colunistas

Em defesa das pesquisas brasileiras

Nossos levantamentos de intenção de voto estão entre os melhores do mundo e serão mais importantes do que nunca em 2018

Lucas de Abreu Maia
18ago2018_07h30

“Eu estou aqui para confundir, eu não estou aqui para explicar”, bordão de Chacrinha, bem que podia ser o lema de todo o candidato. Claro que isso implicaria uma honestidade insuspeita de qualquer postulante a cargo público, mas se o eleitor adotar a sabedoria do Velho Guerreiro como evangelho eleitoral, ficará um pouco menos confuso.

Nenhuma ferramenta é tão usada pelos políticos para confundir quanto as pesquisas de intenção de voto. Acontece que a eleição de 2018 é a mais imprevisível de nossa breve democracia. Justamente por isso, as pesquisas de opinião pública serão ainda mais importantes neste ano. Com tanta gente sem fé na política e indecisa quanto ao próprio voto, é possível que a margem de erro dos institutos nesta eleição seja maior que o de costume. Ainda assim, elas serão nossa melhor ferramenta para entender o que se passa na cabeça de quem vai às urnas em outubro.

A campanha mal começou e os candidatos já entoam a ladainha. No debate da semana passada, na Band, Cabo Daciolo queixou-se de não ter sido incluído em qualquer pesquisa até agora. Convenientemente, ele não mencionou que foi ele mesmo a proibir seu partido de divulgar sua pré-candidatura porque estava de jejum religioso. Geraldo Alckmin, empacado em percentual de intenções de voto com um único dígito, prega em público que pesquisa antes do início da campanha é palavra vazia – enquanto, em privado, reza para que isso seja verdade. E os seguidores de Jair Bolsonaro alardeiam apenas os levantamentos de intenção de voto que lhes convém: se o ex-capitão sobe, a pesquisa é boa nova; se cai, é heresia.

Adotar os institutos de pesquisa como Judas é discurso velho na política brasileira. No dia seguinte às eleições, jornalistas e candidatos, por maldade ou ignorância, apregoam que as pesquisas teriam errado mais uma vez. A suposta evidência para isso seria apenas a diferença – frequentemente mínima – entre os percentuais nos levantamentos de véspera e os votos apurados.

Vistos em contexto, porém, os dados revelam o oposto. As pesquisas brasileiras talvez sejam as melhores do mundo.

Em análise que fiz para o Estadão Dados, núcleo de jornalismo de dados de O Estado de S. Paulo, em 2014, descobri que, entre 2002 e 2010, as pesquisas de véspera de eleição presidencial no Brasil diferiram apenas cerca de 2 pontos percentuais do resultado oficial. O cientista político Marcus Figueiredo já revelara, em artigo na Folha de S.Paulo em 2002, que até então a média de erro dos institutos brasileiros era aproximadamente de 1 ponto percentual.

Estatisticamente, isso não é nada. Como comparação, nos Estados Unidos, a diferença média entre as pesquisas e o resultado das eleições presidenciais gira em torno de 4 pontos percentuais, de acordo com o estatístico americano Nate Silver, editor do site FiveThirtyEight. No Reino Unido, o erro é, na média, de cerca de 7 pontos percentuais. Na verdade, as pesquisas no Brasil têm resultado melhor que em qualquer outro país, de acordo com uma comparação de 2017 dos cientistas políticos Will Jennings e Christopher Wlezien.

Há várias explicações para isso. Os institutos mais tradicionais, como Ibope e Datafolha, usam o método mais confiável de todos para conduzir suas entrevistas: cara a cara. Nele, os pesquisadores vão até a casa do eleitor ou o abordam na rua para questioná-lo. Nos Estados Unidos, quase todas as pesquisas são feitas por telefone. Naturalmente, muito mais gente se recusa a responder um interrogatório telefônico do que um feito pessoalmente. A taxa de recusa – aqueles eleitores que declinam responder o questionário – passa dos 90% nos levantamentos telefônicos. Nas pesquisas cara a cara, essa taxa gira em torno dos 20%. Por isso mesmo, as pesquisas feitas pessoalmente são muito mais representativas da população.

Entre acadêmicos, já foi moda questionar a forma como os entrevistados dos institutos brasileiros são selecionados. É que, na teoria estatística, quanto mais aleatório for o processo de amostragem, mais representativa essa amostra será. A ideia é fácil de entender: quanto mais o pesquisador interfere deliberadamente no processo de escolha de quem será ouvido, maiores as chances de ele incluir suas opiniões e preconceitos no resultado final.

Só que fazer uma pesquisa de opinião pública de modo puramente randômico é praticamente impossível. Imagine sair por todo o Brasil, ao léu, entrevistando pessoas aleatoriamente. Seria necessária uma amostragem gigantesca para garantir que, de fato, ela fosse representativa da população brasileira. E quem decidiria onde ir e quem entrevistar, de qualquer forma?

Em vez disso, os principais institutos brasileiros adotam um método muito mais razoável: eles olham para os dados do IBGE e, a partir deles, dividem o país com base em características demográficas – idade, gênero, religião, região do país, renda, escolaridade etc. Assim, eles sabem exatamente onde ir e quem ouvir. A despeito das críticas de alguns acadêmicos, essa metodologia já é aceita por quase todos os estatísticos. Mesmo a pesquisa de opinião pública mais renomada em todo o mundo, a American National Election Studies, da Universidade de Michigan, divide a população em estratos para determinar sua amostragem.

As pesquisas brasileiras têm ainda uma última vantagem em comparação às americanas: o número de entrevistados. No Brasil, ele gira em torno de 2 mil pessoas. Nos Estados Unidos, a maioria ouve somente 800 eleitores e, por isso, a margem de erro é maior.

O preço de tanto rigor é que as nossas pesquisas são muito caras. Por isso mesmo, temos relativamente poucas delas. No equilíbrio entre quantidade e precisão, os institutos brasileiros tendem a preferir a precisão, enquanto os americanos preferem fazer mais levantamentos, pagando menos por eles.

Mas, se nossos institutos são tão bons, por que a confusão? Ao contrário do que tentam nos convencer os candidatos, pesquisa de intenção de voto não é profecia. A intenção não é prever resultado. Em vez disso, o objetivo é muito mais modesto: os levantamentos simplesmente nos ajudam a entender como o público reage à campanha.

Por isso, eleitor, desconfie da próxima vez em que um candidato tentar te ensurdecer com a ladainha acerca das pesquisas de intenção de voto. As chances é que ele esteja tentando te confundir, em vez de explicar.

Lucas de Abreu Maia (siga @lmaia no Twitter)

É jornalista e doutorando em ciência política na Universidade da Califórnia, San Diego. Foi repórter de O Estado de S. Paulo e Exame

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