vultos da república

Helio Bolsonaro e os novatos da Câmara

Deputados de primeiro mandato são apresentados ao “vota no meu, que eu voto no seu”

Tiago Coelho
07fev2019_18h06
MONTAGEM DE PAULA CARDOSO EM FOTOS DE TIAGO COELHO

Helio Lopes, do PSL, ouvia com atenção a cerimônia solene da abertura da 56ª legislatura na Câmara dos Deputados, no fim da tarde de 4 de fevereiro. Aos 49 anos, negro, alto e robusto, ele tentou durante três eleições se eleger com o apelido de Helio Negão, sem sucesso. O resultado mudou em 2018, quando, na propaganda eleitoral veiculada na tevê, ele apareceu com o nome de Helio Bolsonaro, e ao lado do então candidato ao presidente. Acabou sendo o deputado federal mais votado no Rio. O “parentesco eleitoral” com Jair Bolsonaro afetou também a maneira como o novo parlamentar passou a ser tratado por seus pares.

Terminada a cerimônia, os deputados começaram a deixar aos poucos o Plenário Ulysses Guimarães rumo ao Salão Verde, que dá acesso ao plenário. Ali, tanto veteranos, como o presidente reeleito da Câmara, Rodrigo Maia, quanto novatos, como Kim Kataguiri e Joice Hasselmann, eram solicitados por emissoras de tevê, rádio e por jornais a falar sobre os assuntos que pautarão a agenda do Congresso nos próximos meses: a reforma da Previdência e as medidas contra a criminalidade e corrupção propostas pelo ministro da Justiça, Sergio Moro.

Helio Lopes não saiu do plenário. Quem passava por ele – como o ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz – o cumprimentava de maneira efusiva, como se fosse um velho conhecido. Enquanto a reportagem o observou, ninguém chamou o deputado de Lopes, nem de Negão, muito menos de Bolsonaro. Os que se referiram a ele pelo nome o trataram por Helio. Os interlocutores que ultrapassavam os cumprimentos de praxe se limitavam a perguntar sobre a saúde de Jair Bolsonaro, que passara por mais uma cirurgia no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Familiares e convidados dos políticos que estavam lá para assistir à cerimônia de abertura pediam para tirar fotos com Helio, que aceitava, sempre solícito. Ele ficou famoso durante a campanha de Bolsonaro por aparecer sempre ao lado do candidato – e sempre em completo silêncio. Pessoalmente é mais simpático do que deixa supor a expressão taciturna que estampava na tevê e nas fotos. Agora, tende a ser uma das figuras mais populares da Câmara, mais até que o espalhafatoso deputado baiano Pastor Sargento Isidório (Avante), que confessou ter se curado da homossexualidade graças à fé.

O plenário da Câmara estava quase vazio, mas Helio, subtenente da reserva do Exército, continuava ali, em silêncio, olhando os detalhes do salão, o chão acarpetado, as paredes escuras e cerimoniosas.

 

“Estou aqui como soldado de Bolsonaro”, ele afirmou, sorrindo, assim que me aproximei para entrevistá-lo. “Vou guerrear para aprovar as propostas que ele enviar para a Casa. A reforma da Previdência será a primeira delas.” Ouvir sua voz foi uma surpresa: ela é grave, calma e amistosa. “Estou falando com você porque se aproximou numa boa”, me disse Lopes. “A imprensa só se aproxima de mim para perguntar sobre racismo e se Bolsonaro é racista. Por isso não falo muito com jornalistas. Tacam pedra no cara que para mim é como um irmão, da minha família. Frequento a casa do Bolsonaro há mais de vinte anos. Como vou falar com quem faz isso com ele?”

