cientistas da pandemia

Desenvolver vacina no Brasil é dose

Além do coronavírus, cientista batalha contra negacionismo, orçamento curto, burocracia e exaustão

Leda Castilho
13abr2021_17h36
Foto: Assessoria de Comunicação da Coppe/UFRJ

“Se nada mudar radicalmente, nós vamos ter que fechar as portas por falta de verbas”, preocupava-se a engenheira química Leda Castilho, chefe do Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares (LECC) da Coppe/UFRJ, em uma conversa com seus alunos pouco antes da pandemia. Os últimos cinco anos vinham sendo difíceis devido à progressiva redução orçamentária para ciência e tecnologia. Mas veio a pandemia e a equipe do LECC mergulhou de cabeça no combate à Covid a partir das pesquisas sobre a proteína S que forma a coroa que envolve o coronavírus e originou seu nome. Os primeiros experimentos do LECC que confirmaram o sucesso na produção da proteína S em laboratório ocorreram ainda antes do Carnaval de 2020, ou seja, antes mesmo da confirmação do primeiro caso de Covid no Brasil. 

Ao longo de 2020, os pesquisadores desenvolveram a tecnologia para produzir a proteína S em escala piloto. Também criaram, junto com outros colegas da UFRJ, um teste sorológico mais barato para tornar o diagnóstico mais acessível — o teste de farmácia custa 20 vezes mais. Em seguida, passaram a desenvolver, em parceria com colegas da UFRJ, do Instituto Vital Brazil e da Fiocruz, um soro equino que visa a neutralizar o vírus em pacientes que estão nos estágios iniciais da doença. Outra pesquisa, em fase inicial, é referente a um medicamento biológico para pacientes em estágios avançados da doença. Ambos serão terapias específicas para curar pacientes de Covid. Mas o projeto ao qual o LECC vem se dedicando mais nos últimos meses é o da vacina baseada na proteína S, desenvolvida em parceria com outros institutos da UFRJ e com o Inca.

Laboratórios de pesquisa como o LECC sobrevivem de projetos aprovados em editais públicos, cada vez mais escassos, ou de financiamentos privados. No ano passado, o laboratório conseguiu apoio de um programa criado nos Estados Unidos por doadores dispostos a financiar projetos promissores na luta contra a pandemia. O grupo de Castilho foi aprovado com um estudo para criar uma vacina, que foi batizada de S-UFRJvac. 

À piauí, Castilho relatou a rotina de trabalho dos pesquisadores contra o vírus, “sete dias por semana, 364 dias por ano, dia e noite”. Contou das dificuldades burocráticas que emperram trabalhos urgentes: entre a chegada ao aeroporto brasileiro de um insumo importante para as pesquisas da vacina e a liberação do insumo para entrega no laboratório, foram quase cinquenta dias. Quando sai à rua e vê as pessoas sem máscara, aglomeradas, a cientista se entristece: “Será que não percebem que estão caindo 10, 15 aviões por dia no Brasil?”

(Em depoimento a Hellen Guimarães)

 

Trabalho na área de vacinas e biofármacos há muito tempo. Especificamente nos projetos de Covid, no nosso laboratório somos eu e mais quatro, mas há colegas de outros institutos da UFRJ e de fora dela. No projeto da vacina, são umas vinte pessoas no total. 

A equipe do LECC não para desde o início de fevereiro de 2020, quando modificamos geneticamente a célula para produzir a proteína S do coronavírus. Confirmamos a primeira produção da proteína antes do carnaval do ano passado, quando ainda não havia nenhum caso de Covid confirmado no Brasil. Um mês depois, conseguimos obter uma célula que produz a proteína S de forma estável, e isso permitiu baratear e escalonar a produção. Desde novembro, estamos produzindo em escala piloto, de 50 litros.

Primeiro, desenvolvemos testes sorológicos com a proteína S e passamos a ceder a proteína para pesquisadores de todo o Brasil. Depois, passamos a trabalhar em medicamentos. Cedemos a proteína para o Instituto Vital Brazil desenvolver um soro equino. Eles injetam a proteína nos cavalos, que passam a produzir anticorpos. O soro, contendo os anticorpos purificados, apresentou em laboratório uma altíssima capacidade de neutralizar o vírus. O próximo passo é fazer estudos clínicos para comprovar que ele pode ser útil nos primeiros dias da doença, para impedir que o vírus se multiplique.

Caso o vírus já tenha se espalhado, pode ocorrer uma resposta inflamatória exacerbada do organismo, então as complicações são decorrentes disso e o remédio tem que ser outro. Por isso, temos um projeto junto com a Faculdade de Farmácia da UFRJ para desenvolver um anticorpo monoclonal que se mostrou eficaz, em estudo clínico feito na Inglaterra, no tratamento da fase inflamatória da doença. O soro dos cavalos está mais avançado, e o Instituto Vital Brazil está preparando o material para finalizar o pedido de autorização de testes clínicos junto à Anvisa. A outra pesquisa está numa fase bastante inicial ainda, com testes em laboratório, antes mesmo dos testes em animais.

