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Divino Amor – um Brasil distópico

Futuro apresentado no filme de Mascaro tem flagrantes dos dias atuais

Eduardo Escorel
10jul2019_10h53

Nunca esperei ver o recém-nascido Messias fazendo pipi. Fico devendo a Gabriel Mascaro esse privilégio, oferecido no plano final do seu filme Divino Amor – deitado na cama de casal, Cristo está pelado, de barriga para cima, em contraluz. Com o pinto à vista, Ele solta um jato forte de xixi para cima.

Obrigado, Mascaro. Agradeço em meu nome e no dos demais espectadores de Sundance, Berlim e agora dos cinemas pátrios, pela visão proporcionada desse evento transcendental. De certa maneira, a singeleza do plano compensa a brutal cena do parto, vista momentos antes, em que Joana (Dira Paes) dá à luz o Salvador, sem saber quem é o pai.

Na abertura de Divino Amor, corpos em silhueta dançam na rave de Cristo. Uma voz infantil, de gênero a princípio indefinido, começa dizendo em off que “Era 2027, o Brasil tinha mudado […]”.

Espectadores com boa memória haverão de lembrar dessa advertência quanto ao ano e quanto a uma mudança ocorrida no país. Quem tiver lido alguma das inúmeras entrevistas de Mascaro nas quais o ano de 2027 é citado, também saberá quando se passa o enredo de Divino Amor. Pessoas comuns, porém, terão de captar indicações mais sutis, feitas no próprio filme, de que estão assistindo a um exercício de futurologia no qual, contradizendo o narrador, o futuro do país é semelhante ao da atualidade.

Quanto à narração, todos terão dificuldade de entender que o relato é feito ex post facto por um menino cuja identidade não é revelada. A misteriosa voz do infante seria do onisciente Messias, filho de Joana?

Antes da encantadora mijadinha do Messias que encerra o filme, além de algumas sequências francamente grotescas, Divino Amor reúne uma série de outras que podem parecer excêntricas para quem não tenha informação ou familiaridade com certas práticas e costumes.

Nesta altura do século XXI, cenas de intercurso sexual mimetizadas por atores e atrizes resfolegantes, filmadas em longos planos de conjunto, ainda podem ser chocantes para alguns e atrair outros, mas para muitos não passam de uma bizarrice tediosa e ridícula. Ao encenar corpos nus em suposto enlace erótico, Mascaro recorre ao sensacionalismo mais barato para se dirigir aos pobres de espírito.

Peculiar, por outro lado, é o festival de pênis, flácidos e eretos, promovido em Divino Amor. Em contraposição, o corpo feminino é tratado com extrema discrição, exceção feita ao parto do Messias. No todo, porém, parece haver aí deliberada postura compensatória, invertendo o tratamento usual dado no cinema, em que a nudez da mulher é mais exposta do que a do homem.

Entre as situações e cenas de aparência mais bizarra, três se destacam:

(1ª) Joana é funcionária de um cartório e acumula suas atribuições burocráticas com a atividade de conselheira sentimental de homens e mulheres que pedem certidão de divórcio. O aconselhamento é realizado no Centro Evangélico Amor Divino (não confundir com templos homônimos existentes), onde só entram casais, e envolve terapia sexual na qual a própria Joana e seu marido, o florista Danilo (Julio Machado), têm participação ativa;

(2ª) Danilo toma banho de luz infravermelha no pênis, sustentado de cabeça para baixo por uma armação de metal. Há quem diga que se trata de um tratamento contra infertilidade vindo da China! A conferir;

(3ª) Joana frequenta um drive-thru de oração no qual, sem sair do carro, é aconselhada por um pastor que, invariavelmente, propõe a ela que ouça um hino para aplacar a angústia – a falta de sinal de Deus; não saber quem é o pai do seu filho; não compreender o recado d’Ele.

Algumas das aparentes bizarrices de Divino Amor, na verdade, vêm se tornando quase corriqueiras entre nós. O recurso avançado de consulta que permite acessar através de código de barras dados pessoais de identificação, condições de saúde e código genético, disponível no cartório onde Joana trabalha, é encontrado em alguns estados, e deverá ser implantado em todo o país. Quanto ao drive-thru de oração, há menções à sua existência desde pelo menos 2011, no Rio de Janeiro, em Brasília e São Paulo.

Confirma-se, assim, a semelhança entre o Brasil atual e o do futuro próximo. O que tem sido chamado de visão distópica do país em 2027 não passaria, portanto, de meros flagrantes dos dias atuais. Quanto ao projeto de poder da Igreja Evangélica que Mascaro tanto menciona em suas entrevistas, não vejo nada em Divino Amor que confirme sua existência.

Convém destacar, de outro lado, a fatura de Divino Amor, digna da mais refinada alta-costura. Não há ressalvas a fazer quanto à encenação, modo de filmar, atuação do elenco, fotografia, direção de arte, montagem etc. Pelo contrário, a qualidade da confecção é inegável. Mas, por mais que o filme seja, nesse aspecto, uma demonstração de talento, a analogia que ocorre é um embrulho bem-feito, mas vazio.

Considerando o arrazoado acima, mesmo sem pretender tomar o resultado da bilheteria como critério absoluto para fazer juízo de valor, não surpreende que depois de estrear há duas semanas, em 39 cinemas, Divino Amor tenha sido visto nos quatro primeiros dias por público reduzido de 7 330 pagantes, em média 188 por sala.

Deixando de lado as produções estrangeiras que estrearam na mesma data, Turma da MônicaLaços teve no mesmo período, em 500 cinemas, público de 302 190 pagantes, com média de 604 por sala.

No segundo fim de semana, em 35 cinemas, o púbico de Divino Amor diminuiu 47%, e a média por sala foi de 113 espectadores. Nos 11 dias em exibição, o filme teve ao todo 17 027 pagantes.

O número de cinemas em que Turma da MônicaLaços está sendo exibido aumentou para 505, o público diminuiu 21% no segundo fim de semana, e a média por sala caiu para 473 espectadores. Nos 11 dias em exibição, o filme teve 793 934 pagantes.

Mais que tudo, dados como esses do portal Filme B deveriam nos servir de reflexão sobre filmes brasileiros acolhidos com hipérboles em festivais internacionais que, ao serem lançados no Brasil, não justificam sua própria razão de ser sequer pelo critério subjetivo de excelência artística.

Ao ser exibido em janeiro no Festival de Sundance, um crítico chegou a escrever que Divino Amor “é um filme chocante, maravilhosamente interpretado e surpreendentemente erótico que levanta mais perguntas do que respostas, como qualquer bom filme que ousa enfrentar a vastidão da fé deve fazer”.

O que dizer diante de um encômio desse teor? No caso de Divino Amor, o mais indicado seria desconsiderá-lo para evitar autoengano.

 

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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