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Fevereiros – vislumbre de felicidade

Documentário sobre Maria Bethânia é testemunho do sincretismo religioso afro-brasileiro que está na origem de sua expressão musical

Eduardo Escorel
06fev2019_12h25

Janeiro transcorreu em meio aos horrores procedentes do governo federal e à catástrofe provocada pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão, pertencente à Vale. No último dia do mês, porém, Fevereiros, de Marcio Debellian, estreou oferecendo um antídoto para fevereiro ser menos sofrido.

Não se compara alhos com bugalhos, naturalmente. Atuação desastrada de setores do Poder Executivo é uma coisa. Tragédia humana e ambiental, outra. A dimensão de um documentário, por fim, é bem menor. Ainda assim, ao ocorrerem próximos, Fevereiros é um bálsamo – propicia alívio imediato, em descompasso com os sinais vindos de Brasília e Brumadinho; comprova a persistência de redutos de dignidade pessoal, talento e beleza; oferece instantes de deleite, sem os quais seria ainda mais penoso suportar a incúria dos homens.

Anunciado como documentário sobre Maria Bethânia, Fevereiros suscita a pergunta: mais um? De fato, é extensa a relação de filmes dedicados à intérprete, nos quais ela participa como atriz ou em que canta. Paradoxal, no caso, é o valor de Fevereiros estar concentrado justamente na participação da família Velloso – Bethânia, Caetano e Mabel – e em Santo Amaro da Purificação.

Velloso, aprendi, é mesmo com duplo “ele”. O Veloso, com um “ele” só, de Caetano, resultou de erro do escrivão ao fazer o registro civil, criando sem saber marca indelével e precoce de originalidade do assim nomeado artista.

Bethânia é o veio central de Fevereiros – o sorriso, a cabeleira, a postura, os gestos, a elegância, a dignidade e a voz, que Caetano define no início do filme como sempre tendo sido “assim peculiar, com tons de cobre e de água-marinha. É uma textura que veicula sentimentos e inteligência intensos e imediatos. É uma voz-pessoa, indissociável. E desde sempre atada à música através da poesia.”

Cena de Fevereiros


Penso na cantora que filmei com Julio Bressane, no início de 1966, para nosso filme documentário Bethânia Bem de Perto. Prestes a completar 20 anos e recém-consagrada no show Opinião, estava se apresentando pela primeira vez em uma casa noturna, no Rio de Janeiro. Hospedada no apartamento da tia Lúcia, mãe de Jards Macalé, em Ipanema, cantava à noite na boate Cangaceiro, em Copacabana.

Caetano era um rapaz discreto que ainda não criara Alegria, Alegria. Lá se vão mais de cinquenta anos e assistindo às imagens de Fevereiros, minha impressão foi que a implacável passagem do tempo só engrandeceu Bethânia e seu irmão. Nas palavras de Caetano, “os anos vão passando e ela vai ficando culta daquilo que ela é, culta de si mesma”.

Fevereiros, conforme o título indica, situa-se em um mês determinado do ano, sem abrir mão de certa elasticidade – há lugar para a novena da Festa da Purificação, nos últimos dias de janeiro, e em 13 de maio para celebrar a Abolição da Escravatura. O vínculo de Bethânia não se restringe, porém, ao mês de fevereiro, quando há, no dia 2, a procissão em homenagem a Nossa Senhora da Purificação. São igualmente fortes os laços que ela mantém com seu lugar de origem, a pequena cidade de Santo Amaro da Purificação, no recôncavo da Baía de Todos-os-Santos.

Os versos do samba de roda, na voz de Bethânia, não deixam dúvida: “Trabalhei o ano inteiro, trabalhei o ano inteiro/na estiva de São Paulo/só pra passar fevereiro em Santo Amaro/só pra passar fevereiro em Santo Amaro/Quem vem lá, sou eu, quem vem lá, sou eu/A cancela bateu, cavaleiro sou eu/Alô meu Santo Amaro, eu vim lhe conhecer.”

“Eu enfrento o que tiver que enfrentar”, diz Bethânia, “para passar fevereiro em Santo Amaro. Sem minha mãe… primeiro sem meu pai foi muito difícil; sem minha irmã, muito difícil; sem minha mãe é dificílimo, mas mais difícil é não passar. É impossível eu resistir a esse apelo.” Seu pai, José Teles Velloso, conforme sua irmã Mabel conta, “era apaixonado por essa novena de fevereiro. Ele não admitia que se saísse de Santo Amaro nessa época. É uma força que essa cidade tem […]”.

