questões biométricas

Em Salvador, eleitor passa a noite em fila para poder votar em outubro

Recadastramento na capital baiana acaba dia 31 e 37% dos eleitores ainda não fizeram a biometria; espera levava até cinco horas na sexta-feira

Victor Uchôa
22jan2018_14h27
Eleitores esperam em fila no TRE, em Salvador, em 19 de janeiro. Comércio informal foi criado no entorno do prédio, com aluguel de cadeiras e venda de comida. A construtora MRV aproveitou para montar balcão para clientes do Minha Casa Minha Vida no local, com corretores explicando o financiamento
Eleitores esperam em fila no TRE, em Salvador, em 19 de janeiro. Comércio informal foi criado no entorno do prédio, com aluguel de cadeiras e venda de comida. A construtora MRV aproveitou para montar balcão para clientes do Minha Casa Minha Vida no local, com corretores explicando o financiamento FOTO: VICTOR UCHÔA

Sílvia Souza está impaciente. Mexe nas unhas, levanta a vista, escaneia o ambiente, balança a cabeça em negação e, repetindo o ciclo, volta a atenção às unhas. A fila do Tribunal Regional Eleitoral em Salvador, onde Sílvia aguarda há quase 10 horas para fazer o recadastramento biométrico e poder votar nas próximas eleições, anda um pouco mais.

A auxiliar de construção civil de 34 anos recolhe do chão dois volumes que deixou encostados na grade ao lado da fila. Em uma das  mãos, agora leva uma sacola com cobertor e travesseiro, e, na outra, um guarda-sol. Este é o terceiro encontro de Sílvia com a fila do TRE baiano. Nas outras duas vezes ela desistiu, por causa da demora e do calor. Desta vez, como ela disse, veio para “resolver de vez esse negócio”. Chegou na noite anterior e dormiu no chão, sob o prédio anexo ao Tribunal.

“Cheguei 11 horas da noite. Dormi aqui mesmo, no concreto. E pra piorar tinha um mundo de muriçoca e um pessoal aí na zoada do dominó a madrugada inteira. Mas é isso, né? De hoje não passa”, disse Sílvia, às 8h45 da última sexta-feira, dia 19. Assim como ela, cerca de 500 outras pessoas haviam passado a noite ou chegado ali de madrugada, com cobertores e alimentos trazidos de casa.

A batalha de Sílvia é pelo recadastramento biométrico exigido pelo Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, para que cidadãos de 230 municípios brasileiros não tenham o título de eleitor cancelado. Na Bahia, o limite é 31 de janeiro. A Bahia é o estado em que o processo pode levar mais pessoas a perderem as eleições deste ano: conforme o último balanço do TSE, de 22 de janeiro, 1,3 milhão de eleitores baianos (12% do total do estado) não havia passado pelo ritual biométrico nas cidades onde a revisão é obrigatória.

A situação é mais emergencial na capital, onde 742 mil eleitores, 36,9% do total de 2 milhões de eleitores, deixariam de votar se a eleição fosse hoje. Questionado pela piauí, o TRE-BA informou que cerca de 38 mil recadastramentos têm sido realizados por dia no estado. Em Salvador, a média diária é de 13 mil registros. Caso essa média não mude, mais 130 mil eleitores serão recadastrados na capital baiana entre esta segunda-feira e o dia 31 – ainda assim, 612 mil pessoas (30% do eleitorado) ficarão sem direito a voto.

O recadastramento obrigatório em Salvador começou em novembro de 2016. Até dezembro do ano passado, os baianos podiam agendá-lo pela internet. Mas, segundo o TRE, as ausências diárias chegavam a 40% e nem a tática do overbooking preenchia a lacuna. A corte então decidiu suspender o agendamento e adotou a ordem de chegada.

Com a proximidade do prazo final, formou-se a fila. Nas duas primeiras semanas de janeiro, ela atingiu seu auge (até agora). Nos piores momentos, chegou a 1 quilômetro de extensão. Ocupava todo o vão abaixo das salas do TRE (originalmente um estacionamento) e, após se dobrar dez vezes sobre si mesma, subia a rampa dos carros e alcançava a rua de acesso ao Tribunal no Centro Administrativo da Bahia, bairro da capital que reúne órgãos públicos.

 

Sílvia tentou se recadastrar pela primeira vez na primeira semana de janeiro. Ela levou a mãe de 63 anos para, juntas, realizarem a biometria. Na fila de prioridade, a idosa esperou mais de uma hora, e foi atendida. A previsão de espera para Sílvia era de mais quatro horas na fila convencional. Ela foi embora. “Tenho um menino de dois anos em casa que não para. Como eu ia ficar aqui?”, disse.

Na quarta-feira, 10 de janeiro, ela folgou no serviço e voltou ao TRE. Depois de quatro horas, desistiu de novo. Naquela semana, o noticiário local registrava que a espera chegava a doze horas. O assunto tomou a cidade. Jornalistas davam plantão, não só da sede do TRE, mas também de outros postos de atendimento em Salvador e no interior.

