vultos das redes

Cria Bolsonaros

Mais popular cabo eleitoral do presidenciável do PSL no Nordeste, cearense de 20 anos abandonou sonho de ser candidato a Whindersson Nunes para ser candidato a deputado

Camila Zarur
07maio2018_20h17
André Fernandes encontra Jair Bolsonaro em Brasília, em março de 2018
André Fernandes encontra Jair Bolsonaro em Brasília, em março de 2018 DIVULGAÇÃO

Há um ano, André Fernandes era candidato a Whindersson Nunes, um dos mais populares youtubers do Brasil. Com 300 mil seguidores em seu canal, o jovem cearense de 20 anos fazia piadas e paródias de sertanejo universitário com a irmã. Ao se dar conta  de que não enriqueceria como humorista, mudou de canal. Trocou o Youtube pelo Facebook, e as piadas pela política. Logo percebeu que viralizaria defendendo o mesmo ideário que Jair Bolsonaro. Seus vídeos defendendo o punitivismo e o conservadorismo de costumes tiveram milhões de visualizações. André Fernandes é agora pré-candidato a deputado estadual pelo mesmo partido de Bolsonaro, o PSL. O presidenciável chama André de “meu novo bebê adotado aí do Ceará”.

“Minha vida está boa demais fora da política, só que missão dada é missão cumprida. Eu entrei nessa guerra e não vai ser agora que vou afrouxar”, disse Fernandes, com retórica à moda Capitão Nascimento, no vídeo em que anunciou sua candidatura, na quinta-feira, 3 de maio. Ele se define como “conservador, patriota e armamentista”, uma imagem que vem dando resultado  nas redes. Nos últimos trinta dias, o perfil de Fernandes foi o que causou mais buzz sobre Bolsonaro no Facebook – ultrapassou as páginas do UOL, do senador Magno Malta, do filho Flávio Bolsonaro e de Alexandre Frota, por exemplo. Hoje, sua fanpage possui 1,3 milhão de seguidores. “Só com meus vídeos incomodei do jeito que incomodei, imagina quando eu tiver o poder de subir em uma tribuna”, disse, na gravação de 2 minutos.

Antes de se tornar propagador de ideias de Bolsonaro, Fernandes seguia o modelo do jovem que pretende fazer sucesso na internet: produzia vídeos engraçados, satirizando sua rotina. A inspiração era Whindersson Nunes, youtuber que tem 28,9 milhões de seguidores. A popularidade de Fernandes não fez frente a Nunes, mas chegou a terceiro canal mais visto do Ceará. Hoje ainda possui 457 mil seguidores no Youtube, mas deixou de priorizar a plataforma como meio principal de divulgação.

Seus vídeos mais populares estão no Facebook e são a favor do armamento da população e contra a “ideologia de gênero”. “O Brasil que eu quero é onde a polícia possa descer o cacete em vagabundo, sem que os direitos humanos caiam em cima do policial”, disse Fernandes, num post de 28 de abril. Na mesma gravação, ele defende duas penalidades para políticos corruptos: a de morte, ou a prisão perpétua. Os recordes de visualizações em sua página são dois vídeos com críticas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, publicados em dezembro de 2017 e janeiro deste ano, ambos com 9,6 milhões de visualizações. “Lula solto é mostrar para os nossos filhos que o crime compensa. Lugar de bandido é na cadeia. Para. Pensa. E se tu defende bandido, você é bandido do mesmo jeito.”

As afirmações de Fernandes em sua fanpage fizeram com que a página fosse tirada do ar em outubro de 2017 por não seguir as normas do Facebook. Ele foi denunciado por homofobia e por atentar contra os direitos humanos. Por causa disso, Fernandes decidiu processar a plataforma por danos morais. Procurado, o Facebook ainda não comentou o caso.

O estopim da carreira como militante político foi uma gravação em que questionava se alguém teria coragem de votar em um político como o Bolsonaro. “Você tem mesmo coragem de votar em um cara que quer armar a população?” ou “votar em um cara que vai dar carta branca para o policial matar?”, pergunta Fernandes, em um vídeo publicado em agosto do ano passado, assistido 5,7 milhões de vezes no Facebook (antes de ser retirado do ar pela plataforma). A repercussão lhe rendeu um perfil no jornal O Estado de S. Paulo. Fernandes, que nunca tivera contato com Bolsonaro, foi procurado por ele. Começaram uma amizade.

