questões eleitorais

Dilma, Aécio e (quase) mais ninguém

Os grandes adversários de 2014 fazem duelo de campanhas em cidade mineira e os dois perdem

Samuel Martins
27ago2018_15h25
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Rivais nas últimas eleições presidenciais, Aécio Neves e Dilma Rousseff reeditaram neste sábado a disputa que polarizou o país quatro anos atrás. Os dois escolheram a mesma cidade, Teófilo Otoni, a 450 quilômetros de Belo Horizonte, para dar seus primeiros passos na campanha deste ano – Dilma, por uma vaga no Senado, e Aécio, na Câmara dos Deputados. Não que a aparição da petista e do tucano – que em 2014 receberam, respectivamente, 54 milhões e 51 milhões de votos – tenha sido suficiente para alterar o fim de semana no município do Vale do Mucuri, no leste do estado. Somadas, cerca de 450 pessoas compareceram aos atos dos candidatos.

Na praça Tiradentes, no Centro da cidade, não se falava de Aécio e Dilma. Nas lojas e na padaria, nem sinal do racha de quatro anos atrás. “É sério que esse povo está aqui hoje? Não soube de nada, não veio nem no WhatsApp. E no trabalho o pessoal não comentou”, disse Franciane Azevedo, de 30 anos, auxiliar em uma empresa de eventos. Uma escola da rede particular perto dali repunha os dias letivos adiados durante a Copa. O professor Adriano Luz ignorou a presença dos candidatos. “Não vou votar em nenhum dos dois.”

O ato de sábado foi o primeiro da campanha de Aécio para deputado federal, dez dias depois do registro da candidatura. O lugar escolhido foi uma fazenda de gado leiteiro a cinco quilômetros do Centro de Teófilo Otoni – que é a cidade natal do pai do tucano, Aécio Cunha. Um espaço “aconchegante”, para “amigos que vieram espontaneamente”, como disse Aécio, questionado sobre as dimensões do evento. No total, 150 pessoas compareceram, entre elas ex-prefeitos da região e cabos eleitorais.

No posto de gasolina na saída da cidade, um taxista desconhecia tanto o ato quanto o caminho até a fazenda, propriedade do pecuarista Téo Batista, ex-prefeito da cidade vizinha de Setubinha. Precavidos de possíveis dificuldades para encontrar o lugar, os organizadores detalharam no convite as coordenadas para o encontro. Foram específicos: a propriedade fica a cinco quilômetros do Centro de Teófilo Otoni, com entrada “na frente do Motel Dallas”, na BR-116, depois de dois quilômetros de estrada de chão. Ao longo do trajeto, o trânsito fluía normalmente, sem aglomerações de veículos. Segundo o organizador, ninguém se perdeu no caminho.

Eram 11 horas quando Aécio chegou à fazenda. Foi recebido na frente da área de churrasco, onde catorze cadeiras se enfileiravam, sob uma faixa em que se lia “Sua presença faz a diferença”. Ouviu-se uma salva de fogos de meio minuto. De dentro de um celeiro saiu o ex-prefeito de Caraí, Leopoldino José Ribeiro, empunhando um saxofone, com o qual tocou a canção Amigo, de Erasmo e Roberto Carlos. Aécio abraçou o aliado e se disse comovido.

Em seu discurso, o tucano chamou o ato de “reencontro”. “Tenho participado ao longo de minha vida de inúmeros atos de dimensões diferentes, mas este tem para mim um sentido especial. Estou vivendo um reencontro com a minha história.”

Além de marcar o começo desta campanha, o encontro na fazenda foi o primeiro evento eleitoral de Aécio depois de se tornar réu no Supremo Tribunal Federal por corrupção e obstrução de Justiça. No ano passado, o tucano foi gravado pelo empresário Joesley Batista ao fazer um pedido de 2 milhões de reais. Em setembro de 2017, ele chegou a ser afastado do mandato de senador pelo Supremo e, um mês depois, foi reconduzido ao Senado pelos pares. Aécio nega as acusações e afirma que o dinheiro era de um empréstimo. Questionado pela piauí se ele acreditava que as acusações seriam usadas por adversários na campanha pela Câmara e qual seria sua estratégia contra isso, Aécio foi breve: “Falando a verdade. Será como você está vendo aqui”, disse.

 

Oato pequeno foi pensado, segundo a coordenação da campanha de Aécio, para que o candidato pudesse “conversar diretamente com os multiplicadores” da região, e foi organizado pelo dono da fazenda. Embora a assessoria de Aécio tivesse divulgado que seria “para convidados”, ninguém foi barrado, e não havia controle na porteira. Indagado sobre o porquê de ter sido feito numa fazenda de acesso difícil para os eleitores, o pecuarista Téo Batista disse apenas que “gostaria que Aécio viesse aqui na minha casa”, pois “somos muito amigos”. 