Mas talvez o projeto mais importante seja o uso da proteína S como vacina. O princípio da vacinação é pegar uma parte do vírus, ou o vírus morto, para que o corpo humano aprenda a receita para fabricar anticorpos contra aquele agente infeccioso, conseguindo, no futuro, responder rapidamente em caso de infecção. Com exceção das vacinas de vírus inativado, como por exemplo a CoronaVac, todas as outras vacinas de Covid se baseiam na proteína S, mas de formas diferentes. A nossa estratégia foi modificar geneticamente células cultivadas em laboratório para que elas produzam a proteína.

As vacinas da Moderna e da Pfizer se baseiam no RNAm do vírus, que codifica a proteína S do coronavírus. Quando injetado no ser humano, o corpo passa a produzir a proteína S, que é reconhecida como uma proteína exógena e, por isso, desencadeia a resposta imune e a produção de anticorpos. Já as vacinas de Oxford, Gamaleya (Sputnik V) e Janssen são vacinas de vetor viral: pegam outros vírus que não causam doença em humanos e colocam, no genoma desse vírus inofensivo, o gene que codifica a proteína S. Assim, quando o organismo recebe essas vacinas, também começa a produzir a proteína, que então desencadeia a resposta imune.

No nosso caso, em vez de injetar um RNAm ou um vetor viral contendo a sequência para produção da proteína dentro do organismo, fizemos isso dentro de uma célula no laboratório. Essa célula passou a produzir a proteína S e hoje em dia é cultivada em grandes biorreatores, para que ela produza grande quantidade da proteína. Então, na nossa pesquisa, a vacina já contém a proteína pronta.

A verba para esse projeto foi obtida com um fundo de doadores dos Estados Unidos, chamado FastGrants.org. Eles se juntaram para doar dinheiro de forma rápida e desburocratizada para pesquisadores que estivessem desenvolvendo pesquisas de Covid. Não pedem nada para nós, não têm ingerência sobre a pesquisa, só acreditaram que aquilo que estávamos propondo merecia ser financiado. Oferecem o que a gente precisa: na urgência de pandemia, é necessário poder focar na pesquisa e não perder tempo com processos complexos ou com burocracia.

No Brasil, além da falta de verbas para ciência, quando a gente consegue alguma verba, em geral, a burocracia é grande – até para importar um insumo para pesquisa a burocracia é enorme. A gente deveria poder usar nossas horas de trabalho para realizar nossa atividade-fim, que é fazer as pesquisas, e deveria ter tempo livre para cuidar de nossos filhos e para dormir o suficiente, ao invés de invariavelmente ter que trabalhar à noite e nos finais de semana. Mas a gente acaba tendo que dedicar tempo a burocracias absurdas, mesmo hoje em dia, mesmo avisando que se trata de uma pesquisa urgente de Covid.

Talvez o mais grave seja a falta de priorização da ciência e tecnologia e a negação da ciência. Outros países do mundo, quando tiveram crises graves, investiram na ciência para sair da crise, e deu certo. Japão e Coreia do Sul são exemplos disso. No Brasil, os orçamentos para ciência e tecnologia são cada vez menores, inclusive o deste ano prevê queda substancial, mesmo que a gente esteja no meio de uma pandemia, precisando desenvolver remédios, vacinas, testes, ventiladores etc. Considerando o orçamento do conhecimento, que inclui universidades federais, MCTI, Capes, institutos tecnológicos e centros de pesquisa federais, o orçamento discricionário empenhado em 2020 foi apenas 54% do valor de 2014, corrigido pelo IPCA. De 2020 para 2021, há risco de cair mais uns 40%, conforme a lei orçamentária enviada pelo governo federal ao Congresso.

Nos últimos cinco anos, no meu laboratório, não tivemos verbas sequer para consertar os equipamentos que foram se quebrando. E não é porque eu não corria atrás: nunca deixei de submeter projeto quando havia algum edital ou chamada pública para projetos de pesquisa. Em 2019, eu cheguei a dizer ao pessoal do laboratório: “Se nada mudar radicalmente, vamos ter que fechar as portas do LECC.” Mas em janeiro de 2020, vendo as notícias que chegavam do coronavírus, eu falei para a equipe: “Não podemos deixar de tentar contribuir no combate ao vírus.”

Com os recursos que conseguimos para as pesquisas de Covid, o laboratório está funcionando a pleno vapor. Mas a gente teme pelo que virá depois. Quando esses projetos de Covid terminarem, se o país continuar reduzindo o apoio à ciência e tecnologia, nosso laboratório estará fadado à morte por falta de verbas. Nossas pesquisas requerem insumos e equipamentos muito caros, mas, por outro lado, são pesquisas voltadas para desenvolver produtos para melhorar a saúde das pessoas e para o Brasil poder reduzir gastos com a importação de medicamentos, testes e vacinas.

