questões cinematográficas

Esgares e sorrisos

Cinemateca Brasileira em questão

Eduardo Escorel
27maio2020_06h12

Quarta-feira, 20 de maio. Às 11h26, recebi pelo WhatsApp a gravação feita com o Palácio da Alvorada ao fundo, em que o morador temporário e a secretária da Cultura fazem um comunicado em forma de brincadeira dialogada. ELE e ELA sorriem um para o outro, dando risadas ocasionais. De que riem tanto? Até a véspera, o número oficial de mortos no Brasil era 17.971. Indiferentes à calamidade humanitária, pela qual ELE tem sua cota de responsabilidade, a dupla faz uma encenação inconsequente e constrangedora diante da câmera:

 “Olha pessoal, eu vim aqui perguntar para o presidente se ele realmente está me fritando… Você está me fritando, presidente?”, ELA pergunta.

“Jamais ia fritar você” (risos), ELE responde. 

Na continuação, ficamos sabendo que ELA recebera um “presente… para fazer Cinemateca” [sic]: 



“Pode ser um presente melhor que esse? Obrigada, presidente.” 

Em seguida, ELE revela a qualificação que justifica ELA “ir para a Cinemateca”: o fato de a instituição ser ao lado do apartamento onde ELA mora, em São Paulo. Os dois encerram o comunicado rindo, abraçados.

Com duração de 1 minuto e 46 segundos, a cena ilustra a expressão popular “me engana que eu gosto”, e se tornou um clássico instantâneo do audiovisual brasileiro ao registrar o descalabro do atual governo. Quem se dispõe, como esses dois personagens, a fazer tamanho papelão entra direto para a galeria de demagogos baratos do país – ELA, além de ter sido fritada, foi (ou está para ser), na verdade, defenestrada; enquanto ELE teria dado de presente algo que não lhe pertence, o que seria caso típico de apropriação indébita, crime previsto no artigo 168 do Código Penal Brasileiro. 

Nomear diretores da Cinemateca Brasileira (CB), afinal, foge à alçada do presidente da República. Ademais, sem haver cargo disponível na CB, o governo federal está impedido de atender o compromisso que ELE teria assumido com ELA. A ainda (ou então?) secretária da Cultura poderia ser contratada pela Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, Organização Social (OS) que administra a CB desde 2018. Mas a OS, sem ter recebido parcela alguma de seu orçamento anual, não tem recursos para pagar nenhum salário neste momento. Alternativas seriam incluir no “presente” oferecido a nomeação para um cargo federal, ou o governo liberar recursos de que a OS necessita para retomar as atividades da CB, atualmente paralisadas. Enfim, uma trapalhada a mais do Poder Executivo.

Na quinta-feira (21/5), a Presidência da República publicou decreto nº 10.359, que elimina um dos entraves que dificultavam tomar providências “com a urgência necessária para impedir a falência da Cinemateca”, conforme advertia a petição divulgada em 15 de maio – Cinemateca Brasileira pede socorro – que havia colhido mais de 11 mil assinaturas e dias depois ultrapassou 12,8 mil. De acordo com o decreto, a Secretaria Especial da Cultura passa a ser vinculada apenas a um ministério, o do Turismo, deixando de ter ligação também com o da Cidadania, duplicidade anterior que teria sido decisiva para impedir a boa gestão da secretária defenestrada.

Para surpresa geral, na foto publicada no Globo, ilustrando a matéria sobre o decreto que aprova a estrutura regimental do Ministério do Turismo, lá está ELA, sorridente como sempre, sentada entre os ministros da Secretaria Geral da Presidência e do Turismo. Aparentemente, ELA continuava respondendo pela Secretaria Especial da Cultura, o que configura situação bizarra após ter sido defenestrada. E agora? O que fará na CB? A impressão que deixou em sua passagem pelo governo federal foi a pior possível. Será capaz de se redimir? Ou desistirá a tempo de o “presente” se tornar mais um caso de quem foi sem nunca ter sido. 

É difícil acreditar que o atual governo passará a dar a atenção devida à CB e que a instituição poderá recuperar a vitalidade perdida. Quanto tempo será necessário para que a CB retome suas atividades? Será possível evitar o desastre iminente causado pela paralisação? O descaso ao longo dos últimos dezessete meses é um ato de omissão criminoso.

A Cinemateca Brasileira é nosso abrigo protetor do cinema – passado e contemporâneo. É também o único grande hospital público do Brasil capaz de recuperar nossos filmes, salvando-os da morte certa. É ainda um importante polo difusor de cultura cinematográfica. O maior acervo audiovisual do país está ameaçado, o laboratório de restauro inativo – motivos suficientes para responsabilizar o governo federal pelo que vier a acontecer.

