Bloch, fui assistir a Bacurau pela primeira vez numa sessão especial matutina. Pensando no grau que atingiu a polarização política entre nós, que sequer admite divergência de opinião, temia o constrangimento de ser tido como idiota e jogado despenhadeiro abaixo.

Saí cabisbaixo da projeção, mas para meu alívio encontrei logo uma colega que não me agrediu, nem ordenou que eu seguisse direto para o inferno. Trocamos breves impressões sem grandes discordâncias: o filme nos pareceu um elogio à barbárie, mesmo reconhecendo a qualidade de sua fatura. Sem ter visto sinais da “inteligência” e “lucidez” mencionadas por Bloch, deixei para escrever esta coluna depois de ter assistido outra vez a Bacurau e formado um juízo mais definitivo.

Dois dias depois, ao ler a Folha de S.Paulo de domingo (18/8), deparei-me com um anúncio de página inteira alardeando as credenciais de Bacurau – o Prêmio do Júri, presidido por Alejandro González Iñárritu, no Festival de Cannes deste ano (omitindo, porém, ter sido dado ex-aequo com Os Miseráveis, primeiro longa-metragem de ficção do diretor francês, nascido no Mali, Ladj Ly) e a participação em outros festivais. Lá estava também a frase de Bloch exaltando a “inteligência” e a “lucidez” da “viagem”, junto com elogios pinçados em outros jornais, inclusive The New York Times, The Guardian e a própria Folha de S.Paulo.

A página inteira por si só, fora seu teor, parecia confirmar minha impressão de que a estratégia de marketing subjacente do lançamento de Bacurau é mesmo baseada na intimidação do espectador. Os adjetivos dos seis críticos citados no anúncio parecem menos um chamariz publicitário do que um decreto diante do qual não resta nada a fazer, salvo acatar o que está escrito. As frases de venda ocultam, além do mais, nuances das críticas de onde foram extraídas. Em meio aos elogios, uma define Bacurau como um “perturbador surto ultraviolento no interior do Brasil”, assinalando que “é um filme realmente estranho” que se torna “um banho de sangue no estilo jacobino” (Peter Bradshaw, The Guardian). Também citada, Manohla Dargis escreve no The New York Times que o filme primeiro seduz e depois choca: “a paleta iluminada pelo sol […] é respingada de vermelho sangue, a narrativa elíptica se torna rasteira e suja e Bacurau se torna uma alegoria política que tira o chapéu para mestres como John Carpenter [diretor de filmes de horror e de ficção científica admirados por fãs desses gêneros].”

Restava assistir outra vez a Bacurau, o que fiz dias depois.

Cena do funeral de Carmelita em Bacurau. FOTO: VICTOR JUCÁ_DIVULGAÇÃO

 

A ambição de Mendonça Filho e Dornelles não é pequena e fica evidente na sequência de abertura ao ser indicado, de maneira um tanto pueril, que Bacurau, cidade perdida no “Oeste de Pernambuco”, “daqui a alguns anos” (conforme informam legendas superpostas à imagem) deve ser considerada representativa da região como um todo.

No primeiro plano do filme, ao som da canção Não Identificado, de Caetano Veloso, na voz de Gal Costa, iniciada no final dos créditos, uma parte do globo terrestre é enquadrada; um satélite artificial cruza o quadro diante da câmera e há um lento movimento de aproximação do território brasileiro até passar em fusão para a imagem de um caminhão-pipa de água potável ziguezagueando entre o acostamento e o asfalto, indo em alta velocidade por uma estrada esburacada de mão dupla. Os versos de Veloso (“[…] Eu vou fazer um iê-iê-iê romântico/Um anticomputador sentimental/Eu vou fazer uma canção de amor/Para gravar um disco voador”) inspiram o acúmulo feito ao longo de todo o filme de elementos arcaicos e modernos, à moda tropicalista – carência de alimentação e saúde lado a lado com computador, celulares, drone camuflado de disco voador, armas, sistema de intercomunicação pessoal etc.

Teresa (Bárbara Colen) viaja de carona no caminhão-pipa, vestida de jaleco branco, levando o que diz ao motorista ser “um sistema de proteção” (vacinas contra poliomielite e tríplice, além de soro antiofídico, como será esclarecido depois). Adiante, um motoqueiro morto está caído no asfalto precário, e a carga de caixões do caminhão de transporte tombado, espalhada. Depois de passar pela ruína de uma escola municipal vêm o desvio pela estrada de terra, a placa com a indicação de que Bacurau está a 17 km e o conselho: “Se for, vá na paz.”