O senador Aécio Neves, em campanha para deputado federal na fazenda de Téo Barbosa

 

Marinho Gonçalves, ex-prefeito de Crisólita, cidade de 7 mil habitantes a 130 quilômetros dali, pegava santinhos e adesivos do tucano, dispostos numa mesa de mármore. “Estou aqui hoje, em primeiro lugar, pela gratidão que tenho ao Aécio. Vim porque ele é aquela pessoa que a gente sente saudades por ter nos ajudado.” Já com os adesivos na mão do outro lado do quintal, o ex-prefeito e vereador de Novo Cruzeiro, Pio Guedes, disse que “não poderia deixar de dar apoio”. “Conheço Aécio Neves desde criança, tenho ligação com a sua família desde 1959.” A organização estimou que 300 pessoas foram até a fazenda – o dobro do que contou a piauí.

O ato de campanha de Dilma, que venceu Aécio nas urnas em 2014, começaria dentro de cinco horas, num clube a oito quilômetros dali. De quem é a responsabilidade pelos eventos concorrentes em Teófilo Otoni? “É uma coincidência. E nossa reunião já estava marcada”, disse Aécio, e complementou depois de uma pausa. “Ela tem direito de fazer sua campanha. Faça, uma vez que a campanha lhe dê a oportunidade de conhecer Minas Gerais.”

 

Aberto ao público, o ato de campanha de Dilma, no clube Palmeiras, tampouco foi capaz de mudar a rotina da cidade. Havia apoiadores vestindo camisetas vermelhas na ladeira até o clube, mas a presença da ex-presidente não fechou vias e, mesmo nas redondezas, mal se fazia notar. Enquanto integrantes de movimentos sociais esperavam a chegada de Dilma na porta do clube, estudantes davam uma festa num sobrado na mesma rua. “Não tinha nem ideia de que teria Dilma ou Aécio aqui hoje”, disse o estudante de engenharia civil Pedro Igor. “Acho que chamam pouca a atenção porque, infelizmente, como nossa cidade é pequena, eles não trouxeram tantos investimentos para cá até hoje, e não acredito que vão trazer.”

Um grupo de apoiadores que veio de Águas Formosas, a 150 quilômetros de Teófilo Otoni, reunia-se à espera do discurso da petista. Alguns tentavam recriar a rivalidade. “Viemos para ver a presidenta legítima do Brasil, sabendo que, neste mesmo dia, ela está fazendo Aécio Neves se esconder. E o fato de ele se esconder já é uma vitória”, disse Daniel Ramos, ex-vereador pelo PT em Águas Formosas.

Dilma chegou às 18 horas, acompanhada do prefeito de Teófilo Otoni, o petista Daniel Sucupira, e cerca de vinte candidatos à Câmara pela coligação em Minas Gerais. “Escolhi Minas para me candidatar porque eu sou daqui. Não saí daqui a passeio, eu fui perseguida pela ditadura militar”, disse, em entrevista coletiva improvisada numa sala. “E é aqui que eu quero lutar, por estarem os dois grandes protagonistas do golpe, o senador Aécio Neves e o seu relator [Antônio Anastasia], que são os responsáveis por um impeachment sem crime de responsabilidade.”

Cerca de 300 pessoas ouviram o discurso da candidata ao Senado. Dilma pediu apoio ao aliado Fernando Pimentel, atual governador e candidato à reeleição no estado, e disse ter um “compromisso com a região”. “Teófilo Otoni é uma região rica, cheia de minérios e pedras preciosas, mas com o povo pobre. Temos o dever de desenvolver essa área.”

A ex-presidente Dilma Rousseff, em campanha para o Senado em Teófilo Otoni

 

A exemplo de Aécio, a presidente do PT em Teófilo Otoni, Maria Helena Sali, qualificou como “coincidência” os atos de campanha dos adversários de 2014 terem sido marcados para o mesmo dia. “Dilma não tem nada do que se envergonhar ou do que esconder, ela foi tirada do poder injustamente, ao contrário de Aécio, que permanece no poder, mas com uma carga de denúncias.”

As provocações, no entanto, não ultrapassavam os quilômetros de estrada de terra, ou as paredes do clube Palmeiras. Fora dali, alheios à movimentação política, moradores faziam exercícios na avenida Luís Boali, e clientes em uma loja de roupas no Centro aproveitavam os últimos minutos do expediente para compras. “O pouco que acompanho da política brasileira hoje só me deixa triste e desiludida”, disse Nice Jardim, de 42 anos, assistente comercial em uma agência de publicidade, que também desconhecia a presença dos rivais em sua cidade.

Samuel Martins

É jornalista no Leste de Minas.

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