colunistas

Cinema em mutação –  É Tudo Verdade reinventado

Festival adia mostra presencial, mas fará exibições online; quando a epidemia passar, o hábito de ir ao cinema persistirá?

Eduardo Escorel
25mar2020_09h33

Manoel Luis dos Santos, personagem do documentário O Fim do Sem Fim (2001-2002), de Beto Magalhães, Cao Guimarães e Lucas Bambozzi, se diz “o maior profeta do Nordeste” – admite ser inspirado em Nostradamus, mas considera que os escritos do suposto vidente não foram bem interpretados. Ele não preconizava o fim do mundo, segundo Santos, mas o “fim de tudo o que se passou, e agora vão se passar novas coisas”; dizia que “vai acabar o mundo velho e entrar no mundo novo”, e que ocorrerá o “fim do que existiu vagarosamente”. Quem comenta O Fim do Sem Fim nesses termos é Consuelo Lins em Cao Guimarães: arte documentário ficção (7Letras, 2019), livro precioso de excelente leitura, inclusive em tempos de confinamento voluntário.

A experiência coletiva do cinema, que tem na sala escura e exibição em tela grande dois de seus traços distintivos, faz parte de “tudo o que passou”, desse “mundo velho” que deixará de existir “vagarosamente”? A pergunta não é nova e voltou a ser feita quando foi anunciado, em 2019, que “a era do streaming chegou” (The New York Times, 18/11)  Agora, diante de algumas das consequências da pandemia de coronavírus, a questão ressurge.

A 73ª edição do Festival de Cannes, prevista para ocorrer de 12 a 23 de maio próximo, vem de ser adiada. O primeiro Festival estava previsto para ser inaugurado em 1º de setembro de 1939, dia em que a Polônia foi invadida pela Alemanha, e acabou só ocorrendo em setembro de 1946, depois da Segunda Guerra Mundial. Dificuldades financeiras levaram o evento a ser cancelado em 1948 e 1950. No momento, os organizadores anunciam a hipótese de o festival vir a ocorrer entre o final de junho e início de julho, dependendo da “situação sanitária francesa e internacional”.

Durante o 35º Festival da Cannes, em 1982, Wim Wenders filmou o documentário Quarto 666 e perguntou a um grupo de diretores se o cinema “é uma linguagem em via de extinção, uma arte que vai morrer?” Na época, outras mídias – a televisão a cabo e o VHS – eram vistas por alguns como grandes ameaças. Nas décadas seguintes, a incerteza quanto ao futuro do cinema persistiu e cresceu à medida que o DVD e as tecnologias digitais se impuseram, causando transformações radicais na maneira de produzir e exibir filmes. Mesmo assim, sem ceder às visões apocalípticas, vozes ponderadas assinalavam que “ir ao cinema continua a ser um hábito firmemente arraigado” e “continuamos a chamar de ‘cinema’ o que assistimos em casa, em nosso home theater ou, enquanto viajamos, em nosso tablet, graças à nossa capacidade de alugar DVD ou baixar filmes online. O equipamento e o suporte mudam, assim como o ambiente de visualização, mas o hábito parece persistir mesmo nessas novas situações. ” (Francesco Casetti, The Lumière Galaxy: seven key words for the cinema to come. Nova York, Columbia University Press, 2015. Sem edição no Brasil.)

Diante das medidas sanitárias necessárias para enfrentar a pandemia, o futuro da sala de cinema e exibição em tela grande está em questão. Uma preocupação secundária, com certeza, diante da alta letalidade do vírus e da insuficiência dos sistemas de saúde pública. Mas vale levar em conta o que Slavoj Zizek escreveu em recente e interminável artigo, do qual reproduzo um trecho breve:

“ […] O que acho especialmente irritante é como, quando nossa mídia anuncia algum fechamento ou cancelamento, geralmente adiciona uma limitação temporal fixa: a fórmula ‘as escolas serão fechadas até 4 de abril’. A grande expectativa é que, depois do pico que deve chegar rápido, as coisas voltem ao normal. Nesse sentido, eu já fui informado de que um simpósio universitário acabou de ser adiado para setembro … O problema é que, mesmo quando a vida voltar ao normal, não será o mesmo normal com o qual estávamos acostumados antes do surto: coisas com as quais estávamos acostumados como parte de nossa vida cotidiana não serão mais um dado adquirido; teremos que aprender a viver uma vida muito mais frágil, com ameaças constantes à espreita logo atrás da esquina. […] ” (“Žižek: monitorar e punir? Sim, por favor!”, 17 de março, tradutores proletários. Publicação original em 16 de março no The Philosophical Salon, canal do Los Angeles Review of Books).