Fazer pesquisa nessa área é muito importante para o futuro, pois o Brasil sofreu uma desindustrialização em todas as áreas, inclusive na área médica e farmacêutica, e a pandemia tornou isso evidente. Nosso país já produziu muito mais princípios ativos – os famosos IFAs – do que produz hoje. Nas minhas aulas, eu costumava falar aos alunos: “Imaginem que a gente não produz mais nem o princípio ativo de um antibiótico sequer. E se tiver uma guerra no Oriente Médio e os IFAs da Índia e da China não chegarem?”. Acabou que a guerra não foi uma guerra física, mas a pandemia, uma guerra contra um vírus. 

No início de 2020, não chegavam máscaras nem luvas. Não tinha ventilador, não tinha insumo para nada. Isso mostra o quão estratégico é o país não se desindustrializar. Produzir localmente, mesmo quando isso é um pouco mais caro do que importar, pode fazer sentido. No caso de medicamentos e vacinas, é inclusive um caso de segurança nacional, pois coloca a saúde da população em risco.

Desde março do ano passado, estou numa rotina de trabalho de sete dias por semana, 364 dias por ano. O único dia em que não trabalhei foi primeiro de janeiro. No entanto, como professora universitária e pesquisadora, infelizmente sou obrigada a desperdiçar um tempo imenso com burocracias, associadas a, por exemplo, conseguir comprar insumos para que a pesquisa no laboratório não pare. Só para dar um exemplo recente: um insumo importante para melhorar a tecnologia de produção da nossa vacina, que a gente recebeu da Alemanha por Fedex, chegou ao Brasil em 7 de fevereiro. Depois de petições, e-mails, telefonemas, formulários e declarações, o pacote chegou dia 23 de março ao nosso laboratório. Poderia ter chegado em 8 de fevereiro. Obviamente, já tínhamos terminado os experimentos sem poder testar o produto que poderia ter melhorado o rendimento da vacina.

Essas coisas prejudicam as pesquisas, afastam bons cérebros daqui e tornam o país mais lento. Em países como Estados Unidos e Alemanha, onde já trabalhei como pesquisadora visitante, eu só teria tido o trabalho de encomendar o insumo, recebendo-o dentro de dois ou três dias. Por que os procedimentos no Brasil não podem ser mais racionais? Ao chegar ao Brasil o material com o CNPJ da UFRJ, já se saberia que é uma instituição pré-cadastrada pelo CNPq para importar insumos para pesquisa científica. Teria liberação automática e a gente receberia no dia seguinte.

Mas talvez o mais triste para o país seja ver tantas mortes por Covid e, ao mesmo tempo, tanto desgoverno nas diferentes esferas e tanta gente desrespeitando as medidas básicas de prevenção, que são a única forma de frear o vírus até que a grande maioria da população esteja vacinada. Por que não há uma campanha clara e maciça pelas medidas de prevenção? Por que o poder público não evita que os trabalhadores sejam submetidos a um transporte público lotado? Por que, quando os números mostram que os leitos de UTI estarão lotados em breve, não se fecha tudo o que não é essencial? Por que deixar tantas pessoas morrerem em filas esperando por um leito de UTI, sem acesso a oxigênio e aos cuidados necessários? Tantas mortes poderiam ter sido evitadas! É muito triste.

Como é que tanta desinformação pode se propagar tão facilmente, sem que as pessoas se deem conta do número de mortes? É como se estivesse caindo um monte de aviões por dia. Antigamente, quando caía um avião, a gente ficava um mês no noticiário falando daquilo. Agora é o equivalente a dez, quinze aviões caindo por dia, e as pessoas continuam sem usar máscara, se aglomerando, fazendo festas clandestinas, com mau exemplo vindo de cima. 

A situação está muito complexa. O Brasil se tornou um celeiro de variantes porque, como aqui não se tomam as medidas de prevenção necessárias, o vírus está se multiplicando intensamente. Uma variante surge quando um vírus, ao se multiplicar, comete um erro na replicação do seu código genético. Esse erro pode trazer a ele uma desvantagem e o mutante desaparece. Mas em alguns casos, mais raros, traz uma vantagem competitiva ao vírus: por exemplo, ele pode conseguir se ligar melhor à célula humana ou escapar dos anticorpos gerados contra a cepa anterior do vírus. Dessa forma, podem surgir variantes ainda mais perigosas. Se a gente continuar a deixar o vírus se multiplicar loucamente, novas variantes continuarão a surgir, aumentando o risco de que as vacinas que temos no Brasil deixem de funcionar e de que muito mais vidas sejam perdidas.

Queremos ou não que a vida volte ao normal? Governantes e sociedade deveriam se fazer esta pergunta e adotar o remédio amargo agora, para que possamos voltar a abraçar e beijar nossos parentes e amigos.

Leda Castilho

Engenheira química, professora e coordenadora do Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares (LECC) da Coppe/UFRJ

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