Perguntei qual era sua posição a respeito da reforma da Previdência. “Sou 100% Jair Messias Bolsonaro, o que ele mandar aqui vou concordar com tudo”, respondeu. Sobre as propostas anticrime do ministro Sergio Moro, reiterou que a decisão do presidente é também a dele e completou: “O modelo aplicado que está aí não tem dado certo. Com o Bolsonaro vai ser diferente.” Algum ponto chamou a atenção dele na proposta de Moro? “É preciso ver com calma, se debruçar direitinho sobre o projeto”, disse, e apontou para o plenário: “Isso aqui é uma universidade, você vai aprendendo tudo aos poucos. Não adianta se afobar.” Indaguei então sobre a saúde do presidente. Helio torceu o rosto, como se tivesse notícias desanimadoras. “Ele é um homem forte, um guerreiro, um capitão. Vai sair dessa no tempo certo. Tudo ao seu tempo”, falou, em tom pesaroso.

Helio passou a adotar o sobrenome Bolsonaro em agosto de 2018. Naquele mês, Jair Bolsonaro poderia virar réu no Supremo Tribunal Federal, acusado de racismo contra quilombolas – em um processo que depois foi arquivado. Autorizar que Helio usasse seu sobrenome foi bom para as duas partes: ajudaria a desvincular Bolsonaro da pecha de racista, e beneficiaria Helio com a transferência de votos. Hoje, até em seu perfil no Instagram o parlamentar usa o nome de Helio Bolsonaro, embora ainda seja mais conhecido como Helio Negão.

No dia seguinte à cerimônia de posse, haveria uma sessão deliberativa na qual cada deputado inscrito faria um discurso. Quis saber se Helio iria fazer. “Quando for a hora certa, farei. Fui um militar, penso com estratégia. E não vou preparar um discurso. Vou chegar lá e falar a verdade, aquilo que está dentro do peito. Mas é tudo no seu tempo.” Ele contou que alguns dias atrás havia recebido uma dica preciosa de Bolsonaro. “Foi um conselho de pai. Ele me disse: ‘Temos dois olhos, dois ouvidos e uma boca. Devemos ouvir mais, ver mais e falar menos’.”

Naquele dia da abertura dos trabalhos legislativos, às cinco da manhã já havia deputados em fila para protocolar projetos de lei e pedidos de aberturas de CPIs. Nos primeiros lugares estavam Pastor Sargento Isidório que registrou o projeto de lei visando tornar a Bíblia patrimônio nacional, seguido por Carla Zambelli (PSL), que queria pedir o fim das “saidinhas de presos” em dias festivos, e Joice Hasselmann (PSL), que protocolou dois projetos, um de redução da maioridade penal e outro, desobrigando parlamentares de se referirem uns aos outros como “Vossa Excelência”.

A esquerda também se movimentou. A deputada mineira Aurea Carolina, do PSOL, protocolou logo cedo um projeto de criação de uma comissão externa para acompanhar os desdobramentos da tragédia em Brumadinho e, junto com deputados de seu partido, projetos para suspender dois decretos presidenciais: o que facilita o porte de armas e outro que altera a Lei de Acesso à Informação.

 

No segundo dia de trabalho dos parlamentares, 5 de fevereiro, direita e esquerda iniciaram seus confrontos. Parlamentares do PT foram os primeiros a ocupar a tribuna. Pediram a libertação de Lula. “A todo momento e em todos os lugares, estamos dizendo que o presidente Lula é um preso político”, disse o deputado baiano Valmir Assunção.

A direita reagiu. Hasselmann discursou, em tom exacerbado: “Eu digo a Vossa Excelência, deputado, e à oposição que a vida do PT não será fácil nesta Casa. […] Vou dizer a Vossas Excelências que nós veremos Lula, chefe da quadrilha do Petrolão, apodrecer na cadeia. E este time aqui, do presidente Jair Bolsonaro, está pronto para a luta. Aqui tem soldado, aqui tem guerreiro!”

Kataguiri, do Movimento Brasil Livre, também mandou seu recado: “Venho para tentar trazer renovação e retomar a esperança na política, que se perdeu, combatendo a demonização da política. […] A imagem que o político tem hoje é a de ladrão, de bandido, e sabemos que isso não é verdade.” Ao se lembrar de seu pai, morto há dois anos, a voz embargou: “Me sinto triste por ele não estar aqui para ver a minha posse.”