Paz é o que, pouco a pouco, faltará cada vez mais na região. A tela da tevê do caminhão mostra foto de Lunga (Silvero Pereira) com o pedido de que seja denunciado e dando garantia de anonimato. “A recompensa que estão pagando é boa”, diz o motorista. Teresa dá o primeiro sinal de solidariedade com os bandidos. “Não conte comigo para entregar Lunga”, ela afirma. E ele concorda: “Nem comigo”.

A necessidade de abastecer Bacurau de água potável, trazida em um caminhão-pipa, resulta da interdição do acesso à represa mais próxima, que o motorista e Teresa param no caminho para observar de binóculo. Ele comenta: “Lunga tentou, né. Mas para pegar água aí tem que ser cinco ou seis homens para baixo. Meteu bala aí, bala para caralho. Ainda mataram três, mas não conseguiram abrir, né.” Um tiro de advertência dos seguranças da represa leva o motorista e Teresa a retomarem seu caminho.

Além de fusões e escurecimentos, Mendonça Filho e Dornelles lançam mão de cortina, ou wipe, trucagem usada, em geral, para indicar pequena passagem de tempo. É o que talvez se possa chamar de recurso vintage, incorporado à linguagem híbrida de Bacurau, que agrega também recursos que já foram novidade, como, por exemplo, flashs (planos que parecem durar menos de um segundo).

Transcorreram cerca de nove minutos, da duração total de 2h11, quando o caminhão-pipa finalmente chega a Bacurau – prova da sobrecarga de informações, personagens e situações que vão sendo acumuladas.

Teresa segue a pé por uma rua sem calçamento do vilarejo, puxando sua mala vermelha de rodinhas. Cumprimenta dona Domingas (Sônia Braga), que toma um gole rápido antes de bater a janela, e encontra Damiano (Carlos Francisco). Sem dizer nada, ele põe uma pílula em sua boca – um poderoso psicotrópico sob efeito do qual todos na cidade estarão, dirá Plínio (Wilson Rabelo), pai de Teresa, mais à frente. Vencido esse trajeto, ela chega ao velório da avó Carmelita (Lia de Itamaracá), presença tão poderosa quanto fugaz nessa e em outra sequência próxima ao final do filme.

A crônica de Bacurau e sua gente prossegue ainda por um bom tempo, até a virada, a partir da qual começa a segunda parte que é o cerne de Bacurau – uma tropa de cavalos invade a cidade, e a ação se precipita até a violência atingir seu paroxismo. Para se defender de um grupo de turistas assassinos, americanos e ingleses, liderados por Michael (Udo Kier), a população apela para Lunga, chefe dos bandidos locais – “O homem vale mais pelo mal do que pelo bem que pode fazer”, diz Damiano a Pacote/Acácio (Thomás Aquino), o matador de aluguel redimido. Instaurada a barbárie, o grande espetáculo passa a ser o banho de sangue que vem a seguir, apelando aos instintos mais baixos dos espectadores. Em resumo, Bacurau acaba se tornando um filme exótico feito para inglês ver.

Após ter começado com Não Identificado, a “canção singela, brasileira” de Caetano Veloso, Bacurau termina com Réquiem para Matraga, na voz de seu autor, Geraldo Vandré: “Vim aqui só pra dizer/Ninguém há de me calar/Se alguém tem que morrer/Que seja pra melhorar […].” Como devemos entender esses versos entoados de modo a parecer palavras de ordem? Seriam uma forma de Mendonça Filho e Dornelles justificarem seus personagens por fazer justiça com as próprias mãos? Além de desafiar qualquer tentativa de emudecer quem canta (ou filma), a canção e o filme pretendem defender o ato de matar desde “que seja para melhorar?”

O que há em Bacurau de particularmente inquietante é a exaltação feita à parceria entre o povo desassistido e os bandidos para enfrentar assassinos diletantes estrangeiros. Na conjuntura política atual do Brasil, com o país governado por um presidente errático de extrema direita cujo filho mais velho, atual senador da República, promoveu quando era deputado estadual homenagens a suspeitos de integrar milícia conhecida como “Escritório do Crime”, e empregou em seu gabinete familiares do ex-capitão do Bope, considerado um dos chefes dos milicianos, a complacência face a essa promiscuidade é imprudente e perigosa, podendo estimular vários tipos de ações violentas.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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