Fernandes foi citado pelo pré-candidato à Presidência em vídeos na internet e elogiado pela “coragem” de seguir uma trajetória parecida com a dele. Os dois se conheceram pessoalmente na filiação de Bolsonaro ao PSL, num evento em Brasília. “Bolsonaro fez uns dois, três vídeos falando meu nome e agradecendo. Até que dois meses atrás nos conhecemos pessoalmente em Brasília. Ele disse que estou no caminho certo.” Há dois meses, Fernandes filiou-se ao PSL: em 15 de março, oito dias depois de Bolsonaro entrar para o partido. “Ele tem uma energia muito forte. Me senti ao lado do presidente do Brasil”, disse Fernandes, sobre o encontro com o presidenciável.

Ainda antes do contato com o ideário de Bolsonaro, Fernandes já enxergava na farda uma trajetória. Ele foi aprovado em concurso para a Polícia Militar no Ceará no ano passado, e largou a faculdade de economia na Universidade Federal do Cariri para seguir a carreira. Mas deixou a carreira militar de lado para poder continuar gravando seus vídeos. “A polícia não permite manter a militância de forma explícita. Eu mesmo sou altamente contra o governador atual do Ceará [Camilo Santana, do PT]. Se tivesse entrado pra corporação e continuasse falando o que falo hoje, eu estaria preso.”

Das piadas que marcaram seus primeiros vídeos no Youtube, sobraram poucos vestígios. Fernandes apagou as gravações de seu canal oficial, como a que parodia uma canção de Naiara Azevedo sobre estar sem dinheiro. No vídeo, Fernandes aparece sem camisa, sentado num vaso sanitário, reclamando do preço do papel higiênico. Questionado sobre a mudança no tom de seus vídeos, Fernandes disse à piauí que seu objetivo é passar a imagem de pessoa séria, e não a de brincalhão, como antes. “Quero que quando as pessoas me procurarem no Google, vejam quem realmente sou, quem me tornei”, afirmou.

Camila Zarur (siga @camilazarur no Twitter)

Camila Zarur é jornalista. Trabalhou na piauí e no jornal O Globo

Leia também

Relacionadas Últimas

Direita, volver

Pré-candidato à Presidência, Jair Bolsonaro coloca o ultraconservadorismo no jogo eleitoral

Dois empresários paulistas contam por que estimulam Bolsonaro

Fundador da Tecnisa e dono de empresa de monitoramento de mídia marcam encontros entre pré-candidato e comunidade judaica de São Paulo. “Apoio quem seja contra a esquerda”, resume incorporador

Maria Vai Com as Outras #3: Quero ser mãe, não quero ser mãe

Uma editora e uma advogada e escritora falam sobre os desdobramentos na vida de uma mulher quando ela decide ter ou não ter filhos

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

Passarinho vira radar de poluição

Pesquisadores usam sangue de pardais para medir estrago de fumaça de carros e caminhões em seres vivos

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

O maestro e sua orquestra – andamento lento e músicos desafinados

Governo se julga no direito de “filtrar” projetos incentivados com verba pública, mas filtrar é eufemismo para censurar

Quando a violência vem de quem deveria proteger

Quatro meninas são estupradas por hora, a maior parte dentro de casa, e 17 pessoas são mortas pela polícia por dia, revelam dados do Anuário de Segurança Pública

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023

Mais textos
1

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

2

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

3

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

4

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023

5

A guerra contra o termômetro

Quando chegam más notícias sobre o desmatamento, os governos atacam o emissário

7

Bacurau – celebração da barbárie

Filme exalta de modo inquietante parceria entre povo desassistido e bandidos

9

Sem SUS, sem saída, sem vida

Sem dinheiro para pagar dívidas médicas nos Estados Unidos, idoso mata mulher e se suicida; tragédia amplia debate sobre acesso a sistema público de saúde

10

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana