questões de disciplina

Isolamento militar

Exército contrariou negacionismo de Bolsonaro, exigiu máscara, impôs distanciamento contra a Covid - e isso custou cargo a general

Tânia Monteiro
09abr2021_15h55
Ilustração de Carvall

No dia 1º de março de 2021, ao chegarem para o cumprimento do serviço militar no Batalhão de Guarda Presidencial (BGP), em Brasília, todos os 419 novos recrutas destacados para trabalhar em um dos quartéis mais tradicionais e importantes do Exército, responsável pela proteção dos Palácios do Planalto e da Alvorada, foram submetidos ao exame de Covid-19. Os testes foram repetidos em mais de 90% dos 50 mil recrutas incorporados este ano às fileiras da Força Terrestre em todo o país. Também foram testados os 1700 alunos da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende (RJ), que iniciaram o ano letivo no final de janeiro. Segundo o Ministério da Defesa, “as três forças adotaram protocolos rigorosos de prevenção ao contágio”. Como resultado dos cuidados, comparativamente a outros segmentos do país, o número de mortes por Covid-19 nas Forças Armadas foi pequeno. 

Há duas semanas, a taxa de letalidade por Covid no Exército estava na ordem de 0,13% (o máximo alcançado foi 0,18%), bem abaixo do índice de 2,6% registrado entre a população brasileira. Nem o Exército nem o Ministério da Defesa dizem quantos óbitos por Covid houve, especificamente, na força. A Defesa afirmou, no entanto, que, até o dia 7 de abril de 2021, dos 346.233 militares na ativa, 50.927 contraíram Covid-19, sendo 13.929 da Marinha, 27.539 do Exército, e 9.459 da Aeronáutica. Aproximadamente 87% deles se recuperaram (44.410), 6.426 estão em acompanhamento e 91 morreram – taxa de letalidade de 0,17%. 

Não houve mortes por Covid, nem casos mais graves da doença no BGP, quartel com contingente de quase 2 mil militares. Também não houve baixas entre os alunos da Aman, no ano passado. Em 2020 não foram registrados óbitos por Covid entre os mais de 70 mil recrutas que prestaram o serviço militar obrigatório no Exército.

Para evitar o contágio, algumas medidas foram adotadas. Os cadetes deixaram de dormir em beliches, passando a ocupar camas simples, e o espaço entre elas foi ampliado. As refeições passaram a ser realizadas em horários escalonados. A rotina em todas as unidades de instrução militar inclui desinfecção periódica de instalações, aferição diária de temperatura, acompanhamento sanitário acirrado e uso obrigatório de máscara, com ampla utilização de álcool em gel, além de afastamento físico nas salas de aula. Nos refeitórios do BGP, as mesas, antes com seis ou oito lugares, hoje estão restritas a quatro. Na Aman o número máximo de alunos por mesa era nove, e foi reduzido para seis. 

Militar faz desinfecção em porta do Batalhão da Guarda Presidencial. Foto: Batalhão da Guarda Presidencial


Com isso, o ano letivo de 2020 foi concluído sem grave prejuízo para os alunos de todos os cursos de formação, aperfeiçoamento e pós-graduação. O ano escolar de 2021 está em pleno andamento, inclusive nos catorze colégios militares do país, com aulas presenciais e a distância. Os alunos dos colégios de Salvador e Juiz de Fora, por conta de decisões das autoridades locais, estão acompanhando as aulas e atividades somente de forma virtual desde março de 2020. Há um mês, atendendo a pedido da prefeitura local,
a unidade de Santa Maria (RS) foi fechada, mas os cerca de mil alunos estão tendo aula virtual diariamente. As demais unidades do sistema seguem as recomendações sanitárias de cada região. Em Manaus, o Colégio Militar suspendeu as aulas no ano passado por causa da segunda onda da Covid, mas aos poucos as atividades presenciais já estão voltando, com todos os cuidados.

No final de março, a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), no Rio de Janeiro, suspendeu por dez dias as aulas presenciais, que continuaram online. No momento, as aulas presenciais já retornaram. Na volta, houve medidas de precaução para evitar contaminações. “Nosso modelo é um case de sucesso que poderia ser usado por outras escolas”, disse o chefe do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx), general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, salientando que essa “experiência exitosa” mostra que é possível manter atividades de educação presenciais, sempre tomando todos os cuidados. O general informou ainda que toda a máquina se manteve funcionando para que as soluções fossem encontradas, com resiliência, medidas de segurança, flexibilizando quando era possível e respeitando as peculiaridades de cada região. Para o general, o Exército tem compromisso permanente com a defesa do país e, portanto, não tem como interromper as atividades. 