Nós devemos a Paulo Emílio Sales Gomes, pai fundador da CB, e aos diretores e às diretoras que o sucederam, além dos técnicos e funcionários que em diversos setores e várias épocas se dedicaram à preservação de filmes e documentos, e à difusão do cinema – nós devemos a todos eles e todas elas nosso empenho para impedir que prossiga o processo de liquidação do principal repositório da nossa produção e memória audiovisual.

paulo emílio sales gomes, cinemateca brasileira
O historiador e crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes


De modo geral, quando o atual morador temporário do Palácio da Alvorada fala, ELE recorre a frases truncadas, termos chulos, abusos verbais, esgares e risos nervosos. Com frequência, ri do que ELE mesmo diz, ignorando que os grandes cômicos não riem de si mesmos – são antes sérios, tristes até, em alguns casos. ELA, por sua vez, sorri de orelha a orelha o tempo todo. Basta ver a fotografia na qual acena (estará dando adeus a Brasília?), publicada quinta-feira (21/5) na primeira página do
Globo, em que exibe mais uma vez sua arcada superior de dentes completa. 

Gostaria que um psicanalista me explicasse de que esses dois personagens riem tanto? Um dia depois de anunciarem de modo oblíquo que ELA ganhara um “presente”, modo de atenuar o fato de ter sido defenestrada, o número de vítimas fatais da Covid-19 no país passou de 20 mil, e o de pessoas contagiadas, de 310 mil. O Brasil  ocupava o terceiro lugar em número de contagiados, atrás dos Estados Unidos e da Rússia. 

Toda Presidência da República tende ou a ser esquecida, ou a ter uma marca pela qual será lembrada para sempre. A do atual ocupante provisório do Palácio da Alvorada está definida – serão milhares de mortos, representados pelas covas abertas e enfileiradas para receber seus corpos.

Sexta-feira, 22 de maio, 17 horas. Por decisão do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, começa a ser divulgado o registro da reunião ministerial de 22 de abril, tendo sido cortadas referências feitas a outros países. A gravação confirma que o governo é omisso no que diz respeito à tragédia humanitária causada pela pandemia, tornando-se por isso corresponsável pelos falecimentos ocorridos – até a data da reunião, em abril, havia 2.924 mortos e 46.195 contagiados. Um mês depois, no dia em que foi possível assistir à gravação, o número de mortos havia chegado a 21.048, e o de contagiados, a 330.890, aumento de cerca de sete vezes nos dois casos. Com isso, o Brasil ultrapassou a Rússia e passou a ser o segundo país do mundo em número de infectados pelo novo coronavírus.

“Décadas de descaso com a saúde inviabilizaram a agilidade das respostas para enfrentar o desafio de impedir que o Brasil assuma a humilhante liderança mundial na contagem do número de óbitos, tragédia considerada possível, e até provável, por epidemiologistas respeitados… A situação em que estamos não poderia ser imaginada nem sequer no mais terrível pesadelo”, escreveu Drauzio Varella, na Folha de S.Paulo.

Assistindo à reunião ministerial de 22 de abril, confirma-se o baixo nível da cúpula do governo federal, que mais parece uma quadrilha chefiada por um criminoso e integrada por bajuladores medíocres, cúmplices ineptos e covardes. Ressalve-se a reação do então ministro da Justiça Sergio Moro que, apesar de tardia, saiu da reunião antes do fim, pediu demissão no dia seguinte e relatou as razões que o levaram a deixar o cargo. 

*

No capítulo de filmes para assistir em isolamento físico, está previsto para começar em 29 de maio no YouTube, e ir até 7 de junho, o We Are One A Global Film Festival, no qual haverá exibição gratuita de filmes escolhidos pelos curadores dos festivais de Berlim, Cannes, Veneza, Sundance, Toronto e Tribeca, entre outros.

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Où en êtes-vous, Barbet Schroeder? (2017), de Barbet Schroeder; Le Parti des Choses. Bardot et Godard (1963) e Paparazzi (1963), ambos de Jacques Rozier; e Le Double Amour (1925), de Jean Epstein, destacam-se entre as novidades da semana disponíveis na plataforma de streaming gratuito da Cinemateca Francesa.

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O prazo para votar na escolha do Melhor Filme do Júri Popular, no Quarentena Online Film Festival, foi adiado até hoje, 27 de maio, e a cerimônia de premiação será realizada na próxima sexta-feira (30/5). Informações disponíveis aqui.

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Nota: Coluna atualizada em 25 de junho de 2020. Foram eliminadas as indicações dos links de acesso ao filme Me Cuidem-se!, a pedido de seus diretores, uma vez que as cinco partes editadas deixaram de estar disponíveis no Vimeo.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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