O deputado Marcel van Hattem (Partido Novo), gaúcho de 33 anos, mas com cara de adolescente, louro e magro, disse, entusiasmado: “Esta legislatura precisa ser marcada como uma legislatura que devolve ao povo brasileiro a alegria de se sentir representado por um parlamento, representado pelos seus deputados eleitos, pelos seus senadores eleitos. Tivemos uma grande renovação, e nossa responsabilidade é fazer com que essa renovação também signifique novas práticas e projetos aprovados.” No fundo do plenário, dois antigos funcionários da Câmara comentaram: “Esse garoto é articulado. Tem boa oratória. Fala como os deputados das antigas.”

Os deputados costumam ficar de pé no meio do plenário. Helio Lopes assistia a tudo sentado. A rotina de fotos continuava: ninguém ali era mais solicitado para fazer selfies. Porém, poucos pareciam tão solitários quanto ele.

O segundo embate aconteceu entre Talíria Petrone (PSOL), do Rio, e Alexandre Frota (PSL), de São Paulo, dois deputados de personalidade aguerrida. “Quero saber onde está o Jean Wyllys?”, disse Frota no seu discurso. Petrone respondeu: “O deputado Jean Wyllys infelizmente não pôde tomar posse no mandato para o qual foi democraticamente eleito. […] Está com a bancada do PSOL e com a esquerda neste parlamento.” “Muito me estranha esse vitimismo todo. Afinal, o Jean Wyllys não veio para cá por quê? Nós não queremos aqui dentro deputados acovardados. Estamos vacinados contra esse vitimismo que veio aí do lado”, retrucou Frota. “Queria perguntar ao senhor se já pagou a multa que deve pagar para Jean Wyllys”, replicou a deputada do Rio, referindo-se a uma multa que Frota foi condenado a pagar por atribuir uma falsa frase sobre pedofilia a Wyllys.

Todos se falam, todos se cumprimentam. Mas, como num primeiro dia de aula, formavam pequenos grupos de conversa. A bancada do PSL se juntava em diversas turmas, conforme as afinidades dos deputados. Frota estava quase sempre acompanhado de Daniel Silveira, do PSL do Rio. Delegados e militares da bancada da bala formavam outro círculo. Na turma do PSOL, caminhavam juntas, o tempo todo, Talíria Petrone, Aurea Carolina e Luiza Erundina – fosse na hora de protocolar demandas, fosse na de seguir para o restaurante. Ao lado das duas primeiras deputadas, mulheres altas, a figura pequenina e de cabelos brancos de Erundina se destacava. Apesar de andar mais lentamente, nunca era deixada para trás pelas colegas.

Sentado nos fundos da Câmara, o deputado Cabo Junio Amaral, do PSL mineiro, assistia à movimentação. “As pessoas que ganham menos são as que mais sofrem, trabalhando mais tempo. Mas todos terão que fazer um sacrifício”, afirmou Amaral, para quem as medidas propostas por Moro deveriam ser ainda mais rígidas. “A gente tem que observar muito bem os que já estão fazendo sacrifício há muito tempo: a categoria dos policiais militares que colocam suas vidas em risco. Tem que ser vista com cuidado a inclusão de militares na proposta. Tem que ter uma longa conversa.”

Amaral disse haver uma barreira entre novatos e veteranos no Congresso, e que os primeiros estão estranhando velhos hábitos da Casa. “Tem alguns ranços da velha política que não aceito e espero que sejam reduzidos, que é essa coisa do toma lá dá cá. Você pede uma assinatura para uma frente parlamentar na qual você acredita, e ouve como resposta: ‘Só se você assinar a minha.’ Não é ilegal, mas é um comportamento baseado em interesse e não no convencimento de uma ideia.”