Quando a epidemia passar, o hábito de ir ao cinema persistirá?

*

Cena de A Herança da Coruja, de Chris Marker

 

O primeiro sinal do modo como a atividade cinematográfica seria afetada pela epidemia do novo coronavírus (Sars-Cov-2) foi dado, no início de março, pelo adiamento para novembro da estreia mundial de 007 – Sem Tempo Para Morrer. Outros lançamentos no Brasil foram cancelados a seguir e chegamos à segunda semana de março.

Terça-feira, 10 de março

Em entrevista coletiva, o diretor do 25º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, Amir Labaki, anuncia a programação do evento a ser realizado de 26 de março a 5 de abril, em São Paulo, e de 31 de março a 5 de abril, no Rio de Janeiro. Oitenta e três documentários seriam exibidos em sessões gratuitas, sendo dez inéditos na mostra competitiva brasileira de longas-metragens, e outros doze, inéditos no Brasil, na mostra competitiva internacional. Haveria ainda outras duas mostras competitivas de curtas-metragens, uma brasileira, outra internacional, que exibiriam dezoito filmes, além de programas especiais incluindo documentários de Patrício Guzmán, Chris Marker e Jorgen Leth, entre outros diretores estrangeiros e brasileiros. Em suma, havia razões de sobra, mesmo com a então recente chegada do Covid-19 ao Brasil, para que se criasse a expectativa de uma grande festa, à altura da comemoração dos 25 anos do Festival.

Nesse mesmo dia, a Folha de S. Paulo traz na primeira página a manchete “Mercados têm dia de pânico; Bolsa desaba 12%, maior queda do século”, além de fotografia de Jair Bolsonaro exercendo seus dotes artísticos no estúdio do pintor Romero Britto, em Miami. Com destaque menor, publica na mesma página notícia sobre a quarentena geral, imposta pela Itália, devido ao novo vírus. E reproduz ainda, em tipografia azul, frase do capitão: “No meu entender, está superdimensionado o poder destruidor desse vírus.”

Quarta-feira, 11 de março

A Organização Mundial da Saúde declara pandemia de Covid-19, atingindo mais de 118 mil casos em 114 países, tendo causado cerca de 4290 mortes. No Brasil, os casos confirmados chegam a 52, e os suspeitos a 876 (em treze dias, haveria mais de 1.800 casos confirmados e 34 mortes no país. Em todo o mundo, o número de mortos superaria 10 mil e mais de 245 mil pessoas teriam sido infectadas).

Quinta-feira, 12 de março

O governador do Rio de Janeiro ordena o fechamento de cinemas, teatros e casas de show em todo o estado. O número de ingressos vendidos dos vinte filmes de maior receita em exibição no resto do país despenca de 64% a 90% (dados do Portal Filme B). Uma semana depois, além dos cinemas, academias, museus, locais de eventos coletivos etc. haviam sido fechados ou tiveram seus horários de funcionamento restritos em todo o país.

Quando o fechamento dos cinemas no Rio foi divulgado pelos jornais, na sexta-feira, 13 de março, embora a principal preocupação de todos fosse o alastramento do Covid-19, cinéfilos e documentaristas não deixaram de pensar que o É Tudo Verdade poderia ser cancelado. Afinal, festival é por definição uma celebração coletiva em que se espera sessões com filas na porta e salas lotadas – tudo em contradição flagrante com as exigências sanitárias que se impunham. E, ainda por cima, sem salas de cinema disponíveis, o que seria do Festival? A resposta não demorou.

Segunda-feira, 16 de março

A possibilidade do Festival É Tudo Verdade ser cancelado é afastada. Após meses de trabalho, faltando apenas dezenove dias para a abertura em São Paulo, a equipe reinventa o Festival, reunindo energia que talvez nem suspeitasse ainda possuir. O fato disso ser possível tem implicações relativas à própria sobrevivência, ou extinção, da experiência do cinema que prevaleceu durante um século.

