colunistas

Feridas abertas

Caso prevaleça a tradição brasileira de impunidade, jamais superaremos a perda de milhares de vidas

Eduardo Escorel
28jul2021_09h12

O Brasil é um país repleto de feridas abertas. A mais recente, feita com mais de 550 mil vítimas da Covid-19, persiste. A média móvel de mortes esteve em queda durante 26 dias este mês, mas agora se estabilizou em mais de 1,1 mil óbitos por dia. Quem são os responsáveis por tamanha tragédia? Serão levados a julgamento e condenados? Caso prevaleça a tradição de impunidade deste país, jamais superaremos de todo o luto pela perda dessas milhares de vidas.

Deixando de lado feridas ancestrais – o massacre das nações indígenas e a escravidão –, outras perenes – a desigualdade social – ou atuais – os milhões de desempregados –, uma que permanece viva foi causada pela tortura e morte de presos políticos durante a ditadura civil-militar (1964-85), cujos responsáveis se beneficiaram da chamada Lei da Anistia e permanecem impunes. De acordo com o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, divulgado em 2014, mais de 200 das 434 vítimas fatais do regime são consideradas pessoas desaparecidas, entre elas muitas mulheres. 

Esse é o tema de Ana. Sem Título, de Lucia Murat, livremente inspirado na peça Há Mais Futuro que Passado – um documentário de ficção, de Clarisse Zarvos, Daniele Avila Small e Mariana Barcelos, encenada no SESC Copacabana, em 2017. A partir do roteiro de Murat, escrito em parceria com Tatiana Salem Levy, o filme transita entre ficção e documentário, relatando a jornada de Stela (Stella Rabello) através do continente americano, de Havana a Dom Pedrito, passando pela Cidade do México, Buenos Aires e Santiago, à procura de informações sobre Ana, em especial a respeito das circunstâncias de seu chamado desaparecimento.

Coincidência ou não, Anna é o nome da personagem de Lea Massari que some no início de A Aventura (1960), de Michelangelo Antonioni, hoje um clássico, mas na época controvertido, no qual Claudia (Monica Vitti) e Sandro (Gabriele Ferzetti) viajam pela Sicília à procura da desaparecida. Mesmo tendo premissa dramática e estrutura narrativa comuns, as diferenças entre A Aventura e Ana. Sem Título são, naturalmente, imensas. A crise de Claudia e Sandro é burguesa e de fundo existencial, enquanto o propósito de Stela, personagem e alter ego de Murat, é decifrar o enigma acerca da trajetória e do fim de Ana. A diretora, por sua vez, tem motivação biográfica – explica em off, na primeira sequência após o prólogo, ter resolvido fazer o filme porque sabia que nessa busca iria encontrar sua geração.

Uma das entrevistadas que se dispôs a participar do jogo cênico de Ana. Sem Título, a produtora argentina Lita Stantic, falando sobre a roteirista e diretora María Luisa Bemberg (1922-95), afirma que ela “estava no cinema para dizer algo. Não era para fazer um filme e ponto…” – descrição extensível a própria Murat, cineasta brasileira dotada de vocação para contar histórias baseadas na sua experiência pessoal durante o período da ditadura. Ao incluir no filme a afirmação de Stantic e cenas de El Mundo de la Mujer  (1972), primeiro curta-metragem de Bemberg, Murat parece ter se reconhecido nas palavras da produtora, pois a entrevista dela nada tem a revelar sobre Ana – o teor ficcional que lhe coube foi dizer que não a conheceu pessoalmente, apenas ouviu falar dela.

Recorrendo inclusive a cenas filmadas em super 8 e 16mm, Murat articula encenações e registros documentais com destreza em Ana, Sem Título, a começar pela sequência de abertura em que Stela visita a exposição Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985, realizada na Pinacoteca de São Paulo de agosto a novembro de 2018. Enquanto observa as obras expostas, ela esclarece em voz off a razão da viagem que fará: “Eu vou fazer isso, nem sei o quê exatamente, porque eu acho que essas mulheres estão sendo esquecidas, vão ser esquecidas, estão esquecidas, porque eu acho que é tempo de a gente falar delas.” Stela conta que Ana, uma das artistas, é mencionada em várias cartas trocadas entre as expositoras – “uma brasileira inteligente e muito falante…”. Enquanto a câmera percorre a sucessão de fotos de identificação afixadas no alto da parede, indo até o chão onde continuam enroladas, todas legendadas com ¿DONDE ESTAN?, ouvimos Stela comentar em off: “Não acaba, né?” Outra voz feminina concorda: “É.” E Stela retruca: “Dá vontade de desenrolar.” Murat está ao lado de Stela, diante da tira de fotos e comenta: “Infinito.” O diálogo entre as duas prossegue: “É.” “Infelizmente, infinito.” “A lista sem fim.” “78.” “É. Em plena ditadura, né? Incrível ter feito isso em plena ditadura.” “Coragem.” 

A seguir, fotos de mulheres são acompanhadas com a informação sobre o número de mortos e desaparecidos, no Brasil, dada em off por Murat, com o arremate: “Mas, diferente do Chile, os responsáveis nunca foram julgados.”