No cafezinho, ouvi de um experiente servidor da Câmara: “O que esse pessoal que chegou agora chama de ‘política do toma lá dá cá’ é a própria governança. Reforma da Previdência é uma pauta difícil, impopular. A articulação com o Congresso envolve ceder pleitos e indicações. O Onyx e o Bolsonaro já passaram pela Câmara, sabem que é assim que funciona.” Para ele, o ministro-chefe da Casa Civil é “aberto” e tem o costume de receber e conversar com parlamentares, mesmo os do segundo escalão. “Já o Paulo Guedes não gosta muito de receber parlamentares, mas vai ter que aprender, para poder articular apoio para a Previdência. Ele andou dizendo que para aprovar a pauta da Previdência seria necessário ‘dar uma prensa no Congresso’. Pegou mal entre parlamentares. Eles não gostam de serem pressionados dessa forma.”

Como estava recebendo turistas mineiros e eleitores de sua cidade, Cabo Junio Amaral acabou perdendo a inscrição para discursar. Perguntei a ele como estava sua convivência com os veteranos, se tem frequentado o Piantella ou o Trattoria da Rosário, restaurantes da elite política em Brasília. “Não fui convidado, trago comida de casa mesmo. Coisa caseira”, disse. “A gente que chegou agora aqui tem uma postura retida, mais modesta até nisso. Não se deslumbra com essas coisas. Não significa que eu não possa vir a conhecer esses lugares. Mas não enchem meus olhos.”

Pastor Sargento Isidório soltou um “deus me livre”, quando lhe perguntei o mesmo, como se esses restaurantes fossem lugares profanos, a serem evitados. “Eles não nos chamam de baixo clero? Então, baixo clero come com o baixo clero. Eu como junto dos meus assessores, às vezes no gabinete mesmo.”

No saldo do dia, os novatos dominaram os discursos e as atenções na Câmara. As palavras mais ditas foram: Brasil (repetida 180 vezes), Previdência (46), Deus (44), Brumadinho (34), Bolsonaro (33), segurança (31), Vale (28), barragens (22), família (22), corrupção (21), Moro (21), Lula (18) e violência (17).

 

Helio Lopes nasceu em Mesquita, na Baixada Fluminense. Teve 345.234 votos, pouco mais que Marcelo Freixo, que teve 342.491. Um e outro estão ligados a pautas de segurança pública. Helio por ser militar e defender as propostas da bancada da bala. Freixo por investigar a ação das milícias, o que já lhe rendeu ameaças de morte.

Na manhã de quarta-feira, dia 6, o ministro da Justiça Sergio Moro esteve na Câmara para apresentar seu projeto anticrime. Helio encontrou tempo para discursar. Subiu à tribuna e, de improviso, afirmou: “Minha missão é combater a corrupção instituída pelo PT e considerada a maior da história do Brasil, é lutar incansavelmente pela segurança pública nacional, que, com o sacrifício da própria vida, defende a população e, dia após dia, é massacrada pelo PT e pelo PSOL. Vamos aqui defender a família, que tem que ser respeitada. A população foi à rua, pediu o impeachment da Dilma – graças a Deus aconteceu – e de forma democrática elegeu Jair Messias Bolsonaro como presidente da República. Meus amigos, hoje completam-se cinco meses daquele ato covarde: a tentativa de homicídio do presidente da República. Quero saber quem mandou matar Jair Messias Bolsonaro, meu irmão de coração. Eu sei que ele é branco, sim. Eu sou preto. Sou daltônico, não enxergo diferença. A minha cor é o Brasil. Juntos, vamos mudar este Brasil e colocá-lo no rumo que ele merece. Vamos dar suporte a Jair Messias Bolsonaro, que vai ser considerado o maior presidente da história do Brasil.”

Freixo não subiu na tribuna. Mas entregou um relatório sobre as milícias a Sergio Moro. “É o relatório da CPI das milícias. É muito importante porque tem muita gente defendendo a legalização das milícias. É importante para o senhor entender por que a milícia ajuda a eleger gente. Ajudou a eleger gente no Senado. Não deixe de ler”, disse ao ministro.

Tiago Coelho (siga @tiagocoelh no Twitter)

Repórter da piauí e roteirista

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