questões das redes

A droga da desinformação

Publicações falsas ou enganosas sobre remédios sem efeito comprovado contra Covid-19 são um terço das verificações do Comprova no último mês

Plínio Lopes
11jun2020_18h10
Ilustração de Paula Cardoso

No dia 1º de junho, o ex-senador Magno Malta compartilhou um vídeo gravado por uma médica de Porto Seguro, na Bahia, sobre o protocolo municipal para o uso de remédios como hidroxicloroquina, ivermectina e nitazoxanida no combate à Covid-19. Na legenda, o ex-senador escreveu que a “médica desmascarou governadores e prefeitos” e afirmou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) “sempre esteve certo com relação à cloroquina”. Checado pelo projeto Comprova – coalizão que reúne 28 veículos de comunicação (inclusive a piauí) para verificação de boatos –, o conteúdo se mostrou falso: a médica não “desmascara” nenhum político e não faz referência ao presidente na filmagem. E a cloroquina não tem eficácia comprovada contra o Sars-Cov-2.

Assim como a cloroquina, a hidroxicloroquina, a ivermectina e a nitazoxanida, remédios cuja ação contra a Covid-19 não tem comprovação científica até o momento, estão no centro dos conteúdos falsos e enganosos verificados pelo Comprova. Dos 23 conteúdos checados pelo projeto entre 10 de maio e 10 de junho, oito, ou seja, pouco mais de um terço, envolviam os remédios citados. Juntas, as publicações foram visualizadas mais de 3 milhões de vezes nas redes sociais e tiveram mais de 500 mil interações – como curtidas, comentários e compartilhamentos.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe vacina ou medicamento antiviral específico para prevenir ou tratar a doença. Estão em curso inúmeras pesquisas com as drogas citadas para descobrir se elas podem ajudar no combate ao novo coronavírus. Porém, ainda não existem resultados conclusivos.

Nas publicações verificadas pelo Comprova, o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina foi associado a supostas altas de pacientes em um hospital do Piauí, ao aumento no número de recuperações de pacientes com Covid-19 no Brasil e a uma suposta conspiração da indústria farmacêutica, entre outros. Seis conteúdos ligados ao medicamento receberam o selo de conteúdo falso ou enganoso. Utilizada contra a malária e doenças autoimunes, a hidroxicloroquina e a cloroquina – combinada ou não com algum antibiótico – obtiveram resultados iniciais promissores. O medicamento passou a ser defendido publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). No final de março, o Ministério da Saúde autorizou o uso da droga para pacientes em estado grave, a critério do médico. Desde maio, a orientação vale também para casos leves e moderados.



Estudos mais recente, porém, colocaram em dúvida a eficácia das duas drogas contra a Covid-19. Duas publicações médicas reconhecidas no mundo todo – o Journal of the American Medical Association (Jama) e o British Medical Journal (BMJ) – publicaram estudos que concluíram que os pacientes tratados com cloroquina e hidroxicloroquina não tiveram resultados significativamente melhores do que aqueles que não receberam os medicamentos. 

Em 3 de junho, o New England Journal of Medicine (NEJM) publicou um estudo “padrão ouro” – ou seja, que seguiu todos os padrões do método científico, como pacientes randomizados, grupo controle e testes duplo-cego – com 821 voluntários que tiveram contato com infectados pelo novo coronavírus nos Estados Unidos e no Canadá, mas ainda não apresentavam sintomas da Covid-19. O objetivo era descobrir se a droga se mostrava eficiente como forma de prevenir o aparecimento da doença. Os pesquisadores concluíram que a incidência “não diferiu significativamente entre os pacientes que receberam hidroxicloroquina e os que receberam placebo” e que “os efeitos colaterais foram mais comuns com a hidroxicloroquina do que com o placebo, mas nenhuma reação adversa grave foi relatada”. Na sexta-feira (5), o projeto Recovery, da Universidade de Oxford, anunciou que não encontrou benefícios clínicos da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes hospitalizados. Com isso, decidiram encerrar novos testes utilizando a droga.

A ivermectina, medicamento usado para o tratamento contra vermes e parasitas, apareceu em três checagens feitas pela coalizão de checadores. Uma das verificações é sobre um vídeo gravado pela médica Lucy Kerr afirmando que o novo coronavírus “tem cura”. Procurada pelo Comprova, ela justificou a afirmação dizendo que os dados seriam observacionais, ou seja, que ela e outros médicos teriam visto o efeito na prática durante o tratamento de pacientes. Relatos de experiência observacionais não substituem teste clínicos, já que a doença não evolui para quadros graves em, pelo menos, 81% dos casos, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde.