O recôncavo, nos diz Caetano, “é o lugar onde aportou a maioria dos negros escravizados, vindos da África, e onde até hoje há a maior população negra do Brasil”. E Santo Amaro, “a única cidade do Brasil que festeja a abolição desde o ano seguinte ao da abolição”.

Terra de índios pataxós e escravos, essa é a ascendência dos Velloso, nos dizem Mabel e Caetano. Some-se a isso o sincretismo religioso local e estará delineada a matriz de onde proveio o talento da dupla de irmãos, Bethânia como intérprete, Caetano como criador.

Além desses relevantes fatores favoráveis, Fevereiros teve a fortuna adicional de registrar o Carnaval carioca de 2016, no qual o enredo da Mangueira homenageou Bethânia e a escola voltou a ser campeã depois de quatorze anos.

A Estação Primeira desfilou na madrugada de 9 de fevereiro, com a homenageada no alto do último carro alegórico que trazia apenas Maria escrito com lantejoulas cor-de-rosa. Para o filme, a vitória foi uma dádiva e o desfile se tornou o clímax inevitável das celebrações gravadas.

A estrofe final do samba-enredo, “Maria Bethânia, a Menina dos Olhos de Oyá”, faz uma advertência: “Quem me chamou… Mangueira/Chegou a hora, não dá mais pra segurar/Quem me chamou… Chamou pra sambar/Não mexe comigo, eu sou a menina de Oyá/Não mexe comigo, eu sou a menina de Oyá.”

É como se dissesse, não me provoque, sou protegida de Iansã, a divindade das águas de temperamento agressivo que domina os quatro ventos.

A lamentar em Fevereiros há o deslocamento ocasional da narrativa dos Velloso para o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, e para o historiador Luiz Antonio Simas. Didáticos e informativos, ambos destoam do restante, aproximando o filme das reportagens jornalísticas que a televisão brasileira costuma designar, indevidamente, como documentários.

A mudança de tom e o desperdício de tempo resultantes dessas inclusões são tão grandes que sua única justificativa parece ser a necessidade de completar a duração mínima exigida para o filme ser classificado como longa-metragem.

Outra ressalva é o uso repetido de planos gravados com drone, verdadeira mania de filmes em geral e de documentários brasileiros em particular. Vulgarizadas pela intensidade de seu uso, essas gravações aéreas se tornaram recurso fácil, servindo de muleta precária na tentativa de suprir falta de imagens.

Para felicidade do espectador, as rédeas são devolvidas sem demora para Bethânia e seu irmão. E, nos minutos finais, Caetano nos conta que sua irmã e ele são, na verdade, a mesma pessoa. Quem escreveu isso foi Julio Cortázar, sem pretender que a afirmação fosse tomada ao pé da letra. Mas Mãe Menininha do Gantois disse a mesma coisa, a sério. Quem for capaz de contestar Cortázar e Mãe Menininha que o faça.

No encerramento, Fevereiros nos deixa com versos de Sei lá Mangueira, de Hermínio Bello de Carvalho e Paulinho da Viola, na voz de Caetano, Chico e Paulinho da Viola: “Vista assim do alto/mais parece um céu no chão/Sei lá, sei lá/[…] que a vida não é só isso que se vê/é um pouco mais/que os olhos não conseguem perceber/que as mãos não ousam tocar/e os pés recusam pisar./Sei lá, não sei./Não sei se toda a beleza de que lhes falo/Sai tão somente do meu coração/Sei lá Mangueira…

Nos primeiros dias de fevereiro, diante do terrível circo de horrores em que o Senado foi transformado durante a eleição de seu presidente, fica claro que o mês em curso não é capaz per se de nos proteger da franja lunática instalada no governo federal e atuante também no Poder Legislativo.

Quem se referiu a essa franja lunática em entrevista recente foi o diplomata aposentado Rubens Ricupero. A expressão provém de lunatic fringe definida no dicionário Merriam-Webster como “membros de um movimento social ou político extremista, defensor de ponto de vista excêntrico ou fanático”.

Um dos encantos de Fevereiros reside em seu testemunho sobre a riqueza da herança que recebemos dos povos indígenas e africanos, à qual se soma o sincretismo religioso que nos permeia, origens da valiosa expressão musical de Maria Bethânia e Caetano Veloso.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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