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E agora, José?

As credenciais democráticas do PT são melhores do que as de Bolsonaro, mas não são indiscutíveis

Sergio Fausto
02out2018_07h30

O verso do poema de Drummond me vem repetidamente à cabeça agora que parece inevitável aos democratas não petistas decidirmos se e em quem votar num segundo turno que vai opor, muito provavelmente, Haddad a Bolsonaro.

“Ele não”, sem dúvida, de acordo. Daí não decorre que estejamos automática e moralmente obrigados a apoiar o candidato do PT no segundo turno, e muito menos que devamos suspender temporariamente o juízo crítico sobre o partido e o que a sua volta ao poder pode vir a representar. Antes que me acusem de poupar o PSDB, aviso: neste momento, não vale a pena gastar muita tinta com um partido que perdeu relevância e protagonismo por uma longa lista de erros e pecados próprios.

O PT debita em conta alheia a exacerbada polarização que acometeu a sociedade brasileira. O partido, porém, tem culpa nesse cartório, e não é pequena. A retórica do “nós contra eles” nasceu como uma resposta consciente do PT em face da crise do “mensalão”. Tudo não passaria de uma farsa jurídica manipulada pelas “elites” contra o “governo popular” e seu líder máximo. Como a estratégia deu bom resultado eleitoral, reelegendo Lula, o partido dobrou a aposta: e dá-lhe Petrolão!

Pilhado novamente, na companhia de outros partidos, o PT repetiu a dose, agora com esteroides. Quanto maior a corrupção descoberta, mais intensa a retórica do “nós contra eles”. Para amplificar a narrativa da “conspiração das elites”, o partido mobilizou uma rede de blogs petistas alimentada com recursos de empresas estatais e privadas beneficiadas pelos esquemas do Petrolão, além de acadêmicos que substituíram o pensamento crítico pela militância política.

Tão ruinoso foi o governo de Dilma Rousseff e tão estarrecedoras foram as revelações da Lava Jato que a mobilização ao final não foi suficiente para impedir o fim precoce do segundo governo da ex-presidente. Também contribuiu para esse desenlace o comportamento irresponsável da bancada do PSDB, em particular na Câmara, sob a liderança do senador Aécio Neves, que se aliou ao deputado Eduardo Cunha em torno das “pautas-bomba”.



A autocrítica jamais feita pelo PT deve ser feita por quem apoiou o impeachment, entre os quais me incluo. Não foi um golpe, mas um erro, embora houvesse fundamento constitucional, e talvez mesmo um pecado, que não fez bem à democracia e contribuiu para que a estratégia petista de vitimização do partido e de seu líder maior surtisse efeito.

O resto é história recente e conhecida: o novo governo, e junto com ele o PSDB, a despeito dos alertas de Alckmin, se embrulharam na crise produzida pelo governo anterior; Temer passou a ser o novo objeto da frustração popular; a patota peemedebista ligada ao vice de Dilma, bem como lideranças tucanas, foram apanhadas na Lava Jato; o novo governo e o PSDB se afundaram na impopularidade e levaram consigo a agenda de reformas, devolvendo ao PT a chance de se reerguer.

O PT de fato se reergueu, parcialmente que seja, um feito político extraordinário para quem corria o risco de se tornar apenas um retrato pendurado na parede. É hoje, porém, um partido muito pior do que poderia ter sido não fossem decisões deliberadas que tomou no primeiro governo Lula (aliás, sob vários aspectos, um bom governo).

Os erros e pecados petistas em sua encarnação federal começaram pela estigmatização desonesta do governo FHC e pela escolha do “mensalão” como método de formação de maioria no Congresso. Decisões trágicas cujas consequências não tão imprevisíveis desafiaram o PT. Em lugar de se rever, o partido preferiu enveredar mais fundo pelo caminho da imoralidade pública e da confrontação política.

A regressão do PT se expressa no programa que o partido apresentou para as eleições presidenciais deste ano. A par de considerações justas sobre a necessidade de tornar menos regressivo o sistema tributário, a parte econômica se resume a reiteração do “modelo de desenvolvimento” testado e reprovado no governo Dilma, um amplo conjunto de promessas distributivistas (falsas diante da gravidade da situação fiscal que os governos do PT contribuíram decisivamente para gerar) e exotismos populistas (a exemplo da proposta de tributar os bancos em função do spread aplicado em suas linhas de crédito, qualificada de “ideia maluca”, por ninguém menos do que Bernard Appy, integrante da equipe econômica do PT no primeiro governo do presidente Lula).

