questões musicais

Guarde uma frase pra mim

Morto em abril, Belchior faria 71 anos hoje. Seu biógrafo não para de descobrir novas histórias sobre o artista, uma duna em movimento

Jotabê Medeiros
26out2017_13h55
O cantor em seus últimos anos de vida, no Rio Grande do Sul: fãs e imprensa tentavam entender seu sumiço
O cantor em seus últimos anos de vida, no Rio Grande do Sul: fãs e imprensa tentavam entender seu sumiço FOTO: CORTESIA DE INGRID TRINDADE

“Entra em contato comigo. Histórias inéditas. Sou Denise. Não sou a de São Carlos, sou a Dona Dê, como ele me chamava desde que me conheceu a bordo de um avião da Varig. Eu, a comissária. Daí foram anos de paixão e arte.”

Fiquei pasmo por uns dias com a mensagem que me chegou pela rede social. “Foi para você que ele fez Medo de Avião?”, disparei. Ela respondeu: “Foi…” Eu perguntei: “Você tem como provar esse relacionamento?” Ela: “Tenho.”

Vou deixar o desfecho dessa história mais para adiante, quem sabe para uma nova edição do livro, mas três meses após o lançamento do perfil biográfico que fiz do cantor cearense Belchior (Belchior – Apenas um Rapaz Latino-americano, da Todavia Livros), eu já tinha perdido a conta do número de causos e reentrâncias que a história dele ganhava dia após dia. O que atestava duas coisas: a prodigiosidade da vida e da obra de Belchior e a natureza movediça dos gêneros biográficos, que parecem dunas em movimento nos Lençóis Maranhenses conforme os dias avançam.

São dezenas de histórias, de casos que agora, à maneira de organismos calcários num coral submarino, vão se somando à história principal. Algumas dessas narrativas têm destino: pedem para ser incorporadas ao livro que escrevi, em sua segunda edição, porque não tem como desviar de coisas tão elucidativas.

Em Olinda, há alguns dias, entrei no fabuloso restaurante Tribuna e fui apresentado ao chef, o português Jaime Alves, um utópico da mais refinada linhagem. Jaime ouviu sobre minha participação ali na Bienal de Literatura e me cumprimentou. Quase ato contínuo, entrou pela porta um homem de bengala. Jaime o puxou e me apresentou: “Lessa, esse aqui é o biógrafo de Belchior! Jotabê, esse aqui é o Lessa, o primeiro empresário de Belchior!” À frente de uma magnífica bacalhoada, conversamos longamente, eu e o Lessa.

Ele vivera na mesma república que Belchior, Ednardo, Fagner e outros cearenses ali na Rua Oscar Freire, 1 500, em São Paulo, nos distantes anos 70. Era uma residência em vias de ser demolida. Lessa contou muitos causos. Também me disse que, na época, Raimundo Fagner ainda não tinha grande projeção. Sem ocupação, sem shows, acabou ganhando uma curiosa incumbência: tornou-se roadie de Belchior por uns tempos. Seu trabalho era carregar e afinar o violão com o qual Belchior se apresentava.

Em Iguape, no litoral de São Paulo, Giancarllo, um ex-dirigente cultural e promotor de shows regionais, contou outra história fantástica. Em 1989, por amizade com Monsieur Parron, baterista da banda Radar, que acompanhava Belchior, ele conseguiu promover um show de voz e violão do cantor na cidade. Seria na igreja. Mas, poucos minutos antes de começar, o local já estava superlotado. Preocupado, o promotor resolveu levar o espetáculo para a praça em frente.

Belchior, tranquilo na pousada, fez apenas uma exigência: pediu uma garrafa de Jack Daniels para o camarim. Queria a garrafa poucos minutos antes do show. Achei a história estranha: Belchior só bebia vinho, e ainda assim moderadamente. O promotor continuou a contar. Quando já havia um público entre 5 e 6 mil pessoas na praça, Belchior chegou e indagou: “Cadê o uísque?”

Trouxeram-lhe a garrafa. Ele a abriu, derramou Jack Daniels nas mãos e passou nos braços, no peito e no pescoço. Vestiu a camisa, entrou no palco e tocou todos os seus sucessos.

Hoje com câncer, fazendo tratamento alternativo em Curitiba, o ex-promotor Giancarllo escreveu um livro sobre sua história, na qual presta um tributo ao cantor e poeta cearense com um trecho de Coração Selvagem: “Meu bem, guarde uma frase para mim, dentro da sua canção…”

Em Fortaleza, o arquiteto e compositor Fausto Nilo, poeta que faz arte com pandeiro, matemática e loucura, contou no centro cultural Dragão do Mar a saga de uma viagem fabulosa que fizeram, ele, Belchior e a mulher do músico, Ângela, em um Chevette pelo interior do Maranhão. Fausto dirigia. De repente, um menino que ia de bicicleta pelo acostamento virou e entrou na estrada. Fausto não conseguiu desviar e o derrubou numa moita.

Isso mexeu com a viagem. Recolheram o menino, mudaram de rumo e o levaram para cuidados médicos – quase impossíveis de localizar – na cidadezinha próxima. Após o socorro, o menino já bem (uma enfermeira disse que ele era “abilolado” e reincidente naquele tipo de acidente), os três resolveram ir até a delegacia para registrar tudo, e não deixar dúvidas sobre suas boas intenções. De lá de dentro, sem camisa, veio o delegado (que dormia com a namorada na cadeia), saindo do banho, molhado, penteando ao mesmo tempo o cabelo e o sovaco! Fausto se angustiou ao notar que, apesar do homem ser a única autoridade num raio de muitos quilômetros, Belchior ainda fazia pilhéria com ele e se divertia com a autoridade.

Lá no saguão do Dragão do Mar, um ex-frade capuchinho pediu autógrafo e me segredou, antes de ir embora: “Apenas para consumo interno, me procure. Um dia eu lhe conto a verdadeira história do por que Belchior abandonou o mosteiro…”, disse, sobre um período pouco conhecido na vida do cantor: os três anos que passou como interno no Mosteiro de Guaramiranga durante a adolescência.

As histórias abrem clareiras, mas também formam nevoeiros. Em Vitória, um garoto esperto que parecia o River Phoenix me disse: “Meu pai um dia me contou que Belchior deu uma enquadrada nele.” Eu disse: “Você quer dizer que ele paquerou seu pai?” Ele riu divertidamente: “Poderia ser possível?” Eu disse que a reputação de Belchior era outra…

O pântano das memórias dos outros é denso, mas é também fascinante. Em nada altera a panorâmica da qualidade da obra de Belchior, que já superou o seu tempo duas vezes. Mas é preciso mergulhar nessas narrativas, sem receio. E sempre lembrando outra grande frase de Fausto Nilo: “Ninguém nunca conta dez vezes a mesma história do mesmo jeito. Sempre aperfeiçoa.”

*

Um trecho do livro Belchior – Apenas um Rapaz Latino-americano, lançado em setembro deste ano, pode ser lido aqui.

 

Jotabê Medeiros

Jotabê Medeiros é autor de Belchior – Apenas um Rapaz Latino-americano (Todavia Livros, 240 páginas, R$49,90)

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