Para 2021, de acordo com o DECEx, “nada muda” porque a força “já adquiriu a expertise”, e muitas das ações adiadas ou suspensas temporariamente, no início da pandemia, foram retomadas ao longo dos meses. No primeiro semestre de 2020, por exemplo, as escolas fizeram menos atividades de campo e sem muito esforço físico. No segundo semestre, tudo foi retomado e acelerado. Entre 13 e 27 de março deste ano, cadetes da Aman participaram de um exercício militar simulado na região de Quatis e Porto Real (Sul Fluminense). Os militares da Academia também realizaram trabalhos de desinfecções na região.

No início do ano passado, quando houve o primeiro pico da Covid, a direção da Aman optou por manter os alunos mais reclusos por dois meses, para tentar protegê-los da doença, ainda desconhecida. Como os cadetes residem na academia, foram adiantados conteúdos pedagógicos presenciais. Em maio, por ocasião do dia das mães, os estudantes foram dispensados por dez dias para irem para casa. Na volta, todos foram testados e retomaram as atividades. Pelo protocolo, quando há qualquer sintoma, o militar é isolado, testado e tratado. Este ano, não haverá interrupção no meio do semestre, e os alunos só vão para casa em julho, por quinze dias. Na volta, serão testados novamente. 

 

Em 24 de março do ano passado, quando a pandemia já assustava os brasileiros, o então comandante do Exército, general Edson Pujol, em um dos seus raros pronunciamentos, afirmou, em vídeo divulgado para a corporação, que a crise do coronavírus “talvez seja a missão mais importante de nossa geração”. “Vivemos o enfrentamento de uma pandemia que exige a união de todos nós, brasileiros. O momento é de cuidado e de prevenção, mas também de muita ação por parte do Exército brasileiro”, afirmou o general. O pronunciamento, que durou quatro minutos e teve mais de 40 mil visualizações em duas horas, e mais de 1,65 milhão até hoje, mostrou a gravidade com que o tema estava sendo tratado pela Força. Contrastava com as declarações e atitudes do presidente Jair Bolsonaro, que chamou a Covid-19 de “gripezinha” e continuou estimulando aglomerações.

Pujol deixa o cargo no próximo dia 20, após ter sido demitido pelo presidente Bolsonaro, com quem teve várias diferenças desde que eclodiu a pandemia. No comando do Exército, Pujol mobilizou toda a força no combate à doença e em ajustes para precauções internas, seguindo orientações do Ministério da Defesa e adotando medidas localizadas. Montou um sistema de acompanhamento e de desencadeamento de ações que envolviam a área de saúde, a área de logística e a educacional, com o objetivo de minimizar danos aos militares e à família militar. Semanalmente ou, no máximo quinzenalmente, o general Pujol reunia todo o pessoal na linha de frente dessas áreas para acompanhar de perto o que estava acontecendo, que medidas estavam sendo adotadas e as que precisavam ser aprimoradas. Conhecia detalhadamente a situação das unidades, sabia onde o problema era mais complicado e onde os casos eram mais graves. Conseguiu evitar a proliferação descontrolada da doença nas unidades militares.

Escolhido por Bolsonaro na semana passada, o novo comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, estava à frente do Departamento-Geral de Pessoal (DGP) do Exército, que tem sob seu comando a Diretoria de Saúde da Força. O general, que chegou a alertar para a possibilidade de uma terceira onda da doença, reza na mesma cartilha de Pujol em relação à necessidade de foco no combate à pandemia e preservação das unidades militares. Coube ao DGP, chefiado por Paulo Sérgio desde agosto passado, aplicar medidas sanitárias, realizar campanhas e proteger os militares do Exército da Covid-19.

Das três Forças, o Exército é a que tem o maior contingente, cerca de 220 mil na ativa. Marinha e Aeronáutica têm pouco mais de 60 mil cada uma delas. Os resultados e preocupações com a não proliferação das contaminações nas unidades militares se estenderam às duas forças também.

Em unidades militares das três forças, muitos dos novos recrutas têm pedido para, durante a semana, permanecerem “morando” nos quartéis, ao invés de irem para casa ao final de cada expediente. A solicitação dos recrutas encontra acolhida entre os comandos, pois diminui os riscos de contágio. Permanecendo no quartel, os soldados têm direito também a alimentação na unidade e atendimento médico imediato, em caso de necessidade. Como cuidado adicional nos quartéis, diariamente militares da área de saúde, usando os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) (luvas, máscaras, avental, face shield), percorrem as instalações ao início e ao final do expediente para verificar o estado sanitário da tropa. 



Tânia Monteiro

Repórter de política, já passou por Estadão, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil, Veja e outros veículos

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