questões eleitorais

Engarrafamento de candidatos

Partidos lançam 35% mais candidaturas a prefeito nas cidades médias sem segundo turno para tentar sobreviver

Lianne Ceará
22out2020_09h04
Intervenção de Paula Cardoso com ilustração de Yaska_/Shutterstock sobre foto reprodução de internet

Nascida e criada em Iguatu, no Ceará, a 364 km de Fortaleza, a comerciante Régia Ferreira, 56, sabe de cor os acontecimentos mais importantes do último meio século na cidade. Era criança na enchente de 1974, quando as águas do Rio Jaguaribe inundaram a cidade e sua família teve de se abrigar numa oficina. Ela se lembra da visita à cidade do candidato à Presidência Mário Covas, em 1989, e acompanhou bem a greve dos professores em 2014. Mas não se lembra de uma eleição municipal com tantos candidatos a prefeito como esta de 2020. Iguatu tem pouco mais de 65 mil eleitores, e a eleição começou com um número recorde de chapas para prefeito: são nove no total. É mais que o dobro das chapas registradas nas eleições de 2012 e 2016, quando apenas três candidatos disputaram o comando do município. Uma das candidaturas foi indeferida, e Iguatu, no Centro-Sul cearense, com seus oito candidatos, vive intensamente o reflexo do aumento de 16% nas candidaturas para prefeito em todo o Brasil. Nas cidades de médio porte, de 50 mil até 200 mil eleitores, que não realizam segundo turno, o cenário é ainda mais pulverizado.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisados pela piauí, nos municípios medianos, o total de candidaturas a prefeito subiu 35%, mais que o dobro da média do país. Isso se deve, principalmente, ao fim das coligações nas eleições para vereador. Se antes os partidos menores se coligavam aos maiores para eleger os donos das cadeiras nas Câmaras, hoje isso não é mais possível. Cada partido lança candidato a prefeito para ajudar a lembrar o número da legenda e funcionar como puxador de votos na chapa. 

Das 360 cidades analisadas, só uma tinha em 2016 mais de dez candidatos. Este ano, são 29 – um aumento de 2.800%. Em 2012, nenhuma dessas cidades tinha mais de uma dezena de candidaturas. As cidades com cinco ou mais candidatos também cresceram de 94 em 2012, para 271 este ano. Em contrapartida, o número de cidades com apenas dois candidatos está em queda, eram 46 em 2012; hoje, apenas 13. O município com maior número de candidaturas a prefeito registradas este ano é Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro, com 16 registros e pouco mais de 151 mil eleitores. Em 2016, eram só seis candidatos a prefeito. André Costa, advogado e presidente do Instituto Eleitoral de Direito Cearense (ICEDE), diz que o aumento de candidaturas é consequência direta da mudança na coligação. “Só teremos uma análise sobre a influência disso nas eleições municipais de 2020 quando saírem os resultados. Penso, mesmo sem dados oficiais, que esse aumento guarda relação com a impossibilidade de coligação na eleição proporcional”, avalia. 

A multiplicação de candidatos é só uma das peculiaridades da eleição deste ano. Outra é o tempo curto de campanha, menos de cinquenta dias, por causa da pandemia de Covid-19. É o menor período de campanha desde a redemocratização. Isso tudo acaba dificultando a campanha para partidos menores e nomes novatos – e beneficiando os candidatos cujos nomes já são conhecidos pelo eleitor, e, principalmente, os candidatos à reeleição. A multiplicação de candidaturas acaba dividindo o eleitorado da oposição. Como não há segundo turno, ninguém precisa ter maioria absoluta.



Em Iguatu, o prefeito Ednaldo de Lavor (PSD) é candidato a mais um mandato. A oposição, que antes girava em torno de dois outros candidatos, agora se vê dividida com o lançamento de candidaturas vindas de partidos que nunca antes tinham disputado eleição na cidade, como PL e PSTU. Para o eleitor, pode parecer uma corrida tumultuada, e alguns candidatos podem cair no esquecimento. “Quantos mais são candidatos? Na verdade, dois ou três são destaque. Se você perguntar quem são os outros, ninguém sabe”, diz a comerciante Régia sobre a disputa. Assim como em outras cidades, a pandemia interferiu no ritmo da campanha de Iguatu, que contou 87 mortos e 3.831 casos de Covid-19. Terra de cearenses ilustres ligados à música, como Humberto Teixeira, letrista de Asa Branca, Iguatu chorou em 2020 a perda de Evaldo Gouveia, autor de Sentimental Demais e Alguém me Disse. A mesma pandemia que levou o seresteiro nascido numa cidade vizinha, mas criado em Iguatu, fechou a igreja, tirou gente da rua e esvaziou a praça. Por  causa da Covid-19, o acordo entre tantos adversários foi evitar aglomerações. Mas, à medida que a eleição se aproxima, as ruas e os eventos políticos vão enchendo, e até esse acordo vai ficando para trás.

Lianne Ceará (siga @lianneceara no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

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