O remédio ficou popular no debate público depois da publicação de um estudo feito por pesquisadores da Universidade Monash e do Hospital Royal Melbourne, ambos na Austrália, que demonstrou que o medicamento é capaz de matar o novo coronavírus in vitro – ou seja, fora do corpo humano e dentro de um laboratório – em 48 horas. Porém, os próprios cientistas pediram cautela sobre a descoberta e disseram ser necessário testes clínicos para avaliar a eficácia do remédio.

Mesmo assim, os conteúdos enganosos tratam a ivermectina como uma “cura” para a Covid-19. A maioria se baseia, também, em um estudo assinado por quatro pesquisadores dos Estados Unidos, entre eles o engenheiro biomédico Amit Patel, da Universidade de Utah. A pesquisa mostrou que pacientes tratados com ivermectina teriam tido taxas de letalidade menores tanto no geral (1,4% contra 8,5%) quanto entre os que precisaram de ventilação mecânica (7,3% contra 21,3%), em uma análise com 1.408 pessoas hospitalizadas em razão do novo coronavírus.

Na conclusão, os cientistas que assinam o estudo ressaltam que “embora relatamos um forte sinal de potencial benefício na Covid-19, os dados não podem ser considerados conclusivos, pois fatores de confusão desconhecidos não podem ser sempre contabilizados” e complementam afirmando que “estes achados precisam de confirmação em estudos controlados e randomizados”. Os dados utilizados neste estudo sobre a ivermectina foram fornecidos pela empresa Surgisphere – a mesma que está no centro da polêmica de dois estudos sobre hidroxicloroquina publicados revistas The Lancet e NEJM que foram retratados após a empresa negar acesso às informações por auditorias independentes. Até o momento, não foram publicados estudos conclusivos sobre o uso da substância.

O vermífugo nitazoxanida aparece em uma verificação feita pelo Comprova, justamente na publicação compartilhada pelo ex-senador Magno Malta. A substância ficou conhecida depois que o ministro Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, divulgou que o ministério teria encontrado um remédio com 94% de eficácia em células contaminadas. Na época, o ministro não divulgou o nome do medicamento para evitar que as pessoas procurassem o remédio nas farmácias, como aconteceu com a hidroxicloroquina. Um dia depois, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma resolução que restringia a venda do medicamento.

O Boletim Ética em Pesquisa, da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), passou a listar dois ensaios clínicos com a nitazoxanida a partir do dia 17 de abril. De acordo com o último boletim, do dia 2 de junho, existem três testes clínicos sendo realizados com a substância: um com 50 participantes no Hospital Vera Cruz, de São Paulo; um com 500 participantes na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e outro com 392 participantes também na UFRJ.

Dois artigos científicos foram citados na verificação sobre a nitazoxanida. Um deles é uma revisão de 1.315 artigos publicada no Jama, em 13 de abril. Os pesquisadores escrevem que o medicamento “possui ampla atividade antiviral e um perfil de segurança relativamente favorável” e que testes in vitro demonstraram eficácia contra o Sars-Cov-2. Dessa forma, defendem a continuidade de estudos com a droga para encontrar mais evidências, mas que estas ainda estavam “pendentes”.

O outro é um preprint – ou seja, que não foi publicado oficialmente em nenhuma revista científica – assinado por médicos do St. Joseph Medical Center, em Tacoma, nos Estados Unidos, que “resume evidências convincentes para avaliar o NTZ (nitazoxanida) em ensaios clínicos” como tratamento da Covid-19. A pesquisa apresenta os mecanismos de atividade antiviral do remédio, entre outros aspectos, e conclui que “são necessários ensaios urgentes para testar a eficácia” da nitazoxanida, de modo a expandir as possibilidades de combate à doença. 

Procurado pelo Comprova, o ex-senador Magno Malta não respondeu aos questionamentos e bloqueou dois jornalistas no WhatsApp. Em entrevista ao Comprova, a médica Raissa Soares afirmou que o vídeo é “descontextualizado da questão política” e que a intenção era apenas sugerir a aplicação de protocolo na cidade e na região. Em relação à legenda que foi adicionada ao vídeo por outras pessoas, afirmando que o presidente Bolsonaro estaria certo sobre a cloroquina, ela afirma que “não é verdade absoluta, porque a hidroxicloroquina é uma prescrição médica”.

*

As verificações citadas no texto foram feitas pela equipe do Comprova, com participação de jornalistas dos seguintes veículos: Estadão, UOL, BandNews FM, Exame, SBT, Folha de S. Paulo, Poder360, A Gazeta, Sistema Jornal Commercio e revista piauí. Você pode acessar todas elas no site do Projeto Comprova: https://projetocomprova.com.br/

Plínio Lopes (siga @Plluis no Twitter)

Repórter freelancer, trabalhou na Agência Lupa e é especializado em jornalismo de dados e fact-checking

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