Não menos ruim é a parte do programa que se refere à “democratização” do Estado e à democratização da mídia (tema relevante, mas mal colocado pelo PT na agenda pública). Seria exagero dizer que ali se encontra um ideário chavista, mas há elementos dele, embebidos no espírito de refundar a democracia pela via de um processo constituinte: extensão ao presidente do poder de convocar referendos e plebiscitos (na Constituição atual, esse é poder exclusivo do Congresso) e propostas de aumento do “controle social” sobre órgãos estatais, desde as agências reguladoras até o Judiciário, passando pelo Ministério Público. Para não falar na estapafúrdia proposta de recriação da Empresa Brasileira de Comunicação, apelidada de “TV do Lula”, cabide de emprego para jornalistas amigos do governo de turno.



Dada a tradição petista de aparelhamento do Estado, cooptação da sociedade civil e doutrinamento político-cultural, essas propostas desenham um quadro preocupante. Preocupação agravada pelo histórico apoio de líderes do PT à ditadura cubana e, ainda agora, aos governos homicidas de Daniel Ortega e Nicolás Maduro. Conhecendo o PT como já tivemos a oportunidade de conhecer, por experiência e não por ouvir dizer – ao contrário de intelectuais e políticos estrangeiros embasbacados pela mística lulista –, é irresponsável descartar tais propostas como mera retórica para agradar as bases do partido.

A quem achar que estou exagerando, recomendo o excelente artigo de Vinicius Mota publicado na semana passada na Folha de S.Paulo, em que o jornalista destaca o arrependimento manifesto pelo Diretório Nacional do PT por não ter o partido avançado mais na politização de instituições do Estado. Se ainda não estiver convencido, que leia a recente entrevista de José Dirceu ao El País, em que o “guerreiro do povo brasileiro” afirma que depois de ganhar a eleição, mais cedo do que tarde, aí sim o PT tomará o poder.

Haddad é melhor do que isso? Sim, mas nunca teve a coragem para enfrentar abertamente o pensamento hegemônico no partido. Politicamente não é dono de si mesmo nem tem liderança sobre o PT, onde é um estranho no ninho. É muita inocência supor que Lula o levará, teleguiado, pelo bom caminho. A inocência consiste em presumir que Lula conheça o bom caminho de uma social-democracia atualizada, e que o partido o seguirá para alegria íntima, quem sabe, do “Fernando”.

Lula não é Chávez nem o PT pretende, ainda que pudesse, venezualizar o Brasil. Isso não é suficiente, porém, para no segundo turno marcharmos bovinamente para o campo petista, sob o argumento de que Bolsonaro representa uma ameaça à democracia. Seu discurso, a começar pelo enaltecimento de torturadores, é inaceitável. Em certa medida e em certas condições, ele pode vir a representar, sim, um retrocesso autoritário.

Sem dúvida melhores que as de Bolsonaro, as credenciais democráticas do PT não são, porém, indiscutíveis. Tampouco os riscos que o “projeto petista”, se parar de pé, coloca, a médio prazo, para a política democrática e o desenvolvimento do país. O petismo é cada vez mais um peronismo tropical. Com ele, crescem os já grandes riscos de o Brasil deslizar, com mais rapidez e maiores custos sociais, no mesmo plano inclinado que a Argentina tem percorrido desde a metade do século passado.

Se quer ter chance de receber no segundo turno o voto daqueles que, fora do campo do PT, se opõem a Bolsonaro, Haddad deve logo dizer o que verdadeiramente pensa sobre o programa que seu partido apresentou. E assumir compromissos públicos com o que pretende fazer na condução do Estado e da economia se vier a ser eleito.

Em qualquer hipótese, no segundo turno e depois dele, o mais importante é cerrar fileiras para que o resultado das urnas não sofra questionamento, as liberdades não sejam arranhadas e a exaltação e a intolerância, ora reinantes, não levem o país a uma escalada de violência política.

Cada coisa a seu tempo: no próximo domingo, para os democratas não petistas, trata-se de dizer não a Bolsonaro e não ao PT, escolhendo um candidato ou uma candidata que, na opinião de cada qual, melhor represente uma visão de país diferente das que sustentam a dupla à frente das pesquisas. O meu voto não é segredo: Geraldo Alckmin.

Sérgio Fausto

Sergio Fausto

É cientista político e superintendente da Fundação Fernando Henrique Cardoso

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