Através de uma nota o É Tudo Verdade informa ter decidido “realizar sua 25ª edição Festival em duas etapas: uma, digital, no período originalmente agendado […], e outra, presencial”, em setembro. Desse modo, começa amanhã (26/3), seguindo até 5 de abril, a exibição online das mostras especiais de filmes não inéditos, ficando para 24 de setembro a 5 de outubro as mostras competitivas, os filmes inéditos das mostras especiais, os debates e as palestras.

Acessos para assistir aos filmes online serão distribuídos nos sites   www.etudoverdade.com.br e www.itaucultural.org.br de 26/3 a 5/4, até o limite de 1 mil visionamentos. Entre outros atrativos, fazem parte da programação os treze episódios de 26’, de Chris Marker, da série A Herança da Coruja (L’Heritage de la Chouette), realizada em 1989.

Outro ponto alto da programação online será a estreia no Brasil, a partir de 3 de abril, seguindo até o dia 12, da série de 40 capítulos Women Make Film: Um Novo Road Movie Através Do Cinema, de Mark Cousins. São 840 minutos narrados por Tilda Swinton, Sharmila Tagore, Jane Fonda, Adjoa Andoh, Thandie Newton, Kerry Fox e Debra Winger, legendados em português. A linguagem e a história do cinema são discutidas através de filmes das diretoras Agnès Varda, Alice Guy Blaché, Heddy Honigmann, Jane Campion, Kinuyo Tanaka, Maya Deren, Petra Costa, Safi Faye, Sally Porter e Sumita Peries, entre outras.

Já longa demais, esta coluna termina aqui, deixando o assunto aberto, com as palavras de Francesco Casetti transcritas do penúltimo parágrafo de The Lumière Galaxy, citado acima:

“Se é verdade que a situação atual é permeada por uma sensação de luto, também é verdade que ela possui um senso de vitalidade igualmente forte. De fato, poderíamos pensar, seguindo Eisenstein, que o cinema hoje está fazendo o que fez no passado com as outras artes – procurando um novo terreno para poder olhar para dentro e encontrar posturas novas e não expressas. Na sala de estar, nas praças públicas, no computador, ao lado de outras mídias e misturado com outras linguagens, poderia estar tentando se tornar o que nunca foi de todo, mas poderia vir a ser. Nesse sentido, sua mudança tornaria possível uma renovação real, não simplesmente uma mera sobrevivência.” 

 

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

Mais textos de Eduardo Escorel

Paulo Freire, um Homem do Mundo – Um sonho da bondade e da beleza

Alvo de ofensa proferida pelo capitão que ocupa o Palácio do Planalto, educador ganha desagravo em documentário

Cinema e desigualdade – o nó da questão

Salas fechadas acentuam privilégio de quem pode pagar por serviços de streaming

O Oficial e o Espião – abuso de poder, preconceito e intolerância

Filme de Polanski abre debate sobre acusação e punição dos personagens e do diretor

O Jovem Ahmed – débil e sem interesse

Filme dos irmãos Dardenne desperdiça ideia instigante

Uma Vida Oculta – sacrifício e paixão para enfrentar o mal

Guardadas as diferenças, demora para identificar o desastre une Alemanha nazista e Brasil bolsonarista

Antídotos para o Carnaval – de Frankie a Clara Estrela

No cinema e na tevê, erros e acertos de quem fugiu da folia

O Farol – fantasia extravagante 

Escassez de opções e presença de Willem Dafoe levam colunista a cair no conto do “horror cósmico com toques sobrenaturais”

Petra Costa – uma amiga do povo entre nós

Criticar cineasta nos termos que fez a Secom é ato vil do governo federal

Dona Hermínia, Blake, Schofield e Adoniran Barbosa – as peripécias para conseguir assistir a um filme

Barulho, informação errada e sala em péssimo estão no caminho de quem tenta ver documentário sobre compositor paulista

Os Miseráveis – catástrofe à vista

Revolta de jovens na periferia de Paris é um sinal de alerta para políticos franceses

Mais textos