questões ambientais

A guerra da soja

Ao responsabilizar a produção de soja pelo desmatamento da Amazônia, presidente Emmanuel Macron optou por uma mentira conveniente

Pedro de Camargo Neto
18jan2021_16h51
FOTO: MARCELO JUSTO/FOLHAPRESS

Entre 1961 e 1963, Brasil e França protagonizaram uma pequena crise diplomática conhecida como Guerra da Lagosta. Navios franceses foram flagrados pescando crustáceos ilegalmente na costa brasileira, um ato de desrespeito à soberania nacional. Os dois países se estranharam. Foi por volta dessa época que surgiu a lenda – depois desmentida – de que o presidente francês Charles de Gaulle teria dito que o Brasil não era um país sério. Passados sessenta anos, os dois países vivem hoje um novo estremecimento diplomático. Mas, dessa vez, cabe a nós inverter a acusação: o presidente francês Emmanuel Macron, ao afirmar que o desmatamento da Amazônia está relacionado à produção de soja, faltou com seriedade.

No último dia 12, Macron afirmou que “continuar dependendo da soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia”. Desde que a declaração veio à tona, tanto o governo quanto a iniciativa privada brasileira saíram em defesa da sojicultura – não sem razão. Críticas ao modelo produtivo podem sempre existir, ainda que o setor já utilize, há décadas, o plantio direto e a agricultura de precisão, sem contar as técnicas de sustentabilidade agrícola. No entanto, associar esse tipo de produção com as taxas de desmatamento recorde da Amazônia está longe de ser correto.

Por que, então, Macron fez tal afirmação? Era sua obrigação conhecer melhor o assunto antes de falar. Poderia, ao menos, ter sido mais bem informado por seus assessores. A conclusão a que se chega é a de que faltou, de fato, compromisso com a verdade – compromisso que tem sido deixado de lado por tantas outras lideranças políticas, de acordo com as conveniências. O presidente francês, visando ampliar sua popularidade junto a uma parcela da população de seu país, às custas do Brasil, não se constrangeu em apelar para uma inverdade.

 

A verdade é que a soja não é a maior responsável pelo desflorestamento no nosso país. Ela é produzida sobretudo nos estados do Sul e do Centro-Oeste. A floresta amazônica, não por acaso, responde por uma fração muito pequena da produção agrícola nacional. Os dados mostram que o grande problema da Amazônia é o desmatamento ilegal levado a cabo por outras atividades econômicas, sobretudo o garimpo ilegal e a especulação sobre terras.

Em 2019, após o Brasil enfrentar uma nova temporada intensa de queimadas na floresta, o Exército brasileiro foi enviado à região por meio de uma operação GLO – Garantia da Lei e da Ordem. Chegou tarde, e pouco pôde fazer para remediar a crise. No ano seguinte, novamente os militares embarcaram com destino à Amazônia, e mesmo assim o desmatamento ilegal continuou crescendo. Dados de satélite coletados pelo sistema de monitoramento Prodes, do Inpe – o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – mostram que o desmatamento por corte raso na Amazônia Legal aumentou 9,5% de 2019 a 2020. No estado do Pará, o número é assombroso: ali, esse tipo de corte cresceu 24%. A chegada do Exército, sempre atrasada, não produziu os resultados necessários.

Recentemente, a Polícia Federal desencadeou uma operação bastante positiva contra a exploração ilegal de madeira, uma das principais frentes responsáveis pelo desmatamento ilegal da Amazônia. Faltam ainda ações efetivas contra o garimpo e a invasão de terras públicas. A região é imensa e, por isso, nem sempre é possível coibir todo e qualquer tipo de ilegalidade. O Brasil, porém, não tem feito sequer o mínimo necessário para garantir a credibilidade do país. Quem vai pagar essa conta, ao que parece, é o setor agrícola. A lamentável declaração feita por Macron a respeito da soja sinaliza os riscos.

A preocupação com o aquecimento global, questão latente em todo o mundo, fica particularmente evidente no Brasil. Aqui, a principal fonte de emissão de gases do efeito estufa é o desmatamento, que cresce em patamares impressionantes. O Código Florestal, marco regulatório criado para prevenir a derrubada ilegal das florestas brasileiras, é suficiente para dar conta do problema. É um dispositivo muito mais avançado do que aqueles existentes na maior parte dos países, quando se trata da preservação florestal. Basta o Brasil cumprir a lei que já existe. Isso, infelizmente, não tem acontecido.

Nós, brasileiros, deveríamos ser líderes mundiais nas discussões sobre o aquecimento global. Mas a fragilidade que temos exposta em nosso próprio quintal, com a produção enorme de gases do efeito estufa pelo desmatamento, nos coloca em uma posição inconveniente no debate internacional. É o que têm nos ensinado os atritos com a França. Ficamos vulneráveis mesmo quando estamos lidando com países que têm problemas ecológicos graves, como a utilização massiva de combustíveis fósseis na matriz energética.

 

Defender a sustentabilidade da sojicultura nacional, como tem sido feito por empresários e pelo governo brasileiro nas últimas semanas, é insuficiente diante desse cenário. É preciso ir além e reconstruir a nossa credibilidade como país. Para isso, o primeiro passo é enfrentar, de maneira inteligente, as raízes do desmatamento ilegal na Amazônia.

Os dados precisam ser estudados, avaliados e incluídos em qualquer discussão séria sobre o combate à derrubada da floresta. Desviar dos fatos não ajuda em nada – serve apenas para iludir uma parte da população com a impressão de que o verdadeiro problema está sendo enfrentado. Afirmações equivocadas de um líder do alto escalão da política mundial são muito mais graves do que as chamadas fake news – fenômeno mais grosseiro, disperso e, em boa medida, mais fácil de ser combatido.

Macron, presidente de um país que historicamente mantém boas relações diplomáticas com o Brasil, se dispôs a dar uma declaração incorreta sabendo que ela ressoaria de maneira negativa entre os brasileiros. Feriu a cortesia diplomática sem pestanejar. Tomou tal atitude, em parte, devido ao histórico de atritos que vem cultivando com o presidente Jair Bolsonaro. Mas o fez, também, por causa da credibilidade internacional que o Brasil aos poucos tem conseguido minar ao lidar de maneira errática com a Amazônia.



Pedro de Camargo Neto

Produtor rural, doutor em engenharia, foi presidente de entidades de classe e secretário de Produção e Comércio do Min. da Agricultura (2001-2002).

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