Ao som de atabaques, são exibidas imagens em preto e branco de uma mulher que relata ter sido chamada na rua de “Negra!”. O coro de vozes femininas proclama: “Negra! Negra! Negra! etc.”, e a mulher continua: “E me senti negra. Como eles diziam?” O coro repete: “Negra! Negra! Negra! etc.” e segue sobre seis fotos, lado a lado, de uma mesma mulher com roupas e arranjos de cabelo diferentes, diante das quais Stela se aproxima do cartão que identifica a autora. São de “Ana, Brasil”, sem indicação de título, feitas em 1968. Passados 7min33seg, o prólogo chega ao fim. A imagem seguinte é o título do filme, sempre com o canto e coro “Sou negra! Negra! Negra! Negra!”. 

A atriz Stella Rabello e a diretora Lucia Murat em cena do filme Ana. Sem Título/ Foto: Divulgação

 

Ana. Sem Título mal começou – faltam ainda 1h42min para chegar ao fim – e fica claro que se trata de um filme ambicioso. Além de conjugar dois objetivos, o ficcional de Stela e o biográfico de Murat, acumula temas, incluindo preconceito racial, discriminação de gênero e de orientação sexual, além do desaparecimento de uma artista durante a ditadura. Tamanha amplitude resulta em certa dispersão, superficialidade e esquematismo, sem falar na duração excessiva, resultante da tentativa de dar conta de múltiplas vertentes, mesmo sendo relacionadas entre si. 

O que se segue à sequência no Estádio Nacional de Santiago, a partir de 1h33min de Ana. Sem Título, é contraproducente. A impressão é que o filme está começando de novo. Qual é a necessidade de insistir em explicitar o fim de Ana? O manifesto performático de encerramento acrescenta algo ou é apenas panfletário? E a canção Areia Fina, de Lucas Vasconcellos, na voz de Alice Caymmi, o que justifica ter sido incluída?

Os 17 minutos finais de Ana. Sem Título prejudicam o filme, de resto interessante, necessário e bem realizado.

Ana. Sem Título  estreia amanhã, 29 de julho, em salas de cinema, após ter participado da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2020. É mais um lançamento temerário do cinema brasileiro, feito ao que parece para cumprir exigência contratual da Agência Nacional de Cinema – Ancine. Para tempos excepcionais seria preciso ter tomado há muito tempo medidas excepcionais, suspendendo formalidades absurdas que condenam os filmes a fracassos comerciais anunciados.

Ter lembrado de A Aventura  ao escrever sobre Ana. Sem Título me levou a pegar na estante Comincio a Capire (Começo a Entender), livro de anotações breves, sem edição em português, que Antonioni (1912-2007) publicou em 1999, quando tinha 87 anos. Reproduzo com tradução por minha conta a primeira de duas notas escritas durante a filmagem de A Aventura, exemplo de agruras enfrentadas ao fazer uma obra-prima: “Nos levantamos todas as manhãs às três para ir de barco até Lisca Bianca [ilhota pertencente ao arquipélago das Ilhas Eólias, ao Norte da Sicília], onde se filma A Aventura... Há dois meses não tenho notícias dos produtores. Não respondem às cartas, aos telefonemas, … eclipsados, varridos como seu castelo de cartas de notas promissórias, pelo primeiro sopro de vento da realidade do filme. Falta comida porque os navios que fazem a linha regular suspenderam o serviço devido ao mau tempo, faltam cigarros, faltam cobertores, agasalhos pesados e o frio começa a se fazer sentir. E com o frio os ratos se refugiam em nossas casas. Há dois meses nenhum de nós é pago. É a segunda vez que os trabalhadores fazem greve por esse motivo (pensei muitas vezes nessas greves feitas contra ninguém, como um direito do qual a realidade zomba). Outono 1959. Panarea. Durante as filmagens de A Aventura.”

*

Dia 01 de agosto, domingo, como sempre às 11 horas, Piero Sbragia, Juca Badaró, Vanessa Oliveira e este colunista conversam com Lucia Murat, diretora de Ana. Sem Título, no programa #DomingoAoVivo do canal de YouTube 3 Em Cena. O acesso à conversa pode ser feito através do link https://youtu.be/y0CkI2jtOv8 .

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

Mais textos de Eduardo Escorel

Tudo é “bodarrada”

Filme sobre a vida de Luiz Gama destaca sua atuação como abolicionista, mas falha ao deixar de lado suas demais facetas – entre elas, o poeta satírico

Significado da vida

Filme aborda relação mãe e filho quando os papéis costumeiros se invertem: quem cuida de quem?

Ir ao cinema, hábito trivial

O que se impõe é impedir atividades não essenciais, como frequentar salas de cinema

Potencial criativo e país ameaçado

Festival de curtas mostra que não estamos vivendo em condições normais

Ambição, audácia e relevância

Caso se mantenha compasso de asfixia da produção audiovisual, estoque de filmes brasileiros inéditos acabará se esgotando

Uma noite na Via Salaria 366

Glauber, Visconti, a máscara e os bombons

Cinemateca Brasileira em chamas – II

Foi preciso um fogaréu para comover quem ignorou o abandono da instituição

Cinemateca Brasileira em chamas

Filmes e documentos foram relegados a abandono criminoso; incêndio de hoje se tornou tragédia anunciada

Dinamite cinematográfico do Sri Lanka

Uma incursão ao cinema srilanquês e a subserviência da Ancine ao governo

A importância de contar

Documentário sobre os yanomami permite refletir sobre predadores

Mais textos