As horas de espera no Tribunal logo viraram meme nas redes sociais. “Não deseje o mal a quem te faz mal, deseje a fila do TRE”, aponta um deles. Outro faz alusão à Lavagem do Bonfim, celebrada no último dia 11. O jargão da tradicional festa popular ensina que “Quem tem fé vai a pé” – no caso, até o Bonfim. No meme, uma foto da fila é acompanhada de uma sutil adaptação: “Lavagem do TRE. Quem tem fé fica em pé.”

Nos últimos dias, a média de espera na fila do TRE tem sido de cinco horas, uma queda em relação às duas primeiras semanas do ano. Ninguém sabe ao certo se o cenário repeliu parte dos eleitores, que resolveu ignorar a biometria, ou se foi um arrefecimento que precede dias ainda mais movimentados na reta final do prazo.

No meio do verão baiano, os eleitores não tiveram opção a não ser se armar contra a fila. Trazem cadeira de praia, banquinho de plástico, guarda-sol. Um balcão de negócios formou-se por ali. Um dos mais procurados era o aluguel de cadeiras plásticas, a 5 reais cada uma – com tempo livre de uso.

Inicialmente, apenas o pedreiro Rogério Cardoso oferecia o serviço. Mas, ao afirmar para o jornal Correio que seus lucros chegavam a 250 reais por dia, ele mesmo atraiu a concorrência. Os problemas na realização do recadastramento biométrico chegaram a causar brigas nesse comércio informal criado no entorno do TRE. Um dos locadores de cadeiras plásticas, além de alugar, passou a deixar cadeiras marcando posição durante a madrugada. Pela manhã, vendia as vagas por valores entre 30 e 40 reais.

Na manhã da última sexta-feira, mais eleitores que passaram a noite em vigília se revoltaram e partiram para cima do locador fura-fila. A guarda da Segurança Institucional do TRE-BA teve de ser acionada para conter a briga e, depois do episódio, barrou o negócio das cadeiras sob a marquise do Tribunal. Agora, os eleitores que quiserem alugar o assento só podem fazê-lo no estacionamento da entrada da corte, onde os estoques ocupam calçadas e canteiros.

 

Por lei, nenhum comércio poderia ser realizado no perímetro da corte eleitoral, mas o órgão admite que flexibilizou a norma por entender que a fila criou um “cenário anômalo”, com milhares de pessoas aglomeradas durante horas num período do ano em que a temperatura não baixa dos 30ºC. A variedade de ofertas é surpreendente: água de coco, sucos, salgados, bolos, sorvete, cafezinho, cuscuz, mingau, carne de sol com feijão-tropeiro, frango com arroz e frutas da época como seriguela, manga e umbu são algumas das opções. Os produtos são anunciados aos berros ou mesmo com caixas de som portáteis, o que adiciona poluição sonora ao ambiente já angustiante.

Nos arredores da fila circulam também vendedoras de chip de celular e até ambulantes que alugam o próprio celular para chamadas: dois minutos custam 2 reais. A construtora MRV montou um balcão para atrair possíveis clientes do Minha Casa Minha Vida, com corretores tirando dúvidas sobre financiamento e cadastrando possíveis interessados. Já a representante de cosméticos Celiane Santos, além de vender produtos, garimpa futuras revendedoras. “Estou aqui só há dois dias e me arrependi. Era para ter vindo há duas semanas.”

Quanto à servente Sílvia –agora perto de finalmente ser recebida para o ritual burocrático (cadastramento das digitais dos dez dedos das mãos, foto digital e assinatura com caneta eletrônica) –, não quer “pensar nessa fila nunca mais”. “Só vim porque tinha companhia. Já estava quase deixando para lá”, disse, pouco antes de enfim entrar no espaço reservado à biometria, às 8h55 da última sexta-feira, junto com a prima Lariza e o cunhado Edmar.

Ainda que quase 40% do eleitorado de Salvador esteja sob risco de ficar sem título, o presidente do TRE-BA, desembargador José Edivaldo Rotondano, descarta dilatar o prazo. “Passamos todo o ano de 2017 chamando e informando o prazo. Pelo eleitorado que temos, até 31 de janeiro era tempo suficiente. Montamos uma grande estrutura, espalhamos postos pela cidade, mas as pessoas deixam para última hora. Temos que aprender a cultura de cumprir os prazos”, disse ele à piauí, em seu gabinete.

Há um outro prazo em vigor, o de 9 de maio, limite do calendário eleitoral para emissão do 1º título, transferência de domicílio e regularização de quem passou três pleitos sem votar ou justificar – e que foi apontado pela assessoria do TSE como uma segunda data-limite, quando questionada pela piauí sobre os atrasos. Rotondano afirma, porém, que apenas em fevereiro a corte regional na Bahia vai deliberar se as pessoas que terão o título cancelado por perderem a revisão biométrica poderão regularizar a situação até essa data de 9 de maio. “São regularizações diferentes, a de quem perder o recadastramento e a de quem não votou. Por isso, ainda vamos decidir se haverá nova oportunidade para revisão.”

Victor Uchôa

Jornalista, formado pela Universidade Federal da Bahia. Trabalhou no Correio (BA) e no Grupo Metrópole

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