colunistas

Gatinhos que rugem e outros bichos

Na política e nos negócios, manada digital manipula incautos

José Roberto de Toledo
27jan2021_17h39

“Todo poder aos jogadores.” O slogan da GameStop não poderia soar mais irônico. A cadeia com mais de 5 mil lojas de videogame distribuídas por Estados Unidos, Europa e Oceania já vinha perdendo dinheiro desde que plataformas dominantes como Xbox, PlayStation e Nintendo começaram a permitir download de seus jogos. Os jogadores não precisavam mais ir a um local determinado para comprá-los. Ganharam acesso sem sair do sofá. Com a pandemia e o lockdown, as lojas da GameStop ficaram ainda mais vazias. Foi o que bastou para outro tipo de jogador entrar em ação: o especulador.

Fundos de investimento e administradores de recursos carimbaram a GameStop como pato manco pronto para o abate. As ações da empresa se tornaram um alvo fácil para lucros rápidos. Esses fundos venderam em massa papéis da GameStop, derrubando seu valor de 46 dólares, em outubro de 2015, para um décimo disso, em junho de 2020. Tudo ia bem para os fundos especulativos até que um terceiro tipo de jogador entrou na tela. Influenciadores especializados em tocar o berrante que move manadas, com centenas de milhares de microinvestidores individuais em redes sociais como Reddit e Twitter, identificaram uma oportunidade de espremer os fundos em suas apostas arriscadas. E começaram a recomendar ações da GameStop sem parar.

Os fundos que haviam derrubado a cotação da GameStop venderam ações da empresa sem ter os papéis. É o que o mercado chama de “sold short”, ou venda a descoberto. Com as ações em queda, isso não era um problema. Toda vez que as opções de venda tinham que ser exercidas, os fundos compravam ações no mercado por um valor mais baixo do que as haviam vendido. É o que se chama de “short covering”. Quando dá certo, vende-se um papel antecipadamente por, digamos, 10 dinheiros, compra-se por, digamos, 1, e, na hora de entregar, o lucro é de 9 dinheiros. O problema é quando outro jogador com poder de mobilizar multidões descobre o pato gordo vendido a descoberto em pato manco. O gordo começa a mancar porque precisa comprar as ações a qualquer preço para honrar suas posições vendidas sem lastro.

Usando pseudônimos tipo “roaring kitty” (“gatinho rugindo”) em canais do YouTube ou no “wallstreetbets” do Reddit, influenciadores conseguiram provocar um estouro de boiada que ameaça quebrar fundos de investimento bilionários. Centenas de milhares de microinvestidores individuais alavancaram a cotação da GameStop de 20 dólares, no começo de janeiro, para 372 dólares às 13h30 desta quarta-feira. Multiplicaram por dezenove o valor de mercado da empresa em poucos dias e lucraram ainda mais do que isso. Manipulando o mercado, os “roaring kitty” da internet conseguiram ganhar até 260 vezes o que investiram. 

E daí?

 

Seria apenas mais uma história de bilhões de dólares trocando de mãos, não fosse a manada digital responsável pelos movimentos maciços de compra e venda. É um fenômeno que guarda relação com os movimentos por trás da invasão do Capitólio em janeiro de 2021, com a eleição de Bolsonaro em novembro de 2018 e com a ocupação das ruas brasileiras em junho de 2013. É digital, coletivo, mobilizador – e, portanto, político.

O canal “wallstreetbets” do Reddit se define assim: “tipo 4chan ganhou acesso a um terminal Bloomberg.” Pronuncia-se “fór-cham” e faz referência ao site onde, a pretexto de compartilhar imagens, militantes anônimos de extrema direita fizeram muito mais do que popularizar memes. Era um ponto de encontro para coordenar ataques virtuais contra páginas e pessoas. “Terminal Bloomberg” é o serviço de informações financeiras que tornou seu dono multibilionário. Ironias de lado, “wallstreetbets” é um canal de troca de informações sobre investimentos transformado em plataforma de ataques especulativos. Chegou a sair do ar, mas voltou.

O discurso político dos usuários é anti-establishment, pra variar. Gostam de falar em democratização da informação e em reação às manobras das grandes corporações. Embora partam de alguns parcos fatos verdadeiros, a maior parte é conversa fiada para atrair incautos e movê-los em bando a fim de favorecer as posições compradas ou vendidas pelos influenciadores digitais tipo “roaring kitty”. 

A técnica é idêntica à dos influenciadores da extrema direita tupiniquim. Como alvos, saem os grandes fundos de investimento, entram a “extrema imprensa” e as instituições democráticas que atrapalham o funcionamento do esquema dos manipuladores. Espalham notícias falsas, desacreditam as fontes de informação profissional e criam um universo paralelo para seus seguidores no qual são os únicos detentores da verdade.

Quem costuma cair de cabeça nesse universo paralelo não raro teve ou tem problemas para se adaptar ao universo original. Se não admitem que o problema é com eles, só pode ser uma grande conspiração do universo ao redor para prejudicá-los. Até o advento das redes antissociais, eram indivíduos esparsos. A internet os uniu e reuniu, facilitando o trabalho de “gatinhos que rugem” – seja no mercado financeiro, no mercado eleitoral ou no mercado de notícias. Como diria a GameStop: todo poder aos jogadores.



José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Editor-executivo da piauí, foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

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